06/08/2026

Tempo da Criação 2026

Todos os anos, de 1 de setembro a de outubro, toda a família cristã se une para esta celebração mundial, rezando e agindo pela proteção da nossa casa comum. É um tempo especial em que celebramos Deus como Criador e reconhecemos a Criação como aquele ato divino contínuo que nos convoca, como colaboradores e colaboradoras, a amar o dom de toda a criação e cuidar dela. Como seguidores e seguidoras de Cristo em todo o mundo, compartilhamos um chamamento comum para cuidar da Criação. Somos cocriaturas e parte de tudo o que Deus fez. O nosso bem-estar está intrinsecamente ligado ao bem-estar da Terra. Alegramo-nos com esta oportunidade de preservar a nossa casa comum e todos os seres que a partilham conosco. Este ano, o tema do Tempo da Criação é «Água Viva».

Tema


1. Texto, tema e símbolo

«Em toda parte aonde chegar a corrente, todo animal que se move na água poderá viver, e haverá lá grande quantidade de peixes. Tudo o que essa água atingir se tornará são e saudável e em toda parte aonde chegar a torrente haverá vida. [...] Ao longo da torrente, em cada uma de suas margens, crescerão árvores frutíferas de toda espécie, a sua folhagem não murchará e não cessarão jamais de dar frutos: todos os meses frutos novos, porque essas águas vêm do santuário. Os seus frutos serão comestíveis e suas folhas servirão de remédio» (Ez 47,9.12).
O tema deste ano, «Água Viva», baseia-se na passagem de Ezequiel 47, 9-12, uma visão bíblica muito potente de esperança e da cura ecológica. Num contexto de exílio e perda, a imagem da água viva a fluir do santuário de Deus revela a cura divina que renova a terra, a água, a biodiversidade e a responsabilidade humana para com toda a criação.
O símbolo retrata a água a fluir do Templo de Deus: inicialmente um pequeno fio de água que se aprofunda cada vez mais, trazendo vida a áreas áridas e restaurando a fertilidade de ecossistemas danificados ou estéreis. Através da água viva vem a cura; mas para recebermos a nova vida, também precisamos entrar na água e nos tornarmos parte do rio da vida de Deus, participando da cura da criação.

2. Contexto histórico de Ezequiel 47,9.12

O contexto deste texto é de catástrofe política, social, teológica e nacional. Jerusalém foi destruída pelos exércitos da Babilónia. O Templo de Salomão foi arrasado. Muitos israelitas foram levados para o exílio na Babilónia, para longe de sua terra natal. Junto aos rios da Babilónia, eles choraram e se lamentaram (cf. Sl 137).
O Livro de Ezequiel situa-se durante o exílio babilónico (Ez 1,1), após a queda de Jerusalém no início do século VI a.C. Ezequiel, um sacerdote, está entre os exilados e Deus institui-o como profeta (Ez 3; 33,1-9).
Inicialmente, sua mensagem está centrada no julgamento de Deus contra a idolatria e a injustiça de Israel, interpretando a queda de Jerusalém e a destruição do Templo como um julgamento divino executado por meio dos exércitos babilónicos (Ez 7–10; 21). Contudo, a mensagem de Ezequiel não termina no julgamento: Deus não abandonou o seu povo. O profeta proclama que a soberania de Deus não se limita ao Templo, que Ele permanece presente com os exilados e que há uma promessa de restauração. É muito interessante o facto de o Templo estar no centro de sua visão de renovação (Ez 40–47). Embora tenha sido profanado e destruído, ele agora transforma-se em um símbolo de bênção, de cura e da presença de Deus em toda a criação. O maravilhoso rio descrito em Ezequiel 47 personifica essa futura renovação: quando o Senhor habitar novamente no meio do seu povo, a própria terra será restaurada.

