24/01/2026

Niceia em perspetiva ecuménica

Entrevista de Andrea Cappelletti para Settimananews (20 jan. 2026).

O professor Riccardo Burigana é diretor do Centro de Estudos para o Ecumenismo e leciona Ecumenismo e Diálogo Inter-religioso na Secção São Tomás de Aquino da Faculdade Teológica Pontifícia da Itália Meridional. Colocámos-lhe algumas questões de avaliação dos acontecimentos que marcaram o ano comemorativo de Niceia, enquanto decorrem em Itália iniciativas dedicadas à oração e ao diálogo interconfessional cristão e com o judaísmo.

– Que avaliação, Riccardo, fazes do aniversário do Concílio de Niceia no âmbito ecuménico?

A nível pessoal diria que foi um ano muito positivo, porque participei num projeto internacional cujos membros — professores de língua italiana — trabalharam numa interação muito frutuosa: membros de Igrejas muito diferentes e da própria Igreja católica com orientações diversas.
Foi, portanto, um confronto que, com grande parresia, permitiu aprofundar visões e interpretações histórico-teológicas — muito diferentes entre si — que as Igrejas têm de Niceia: um verdadeiro exercício de debate franco e construtivo, que produziu muitos artigos e intervenções, tanto em Itália como no Brasil (o outro polo geográfico do projeto).
Participei no colóquio conclusivo de Nápoles, dois dias muito intensos, nos quais os próprios académicos ficaram surpreendidos com a riqueza dos conteúdos revelados por um estudo aprofundado e conjunto dos documentos de Niceia; daí resultaram leituras possíveis e, sobretudo, possibilidades de desenvolvimento das práticas, por exemplo no que diz respeito à expressão do Credo.

– Que Igrejas participaram no projeto de que estás a falar?

Promovido pela Secção São Tomás de Aquino da Faculdade Teológica Pontifícia da Itália Meridional e pela Universidade Católica de Pernambuco, contou com a presença de 72 investigadores de língua italiana provenientes de 13 países. No que respeita às Igrejas, participaram Igrejas católicas, tanto de rito latino como greco-católico; estiveram também presentes Valdenses, Batistas, Luteranos, Adventistas, Pentecostais; bem como Ortodoxos sérvios, romenos e membros do Patriarcado Ecuménico.
O evento permitiu a muitos estudiosos conhecerem-se e trocarem conhecimentos e experiências, bem como confrontarem-se a partir de posições muito diversas sobre o Concílio de Niceia, inclusive dentro do próprio mundo católico, com especialistas em teologia, dogmática, estudos bíblicos, história e direito, desde a Secção São Tomás de Aquino da Faculdade Teológica Pontifícia da Itália Meridional até à Academia de Ciências Religiosas dos Estados Unidos; sem esquecer o contributo brasileiro, com representantes do Comité de Ciências Históricas e da Universidade Católica de Pernambuco, também aqui com a participação de especialistas de várias disciplinas teológicas e de diferentes confissões, como Baptistas e Pentecostais.

– Num plano mais global, como avalias o ano de Niceia?

O ano encerrou — como bem sabemos — na própria Niceia, com o encontro entre o papa Leão XIV, o patriarca Bartolomeu e — sublinho — o Secretário do Conselho Ecuménico das Igrejas. Ao longo do ano realizaram-se muitos encontros de caráter ecuménico e não só, com numerosas intervenções por parte das várias Igrejas.
Penso que, em geral, as Igrejas saíram da lógica da mera comemoração para iniciarem um exame e um processo sério de reflexão sobre o significado e o valor daquele Concílio para os cristãos, ao longo dos séculos, até hoje.
Na minha opinião, pode falar-se de um verdadeiro salto de qualidade, acompanhado pela produção de muitos textos e pela identificação de novas perspetivas de investigação e de desenvolvimento ecuménico.

– Que novidades emergiram no estudo de Niceia? Apenas em traços gerais.

