06/08/2026

Tempo da Criação 2026

Todos os anos, de 1 de setembro a de outubro, toda a família cristã se une para esta celebração mundial, rezando e agindo pela proteção da nossa casa comum. É um tempo especial em que celebramos Deus como Criador e reconhecemos a Criação como aquele ato divino contínuo que nos convoca, como colaboradores e colaboradoras, a amar o dom de toda a criação e cuidar dela. Como seguidores e seguidoras de Cristo em todo o mundo, compartilhamos um chamamento comum para cuidar da Criação. Somos cocriaturas e parte de tudo o que Deus fez. O nosso bem-estar está intrinsecamente ligado ao bem-estar da Terra. Alegramo-nos com esta oportunidade de preservar a nossa casa comum e todos os seres que a partilham conosco. Este ano, o tema do Tempo da Criação é «Água Viva».

Tema


1. Texto, tema e símbolo

«Em toda parte aonde chegar a corrente, todo animal que se move na água poderá viver, e haverá lá grande quantidade de peixes. Tudo o que essa água atingir se tornará são e saudável e em toda parte aonde chegar a torrente haverá vida. [...] Ao longo da torrente, em cada uma de suas margens, crescerão árvores frutíferas de toda espécie, a sua folhagem não murchará e não cessarão jamais de dar frutos: todos os meses frutos novos, porque essas águas vêm do santuário. Os seus frutos serão comestíveis e suas folhas servirão de remédio» (Ez 47,9.12).
O tema deste ano, «Água Viva», baseia-se na passagem de Ezequiel 47, 9-12, uma visão bíblica muito potente de esperança e da cura ecológica. Num contexto de exílio e perda, a imagem da água viva a fluir do santuário de Deus revela a cura divina que renova a terra, a água, a biodiversidade e a responsabilidade humana para com toda a criação.
O símbolo retrata a água a fluir do Templo de Deus: inicialmente um pequeno fio de água que se aprofunda cada vez mais, trazendo vida a áreas áridas e restaurando a fertilidade de ecossistemas danificados ou estéreis. Através da água viva vem a cura; mas para recebermos a nova vida, também precisamos entrar na água e nos tornarmos parte do rio da vida de Deus, participando da cura da criação.

2. Contexto histórico de Ezequiel 47,9.12

O contexto deste texto é de catástrofe política, social, teológica e nacional. Jerusalém foi destruída pelos exércitos da Babilónia. O Templo de Salomão foi arrasado. Muitos israelitas foram levados para o exílio na Babilónia, para longe de sua terra natal. Junto aos rios da Babilónia, eles choraram e se lamentaram (cf. Sl 137).
O Livro de Ezequiel situa-se durante o exílio babilónico (Ez 1,1), após a queda de Jerusalém no início do século VI a.C. Ezequiel, um sacerdote, está entre os exilados e Deus institui-o como profeta (Ez 3; 33,1-9).
Inicialmente, sua mensagem está centrada no julgamento de Deus contra a idolatria e a injustiça de Israel, interpretando a queda de Jerusalém e a destruição do Templo como um julgamento divino executado por meio dos exércitos babilónicos (Ez 7–10; 21). Contudo, a mensagem de Ezequiel não termina no julgamento: Deus não abandonou o seu povo. O profeta proclama que a soberania de Deus não se limita ao Templo, que Ele permanece presente com os exilados e que há uma promessa de restauração. É muito interessante o facto de o Templo estar no centro de sua visão de renovação (Ez 40–47). Embora tenha sido profanado e destruído, ele agora transforma-se em um símbolo de bênção, de cura e da presença de Deus em toda a criação. O maravilhoso rio descrito em Ezequiel 47 personifica essa futura renovação: quando o Senhor habitar novamente no meio do seu povo, a própria terra será restaurada.

3. Panorama teológico geral: Ezequiel 47,1-12

Do capítulo 40 ao 46, Ezequiel descreve a construção de um novo templo no deserto. Esse novo templo é impressionante, mas vazio e sem vida. Somente no capítulo 47 é que a vida finalmente surge.
Neste trecho, o profeta é levado numa visão à entrada de um templo. Do subsolo do seu limiar flui água, que começa gotejando e vai se tornando um rio cada vez mais profundo; aliás, fundo demais para ser atravessado. Este rio atravessa terras antes áridas e agora cheias de peixes, transformando desertos em deltas férteis, restaurando a vegetação e até mesmo curando as águas salgadas do Mar Morto. O verbo hebraico šûb (“retornar”) pode ser imaginado espacialmente como um ponto de viragem, comparável a um local ao longo do Rio Jordão onde os peixes podiam retornar antes de serem levados para as águas sem vida do Mar Morto. Esta noção também tem um profundo significado teológico de conversão. A imagem é vibrante e dinâmica, e ainda assim o seu significado ecológico muitas vezes fica ofuscado por
interpretações puramente metafóricas.
Em muitas tradições cristãs, Ezequiel 47 tem sido interpretado principalmente como uma promessa escatológica futura: uma descrição da era messiânica, quando Deus habitar plenamente com o seu povo e renovar todas as coisas. A visão do profeta, contudo, também se refere à cura no presente, além de
prever uma restauração cósmica mais ampla. O Rio da Vida representa uma renovação que se estende para além da salvação humana, incluindo a cura da própria criação. As árvores cujas folhas «servem para a cura» sugerem não apenas o sustento físico, mas um florescimento holístico, abrangendo tanto a
humanidade quanto a criação. Ezequiel 47,1-12 contém uma mensagem ambiental diferenciada que fala de cura global, renovação e transformação da vida, da interdependência entre a humanidade e o mundo natural, e da esperança através da ação no cuidado da Terra, a nossa casa comum.

3.1. Água Viva: A água como vida

A visão de Ezequiel redefine a água – o elemento mais básico da vida – como um agente divino de renovação, justiça e esperança, uma força vital que flui do santuário de Deus. Na época de Ezequiel, a água era um símbolo da presença e da bênção divinas. Grandes civilizações dependiam de rios caudalosos como, por exemplo, o Nilo, mas também como o Eufrates e o Tigre, dois dos rios que irrigavam o Jardim do Éden (cf. Gn 2,10). As águas dos oceanos também estão repletas de vida.
A visão começa com um pequeno fio de água, gotas que fluem do local de oração e sacrifício. De um pequeno riacho, ele cresce até se tornar um rio imparável – a primeira maravilha. O rio cresce à medida que flui do Templo, alimentado pela adoração e pelas orações do povo de Deus.
Mas a segunda maravilha é ainda maior. O rio não só sustenta a vida, como restaura ecossistemas inteiros. O profeta vê que «à beira da torrente, havia numerosas árvores, dos dois lados. [...] Esta água vai para o distrito oriental e desce para a Arabá; ela penetra no mar; e quando entra no mar, o mar de águas estagnadas, a água tona-se doce» (Ez 47,7-8). Ao descrever como o rio deságua no «mar de águas estagnadas», refere-se ao Mar Morto, um dos lugares mais áridos da sua região. Tão poderosa é a água deste rio que as águas salgadas tornar-se-ão doces e repletas de vida.

3.2. Do sacrifício no templo à água da vida de Deus

A visão de Ezequiel reconfigura decisivamente o significado do Templo. Na tradição cultual de Israel, o santuário era o lugar de sacrifício, onde o sangue, portador da vida, era derramado para a reconciliação. O sangue simbolizava tanto o julgamento quanto a misericórdia, lembrando ao povo que a vida era preciosa e frágil.
Em Ezequiel 47, porém, a imagem dominante já não é o sangue a fluir em direção ao altar, mas a água a jorrar do limiar do Templo. A santidade expressa-se principalmente por meio da abundância geradora. A presença divina não consome a vida: ela liberta-a.
Esta transição do sangue para a água é significativa tanto teologicamente como ecologicamente. O sangue pertence à lógica da sobrevivência no meio da fragilidade; a água pertence à lógica da renovação e do florescimento. Ezequiel não rejeita a teologia sacrificial, mas situa-a num horizonte mais amplo. A
reconciliação com Deus resulta não apenas na restauração do culto, mas também na renovação da terra, na recuperação dos ecossistemas e na abundância da vida. As implicações éticas decorrem naturalmente: se a presença de Deus se manifesta como água que dá vida, o culto autêntico não se pode
limitar à observância ritual. A fidelidade deve ser medida pelo seu impacto em todas as condições que sustentam a vida. O cuidado da criação surge, portanto, como consequência direta de um relacionamento restaurado com Deus.
A esperança de renovação e da cura começa na oração, na adoração e no sacrifício. A pequena gota de esperança nasce na nossa própria vida, no nosso arrependimento e transformação.