3. Panorama teológico geral: Ezequiel 47,1-12

Do capítulo 40 ao 46, Ezequiel descreve a construção de um novo templo no deserto. Esse novo templo é impressionante, mas vazio e sem vida. Somente no capítulo 47 é que a vida finalmente surge.
Neste trecho, o profeta é levado numa visão à entrada de um templo. Do subsolo do seu limiar flui água, que começa gotejando e vai se tornando um rio cada vez mais profundo; aliás, fundo demais para ser atravessado. Este rio atravessa terras antes áridas e agora cheias de peixes, transformando desertos em deltas férteis, restaurando a vegetação e até mesmo curando as águas salgadas do Mar Morto. O verbo hebraico šûb (“retornar”) pode ser imaginado espacialmente como um ponto de viragem, comparável a um local ao longo do Rio Jordão onde os peixes podiam retornar antes de serem levados para as águas sem vida do Mar Morto. Esta noção também tem um profundo significado teológico de conversão. A imagem é vibrante e dinâmica, e ainda assim o seu significado ecológico muitas vezes fica ofuscado por
interpretações puramente metafóricas.
Em muitas tradições cristãs, Ezequiel 47 tem sido interpretado principalmente como uma promessa escatológica futura: uma descrição da era messiânica, quando Deus habitar plenamente com o seu povo e renovar todas as coisas. A visão do profeta, contudo, também se refere à cura no presente, além de
prever uma restauração cósmica mais ampla. O Rio da Vida representa uma renovação que se estende para além da salvação humana, incluindo a cura da própria criação. As árvores cujas folhas «servem para a cura» sugerem não apenas o sustento físico, mas um florescimento holístico, abrangendo tanto a
humanidade quanto a criação. Ezequiel 47,1-12 contém uma mensagem ambiental diferenciada que fala de cura global, renovação e transformação da vida, da interdependência entre a humanidade e o mundo natural, e da esperança através da ação no cuidado da Terra, a nossa casa comum.

3.1. Água Viva: A água como vida

A visão de Ezequiel redefine a água – o elemento mais básico da vida – como um agente divino de renovação, justiça e esperança, uma força vital que flui do santuário de Deus. Na época de Ezequiel, a água era um símbolo da presença e da bênção divinas. Grandes civilizações dependiam de rios caudalosos como, por exemplo, o Nilo, mas também como o Eufrates e o Tigre, dois dos rios que irrigavam o Jardim do Éden (cf. Gn 2,10). As águas dos oceanos também estão repletas de vida.
A visão começa com um pequeno fio de água, gotas que fluem do local de oração e sacrifício. De um pequeno riacho, ele cresce até se tornar um rio imparável – a primeira maravilha. O rio cresce à medida que flui do Templo, alimentado pela adoração e pelas orações do povo de Deus.
Mas a segunda maravilha é ainda maior. O rio não só sustenta a vida, como restaura ecossistemas inteiros. O profeta vê que «à beira da torrente, havia numerosas árvores, dos dois lados. [...] Esta água vai para o distrito oriental e desce para a Arabá; ela penetra no mar; e quando entra no mar, o mar de águas estagnadas, a água tona-se doce» (Ez 47,7-8). Ao descrever como o rio deságua no «mar de águas estagnadas», refere-se ao Mar Morto, um dos lugares mais áridos da sua região. Tão poderosa é a água deste rio que as águas salgadas tornar-se-ão doces e repletas de vida.

3.2. Do sacrifício no templo à água da vida de Deus

A visão de Ezequiel reconfigura decisivamente o significado do Templo. Na tradição cultual de Israel, o santuário era o lugar de sacrifício, onde o sangue, portador da vida, era derramado para a reconciliação. O sangue simbolizava tanto o julgamento quanto a misericórdia, lembrando ao povo que a vida era preciosa e frágil.
Em Ezequiel 47, porém, a imagem dominante já não é o sangue a fluir em direção ao altar, mas a água a jorrar do limiar do Templo. A santidade expressa-se principalmente por meio da abundância geradora. A presença divina não consome a vida: ela liberta-a.
Esta transição do sangue para a água é significativa tanto teologicamente como ecologicamente. O sangue pertence à lógica da sobrevivência no meio da fragilidade; a água pertence à lógica da renovação e do florescimento. Ezequiel não rejeita a teologia sacrificial, mas situa-a num horizonte mais amplo. A
reconciliação com Deus resulta não apenas na restauração do culto, mas também na renovação da terra, na recuperação dos ecossistemas e na abundância da vida. As implicações éticas decorrem naturalmente: se a presença de Deus se manifesta como água que dá vida, o culto autêntico não se pode
limitar à observância ritual. A fidelidade deve ser medida pelo seu impacto em todas as condições que sustentam a vida. O cuidado da criação surge, portanto, como consequência direta de um relacionamento restaurado com Deus.
A esperança de renovação e da cura começa na oração, na adoração e no sacrifício. A pequena gota de esperança nasce na nossa própria vida, no nosso arrependimento e transformação.