No ano do aniversário, a possibilidade de acesso a novas fontes e uma nova reflexão sobre o seu valor ajudaram a superar a narrativa de um Concílio querido unicamente por Constantino por razões de poder.
O professor Morini escreveu um longo e interessante artigo — que será publicado nos próximos meses — sobre a forma como Niceia foi lida na geografia de origem dos Padres conciliares, o que nos mostra como a tradição oral soube transmitir afirmações teológicas de tão grande importância.
No colóquio de Nápoles apresentei uma investigação sobre a presença do Concílio de Niceia na Universidade de Wittenberg no século XVI: estudei como o Concílio de Niceia foi utilizado para definir a doutrina da confissão nascente; os teólogos luteranos abriram a Confissão de Augsburgo precisamente com uma citação de Niceia, o que abre uma nova via de diálogo ecuménico tendo em vista o 500.º aniversário da Confissão de Augsburgo (1530–2030).

– Quem esteve com o papa em Niceia no passado mês de novembro? E quem — talvez — não esteve?

Quando o encontro foi pensado — com o papa Francisco — a ideia era reunir todos os chefes das Igrejas; no final, porém, como vimos, tratou-se de um encontro entre Roma e Constantinopla, entre o papa Leão e o patriarca Bartolomeu; estava também presente o Secretário do Conselho Ecuménico das Igrejas, o sul-africano Rev. Jerry Pillay, presbiteriano, uma pessoa que muito tem feito e continua a fazer pelo diálogo ecuménico.

– O mundo ortodoxo russo não teve qualquer participação na memória de Niceia?

Na situação atual, tão complexa no mundo ortodoxo e entre os próprios mundos da ortodoxia, era totalmente impossível a participação do Patriarcado de Moscovo.
No entanto, captei aqui e ali sinais positivos de presença, em vários contextos e intervenções, de representantes da diáspora da Ortodoxia russa: por exemplo, professores de teologia norte-americanos e franceses.

– Outras Igrejas ausentes?

Pelo contrário — e de forma positiva — surpreendeu-me a presença do mundo pentecostal em muitos encontros, o que trouxe uma reflexão própria sobre um tema que poderia ter sido divisivo: para Igrejas do século XX, o tempo de Niceia poderia ter sido ignorado; mas não foi assim.

– Referiste o Credo: que trabalho foi feito? Achas que se pode chegar a uma reformulação ecuménica?

O Credo foi certamente um dos grandes temas do aniversário. É indiscutível que também se colocou a questão de uma eventual reformulação: pessoalmente considero justo pensá-la numa chave inclusiva, que nos ajude a renovar a centralidade e a unicidade de Cristo.
Por vezes, a reflexão ecuménica tende, a meu ver, a deslizar para um plano excessivamente inter-religioso e intercultural, enquanto as Igrejas nunca podem perder de vista, “nem por um instante”, Cristo e a missão. No Credo e com o Credo trata-se de reafirmar porque é que as Igrejas só podem caminhar juntas: isto é, reafirmar a centralidade de Cristo e a conversão do coração a Ele.

– O que pensas de algumas propostas de reformulação do Credo no âmbito católico?

Penso que um tema de tão vital importância merece a convocação de um Concílio Ecuménico ad hoc, para reafirmar e clarificar aquilo que os cristãos têm hoje em comum, em termos mais diretos e eficazes.

– E quanto à unificação da data da Páscoa — entre cristianismo ocidental e oriental — o que pensas?

Ao longo deste ano falou-se muito também deste tema; muitos manifestaram-se a favor de uma solução que ponha fim ao escândalo de celebrar a Páscoa em datas diferentes, embora não tenham faltado vozes a considerar este debate inútil.
Penso que unificar a data seria um ato altamente significativo de comunhão entre as Igrejas, e não apenas uma questão prática de calendário. Para o papa Francisco, a data única da Páscoa era um dos objetivos do pontificado; depois, em 2025, também a sua voz se foi esbatendo…
É curioso que não se tenha dado destaque a todas aquelas experiências que já existem pelo mundo fora: existe já uma prática de Páscoa comum, nem que seja pelo facto de muitos cristãos orientais viverem no Ocidente e vice-versa.
Leão XIV relançou esta ideia, mas as resistências continuam a ser muitas: quando, por exemplo, o papa Francisco deu um passo nesse sentido, houve fortes resistências no mundo ortodoxo. Os protestantes, pelo contrário, estariam de acordo.
Este tema seria uma oportunidade não apenas para discutir uma data, mas para falar de como se celebra a Páscoa entre os cristãos, tendo em conta as fortes diferenças teológicas e litúrgicas existentes no mundo cristão.