4. Uma leitura ecológica de Ezequiel 47,9.12

A afirmação de Ezequiel de que a água doce transformará a água salgada em doce (Ez 47,8-9) é deliberadamente chocante. Ele cita algo ecologicamente impossível a fim de proclamar algo teologicamente decisivo. O profeta não descreve um processo natural: ele anuncia uma inversão divina.
O Mar Morto simbolizava a morte: sem peixes, sem plantas, sem saída – um lugar onde a vida entra e morre. A água salgada representava a esterilidade e o julgamento. Ao declarar que a água doce cura o mar salgado, Ezequiel evoca as imagens do Génesis nas quais Deus cria ordem e vida a partir das águas caóticas.
Trata-se de uma nova criação. Ezequiel poderia ter dito que o rio se desviava do Mar Morto. Em vez disso, o rio entra nele. A questão é teológica: a vida divina flui para dentro de lugares sem esperança. O verbo hebraico utilizado (rafá) significa curar, restaurar, tornar íntegro. A vida não se renova não pela intervenção humana, mas pela ação divina que interage com o mundo criado. A água salgada não se transforma em doce pela intervenção humana, mas pela cura divina. Deus não ignora o lugar da morte: Deus entra nele.
As árvores que dão frutos todos os meses representam uma forma de vida que transcendeu a escassez e os períodos de carência. Tal como o renascimento do Mar Morto, esta imagem é intencionalmente incomum: sinaliza uma criação restaurada, não uma agricultura aprimorada.
As árvores frutíferas são naturalmente sazonais e vulneráveis à seca, às pragas, às guerras e à fome. Ezequiel está a dizer: na ordem restaurada por Deus, a vida é inacreditavelmente abundante. As árvores dão frutos «porque a água flui do santuário». A sua produtividade não depende dos padrões de chuva ou das condições do solo, mas da contínua presença divina.
A imagem evoca deliberadamente o Éden, mas também o supera. O Éden tinha árvores «de aspeto atraente e bom para comer” (Génesis 2,9), enquanto essas árvores futuras terão 12 colheitas por ano! Não é nostalgia, é uma restauração alargada: o Éden foi reaberto.
Mais tarde, o apóstolo João deixa ecoar Ezequiel, apresentando o rio e a Árvore da Vida como visão final da cura cósmica, ecológica e até mesmo política (cf. Ap 22,2).

5. A água entre a crise e a esperança

5.1. A atual crise hídrica

A visão de Ezequiel contrasta fortemente com a realidade da crise hídrica que enfrentamos. De acordo com as Nações Unidas e conforme publicado na ONU News, 1,7 mil milhões de pessoas não têm acesso a serviços básicos de higiene em casa, e 2,1 mil milhões de pessoas ainda não têm acesso à água potável segura. Isso representa uma em cada quatro pessoas no mundo!
Com a intensificação das mudanças climáticas e o aumento da extração de águas subterrâneas, vários países estão agora a atingir o chamado “ponto de falência hídrica” (UNU), ou seja, uma condição marcada por perdas irreversíveis de capital hídrico natural.
Embora o acesso à água seja um direito humano para todos, a crise hídrica multifacetada afeta desproporcionalmente as comunidades vulneráveis, as futuras gerações e a vida não humana que não tem voz nos sistemas políticos ou económicos. Estes são alguns dos muitos desafios:
  • Inacessibilidade da água para os pobres.
  • Impacto na saúde das doenças transmitidas pela água.
  • Impacto do lançamento industrial de produtos químicos e outros poluentes nos rios.
  • Aumento do consumo de água impulsionado pelos data centers e pela produção da energia necessária para nossas atividades digitais, incluindo o uso da inteligência artificial.
  • Má gestão e corrupção por parte de empresas e governos.
  • Impacto das secas, inundações, tempestades e desertificação na segurança alimentar.
  • Salinização do solo devido à elevação do nível do mar ou à super-exploração dos aquíferos.
  • Violência resultante da competição por recursos hídricos escassos.
Esses muitos problemas estão a levar à migração e empurrando pessoas para o exílio, com a perda de lares e culturas.
O impacto nos ecossistemas e na biodiversidade é devastador: de acordo com o WWF, estamos a enfrentar declínios catastróficos na vida selvagem aquática, com as populações de água doce a cair impressionantes 85%, e as populações marinhas com uma redução de 56% nos últimos 50 anos (WWF).
De uma perspectiva teológica, esta crise reflete relações rompidas entre a humanidade e Deus, no seio da própria família humana e entre os seres humanos e outros seres vivos. Além disso, é de suma importância ressaltar que a poluição da água tem implicações relacionadas com a justiça social e a
equidade.

5.2. A esperança que vem da fé e da ação

A visão de Ezequiel é, em última análise, uma visão de esperança. Como colaboradores do Criador, os cristãos devem estabelecer com a criação não humana um relacionamento fundamentado na visão bíblica da criação como uma comunidade de vida interligada (cf. Gn 9,8-17; Os 2,18; Sl 24,1). A nossa relação é a de uma parceria sagrada e cuidado mútuo, não de dominação. O Papa Francisco descreveu isso como «uma relação de reciprocidade responsável entre o ser humano e a natureza», rejeitando o antropocentrismo excessivo ou tirânico (Laudato Si’ 67, 68, 116).
Os cristãos e cristãs são chamados a confrontar as injustiças mencionadas e a rejeitar uma visão de mundo que trata a água como um recurso descartável. Por exemplo, nos últimos 20 anos, a Rede Ecuménica da Água do Conselho Mundial de Igrejas (EWN, na sigla em inglês) promove a preservação, gestão responsável e distribuição equitativa da água para todos, partindo do princípio de que a água é um dom de Deus e o acesso à água potável é um direito humano fundamental.
Em todos os continentes os cristãos, inspirados pela nossa fé, estão a agir: os rios são regenerados, as fontes de água têm sido protegidas da poluição e das indústrias extrativistas, e as terras áridas estão a voltar a ficar verdes. Escavam-se poços e fornece-se água a paróquias, aldeias e centros de saúde.

6. Imersão em Água Viva: Arrependimento e cura

As Escrituras várias vezes associam a água à cura e renovação divinas: Naamã a mergulhar no rio Jordão (cf. 2 Rs 5) e a cura da pessoa com deficiência que esperava junto a uma piscina (cf. Jo 5). O próprio Ezequiel vai entrando cada vez mais fundo no rio, prefigurando a imagem do batismo e simbolizando a transformação.
Entrar no rio lembra-nos o batismo. Na Igreja primitiva, grandes pias batismais eram frequentemente usadas para imersão, e o acesso a elas era feito por degraus, refletindo a progressividade da visão de Ezequiel (Ez 47:3-6).
Num trecho anterior do livro de Ezequiel, Deus promete purificação, um coração novo e um espírito novo precisamente por meio da água (Ez 36,25-27). Isso recorda-nos a água e o sangue que jorraram do lado de Jesus para a cura (Jo 19,34). Como pessoas de fé, temos a promessa de que, se recebermos e aceitarmos a água do Templo – isto é, a cura de Deus – então «rios de água viva» também fluirão do nosso coração – ou ventre, como diz o grego (Jo 7,38)! À medida que somos curados e renovados, a água viva também fluirá de nós para a cura de outras pessoas e da criação.