4. Uma leitura ecológica de Ezequiel 47,9.12

A afirmação de Ezequiel de que a água doce transformará a água salgada em doce (Ez 47,8-9) é deliberadamente chocante. Ele cita algo ecologicamente impossível a fim de proclamar algo teologicamente decisivo. O profeta não descreve um processo natural: ele anuncia uma inversão divina.
O Mar Morto simbolizava a morte: sem peixes, sem plantas, sem saída – um lugar onde a vida entra e morre. A água salgada representava a esterilidade e o julgamento. Ao declarar que a água doce cura o mar salgado, Ezequiel evoca as imagens do Génesis nas quais Deus cria ordem e vida a partir das águas caóticas.
Trata-se de uma nova criação. Ezequiel poderia ter dito que o rio se desviava do Mar Morto. Em vez disso, o rio entra nele. A questão é teológica: a vida divina flui para dentro de lugares sem esperança. O verbo hebraico utilizado (rafá) significa curar, restaurar, tornar íntegro. A vida não se renova não pela intervenção humana, mas pela ação divina que interage com o mundo criado. A água salgada não se transforma em doce pela intervenção humana, mas pela cura divina. Deus não ignora o lugar da morte: Deus entra nele.
As árvores que dão frutos todos os meses representam uma forma de vida que transcendeu a escassez e os períodos de carência. Tal como o renascimento do Mar Morto, esta imagem é intencionalmente incomum: sinaliza uma criação restaurada, não uma agricultura aprimorada.
As árvores frutíferas são naturalmente sazonais e vulneráveis à seca, às pragas, às guerras e à fome. Ezequiel está a dizer: na ordem restaurada por Deus, a vida é inacreditavelmente abundante. As árvores dão frutos «porque a água flui do santuário». A sua produtividade não depende dos padrões de chuva ou das condições do solo, mas da contínua presença divina.
A imagem evoca deliberadamente o Éden, mas também o supera. O Éden tinha árvores «de aspeto atraente e bom para comer” (Génesis 2,9), enquanto essas árvores futuras terão 12 colheitas por ano! Não é nostalgia, é uma restauração alargada: o Éden foi reaberto.
Mais tarde, o apóstolo João deixa ecoar Ezequiel, apresentando o rio e a Árvore da Vida como visão final da cura cósmica, ecológica e até mesmo política (cf. Ap 22,2).

5. A água entre a crise e a esperança

5.1. A atual crise hídrica

A visão de Ezequiel contrasta fortemente com a realidade da crise hídrica que enfrentamos. De acordo com as Nações Unidas e conforme publicado na ONU News, 1,7 mil milhões de pessoas não têm acesso a serviços básicos de higiene em casa, e 2,1 mil milhões de pessoas ainda não têm acesso à água potável segura. Isso representa uma em cada quatro pessoas no mundo!
Com a intensificação das mudanças climáticas e o aumento da extração de águas subterrâneas, vários países estão agora a atingir o chamado “ponto de falência hídrica” (UNU), ou seja, uma condição marcada por perdas irreversíveis de capital hídrico natural.
Embora o acesso à água seja um direito humano para todos, a crise hídrica multifacetada afeta desproporcionalmente as comunidades vulneráveis, as futuras gerações e a vida não humana que não tem voz nos sistemas políticos ou económicos. Estes são alguns dos muitos desafios:
  • Inacessibilidade da água para os pobres.
  • Impacto na saúde das doenças transmitidas pela água.
  • Impacto do lançamento industrial de produtos químicos e outros poluentes nos rios.
  • Aumento do consumo de água impulsionado pelos data centers e pela produção da energia necessária para nossas atividades digitais, incluindo o uso da inteligência artificial.
  • Má gestão e corrupção por parte de empresas e governos.
  • Impacto das secas, inundações, tempestades e desertificação na segurança alimentar.
  • Salinização do solo devido à elevação do nível do mar ou à super-exploração dos aquíferos.
  • Violência resultante da competição por recursos hídricos escassos.
Esses muitos problemas estão a levar à migração e empurrando pessoas para o exílio, com a perda de lares e culturas.
O impacto nos ecossistemas e na biodiversidade é devastador: de acordo com o WWF, estamos a enfrentar declínios catastróficos na vida selvagem aquática, com as populações de água doce a cair impressionantes 85%, e as populações marinhas com uma redução de 56% nos últimos 50 anos (WWF).
De uma perspectiva teológica, esta crise reflete relações rompidas entre a humanidade e Deus, no seio da própria família humana e entre os seres humanos e outros seres vivos. Além disso, é de suma importância ressaltar que a poluição da água tem implicações relacionadas com a justiça social e a
equidade.