– Outro tema — a partir de Niceia — é o da sinodalidade. Depois do papa Francisco, a sinodalidade está na agenda do ecumenismo?

Diria que deixamos para trás um ano intenso de produção histórico-teológica precisamente porque Niceia abriu historicamente o método sinodal universal: um método sobre o qual o movimento ecuménico reflete e que pratica há anos, dando um contributo significativo para o caminho das Igrejas.

– Como será a “Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos” em Itália?

Estou a preparar o número de janeiro da Veritas, no qual se apresentam os encontros diocesanos da Semana: centenas de encontros, com o envolvimento da quase totalidade das dioceses; mas torna-se cada vez mais difícil compilar uma lista das múltiplas iniciativas, porque há eventos que acontecem também fora dos âmbitos diocesanos oficiais. Cada vez mais a Semana se configura como um tempo não só de oração, mas também de descoberta e de conhecimento mútuo, com uma atenção crescente dos jovens pelas tradições e espiritualidades não católicas.
Em geral, caminha-se cada vez mais para uma oração centrada na “Palavra de Deus” e cada vez menos segundo a fórmula de um presidente (católico) e de um convidado, em confronto sobre a mesma Palavra. Avança-se para fórmulas mais livres, participadas e paritárias.

– Participarão nas celebrações representantes do Patriarcado de Moscovo, em Itália?

Não tenho conhecimento disso, por agora, mas espero estar enganado, porque seria uma grave ferida.

– E quanto ao Diálogo judaico-cristão — no qual estás envolvido há muito tempo — o que podes dizer este ano, num clima político tão tenso?

Em torno do Dia 17 de janeiro registei 32 eventos promovidos pelas dioceses. São frequentemente “a duas vozes”, segundo a fórmula dos anos 90: escolhe-se uma passagem bíblica e escutam-se as duas vozes; manteve-se, ou seja, a ideia de que são o Rabino e o Bispo (ou um biblista em sua representação) que se encontram e comentam a passagem bíblica.
Noutros casos faz-se referência ao 60.º aniversário da Nostra aetate — ocorrido também no ano passado —, documento que continua a ser de importância fundamental tanto para o diálogo inter-religioso como para a relação com o judaísmo.
Permanece o facto de o Dia 17 de janeiro nunca ter tido grandes números.

– Onde estarás empenhado neste mês?

Estarei em Bari para dois dias de diálogo entre Católicos e Ortodoxos, organizados pela Comunidade de Jesus, presidida por Matteo Calisi, com o apoio da arquidiocese de Bari, em colaboração com o Centro de Estudos para o Ecumenismo em Itália e a Associação Italiana de Docentes de Ecumenismo, que conseguiu reunir Ortodoxos ucranianos e russos da diáspora, Greco-Católicos bielorrussos, Ortodoxos romenos e do Patriarcado, da Albânia e da Sérvia, Anglicanos ingleses e norte-americanos, para além de várias sensibilidades do mundo católico.
Estará também presente o Presidente da Conferência das Igrejas Europeias, o arcebispo Nikitas de Tiatira e Grã-Bretanha do Patriarcado Ecuménico de Constantinopla, que falará da Charta Oecumenica por ele próprio assinada. Entre as intervenções, gostaria de destacar a de D. Donato Oliverio, bispo da Eparquia de Lungro, do padre dominicano Emanuel Albano, coordenador do Instituto de Teologia Ecuménica São Nicolau, e de Vito Mignozzi, director da Faculdade Teológica da Apúlia.
Na manhã do dia 22 foi-me pedido que apresentasse o estado do ecumenismo na reunião do clero da Eparquia de Lungro; ainda no dia 22, à tarde, realizarei um encontro, em formato remoto, de apresentação da nova versão da Charta Oecumenica. No dia 23 estarei em Arino di Dolo para falar, por ocasião do 40.º aniversário do Encontro das Religiões em Assis, sobre o contributo do diálogo ecuménico e inter-religioso para a paz.
No dia 25 estarei em Empoli, onde vivo, para um dia de oração pela unidade em família, porque, como nos recorda o II Concílio do Vaticano, a unidade começa pela conversão do coração, a viver todos os dias, sempre, nos lugares onde a experiência de fé é mais forte: os meus três filhos são os meus mestres de diálogo, na escuta não apenas das palavras, mas também do que está no coração do próximo.
E terá lugar em Empoli, pela primeira vez, uma oração ecuménica.