7. Apelo à ação

O nosso Pai chama-nos a aceitar o Seu amor (1 Jo 4,19). Acolher esse amor como filhos e filhas, através de uma conversão contínua da mente e do coração, é um apelo para toda a nossa vida. Se escolhermos entrar na verdadeira água viva, podemos contribuir para um mundo mais justo e cheio de vida para toda a família humana, bem como para a criação não humana.
Segurança alimentar: A profecia de Ezequiel fala de árvores que «dão frutos frescos todos os meses» (Ez 47,12). O nosso apela dirige-se a elaborar e influenciar as nossas políticas e práticas para que todas as pessoas tenham acesso a alimentos nutritivos e seguros, e os frutos da biodiversidade sejam compartilhados equitativamente. As igrejas também podem promover projetos de arborização que reflitam os valores cristãos nos seus próprios terrenos e/ou capacitar os seus membros para que tenham as capacidades necessárias para cultivar parte de seus próprios alimentos.
Poluição da água: O convite que nos é dirigido é tanto para não poluir quanto para denunciar a poluição prejudicial, ao mesmo tempo que exigimos que governos, autoridades locais, indústria e agricultura ajam com responsabilidade e protejam as fontes de água.
Água e saneamento: Muitos dos nossos irmãos e irmãs ainda não têm acesso regular à água potável e ao saneamento básico. Portanto, devemos agir para que residências, escolas, unidades de saúde e locais de culto – incluindo igrejas e paróquias – tenham acesso a água limpa e saneamento adequado.
Educação ambiental: Pais, mães, catequistas, clérigos e comunidades de fé são, portanto, chamados a promover um cuidado holístico com a criação humana e não humana, baseando-se não apenas no conhecimento técnico, mas também nos relacionamentos, na ética e na formação espiritual.
Buscando inspiração espiritual na Criação: Por meio da contemplação do mundo natural criado por Deus (Jó 7–12), Ele convida-nos a passar do domínio à humildade, da exploração ao cuidado e do lucro a curto prazo à prosperidade a longo prazo. Essa transformação é tanto espiritual como prática, exigindo uma revisão de valores, sistemas económicos e prioridades educacionais.
Cultivo de árvores: Muitas igrejas associam agora o plantio de árvores a momentos importantes da fé, como batismo, confirmação e funerais. Que o cultivo de árvores se torne parte integrante da nossa vida espiritual. As árvores absorvem a poluição por carbono, evitam a erosão, reduzem as inundações, fornecem alimento e remédios e refrescam os ambientes urbanos. Elas realmente trazem cura às nações.
Cuidado dos nossos oceanos:  O nosso “pulmão azul” enfrenta ameaças crescentes devido ao descarte de resíduos, à pesca excessiva, à poluição e à mineração em águas profundas. A vida e a biodiversidade sob as ondas não devem ser tratadas como algo que ocorre longe dos olhos e do coração. Que a comunidade educativa ajude as nossas comunidades a reconhecer e valorizar esses mundos marinhos. Que as lideranças governamentais ajam com coragem para proteger os biomas e meios de subsistência marinhos. E que possamos escolher uma gestão que mantenha o nosso "pulmão azul" a respirar por gerações.
Recuperação e proteção dos ecossistemas e da biodiversidade: O nosso apelo dirige-se a restaurar a terra em nossas igrejas, lares e comunidades. Há muitas iniciativas em que podemos participar: uma Década da Justiça Climática foi declarada tanto pelo Conselho Mundial das Igrejas Reformadas quanto pelo Conselho Mundial de Igrejas. Existem plataformas online, como a Plataforma de Ação Laudato Si’, a Floresta da Comunhão Anglicana e programas nacionais, como a Église verte (“Igreja verde” em francês) e a Eco Igreja – A Rocha Internacional.
Superemos o medo e mergulhemos nas águas do amor de Deus para fazermos parte do Rio da Transformação do mundo e testemunharmos a cura e a renovação literais da criação e a bênção da Terra.

Símbolo


O nosso símbolo para 2026 – Imersão em Água Viva – é um símbolo de renovação e nascimento: é a água que flui do Templo como sinal do cuidado e da cura de Deus para nós. Ele nos convida a entrar na água até estarmos tão imersos que precisemos de depender da Sua graça para nos sustentarmos. As pessoas que recebem esta água são convidadas a tornarem-se fontes de vida para as outras, permitindo que o amor de Deus flua através delas para o mundo. E assim a água de Deus tornar-se-á em nós «uma fonte de água que jorra para a vida eterna», como Jesus prometeu (Jo 4,14).
O Símbolo convida os cristãos a uma imersão espiritual, a rezar juntos enquanto contemplam a água dos rios, nascentes, fontes, pias batismais, lagos e do mar, inspirados pelo Espírito de Deus e trabalhando juntos pela renovação da Criação.
Este símbolo também nos convida a mergulhar nas «lágrimas» da criação (Rm 8,22-23), permitindo que o nosso coração seja tocado pelo sofrimento dos nossos irmãos e irmãs. De fato, o Tempo da Criação é também um tempo apropriado para a proximidade fraterna e a solidariedade com os vulneráveis e os pobres, principalmente aqueles que sofrem com a degradação ambiental. Podemos aprender com as suas histórias, a sua resiliência e o seu compromisso e, juntos, mantermos viva a esperança.

Oração


Deus Santo, cujo Espírito pairava sobre as águas no princípio, reunimo-nos como parte de toda a criação, que é a tua comunidade, sedentos da tua graça. Nós te damos graças pelo dom da água, veias da nossa casa comum, que sustenta o cedro e a baleia, o pasto e a cidade. Nós te agradecemos pelas águas locais que nutrem as nossas terras e os nossos semelhantes. Nós te damos graças porque, no teu jardim bem regado, cada gota é um testemunho sagrado do teu amor.
Contudo, confessamos que tratámos este dom como mera mercadoria. Sufocámos os mares com os nossos resíduos e assistimos às marés mais quentes a subirem como julgamentos. Choramos pela terra gretada dos atingidos pela seca e pelas lágrimas salgadas dos refugiados climáticos. Derrete os nossos corações congelados, ó Deus, e faz fluir em nós as águas do arrependimento.
Senhor de toda a Vida, prometeste que onde quer que o rio corra, tudo viverá. Desperta em nós o apelo a cuidar das águas: proteger as bacias hidrográficas, defender os direitos da água e honrar a dignidade dos sedentos. Que a tua Palavra seja fonte dentro de nós, jorrando para a cura das nações.
Que Deus nosso Pai, que fez brotar água da rocha, nos sustente no deserto. Cristo, nosso Senhor, que és a Água Viva, revigora-nos para a obra da restauração. E que o Espírito Santo nos leve nas correntes da graça até que a justiça flua como as águas e a retidão como um rio que corre perenemente. Amém.

24/01/2026

Niceia em perspetiva ecuménica

Entrevista de Andrea Cappelletti para Settimananews (20 jan. 2026).

O professor Riccardo Burigana é diretor do Centro de Estudos para o Ecumenismo e leciona Ecumenismo e Diálogo Inter-religioso na Secção São Tomás de Aquino da Faculdade Teológica Pontifícia da Itália Meridional. Colocámos-lhe algumas questões de avaliação dos acontecimentos que marcaram o ano comemorativo de Niceia, enquanto decorrem em Itália iniciativas dedicadas à oração e ao diálogo interconfessional cristão e com o judaísmo.

– Que avaliação, Riccardo, fazes do aniversário do Concílio de Niceia no âmbito ecuménico?

A nível pessoal diria que foi um ano muito positivo, porque participei num projeto internacional cujos membros — professores de língua italiana — trabalharam numa interação muito frutuosa: membros de Igrejas muito diferentes e da própria Igreja católica com orientações diversas.
Foi, portanto, um confronto que, com grande parresia, permitiu aprofundar visões e interpretações histórico-teológicas — muito diferentes entre si — que as Igrejas têm de Niceia: um verdadeiro exercício de debate franco e construtivo, que produziu muitos artigos e intervenções, tanto em Itália como no Brasil (o outro polo geográfico do projeto).
Participei no colóquio conclusivo de Nápoles, dois dias muito intensos, nos quais os próprios académicos ficaram surpreendidos com a riqueza dos conteúdos revelados por um estudo aprofundado e conjunto dos documentos de Niceia; daí resultaram leituras possíveis e, sobretudo, possibilidades de desenvolvimento das práticas, por exemplo no que diz respeito à expressão do Credo.

– Que Igrejas participaram no projeto de que estás a falar?

Promovido pela Secção São Tomás de Aquino da Faculdade Teológica Pontifícia da Itália Meridional e pela Universidade Católica de Pernambuco, contou com a presença de 72 investigadores de língua italiana provenientes de 13 países. No que respeita às Igrejas, participaram Igrejas católicas, tanto de rito latino como greco-católico; estiveram também presentes Valdenses, Batistas, Luteranos, Adventistas, Pentecostais; bem como Ortodoxos sérvios, romenos e membros do Patriarcado Ecuménico.
O evento permitiu a muitos estudiosos conhecerem-se e trocarem conhecimentos e experiências, bem como confrontarem-se a partir de posições muito diversas sobre o Concílio de Niceia, inclusive dentro do próprio mundo católico, com especialistas em teologia, dogmática, estudos bíblicos, história e direito, desde a Secção São Tomás de Aquino da Faculdade Teológica Pontifícia da Itália Meridional até à Academia de Ciências Religiosas dos Estados Unidos; sem esquecer o contributo brasileiro, com representantes do Comité de Ciências Históricas e da Universidade Católica de Pernambuco, também aqui com a participação de especialistas de várias disciplinas teológicas e de diferentes confissões, como Baptistas e Pentecostais.

– Num plano mais global, como avalias o ano de Niceia?

O ano encerrou — como bem sabemos — na própria Niceia, com o encontro entre o papa Leão XIV, o patriarca Bartolomeu e — sublinho — o Secretário do Conselho Ecuménico das Igrejas. Ao longo do ano realizaram-se muitos encontros de caráter ecuménico e não só, com numerosas intervenções por parte das várias Igrejas.
Penso que, em geral, as Igrejas saíram da lógica da mera comemoração para iniciarem um exame e um processo sério de reflexão sobre o significado e o valor daquele Concílio para os cristãos, ao longo dos séculos, até hoje.
Na minha opinião, pode falar-se de um verdadeiro salto de qualidade, acompanhado pela produção de muitos textos e pela identificação de novas perspetivas de investigação e de desenvolvimento ecuménico.

