12/01/2026

Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos (18 a 25 de janeiro de 2026)

«Há um só corpo e um só espírito, assim como fostes chamados a uma só esperança»
(Efésios 4,4)

Texto bíblico: Efésios 4,1-13

Neste ano, as orações e reflexões que serão utilizadas durante a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos foram preparadas pelos fiéis da Igreja apostólica arménia, em colaboração com os seus irmãos e irmãs das Igrejas arménias católicas e evangélicas. O material foi preparado, redigido e discutido na sede espiritual e administrativa histórica da Igreja apostólica arménia, a Santa Sé de Etchmiadzin, na Arménia, nos dias inspiradores da bênção do Muron (óleo santo) e da reconsagração da Catedral-Mãe, que ocorreu a 28 e 29 de setembro de 2024, após uma extensa obra de restauração que durou dez anos. Esta comemoração ofereceu ao povo arménio e aos membros do Grupo ecuménico local uma oportunidade única para refletir e celebrar a fé cristã comum, que permanece sempre viva e fecunda nas nossas igrejas. O material proposto inspira-se em tradições seculares de oração e invocações, sempre utilizadas pelo povo arménio, juntamente com hinos nascidos nos antigos mosteiros e igrejas da Arménia, alguns dos quais remontam ao século IV. A Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos de 2026 convida os fiéis a recorrerem a este património cristão comum e a aprofundarem a comunhão em Cristo, que une os cristãos de todo o mundo.
Mais do que um simples ideal, a unidade é um mandato divino, central para a nossa identidade cristã. Ela representa a essência do chamamento da Igreja, um chamamento a refletir a unidade harmoniosa da nossa vida em Cristo, ainda que na nossa diversidade. Esta unidade divina está no centro da nossa missão e é sustentada pelo profundo amor de Jesus Cristo, que nos colocou diante de um objetivo comum. Como afirma o apóstolo Paulo na Carta aos Efésios, «Há um só corpo e um só Espírito, assim como fostes chamados a uma só esperança» (4,4). Este versículo bíblico, escolhido para este ano, resume a profundidade teológica da unidade cristã.
Nas Sagradas Escrituras, o apelo de Deus à unidade emerge desde os tempos mais remotos. A partir do Antigo Testamento, a súplica de Abraão a Lot evidencia o desejo divino de paz e harmonia entre os fiéis: «Somos como irmãos e, portanto, não deve haver disputas entre mim e ti, nem entre os meus pastores e os teus» (Génesis 13,8). Apesar de os seus caminhos acabarem por se separar, o apelo de Abraão à harmonia e ao respeito mútuo sublinha a importância de viver em paz. Este mandamento divino é reafirmado em Levítico 19,18, onde Deus adverte: «Não vos vingueis nem guardai rancor contra os membros do vosso povo. Cada um de vós deve amar o seu próximo como a si mesmo. Eu sou o Senhor». Estes mandamentos recordam-nos que o perdão e o amor são fundamentais para manter a unidade no seio da comunidade de fé.
Os Salmos celebram a beleza da unidade entre os membros do povo de Deus, declarando: «Vê como é bom e agradável que os irmãos vivam juntos» (Salmo 133 (132),1). Esta imagem sublinha a importância de que a unidade se reveste no desígnio de Deus para o seu povo. Os Provérbios, por sua vez, alertam contra a discórdia que se fomenta dentro do povo de Deus, afirmando que Deus despreza aqueles que semeiam discórdia entre irmãos e irmãs (cf. Provérbios 6, 19), ensinando, em vez disso, que a paciência e o perdão são essenciais para manter a harmonia (cf. Provérbios 19,11).
No Novo Testamento, Jesus Cristo eleva o conceito de unidade a uma dimensão espiritual, refletindo aqui a profunda relação entre ele e o Pai. A unidade entre os seus seguidores não é simplesmente a ausência de conflitos, mas um vínculo espiritual profundo que reflete a unidade da Santíssima Trindade. A oração de Jesus em João 17,21, pede aos crentes que sejam um como ele e o Pai são um, demonstrando que a nossa unidade assenta na nossa relação com Cristo e na nossa missão coletiva de partilhar a Boa Nova. O mandamento principal de Jesus, que é amar uns aos outros como ele nos amou (João 13,34-35), sublinha como este amor é a essência da nossa unidade. Este amor sacrificial e desinteressado representa tanto o vínculo que mantém unida a nossa comunidade como o principal testemunho do nosso discipulado. A oração de Jesus para manifestarmos a nossa unidade ao mundo (João 17, 23) é um testamento perene enraizado na sua missão divina.