23/01/2026

Celebração da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos na Catedral do Porto

Foto: Diocese do Porto
A Catedral do Porto acolheu, na noite de 21 de janeiro, uma celebração ecuménica que reuniu as principais comunidades cristãs da cidade, num forte apelo à unidade e à ação social. Inserida na Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, destacou-se também pela referência pública à Carta ecuménica 2025, um documento estratégico para a cooperação entre as Igrejas, apresentado nacionalmente em Lisboa apenas 24 horas antes pela Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) e pelo Conselho Português de Igrejas Cristãs (COPIC).
A homilia, proferida por D. Jorge Pina Cabral, Bispo da Igreja Lusitana e presidente do COPIC, refletiu sobre base teológica para o compromisso social dos cristãos. Inspirado no tema da liturgia, «Luz da Luz para a Luz» — uma referência direta ao Credo de Niceia-Constantinopla —, D. Jorge Pina Cabral defendeu que, através do «batismo comum», todos os cristãos recebem a missão de «iluminar o mundo» e «providenciar esperança e sentido à vida de outros», especialmente num «mundo conturbado».
Foto: Diocese do Porto
Reforçando a responsabilidade partilhada, o Bispo afirmou: «A nossa responsabilidade, pois, enquanto cristãos, homens e mulheres, que recebemos a Luz de Cristo, aquando do nosso batismo comum, é a de assumirmos a chama divina que está em nós e desse modo iluminarmos o mundo com esta luz que recebemos como dom da fé».
No centro da homilia proferida este a referida Carta ecuménica, valorizada como roteiro prático para a ação conjunta. O documento, cuja nova redação assinala o 1700.º aniversário do primeiro concílio ecuménico em Niceia (325), foi originalmente assinado em Roma pela Conferência das Igrejas Europeias (CEC) e pelo Conselho das Conferências Episcopais da Europa (CCEE), inserindo a iniciativa portuguesa num vasto movimento continental.
Foto: Diocese do Porto
A Carta apela às Igrejas a «trabalhar em prol de uma sociedade humana e socialmente consciente», promovendo «os valores fundamentais da paz, da justiça, da liberdade, da tolerância, da participação e da solidariedade». O documento convoca os cristãos a desenvolverem «uma nova cultura de intervenção", chamados a "intervir publica e profeticamente" e a aliar o discurso a um "agir consequente sustentado nos valores do Evangelho».
Neste contexto, D. Jorge Pina Cabral destacou os desafios que em Portugal assumem «particular importância»: a defesa da dignidade humana e a proteção dos migrantes; a promoção da liberdade de expressão, com a recusa de discursos de ódio e a prevenção da polarização; a valorização do papel dos jovens e a sua integração na sociedade; a promoção da mulher e a defesa das vítimas de violência doméstica; o cuidado pela Criação de Deus e a reflorestação das áreas ardidas; a promoção do diálogo inter-religioso como fator de integração.
Demonstrando o compromisso local com estas diretrizes, foi também apresentado o Roteiro Ecuménico de Oração para a cidade do Porto para o ano de 2026. Este roteiro apresenta propostas concretas para encontros, oração e cooperação prática entre as diferentes comunidades da cidade, assegurando que a celebração marca o ponto de partida para um ano de colaboração ativa e testemunho comum.
A Comissão Ecuménica do Porto foi o organismo que organizou a celebração e e que impulsiona o diálogo e cooperação entre as Igrejas Cristãs na cidade. É constituída por representantes da Igreja Católica, da Igreja Lusitana de Comunhão Anglicana, da Igreja Anglicana, da Igreja Metodista, da Igreja Evangélica Luterana Alemã do Porto, da Igreja Ortodoxa do Patriarcado de Moscovo e da Igreja Ortodoxa do Patriarcado de Constantinopla.