– Que novidades emergiram no estudo de Niceia? Apenas em traços gerais.

No ano do aniversário, a possibilidade de acesso a novas fontes e uma nova reflexão sobre o seu valor ajudaram a superar a narrativa de um Concílio querido unicamente por Constantino por razões de poder.
O professor Morini escreveu um longo e interessante artigo — que será publicado nos próximos meses — sobre a forma como Niceia foi lida na geografia de origem dos Padres conciliares, o que nos mostra como a tradição oral soube transmitir afirmações teológicas de tão grande importância.
No colóquio de Nápoles apresentei uma investigação sobre a presença do Concílio de Niceia na Universidade de Wittenberg no século XVI: estudei como o Concílio de Niceia foi utilizado para definir a doutrina da confissão nascente; os teólogos luteranos abriram a Confissão de Augsburgo precisamente com uma citação de Niceia, o que abre uma nova via de diálogo ecuménico tendo em vista o 500.º aniversário da Confissão de Augsburgo (1530–2030).

– Quem esteve com o papa em Niceia no passado mês de novembro? E quem — talvez — não esteve?

Quando o encontro foi pensado — com o papa Francisco — a ideia era reunir todos os chefes das Igrejas; no final, porém, como vimos, tratou-se de um encontro entre Roma e Constantinopla, entre o papa Leão e o patriarca Bartolomeu; estava também presente o Secretário do Conselho Ecuménico das Igrejas, o sul-africano Rev. Jerry Pillay, presbiteriano, uma pessoa que muito tem feito e continua a fazer pelo diálogo ecuménico.

– O mundo ortodoxo russo não teve qualquer participação na memória de Niceia?

Na situação atual, tão complexa no mundo ortodoxo e entre os próprios mundos da ortodoxia, era totalmente impossível a participação do Patriarcado de Moscovo.
No entanto, captei aqui e ali sinais positivos de presença, em vários contextos e intervenções, de representantes da diáspora da Ortodoxia russa: por exemplo, professores de teologia norte-americanos e franceses.

– Outras Igrejas ausentes?

Pelo contrário — e de forma positiva — surpreendeu-me a presença do mundo pentecostal em muitos encontros, o que trouxe uma reflexão própria sobre um tema que poderia ter sido divisivo: para Igrejas do século XX, o tempo de Niceia poderia ter sido ignorado; mas não foi assim.

– Referiste o Credo: que trabalho foi feito? Achas que se pode chegar a uma reformulação ecuménica?

O Credo foi certamente um dos grandes temas do aniversário. É indiscutível que também se colocou a questão de uma eventual reformulação: pessoalmente considero justo pensá-la numa chave inclusiva, que nos ajude a renovar a centralidade e a unicidade de Cristo.
Por vezes, a reflexão ecuménica tende, a meu ver, a deslizar para um plano excessivamente inter-religioso e intercultural, enquanto as Igrejas nunca podem perder de vista, “nem por um instante”, Cristo e a missão. No Credo e com o Credo trata-se de reafirmar porque é que as Igrejas só podem caminhar juntas: isto é, reafirmar a centralidade de Cristo e a conversão do coração a Ele.

– O que pensas de algumas propostas de reformulação do Credo no âmbito católico?

Penso que um tema de tão vital importância merece a convocação de um Concílio Ecuménico ad hoc, para reafirmar e clarificar aquilo que os cristãos têm hoje em comum, em termos mais diretos e eficazes.

– E quanto à unificação da data da Páscoa — entre cristianismo ocidental e oriental — o que pensas?

Ao longo deste ano falou-se muito também deste tema; muitos manifestaram-se a favor de uma solução que ponha fim ao escândalo de celebrar a Páscoa em datas diferentes, embora não tenham faltado vozes a considerar este debate inútil.
Penso que unificar a data seria um ato altamente significativo de comunhão entre as Igrejas, e não apenas uma questão prática de calendário. Para o papa Francisco, a data única da Páscoa era um dos objetivos do pontificado; depois, em 2025, também a sua voz se foi esbatendo…
É curioso que não se tenha dado destaque a todas aquelas experiências que já existem pelo mundo fora: existe já uma prática de Páscoa comum, nem que seja pelo facto de muitos cristãos orientais viverem no Ocidente e vice-versa.
Leão XIV relançou esta ideia, mas as resistências continuam a ser muitas: quando, por exemplo, o papa Francisco deu um passo nesse sentido, houve fortes resistências no mundo ortodoxo. Os protestantes, pelo contrário, estariam de acordo.
Este tema seria uma oportunidade não apenas para discutir uma data, mas para falar de como se celebra a Páscoa entre os cristãos, tendo em conta as fortes diferenças teológicas e litúrgicas existentes no mundo cristão.

– Outro tema — a partir de Niceia — é o da sinodalidade. Depois do papa Francisco, a sinodalidade está na agenda do ecumenismo?

Diria que deixamos para trás um ano intenso de produção histórico-teológica precisamente porque Niceia abriu historicamente o método sinodal universal: um método sobre o qual o movimento ecuménico reflete e que pratica há anos, dando um contributo significativo para o caminho das Igrejas.

– Como será a “Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos” em Itália?

Estou a preparar o número de janeiro da Veritas, no qual se apresentam os encontros diocesanos da Semana: centenas de encontros, com o envolvimento da quase totalidade das dioceses; mas torna-se cada vez mais difícil compilar uma lista das múltiplas iniciativas, porque há eventos que acontecem também fora dos âmbitos diocesanos oficiais. Cada vez mais a Semana se configura como um tempo não só de oração, mas também de descoberta e de conhecimento mútuo, com uma atenção crescente dos jovens pelas tradições e espiritualidades não católicas.
Em geral, caminha-se cada vez mais para uma oração centrada na “Palavra de Deus” e cada vez menos segundo a fórmula de um presidente (católico) e de um convidado, em confronto sobre a mesma Palavra. Avança-se para fórmulas mais livres, participadas e paritárias.

– Participarão nas celebrações representantes do Patriarcado de Moscovo, em Itália?

Não tenho conhecimento disso, por agora, mas espero estar enganado, porque seria uma grave ferida.

– E quanto ao Diálogo judaico-cristão — no qual estás envolvido há muito tempo — o que podes dizer este ano, num clima político tão tenso?

Em torno do Dia 17 de janeiro registei 32 eventos promovidos pelas dioceses. São frequentemente “a duas vozes”, segundo a fórmula dos anos 90: escolhe-se uma passagem bíblica e escutam-se as duas vozes; manteve-se, ou seja, a ideia de que são o Rabino e o Bispo (ou um biblista em sua representação) que se encontram e comentam a passagem bíblica.
Noutros casos faz-se referência ao 60.º aniversário da Nostra aetate — ocorrido também no ano passado —, documento que continua a ser de importância fundamental tanto para o diálogo inter-religioso como para a relação com o judaísmo.
Permanece o facto de o Dia 17 de janeiro nunca ter tido grandes números.

– Onde estarás empenhado neste mês?

Estarei em Bari para dois dias de diálogo entre Católicos e Ortodoxos, organizados pela Comunidade de Jesus, presidida por Matteo Calisi, com o apoio da arquidiocese de Bari, em colaboração com o Centro de Estudos para o Ecumenismo em Itália e a Associação Italiana de Docentes de Ecumenismo, que conseguiu reunir Ortodoxos ucranianos e russos da diáspora, Greco-Católicos bielorrussos, Ortodoxos romenos e do Patriarcado, da Albânia e da Sérvia, Anglicanos ingleses e norte-americanos, para além de várias sensibilidades do mundo católico.
Estará também presente o Presidente da Conferência das Igrejas Europeias, o arcebispo Nikitas de Tiatira e Grã-Bretanha do Patriarcado Ecuménico de Constantinopla, que falará da Charta Oecumenica por ele próprio assinada. Entre as intervenções, gostaria de destacar a de D. Donato Oliverio, bispo da Eparquia de Lungro, do padre dominicano Emanuel Albano, coordenador do Instituto de Teologia Ecuménica São Nicolau, e de Vito Mignozzi, director da Faculdade Teológica da Apúlia.
Na manhã do dia 22 foi-me pedido que apresentasse o estado do ecumenismo na reunião do clero da Eparquia de Lungro; ainda no dia 22, à tarde, realizarei um encontro, em formato remoto, de apresentação da nova versão da Charta Oecumenica. No dia 23 estarei em Arino di Dolo para falar, por ocasião do 40.º aniversário do Encontro das Religiões em Assis, sobre o contributo do diálogo ecuménico e inter-religioso para a paz.
No dia 25 estarei em Empoli, onde vivo, para um dia de oração pela unidade em família, porque, como nos recorda o II Concílio do Vaticano, a unidade começa pela conversão do coração, a viver todos os dias, sempre, nos lugares onde a experiência de fé é mais forte: os meus três filhos são os meus mestres de diálogo, na escuta não apenas das palavras, mas também do que está no coração do próximo.
E terá lugar em Empoli, pela primeira vez, uma oração ecuménica.