Os apóstolos retomam este tema nos seus ensinamentos. As epístolas de Paulo sublinham a importância da unidade dentro da Igreja, exortando-nos a viver de forma digna da nossa vocação, com humildade, cordialidade, paciência e tolerância amorosa (Efésios 4,1-3). A visão da unidade que Paulo propõe na Carta aos Romanos, 12, 6, mostra a variedade dos dons que constituem o corpo de Cristo. O seu apelo a tecer relações harmoniosas, na segunda Carta aos Coríntios, 13,11, e na Carta aos Filipenses 2,1-2, convida os crentes a abraçarem uma única mente e um único espírito no seu compromisso para com Cristo, reafirmando assim o mandato divino à unidade, reconhecendo, ao mesmo tempo, a nossa diversidade.
Na Carta aos Efésios 4,4, encontram-se sintetizados os ensinamentos de Paulo sobre a unidade, quando ressalta mais uma vez que os seguidores de Cristo manifestam que «há um só corpo e um só Espírito», unidos numa única esperança. Esta metáfora indica a Igreja como uma entidade unificada que transcende as barreiras de qualquer geografia, nacionalidade, etnia e tradição. Paulo usa a metáfora da Igreja como Corpo de Cristo para descrever a sua unidade, dada pela diversidade dos seus membros. Ele escreve aos Coríntios: «Cristo é como um corpo que tem muitas partes. Todas as partes, mesmo sendo muitas, formam um único corpo» (1 Coríntios 12,12). Com os Colossenses, Paulo reflete sobre o papel de Cristo como cabeça do Corpo, unificado a partir de diferentes membros, afirmando: «Ele é também a cabeça desse corpo que é a Igreja» (Colossenses 1,18). Portanto, embora seja composta por muitas partes, a Igreja funciona como um todo coeso. Cada um dos seus membros tem um papel único e contribui para a vida e a missão geral da Igreja. Reconhecer que fazemos parte de um único corpo universal em Cristo incentiva a colaboração global na difusão do seu Evangelho e no serviço à humanidade, desviando a atenção das divisões internas para uma missão comum. Em contrapartida, limitar o mandato do Senhor de ir ao mundo e fazer discípulos de todos os povos (Mateus 28,19) a uma comunidade definida por fronteiras étnicas, geográficas ou socioeconómicas privá-la-ia de um dos fundamentos essenciais da Igreja, tal como estabelecido pelo Senhor: a unidade dos seus seguidores em todo o mundo.
O conceito de «um só corpo» de Efésios 4,4 também destaca a natureza da Igreja. O cristianismo transcende as fronteiras culturais e nacionais, unindo os crentes de todo o mundo na fé e na esperança. Essa comunhão, conforme é descrita em Apocalipse 7,9, onde cada cultura, tribo, povo e língua encontra a sua própria representação, dá força e encorajamento aos crentes, reafirmando a sua ligação dentro do Corpo de Cristo.
Ao salientar a importância da unidade dos cristãos, Paulo acrescenta que «há um só Espírito», referindo-se ao Espírito Santo que sustenta esta comunhão e dá à Igreja o poder de cumprir a sua missão. Para os crentes, o Espírito Santo é fonte de vida e orientação espiritual e é responsável por garantir que os diferentes membros da Igreja estão unidos na fé e no seu objetivo comum. O Espírito suscita uma profunda afinidade espiritual entre os crentes, transcendendo as diferenças e criando um vínculo que reflete a unidade da Santíssima Trindade. Este vínculo espiritual partilhado é o fundamento da reconciliação, guia os crentes e fornece-lhes, a nível global, os instrumentos necessários para levar por diante um testemunho e um ministério eficazes. Isto contribui para harmonizar as diferentes expressões de fé com a missão fundamental da Igreja.