5.2. A esperança que vem da fé e da ação

A visão de Ezequiel é, em última análise, uma visão de esperança. Como colaboradores do Criador, os cristãos devem estabelecer com a criação não humana um relacionamento fundamentado na visão bíblica da criação como uma comunidade de vida interligada (cf. Gn 9,8-17; Os 2,18; Sl 24,1). A nossa relação é a de uma parceria sagrada e cuidado mútuo, não de dominação. O Papa Francisco descreveu isso como «uma relação de reciprocidade responsável entre o ser humano e a natureza», rejeitando o antropocentrismo excessivo ou tirânico (Laudato Si’ 67, 68, 116).
Os cristãos e cristãs são chamados a confrontar as injustiças mencionadas e a rejeitar uma visão de mundo que trata a água como um recurso descartável. Por exemplo, nos últimos 20 anos, a Rede Ecuménica da Água do Conselho Mundial de Igrejas (EWN, na sigla em inglês) promove a preservação, gestão responsável e distribuição equitativa da água para todos, partindo do princípio de que a água é um dom de Deus e o acesso à água potável é um direito humano fundamental.
Em todos os continentes os cristãos, inspirados pela nossa fé, estão a agir: os rios são regenerados, as fontes de água têm sido protegidas da poluição e das indústrias extrativistas, e as terras áridas estão a voltar a ficar verdes. Escavam-se poços e fornece-se água a paróquias, aldeias e centros de saúde.

6. Imersão em Água Viva: Arrependimento e cura

As Escrituras várias vezes associam a água à cura e renovação divinas: Naamã a mergulhar no rio Jordão (cf. 2 Rs 5) e a cura da pessoa com deficiência que esperava junto a uma piscina (cf. Jo 5). O próprio Ezequiel vai entrando cada vez mais fundo no rio, prefigurando a imagem do batismo e simbolizando a transformação.
Entrar no rio lembra-nos o batismo. Na Igreja primitiva, grandes pias batismais eram frequentemente usadas para imersão, e o acesso a elas era feito por degraus, refletindo a progressividade da visão de Ezequiel (Ez 47:3-6).
Num trecho anterior do livro de Ezequiel, Deus promete purificação, um coração novo e um espírito novo precisamente por meio da água (Ez 36,25-27). Isso recorda-nos a água e o sangue que jorraram do lado de Jesus para a cura (Jo 19,34). Como pessoas de fé, temos a promessa de que, se recebermos e aceitarmos a água do Templo – isto é, a cura de Deus – então «rios de água viva» também fluirão do nosso coração – ou ventre, como diz o grego (Jo 7,38)! À medida que somos curados e renovados, a água viva também fluirá de nós para a cura de outras pessoas e da criação.