23/01/2026

Celebração da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos na Catedral do Porto

Foto: Diocese do Porto
A Catedral do Porto acolheu, na noite de 21 de janeiro, uma celebração ecuménica que reuniu as principais comunidades cristãs da cidade, num forte apelo à unidade e à ação social. Inserida na Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, destacou-se também pela referência pública à Carta ecuménica 2025, um documento estratégico para a cooperação entre as Igrejas, apresentado nacionalmente em Lisboa apenas 24 horas antes pela Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) e pelo Conselho Português de Igrejas Cristãs (COPIC).
A homilia, proferida por D. Jorge Pina Cabral, Bispo da Igreja Lusitana e presidente do COPIC, refletiu sobre base teológica para o compromisso social dos cristãos. Inspirado no tema da liturgia, «Luz da Luz para a Luz» — uma referência direta ao Credo de Niceia-Constantinopla —, D. Jorge Pina Cabral defendeu que, através do «batismo comum», todos os cristãos recebem a missão de «iluminar o mundo» e «providenciar esperança e sentido à vida de outros», especialmente num «mundo conturbado».
Foto: Diocese do Porto
Reforçando a responsabilidade partilhada, o Bispo afirmou: «A nossa responsabilidade, pois, enquanto cristãos, homens e mulheres, que recebemos a Luz de Cristo, aquando do nosso batismo comum, é a de assumirmos a chama divina que está em nós e desse modo iluminarmos o mundo com esta luz que recebemos como dom da fé».
No centro da homilia proferida este a referida Carta ecuménica, valorizada como roteiro prático para a ação conjunta. O documento, cuja nova redação assinala o 1700.º aniversário do primeiro concílio ecuménico em Niceia (325), foi originalmente assinado em Roma pela Conferência das Igrejas Europeias (CEC) e pelo Conselho das Conferências Episcopais da Europa (CCEE), inserindo a iniciativa portuguesa num vasto movimento continental.
Foto: Diocese do Porto
A Carta apela às Igrejas a «trabalhar em prol de uma sociedade humana e socialmente consciente», promovendo «os valores fundamentais da paz, da justiça, da liberdade, da tolerância, da participação e da solidariedade». O documento convoca os cristãos a desenvolverem «uma nova cultura de intervenção", chamados a "intervir publica e profeticamente" e a aliar o discurso a um "agir consequente sustentado nos valores do Evangelho».
Neste contexto, D. Jorge Pina Cabral destacou os desafios que em Portugal assumem «particular importância»: a defesa da dignidade humana e a proteção dos migrantes; a promoção da liberdade de expressão, com a recusa de discursos de ódio e a prevenção da polarização; a valorização do papel dos jovens e a sua integração na sociedade; a promoção da mulher e a defesa das vítimas de violência doméstica; o cuidado pela Criação de Deus e a reflorestação das áreas ardidas; a promoção do diálogo inter-religioso como fator de integração.
Demonstrando o compromisso local com estas diretrizes, foi também apresentado o Roteiro Ecuménico de Oração para a cidade do Porto para o ano de 2026. Este roteiro apresenta propostas concretas para encontros, oração e cooperação prática entre as diferentes comunidades da cidade, assegurando que a celebração marca o ponto de partida para um ano de colaboração ativa e testemunho comum.
A Comissão Ecuménica do Porto foi o organismo que organizou a celebração e e que impulsiona o diálogo e cooperação entre as Igrejas Cristãs na cidade. É constituída por representantes da Igreja Católica, da Igreja Lusitana de Comunhão Anglicana, da Igreja Anglicana, da Igreja Metodista, da Igreja Evangélica Luterana Alemã do Porto, da Igreja Ortodoxa do Patriarcado de Moscovo e da Igreja Ortodoxa do Patriarcado de Constantinopla.


Foto: Diocese do Porto



12/01/2026

Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos (18 a 25 de janeiro de 2026)

«Há um só corpo e um só espírito, assim como fostes chamados a uma só esperança - a da vossa vocação»
(Efésios 4,4)