Foto: Diocese do Porto



12/01/2026

Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos (18 a 25 de janeiro de 2026)

«Há um só corpo e um só espírito, assim como fostes chamados a uma só esperança - a da vossa vocação»
(Efésios 4,4)

Texto bíblico: Efésios 4,1-13

Neste ano, as orações e reflexões que serão utilizadas durante a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos foram preparadas pelos fiéis da Igreja apostólica arménia, em colaboração com os seus irmãos e irmãs das Igrejas arménias católicas e evangélicas. O material foi preparado, redigido e discutido na sede espiritual e administrativa histórica da Igreja apostólica arménia, a Santa Sé de Etchmiadzin, na Arménia, nos dias inspiradores da bênção do Muron (óleo santo) e da reconsagração da Catedral-Mãe, que ocorreu a 28 e 29 de setembro de 2024, após uma extensa obra de restauração que durou dez anos. Esta comemoração ofereceu ao povo arménio e aos membros do Grupo ecuménico local uma oportunidade única para refletir e celebrar a fé cristã comum, que permanece sempre viva e fecunda nas nossas igrejas. O material proposto inspira-se em tradições seculares de oração e invocações, sempre utilizadas pelo povo arménio, juntamente com hinos nascidos nos antigos mosteiros e igrejas da Arménia, alguns dos quais remontam ao século IV. A Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos de 2026 convida os fiéis a recorrerem a este património cristão comum e a aprofundarem a comunhão em Cristo, que une os cristãos de todo o mundo.
Mais do que um simples ideal, a unidade é um mandato divino, central para a nossa identidade cristã. Ela representa a essência do chamamento da Igreja, um chamamento a refletir a unidade harmoniosa da nossa vida em Cristo, ainda que na nossa diversidade. Esta unidade divina está no centro da nossa missão e é sustentada pelo profundo amor de Jesus Cristo, que nos colocou diante de um objetivo comum. Como afirma o apóstolo Paulo na Carta aos Efésios, «Há um só corpo e um só Espírito, assim como fostes chamados a uma só esperança» (4,4). Este versículo bíblico, escolhido para este ano, resume a profundidade teológica da unidade cristã.
Nas Sagradas Escrituras, o apelo de Deus à unidade emerge desde os tempos mais remotos. A partir do Antigo Testamento, a súplica de Abraão a Lot evidencia o desejo divino de paz e harmonia entre os fiéis: «Somos como irmãos e, portanto, não deve haver disputas entre mim e ti, nem entre os meus pastores e os teus» (Génesis 13,8). Apesar de os seus caminhos acabarem por se separar, o apelo de Abraão à harmonia e ao respeito mútuo sublinha a importância de viver em paz. Este mandamento divino é reafirmado em Levítico 19,18, onde Deus adverte: «Não vos vingueis nem guardai rancor contra os membros do vosso povo. Cada um de vós deve amar o seu próximo como a si mesmo. Eu sou o Senhor». Estes mandamentos recordam-nos que o perdão e o amor são fundamentais para manter a unidade no seio da comunidade de fé.
Os Salmos celebram a beleza da unidade entre os membros do povo de Deus, declarando: «Vê como é bom e agradável que os irmãos vivam juntos» (Salmo 133 (132),1). Esta imagem sublinha a importância de que a unidade se reveste no desígnio de Deus para o seu povo. Os Provérbios, por sua vez, alertam contra a discórdia que se fomenta dentro do povo de Deus, afirmando que Deus despreza aqueles que semeiam discórdia entre irmãos e irmãs (cf. Provérbios 6, 19), ensinando, em vez disso, que a paciência e o perdão são essenciais para manter a harmonia (cf. Provérbios 19,11).
No Novo Testamento, Jesus Cristo eleva o conceito de unidade a uma dimensão espiritual, refletindo aqui a profunda relação entre ele e o Pai. A unidade entre os seus seguidores não é simplesmente a ausência de conflitos, mas um vínculo espiritual profundo que reflete a unidade da Santíssima Trindade. A oração de Jesus em João 17,21, pede aos crentes que sejam um como ele e o Pai são um, demonstrando que a nossa unidade assenta na nossa relação com Cristo e na nossa missão coletiva de partilhar a Boa Nova. O mandamento principal de Jesus, que é amar uns aos outros como ele nos amou (João 13,34-35), sublinha como este amor é a essência da nossa unidade. Este amor sacrificial e desinteressado representa tanto o vínculo que mantém unida a nossa comunidade como o principal testemunho do nosso discipulado. A oração de Jesus para manifestarmos a nossa unidade ao mundo (João 17, 23) é um testamento perene enraizado na sua missão divina.