A doutrina sobre a unidade da Igreja é ainda ulteriormente ampliada pelo apóstolo na Carta aos Efésios 4,4, quando afirma que todos os cristãos são chamados à única esperança da salvação e da vida eterna. Afirmar que «uma só é a esperança» significa proclamar que todos os crentes tendem para o mesmo objetivo: a vida eterna em Cristo.
Este é o objetivo último e a motivação da vida cristã, que fornece uma visão e um objetivo comum a todos os crentes, unindo-os no caminho da fé e na vida quotidiana. Esta visão partilhada supera as divisões confessionais e culturais, encorajando os cristãos a colaborar de todas as formas possíveis. Fazer da esperança partilhada o objetivo da nossa vocação de cristãos define a nossa pertença à Igreja em termos de comunhão mundial, na esperança da salvação e da vida eterna.
Num mundo com tradições e expressões de fé cristã diferentes entre si e muitas vezes contrastantes, o versículo 4,4 da Carta aos Efésios lembra-nos que todos os crentes fazem parte do único Corpo de Cristo. Esta unidade não tem a ver com uniformidade, mas com um compromisso comum de respeitar e partilhar as verdades fundamentais da fé cristã. Portanto, a unidade surge como um testemunho vigoroso da força transformadora do Espírito Santo, no momento em que cristãos de diversas proveniências se unem com autenticidade e sinceridade para alcançar um objetivo e uma visão partilhados.
A Igreja apostólica arménia, através das suas práticas e ensinamentos, propõe uma reflexão profunda sobre a essência da unidade dentro do Corpo de Cristo, entendida não apenas como simples conceito, mas como realidade viva e pulsante. Ao recitar o Credo, os fiéis declaram acreditar numa «Igreja santa, católica e apostólica», professando assim a centralidade desta unidade na sua vida espiritual. Este compromisso com a unidade encontra a sua máxima expressão nas celebrações eucarísticas da Igreja, onde as orações da comunidade não têm como únicos destinatários os cristãos de todo o mundo e os seus líderes espirituais, mas também a unidade da própria Igreja. Todos os domingos, durante a liturgia, os fiéis abraçam-se uns aos outros e cantam: «A Igreja tornou-se uma», manifestação tangível da sua fé coletiva e do objetivo comum que os une. A longa história da Igreja arménia e dos seus líderes, marcada pela presença de numerosos mártires, é um testemunho claro do compromisso inabalável dos arménios e da sua capacidade de preservar a fé cristã na terra da Arménia e na região circundante. A unidade no seio da Igreja deve transcender a afirmação doutrinal; na verdade, trata-se de uma experiência vivida que aprofunda a identidade espiritual dos fiéis e reforça o seu testemunho coletivo. Ao abraçar e viver essa unidade, a Igreja apostólica arménia não só honra as suas tradições sagradas, mas também contribui significativamente para uma unidade maior da Igreja de Cristo. Esta reflexão convida-nos a reconhecer e abraçar o poder transformador da unidade, tanto no seio das nossas comunidades de fé como na Igreja em geral.
A maturidade espiritual implica a aceitação das nossas diferenças e a busca da unidade, a ser praticada com o mesmo vigor que dedicamos à busca da precisão doutrinal. A nossa força reside na capacidade de refletir Cristo na nossa unidade, mostrando ao mundo o seu amor e a sua graça. Vivendo este chamamento divino, cumprimos a nossa missão e honramos Cristo, fazendo avançar o seu Reino na terra.
Acolhemos este chamamento divino à unidade, não como um ideal abstrato, mas como uma expressão vital da nossa fé. Num mundo em que o Corpo de Cristo está ferido pelas divisões nas e entre as várias tradições e confissões, o apelo do apóstolo à unidade é dirigido a cada um de nós, não só como comunidades eclesiais distintas, mas também como indivíduos que fazem parte de outras tantas comunidades. Vivendo em unidade, não só testemunhamos o amor e o poder de nosso Senhor Jesus Cristo, mas também encarnamos a essência dos seus ensinamentos. Apoiando-nos mutuamente e celebrando os nossos dons e talentos tão diversos, tornamo-nos reflexo do coração de Cristo e promovemos a sua obra na terra.