Texto bíblico: Efésios 4,1-13

Neste ano, as orações e reflexões que serão utilizadas durante a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos foram preparadas pelos fiéis da Igreja apostólica arménia, em colaboração com os seus irmãos e irmãs das Igrejas arménias católicas e evangélicas. O material foi preparado, redigido e discutido na sede espiritual e administrativa histórica da Igreja apostólica arménia, a Santa Sé de Etchmiadzin, na Arménia, nos dias inspiradores da bênção do Muron (óleo santo) e da reconsagração da Catedral-Mãe, que ocorreu a 28 e 29 de setembro de 2024, após uma extensa obra de restauração que durou dez anos. Esta comemoração ofereceu ao povo arménio e aos membros do Grupo ecuménico local uma oportunidade única para refletir e celebrar a fé cristã comum, que permanece sempre viva e fecunda nas nossas igrejas. O material proposto inspira-se em tradições seculares de oração e invocações, sempre utilizadas pelo povo arménio, juntamente com hinos nascidos nos antigos mosteiros e igrejas da Arménia, alguns dos quais remontam ao século IV. A Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos de 2026 convida os fiéis a recorrerem a este património cristão comum e a aprofundarem a comunhão em Cristo, que une os cristãos de todo o mundo.
Mais do que um simples ideal, a unidade é um mandato divino, central para a nossa identidade cristã. Ela representa a essência do chamamento da Igreja, um chamamento a refletir a unidade harmoniosa da nossa vida em Cristo, ainda que na nossa diversidade. Esta unidade divina está no centro da nossa missão e é sustentada pelo profundo amor de Jesus Cristo, que nos colocou diante de um objetivo comum. Como afirma o apóstolo Paulo na Carta aos Efésios, «Há um só corpo e um só Espírito, assim como fostes chamados a uma só esperança» (4,4). Este versículo bíblico, escolhido para este ano, resume a profundidade teológica da unidade cristã.
Nas Sagradas Escrituras, o apelo de Deus à unidade emerge desde os tempos mais remotos. A partir do Antigo Testamento, a súplica de Abraão a Lot evidencia o desejo divino de paz e harmonia entre os fiéis: «Somos como irmãos e, portanto, não deve haver disputas entre mim e ti, nem entre os meus pastores e os teus» (Génesis 13,8). Apesar de os seus caminhos acabarem por se separar, o apelo de Abraão à harmonia e ao respeito mútuo sublinha a importância de viver em paz. Este mandamento divino é reafirmado em Levítico 19,18, onde Deus adverte: «Não vos vingueis nem guardai rancor contra os membros do vosso povo. Cada um de vós deve amar o seu próximo como a si mesmo. Eu sou o Senhor». Estes mandamentos recordam-nos que o perdão e o amor são fundamentais para manter a unidade no seio da comunidade de fé.
Os Salmos celebram a beleza da unidade entre os membros do povo de Deus, declarando: «Vê como é bom e agradável que os irmãos vivam juntos» (Salmo 133 (132),1). Esta imagem sublinha a importância de que a unidade se reveste no desígnio de Deus para o seu povo. Os Provérbios, por sua vez, alertam contra a discórdia que se fomenta dentro do povo de Deus, afirmando que Deus despreza aqueles que semeiam discórdia entre irmãos e irmãs (cf. Provérbios 6, 19), ensinando, em vez disso, que a paciência e o perdão são essenciais para manter a harmonia (cf. Provérbios 19,11).
No Novo Testamento, Jesus Cristo eleva o conceito de unidade a uma dimensão espiritual, refletindo aqui a profunda relação entre ele e o Pai. A unidade entre os seus seguidores não é simplesmente a ausência de conflitos, mas um vínculo espiritual profundo que reflete a unidade da Santíssima Trindade. A oração de Jesus em João 17,21, pede aos crentes que sejam um como ele e o Pai são um, demonstrando que a nossa unidade assenta na nossa relação com Cristo e na nossa missão coletiva de partilhar a Boa Nova. O mandamento principal de Jesus, que é amar uns aos outros como ele nos amou (João 13,34-35), sublinha como este amor é a essência da nossa unidade. Este amor sacrificial e desinteressado representa tanto o vínculo que mantém unida a nossa comunidade como o principal testemunho do nosso discipulado. A oração de Jesus para manifestarmos a nossa unidade ao mundo (João 17, 23) é um testamento perene enraizado na sua missão divina.
Os apóstolos retomam este tema nos seus ensinamentos. As epístolas de Paulo sublinham a importância da unidade dentro da Igreja, exortando-nos a viver de forma digna da nossa vocação, com humildade, cordialidade, paciência e tolerância amorosa (Efésios 4,1-3). A visão da unidade que Paulo propõe na Carta aos Romanos, 12, 6, mostra a variedade dos dons que constituem o corpo de Cristo. O seu apelo a tecer relações harmoniosas, na segunda Carta aos Coríntios, 13,11, e na Carta aos Filipenses 2,1-2, convida os crentes a abraçarem uma única mente e um único espírito no seu compromisso para com Cristo, reafirmando assim o mandato divino à unidade, reconhecendo, ao mesmo tempo, a nossa diversidade.
Na Carta aos Efésios 4,4, encontram-se sintetizados os ensinamentos de Paulo sobre a unidade, quando ressalta mais uma vez que os seguidores de Cristo manifestam que «há um só corpo e um só Espírito», unidos numa única esperança. Esta metáfora indica a Igreja como uma entidade unificada que transcende as barreiras de qualquer geografia, nacionalidade, etnia e tradição. Paulo usa a metáfora da Igreja como Corpo de Cristo para descrever a sua unidade, dada pela diversidade dos seus membros. Ele escreve aos Coríntios: «Cristo é como um corpo que tem muitas partes. Todas as partes, mesmo sendo muitas, formam um único corpo» (1 Coríntios 12,12). Com os Colossenses, Paulo reflete sobre o papel de Cristo como cabeça do Corpo, unificado a partir de diferentes membros, afirmando: «Ele é também a cabeça desse corpo que é a Igreja» (Colossenses 1,18). Portanto, embora seja composta por muitas partes, a Igreja funciona como um todo coeso. Cada um dos seus membros tem um papel único e contribui para a vida e a missão geral da Igreja. Reconhecer que fazemos parte de um único corpo universal em Cristo incentiva a colaboração global na difusão do seu Evangelho e no serviço à humanidade, desviando a atenção das divisões internas para uma missão comum. Em contrapartida, limitar o mandato do Senhor de ir ao mundo e fazer discípulos de todos os povos (Mateus 28,19) a uma comunidade definida por fronteiras étnicas, geográficas ou socioeconómicas privá-la-ia de um dos fundamentos essenciais da Igreja, tal como estabelecido pelo Senhor: a unidade dos seus seguidores em todo o mundo.
O conceito de «um só corpo» de Efésios 4,4 também destaca a natureza da Igreja. O cristianismo transcende as fronteiras culturais e nacionais, unindo os crentes de todo o mundo na fé e na esperança. Essa comunhão, conforme é descrita em Apocalipse 7,9, onde cada cultura, tribo, povo e língua encontra a sua própria representação, dá força e encorajamento aos crentes, reafirmando a sua ligação dentro do Corpo de Cristo.
Ao salientar a importância da unidade dos cristãos, Paulo acrescenta que «há um só Espírito», referindo-se ao Espírito Santo que sustenta esta comunhão e dá à Igreja o poder de cumprir a sua missão. Para os crentes, o Espírito Santo é fonte de vida e orientação espiritual e é responsável por garantir que os diferentes membros da Igreja estão unidos na fé e no seu objetivo comum. O Espírito suscita uma profunda afinidade espiritual entre os crentes, transcendendo as diferenças e criando um vínculo que reflete a unidade da Santíssima Trindade. Este vínculo espiritual partilhado é o fundamento da reconciliação, guia os crentes e fornece-lhes, a nível global, os instrumentos necessários para levar por diante um testemunho e um ministério eficazes. Isto contribui para harmonizar as diferentes expressões de fé com a missão fundamental da Igreja.
A doutrina sobre a unidade da Igreja é ainda ulteriormente ampliada pelo apóstolo na Carta aos Efésios 4,4, quando afirma que todos os cristãos são chamados à única esperança da salvação e da vida eterna. Afirmar que «uma só é a esperança» significa proclamar que todos os crentes tendem para o mesmo objetivo: a vida eterna em Cristo.
Este é o objetivo último e a motivação da vida cristã, que fornece uma visão e um objetivo comum a todos os crentes, unindo-os no caminho da fé e na vida quotidiana. Esta visão partilhada supera as divisões confessionais e culturais, encorajando os cristãos a colaborar de todas as formas possíveis. Fazer da esperança partilhada o objetivo da nossa vocação de cristãos define a nossa pertença à Igreja em termos de comunhão mundial, na esperança da salvação e da vida eterna.
Num mundo com tradições e expressões de fé cristã diferentes entre si e muitas vezes contrastantes, o versículo 4,4 da Carta aos Efésios lembra-nos que todos os crentes fazem parte do único Corpo de Cristo. Esta unidade não tem a ver com uniformidade, mas com um compromisso comum de respeitar e partilhar as verdades fundamentais da fé cristã. Portanto, a unidade surge como um testemunho vigoroso da força transformadora do Espírito Santo, no momento em que cristãos de diversas proveniências se unem com autenticidade e sinceridade para alcançar um objetivo e uma visão partilhados.
A Igreja apostólica arménia, através das suas práticas e ensinamentos, propõe uma reflexão profunda sobre a essência da unidade dentro do Corpo de Cristo, entendida não apenas como simples conceito, mas como realidade viva e pulsante. Ao recitar o Credo, os fiéis declaram acreditar numa «Igreja santa, católica e apostólica», professando assim a centralidade desta unidade na sua vida espiritual. Este compromisso com a unidade encontra a sua máxima expressão nas celebrações eucarísticas da Igreja, onde as orações da comunidade não têm como únicos destinatários os cristãos de todo o mundo e os seus líderes espirituais, mas também a unidade da própria Igreja. Todos os domingos, durante a liturgia, os fiéis abraçam-se uns aos outros e cantam: «A Igreja tornou-se uma», manifestação tangível da sua fé coletiva e do objetivo comum que os une. A longa história da Igreja arménia e dos seus líderes, marcada pela presença de numerosos mártires, é um testemunho claro do compromisso inabalável dos arménios e da sua capacidade de preservar a fé cristã na terra da Arménia e na região circundante. A unidade no seio da Igreja deve transcender a afirmação doutrinal; na verdade, trata-se de uma experiência vivida que aprofunda a identidade espiritual dos fiéis e reforça o seu testemunho coletivo. Ao abraçar e viver essa unidade, a Igreja apostólica arménia não só honra as suas tradições sagradas, mas também contribui significativamente para uma unidade maior da Igreja de Cristo. Esta reflexão convida-nos a reconhecer e abraçar o poder transformador da unidade, tanto no seio das nossas comunidades de fé como na Igreja em geral.
A maturidade espiritual implica a aceitação das nossas diferenças e a busca da unidade, a ser praticada com o mesmo vigor que dedicamos à busca da precisão doutrinal. A nossa força reside na capacidade de refletir Cristo na nossa unidade, mostrando ao mundo o seu amor e a sua graça. Vivendo este chamamento divino, cumprimos a nossa missão e honramos Cristo, fazendo avançar o seu Reino na terra.
Acolhemos este chamamento divino à unidade, não como um ideal abstrato, mas como uma expressão vital da nossa fé. Num mundo em que o Corpo de Cristo está ferido pelas divisões nas e entre as várias tradições e confissões, o apelo do apóstolo à unidade é dirigido a cada um de nós, não só como comunidades eclesiais distintas, mas também como indivíduos que fazem parte de outras tantas comunidades. Vivendo em unidade, não só testemunhamos o amor e o poder de nosso Senhor Jesus Cristo, mas também encarnamos a essência dos seus ensinamentos. Apoiando-nos mutuamente e celebrando os nossos dons e talentos tão diversos, tornamo-nos reflexo do coração de Cristo e promovemos a sua obra na terra.

Subsídios para a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos e para todo o ano 2026:
  • 21 de janeiro, quarta-feira, na catedral do Porto, às 21.30 horas.

06/12/2025

O ecumenismo dos gestos, as divisões da vida

Foto: Settimananews
No seguimento da visita do Papa Leão XIV à Turquia, da oração ecuménica realizada na antiga cidade de Niceia por ocasião dos 1700 anos do I Concílio de Niceia e dos encontros com o Patriarca de Constantinopla Bartolomeu, que culminaram na assinatura de uma
Declaração conjunta, disponibilizamos em português o texto do teólogo Dimitros Karamidas, professor da secção ecumémica da Faculdade de Teologia da Pontifícia Universidade São Tomás de Aquino (Angelicum), em Roma.