Os apóstolos retomam este tema nos seus ensinamentos. As epístolas de Paulo sublinham a importância da unidade dentro da Igreja, exortando-nos a viver de forma digna da nossa vocação, com humildade, cordialidade, paciência e tolerância amorosa (Efésios 4,1-3). A visão da unidade que Paulo propõe na Carta aos Romanos, 12, 6, mostra a variedade dos dons que constituem o corpo de Cristo. O seu apelo a tecer relações harmoniosas, na segunda Carta aos Coríntios, 13,11, e na Carta aos Filipenses 2,1-2, convida os crentes a abraçarem uma única mente e um único espírito no seu compromisso para com Cristo, reafirmando assim o mandato divino à unidade, reconhecendo, ao mesmo tempo, a nossa diversidade.
Na Carta aos Efésios 4,4, encontram-se sintetizados os ensinamentos de Paulo sobre a unidade, quando ressalta mais uma vez que os seguidores de Cristo manifestam que «há um só corpo e um só Espírito», unidos numa única esperança. Esta metáfora indica a Igreja como uma entidade unificada que transcende as barreiras de qualquer geografia, nacionalidade, etnia e tradição. Paulo usa a metáfora da Igreja como Corpo de Cristo para descrever a sua unidade, dada pela diversidade dos seus membros. Ele escreve aos Coríntios: «Cristo é como um corpo que tem muitas partes. Todas as partes, mesmo sendo muitas, formam um único corpo» (1 Coríntios 12,12). Com os Colossenses, Paulo reflete sobre o papel de Cristo como cabeça do Corpo, unificado a partir de diferentes membros, afirmando: «Ele é também a cabeça desse corpo que é a Igreja» (Colossenses 1,18). Portanto, embora seja composta por muitas partes, a Igreja funciona como um todo coeso. Cada um dos seus membros tem um papel único e contribui para a vida e a missão geral da Igreja. Reconhecer que fazemos parte de um único corpo universal em Cristo incentiva a colaboração global na difusão do seu Evangelho e no serviço à humanidade, desviando a atenção das divisões internas para uma missão comum. Em contrapartida, limitar o mandato do Senhor de ir ao mundo e fazer discípulos de todos os povos (Mateus 28,19) a uma comunidade definida por fronteiras étnicas, geográficas ou socioeconómicas privá-la-ia de um dos fundamentos essenciais da Igreja, tal como estabelecido pelo Senhor: a unidade dos seus seguidores em todo o mundo.
O conceito de «um só corpo» de Efésios 4,4 também destaca a natureza da Igreja. O cristianismo transcende as fronteiras culturais e nacionais, unindo os crentes de todo o mundo na fé e na esperança. Essa comunhão, conforme é descrita em Apocalipse 7,9, onde cada cultura, tribo, povo e língua encontra a sua própria representação, dá força e encorajamento aos crentes, reafirmando a sua ligação dentro do Corpo de Cristo.
Ao salientar a importância da unidade dos cristãos, Paulo acrescenta que «há um só Espírito», referindo-se ao Espírito Santo que sustenta esta comunhão e dá à Igreja o poder de cumprir a sua missão. Para os crentes, o Espírito Santo é fonte de vida e orientação espiritual e é responsável por garantir que os diferentes membros da Igreja estão unidos na fé e no seu objetivo comum. O Espírito suscita uma profunda afinidade espiritual entre os crentes, transcendendo as diferenças e criando um vínculo que reflete a unidade da Santíssima Trindade. Este vínculo espiritual partilhado é o fundamento da reconciliação, guia os crentes e fornece-lhes, a nível global, os instrumentos necessários para levar por diante um testemunho e um ministério eficazes. Isto contribui para harmonizar as diferentes expressões de fé com a missão fundamental da Igreja.
A doutrina sobre a unidade da Igreja é ainda ulteriormente ampliada pelo apóstolo na Carta aos Efésios 4,4, quando afirma que todos os cristãos são chamados à única esperança da salvação e da vida eterna. Afirmar que «uma só é a esperança» significa proclamar que todos os crentes tendem para o mesmo objetivo: a vida eterna em Cristo.