A visita do Papa Leão XIV à Turquia, para além de ser a primeira viagem ao estrangeiro do novo pontífice, ficará na memória pela oração ecuménica realizada na antiga cidade de Niceia (a atual Iznik), por ocasião do 1700.º aniversário do Primeiro Concílio Ecuménico, e pelos encontros de carácter formal e litúrgico com o Patriarca Ecuménico Bartolomeu no Fanar, que culminaram com a assinatura de uma Declaração conjunta.
Alguns já descreveram estes acontecimentos como “históricos”. O próprio Papa afirmou ter sentido a profundidade da oração em Niceia e ter sido tocado pela experiência da divina liturgia celebrada na Igreja de São Jorge, catedral da Igreja de Constantinopla. Não há dúvida de que os acontecimentos destes dias serão relatados nos livros de história. Mesmo que apenas o futuro possa desvelar o seu impacto efetivo, não há dúvidas quanto ao grande valor simbólico dos gestos de amizade que, há já décadas, caracterizam as relações entre Roma e Constantinopla.

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A visita do Papa Leão insere-se no quadro daquele “diálogo da caridade” iniciado nos anos 60 pelo Papa Paulo VI e pelo Patriarca Atenágoras, continuado pelos seus sucessores. Uma relação de diálogo que já não se desenvolve em tons de polémica e de denúncia dos erros alheios, mas no da reconciliação, do perdão e da redescoberta enquanto igrejas irmãs. No fundo, o amor é uma verdadeira obra teologal, dado que Deus é amor.
O espírito de amor criou um contexto psicológico que permitiu também que os debates teológicos se articulassem de modo positivo. Do mesmo modo, ajudou a traduzir a caridade numa convivência e num testemunho conjunto do evangelho. Caridade, teologia e vida foram os pilares do ecumenismo ortodoxo‑católico.
Neste enquadramento, o diálogo teológico internacional, iniciado nos anos 80, pôde produzir documentos de grande amplitude, nos quais emergiram muitas convergências sobre temas eclesiológicos delicados, alguns dos quais — como a sucessão apostólica, o uniatisimo, a sinodalidade e o primado — pareciam até impossíveis de enfrentar. Hoje, a teologia centrada na polémica, aquela que Atenágoras queria exilar numa ilha, deixou praticamente de existir, e as Igrejas já não interpretam muitas das suas diferenças como aspetos inconciliáveis, dando prioridade ao que as une e não ao que as divide.
Atualmente, o diálogo teológico internacional dedica-se a aprofundar os temas da infalibilidade e do Filioque, isto é, a doutrina da procedência do Espírito Santo. Em Iznik, foi recitado o Credo niceno sem o Filioque e, para muitos, no Catolicismo e na Ortodoxia, essa escolha pareceu o fim definitivo da histórica controvérsia.

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Cumpre, no entanto, referir que a carta papal In unitate fidei, publicada pouco antes da viagem do Papa Leão, tinha-se distanciado tanto de «um ecumenismo de retorno ao estado anterior às divisões» como do «reconhecimento recíproco do atual status quo da diversidade das Igrejas e das Comunidades eclesiais». Leão escrevia, mantendo-se talvez deliberadamente um pouco vago, acerca de «um ecumenismo voltado para o futuro… de troca dos nossos dons e patrimónios espirituais».
Sabemos que, por mais importante que seja, a teologia não será, por si só, suficiente para realizar a unidade. É necessário que o povo da Igreja receba os resultados positivos dos diálogos teológicos e os integre na sua vida. A teologia é certamente capaz de resolver nós teóricos e de reler e superar velhas diatribes, mas não tem o poder de impor a unidade, pois essa tarefa cabe às autoridades eclesiais. Regressamos, portanto, ao valor dos gestos simbólicos, que têm um impacto mais direto no ânimo dos povos e podem determinar novas atitudes e estabelecer percursos comuns.
Neste sentido, alguns aspetos dos últimos dias merecem destaque. Antes de mais, no encontro de oração em Iznik, para além da delegação papal, participaram os primazes ou os representantes dos antigos Patriarcados Ortodoxos, das Igrejas Orientais, da Igreja Assíria, de todas as Igrejas ocidentais e de algumas organizações ecuménicas.
Pode dizer‑se, sem exagero, que o Credo niceno beneficiou de uma antecipação profética da união de todo o mundo cristão na mesma fé. Espera‑se, portanto, que a fé nicena, evocada num contexto litúrgico e de oração, torne ainda mais evidente a necessidade de estarmos juntos e o escândalo de permanecermos divididos.

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Não se podem, porém, ignorar as ausências de alguns primazes e de algumas Igrejas Ortodoxas, como os Patriarcas de Antioquia e de Jerusalém (que declinaram o convite do Patriarca Ecuménico, enviando representantes) e das outras Igrejas Ortodoxas patriarcais e autocéfalas (não convidadas).
E, se é possível censurar a ausência dos dois Patriarcas (quaisquer que sejam as razões), é difícil compreender os critérios que levaram à escolha de limitar o convite para a oração de Niceia apenas aos Patriarcados da antiga pentarquia, excluindo todas as outras igrejas ortodoxas erigidas no segundo milénio. Uma escolha que, além de anacrónica, revela como as ruturas internas da Ortodoxia tendem a consolidar‑se e a comprometer o diálogo teológico com a Igreja Católica.
Consciente disto, no seu discurso no final da divina liturgia no Fanar, o Papa Leão pediu ao Patriarca Ecuménico que «faça todos os esforços para que todas as Igrejas ortodoxas autocéfalas voltem a participar ativamente nesse empenho». A esperança é que todas as Igrejas Ortodoxas regressem ao diálogo teológico internacional, mesmo se, entretanto, grande parte da Ortodoxia desenvolveu posições eclesiológicas que contradizem a convergência com o Catolicismo arduamente alcançada nos últimos 60 anos.

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A Declaração conjunta reconhece o progresso teológico realizado e parece ter em conta a necessidade de o transmitir às bases eclesiais. O Papa e o Patriarca exortam «todos os que ainda hesitam perante qualquer forma de diálogo, a escutar o que o Espírito diz às Igrejas, impelindo‑nos, nas atuais circunstâncias da história, a apresentar ao mundo um testemunho renovad de paz, reconciliação e unidade» e exortam «vivamente todos os fiéis das nossas Igrejas, em particular o clero e os teólogos, a acolher com alegria os frutos até agora alcançados e a empenhar‑se no seu contínuo incremento».
Impressiona, antes de mais, o uso do verbo “exortar”. Não parece tratar‑se apenas de uma opção estilística nem tem como objetivo fornecer sugestões ou conselhos. Trata-se de um pedido dirigido aos fiéis para que se envolvam e ultrapassem resistências mentais, vençam sentimentos de medo e suspeita, apoiem o diálogo já existente e escutem a voz do Espírito Santo que chama todos à unidade e não à dispersão.
A Declaração insere assim as relações entre as duas Igrejas num quadro de ação mais vasto. «Para além do papel insubstituível que o diálogo teológico desempenha no processo de aproximação entre as nossas Igrejas, recomendamos também os outros elementos necessários neste processo, entre os quais os contactos fraternos, a oração e o trabalho conjunto em todos os sectores em que a cooperação já é possível».
O Papa e o Patriarca afirmaram estar «conscientes de que a unidade dos cristãos não é simplesmente resultado de esforços humanos, mas um dom que vem do alto». Rezar juntos está no coração do ecumenismo e implica o reconhecimento dos dons espirituais próprios de cada Igreja.
Trata‑se, por outras palavras, de acolher a transversalidade dos dons da fé presentes nas outras igrejas (como a santidade e o martírio) e de pedir o apoio de Deus, reconhecendo os limites de cada tradição cristã no cumprimento dos preceitos evangélicos. Uma Igreja que renuncia à oração é, com efeito, uma Igreja que não precisa que Deus aja nela. A oração comum ajuda a perceber que as tradições confessionais não são fortalezas a defender, mas tesouros espirituais a partilhar.