Este é o objetivo último e a motivação da vida cristã, que fornece uma visão e um objetivo comum a todos os crentes, unindo-os no caminho da fé e na vida quotidiana. Esta visão partilhada supera as divisões confessionais e culturais, encorajando os cristãos a colaborar de todas as formas possíveis. Fazer da esperança partilhada o objetivo da nossa vocação de cristãos define a nossa pertença à Igreja em termos de comunhão mundial, na esperança da salvação e da vida eterna.
Num mundo com tradições e expressões de fé cristã diferentes entre si e muitas vezes contrastantes, o versículo 4,4 da Carta aos Efésios lembra-nos que todos os crentes fazem parte do único Corpo de Cristo. Esta unidade não tem a ver com uniformidade, mas com um compromisso comum de respeitar e partilhar as verdades fundamentais da fé cristã. Portanto, a unidade surge como um testemunho vigoroso da força transformadora do Espírito Santo, no momento em que cristãos de diversas proveniências se unem com autenticidade e sinceridade para alcançar um objetivo e uma visão partilhados.
A Igreja apostólica arménia, através das suas práticas e ensinamentos, propõe uma reflexão profunda sobre a essência da unidade dentro do Corpo de Cristo, entendida não apenas como simples conceito, mas como realidade viva e pulsante. Ao recitar o Credo, os fiéis declaram acreditar numa «Igreja santa, católica e apostólica», professando assim a centralidade desta unidade na sua vida espiritual. Este compromisso com a unidade encontra a sua máxima expressão nas celebrações eucarísticas da Igreja, onde as orações da comunidade não têm como únicos destinatários os cristãos de todo o mundo e os seus líderes espirituais, mas também a unidade da própria Igreja. Todos os domingos, durante a liturgia, os fiéis abraçam-se uns aos outros e cantam: «A Igreja tornou-se uma», manifestação tangível da sua fé coletiva e do objetivo comum que os une. A longa história da Igreja arménia e dos seus líderes, marcada pela presença de numerosos mártires, é um testemunho claro do compromisso inabalável dos arménios e da sua capacidade de preservar a fé cristã na terra da Arménia e na região circundante. A unidade no seio da Igreja deve transcender a afirmação doutrinal; na verdade, trata-se de uma experiência vivida que aprofunda a identidade espiritual dos fiéis e reforça o seu testemunho coletivo. Ao abraçar e viver essa unidade, a Igreja apostólica arménia não só honra as suas tradições sagradas, mas também contribui significativamente para uma unidade maior da Igreja de Cristo. Esta reflexão convida-nos a reconhecer e abraçar o poder transformador da unidade, tanto no seio das nossas comunidades de fé como na Igreja em geral.
A maturidade espiritual implica a aceitação das nossas diferenças e a busca da unidade, a ser praticada com o mesmo vigor que dedicamos à busca da precisão doutrinal. A nossa força reside na capacidade de refletir Cristo na nossa unidade, mostrando ao mundo o seu amor e a sua graça. Vivendo este chamamento divino, cumprimos a nossa missão e honramos Cristo, fazendo avançar o seu Reino na terra.
Acolhemos este chamamento divino à unidade, não como um ideal abstrato, mas como uma expressão vital da nossa fé. Num mundo em que o Corpo de Cristo está ferido pelas divisões nas e entre as várias tradições e confissões, o apelo do apóstolo à unidade é dirigido a cada um de nós, não só como comunidades eclesiais distintas, mas também como indivíduos que fazem parte de outras tantas comunidades. Vivendo em unidade, não só testemunhamos o amor e o poder de nosso Senhor Jesus Cristo, mas também encarnamos a essência dos seus ensinamentos. Apoiando-nos mutuamente e celebrando os nossos dons e talentos tão diversos, tornamo-nos reflexo do coração de Cristo e promovemos a sua obra na terra.

Subsídios para a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos e para todo o ano 2026:
  • 21 de janeiro, quarta-feira, na catedral do Porto, às 21.30 horas.