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No final da celebração eucarística, da varanda do palácio patriarcal, o Papa e o Patriarca deram a sua bênção à assembleia e, virtualmente, aos seus fiéis em todo o mundo.
Do ponto de vista teológico, trata‑se do reconhecimento de facto da apostolicidade da Igreja de Roma e da fraternidade episcopal entre os dois líderes. Se, para o agir do Patriarcado Ecuménico, tal reconhecimento nunca foi um problema, continua a sê‑lo para alguns sectores antiecuménicos que, embora minoritários, estão muito presentes no episcopado, no clero e no mundo monástico ortodoxo. Também neste caso, o desafio é comunicar de modo convincente aos fiéis a fraternidade existente entre as duas Igrejas, talvez estimulando mais o ecumenismo local, ainda pouco praticado na Ortodoxia.
A Declaração não deixa de acenar às guerras em curso, recordando que «o objetivo da unidade dos cristãos inclui o fim de contribuir de modo fundamental e vivificante para a paz entre todos os povos», fazendo um apelo «a quantos têm responsabilidades civis e políticas, para que façam tudo o possível para garantir que a tragédia da guerra cesse imediatamente, e pedimos a todas as pessoas de boa vontade que apoiem a nossa súplica».
Ligar a unidade cristã à paz significa também dirigir-se às Igrejas que, nos últimos anos, se envolveram em retóricas belicosas, através das quais prejudicaram a imagem do cristianismo e feriram a unidade da Igreja Ortodoxa. Espera‑se que as estratégias para reconduzir essas Igrejas à lógica da paz sejam diferentes das adotadas até agora, que se revelaram pouco eficazes (veja‑se a tentativa de mediação humanitária da Santa Sé entre a Rússia e a Ucrânia) e pouco inclusivas (como a ausência, por parte do Patriarcado Ecuménico, de um plano de ação para pôr termo às numerosas ruturas no mundo ortodoxo).

***

Última nota: depois da assinatura da Declaração, o Patriarca ofereceu ao Papa uma elegante estola com o texto de Efésios 4,15 em grego e latim: «agindo segundo a verdade na caridade, procuremos crescer em tudo, tendendo para ele, que é a cabeça, Cristo». O Papa endossou a estola durante a liturgia bizantina.
Foi mais um sinal do apostolado comum de Roma e Constantinopla e indicador da essência do ministério exercido, de modos diferentes, pelo Papa e pelo Patriarca. O passo paulino diz-nos que o “primeiro” é aquele que se coloca ao serviço de todos, age na caridade não para afirmar a “verdade” de privilégios jurídicos, mas porque Cristo, a verdadeira pedra da fé, exige o martírio como caminho para participar na sua ressurreição.
A morte (o “fazer morrer” antigos privilégios, equilíbrios diplomáticos, compromissos com poderes seculares), por mais dolorosa que seja, é o preço indispensável a pagar para favorecer a convergência para o evangelho da vida e da unidade. Estão as nossas igrejas dispostas a fazê-lo?

Dimitros Karamidas
Settimananews (6 dez. 2025).

05/11/2025

Uma Carta Ecuménica para a Europa

Foto: CCEE
Era, de facto, uma época completamente diferente, e não só para o movimento ecuménico. Quando, em 22 de abril de 2001, na igreja de São Thomas, em Estrasburgo, o metropolita Jéremie, pela KEK (Conferência das Igrejas Europeias), e o cardeal de Praga Vlk, presidente do CCEE (Conselho das Conferências Episcopais da Europa), assinaram a Carta ecuménica, o futuro do encontro entre as Igrejas parecia promissor e cheirava a esperança. Ao contrário de hoje...
A assinatura desse documento – três partes, 12 pontos e 26 compromissos concretos, subtítulo Linhas-guia para o crescimento da colaboração entre as Igrejas na Europa – seguiu as duas primeiras etapas do Processo ecuménico europeu sobre Paz, justiça e salvaguarda da criação, realizado em Basileia em 1989 e em Graz em 1997, que se encerraria em 2007 em Sibiu, na Roménia.

Um texto frágil, mas cheio de esperança

É certo: o texto da Carta era frágil – dizia-se – e, em sentido estrito, não vinculativo para nenhuma das Igrejas signatárias; no entanto, era simbolicamente significativo e auspicioso, tendo surgido numa fase em que a confiança no caminho da unificação continental era muito maior do que hoje (e as Twin Towers ainda estavam de pé).
Na bela cidade da Alsácia, o clima era efervescente, e circulava entre os presentes a sensação de que se tratava de um grande passo para o continente onde tiveram início as grandes fraturas históricas da cristandade.
As mesmas duas organizações iniciaram, a partir de 2022, um processo de revisão desse documento, que deveria ser concluído com a assinatura de uma Carta revista e atualizada em Vilnius, na Lituânia, nos dias 26 e 27 de abril passado, se não tivesse ocorrido a morte do Papa Francisco.
Se o refrão da Carta original era «comprometemo-nos», repetido 22 vezes, na versão atual são 55: com mais atenção à igualdade de género, às relações com o judaísmo e o islamismo, à paz e à proteção da Criação, enquanto, nos parágrafos finais, se trata de migrações, inteligência artificial e Europa no cenário mundial. É claro que esta é apenas uma etapa de um caminho que terá de envolver as Igrejas locais: a missão, sempre a mesma, é sair dos círculos restritos e abrir-se a um público mais vasto.
Após o adiamento em abril, de 4 a 6 de novembro, o Comité Conjunto CCEE e KEK reune-se em Roma. Dois momentos altos do encontro: a cerimónia oficial de assinatura da Carta atualizada, prevista para 5 de novembro na igreja do martírio de São Paulo, na Abadia delle Tre Fontane, confirmando o compromisso comum das Igrejas europeias com a unidade, o diálogo e a cooperação; e, em 6 de novembro, a audiência especial concedida pelo Papa Leão XIV aos participantes da cerimónia de assinatura.
A versão atualizada será assinada por Gintaras Grušas, arcebispo de Vilnius e presidente do CCEE, e pelo arcebispo Nikitas Lioulias de Thyateira e Grã-Bretanha, presidente da KEK.

Um documento comum para um compromisso comum

Para compreender melhor o significado do evento, é importante lembrar que a Carta nasceu para cumprir uma recomendação específica da Assembleia Ecuménica Europeia de Graz (1997), na qual – constatada «a difícil situação em que se encontra a comunidade ecuménica, por vários motivos» e a necessidade de «cultivar uma cultura ecuménica de convivência e colaboração» – se convidavam as Igrejas europeias a «elaborar um documento comum, que contenha os direitos e deveres ecuménicos fundamentais, e a deduzir dele uma série de diretrizes, regras e critérios ecuménicos, que possam ajudar as Igrejas, os seus responsáveis e todos os seus membros a distinguir entre proselitismo e testemunho cristão, entre fundamentalismo e autêntica fidelidade à fé e a configurar, finalmente, num espírito ecuménico, as relações entre as Igrejas maioritárias e as minoritárias».
A assinatura foi o ponto culminante de um processo que durou mais de dois anos, durante o qual as várias Igrejas que integram a KEK e o CCEE discutiram um primeiro esboço e formularam as suas observações; em seguida, uma comissão conjunta dos dois organismos promotores, após recolher mais pareceres, elaborou uma segunda versão do documento, a que foi assinada na Alsácia.
«Foi um trabalho longo – declarou o P. Aldo Giordano, então secretário da CCEE –, no qual aprendemos a conhecer-nos e a falar com franqueza». «Recolher tantas opiniões e tentar construir o mais amplo consenso em torno da Carta foi uma grande aventura ecuménica – afirmou o pastor batista Keith Clements, na época secretário da KEK –, mas é claro que a assinatura de Estrasburgo não é um ponto de chegada; é uma etapa de um caminho que agora deve envolver as Igrejas locais: serão elas a decidir se a Carta é um instrumento válido para a busca da unidade e do testemunho cristão no nosso tempo».
Na vida eclesial, o processo de traditio da mensagem tem sempre de ser seguido por um processo de receptio na fé e de redditio no testemunho ativo. O mesmo acontece no âmbito ecuménico: a entrega de um texto acordado a nível interconfessional tem de ser seguida pela sua receção na fé comum e pela sua restituição através de uma atitude partilhada e ativa de colaboração ecuménica.

O sentir dos jovens

Entre os presentes no encontro de Estrasburgo em 2001 (realizado logo após a Páscoa, que, por uma feliz coincidência, foi celebrada simultaneamente por todas as Igrejas, ocidentais e orientais), além dos responsáveis das próprias Igrejas, havia cerca de uma centena de jovens com menos de 30 anos, representando todas as confissões cristãs do continente, da costa atlântica aos Urais, de Creta à Noruega: uma escolha que se revelou positiva, segundo os comentários dos próprios jovens na assembleia, pois permitiu um confronto inédito entre as gerações.
Na minha memória, por exemplo, está a intervenção de um jovem católico escocês, na conferência de imprensa relativa ao ice-breaking preparatório da assembleia. Ele explicou: «Durante a reunião, sentimo-nos todos ortodoxos, todos católicos, todos protestantes e evangélicos. Mas isso não significa que sejamos uma "sopa ecuménica", onde todos os elementos estão misturados num caldo indistinto e homogéneo: pelo contrário, a nossa comunhão poderia ser descrita como uma "salada ecuménica", onde todas as diferentes cores e sabores – unidos pelo tempero do Espírito Santo – podem ser mais bem percebidos e saboreados». É difícil descrever melhor o futuro do ecumenismo europeu...

Brunetto Salvarani
Settimananews (4 nov. 2025).