7. Apelo à ação

O nosso Pai chama-nos a aceitar o Seu amor (1 Jo 4,19). Acolher esse amor como filhos e filhas, através de uma conversão contínua da mente e do coração, é um apelo para toda a nossa vida. Se escolhermos entrar na verdadeira água viva, podemos contribuir para um mundo mais justo e cheio de vida para toda a família humana, bem como para a criação não humana.
Segurança alimentar: A profecia de Ezequiel fala de árvores que «dão frutos frescos todos os meses» (Ez 47,12). O nosso apela dirige-se a elaborar e influenciar as nossas políticas e práticas para que todas as pessoas tenham acesso a alimentos nutritivos e seguros, e os frutos da biodiversidade sejam compartilhados equitativamente. As igrejas também podem promover projetos de arborização que reflitam os valores cristãos nos seus próprios terrenos e/ou capacitar os seus membros para que tenham as capacidades necessárias para cultivar parte de seus próprios alimentos.
Poluição da água: O convite que nos é dirigido é tanto para não poluir quanto para denunciar a poluição prejudicial, ao mesmo tempo que exigimos que governos, autoridades locais, indústria e agricultura ajam com responsabilidade e protejam as fontes de água.
Água e saneamento: Muitos dos nossos irmãos e irmãs ainda não têm acesso regular à água potável e ao saneamento básico. Portanto, devemos agir para que residências, escolas, unidades de saúde e locais de culto – incluindo igrejas e paróquias – tenham acesso a água limpa e saneamento adequado.
Educação ambiental: Pais, mães, catequistas, clérigos e comunidades de fé são, portanto, chamados a promover um cuidado holístico com a criação humana e não humana, baseando-se não apenas no conhecimento técnico, mas também nos relacionamentos, na ética e na formação espiritual.
Buscando inspiração espiritual na Criação: Por meio da contemplação do mundo natural criado por Deus (Jó 7–12), Ele convida-nos a passar do domínio à humildade, da exploração ao cuidado e do lucro a curto prazo à prosperidade a longo prazo. Essa transformação é tanto espiritual como prática, exigindo uma revisão de valores, sistemas económicos e prioridades educacionais.
Cultivo de árvores: Muitas igrejas associam agora o plantio de árvores a momentos importantes da fé, como batismo, confirmação e funerais. Que o cultivo de árvores se torne parte integrante da nossa vida espiritual. As árvores absorvem a poluição por carbono, evitam a erosão, reduzem as inundações, fornecem alimento e remédios e refrescam os ambientes urbanos. Elas realmente trazem cura às nações.
Cuidado dos nossos oceanos:  O nosso “pulmão azul” enfrenta ameaças crescentes devido ao descarte de resíduos, à pesca excessiva, à poluição e à mineração em águas profundas. A vida e a biodiversidade sob as ondas não devem ser tratadas como algo que ocorre longe dos olhos e do coração. Que a comunidade educativa ajude as nossas comunidades a reconhecer e valorizar esses mundos marinhos. Que as lideranças governamentais ajam com coragem para proteger os biomas e meios de subsistência marinhos. E que possamos escolher uma gestão que mantenha o nosso "pulmão azul" a respirar por gerações.
Recuperação e proteção dos ecossistemas e da biodiversidade: O nosso apelo dirige-se a restaurar a terra em nossas igrejas, lares e comunidades. Há muitas iniciativas em que podemos participar: uma Década da Justiça Climática foi declarada tanto pelo Conselho Mundial das Igrejas Reformadas quanto pelo Conselho Mundial de Igrejas. Existem plataformas online, como a Plataforma de Ação Laudato Si’, a Floresta da Comunhão Anglicana e programas nacionais, como a Église verte (“Igreja verde” em francês) e a Eco Igreja – A Rocha Internacional.
Superemos o medo e mergulhemos nas águas do amor de Deus para fazermos parte do Rio da Transformação do mundo e testemunharmos a cura e a renovação literais da criação e a bênção da Terra.

Símbolo


O nosso símbolo para 2026 – Imersão em Água Viva – é um símbolo de renovação e nascimento: é a água que flui do Templo como sinal do cuidado e da cura de Deus para nós. Ele nos convida a entrar na água até estarmos tão imersos que precisemos de depender da Sua graça para nos sustentarmos. As pessoas que recebem esta água são convidadas a tornarem-se fontes de vida para as outras, permitindo que o amor de Deus flua através delas para o mundo. E assim a água de Deus tornar-se-á em nós «uma fonte de água que jorra para a vida eterna», como Jesus prometeu (Jo 4,14).
O Símbolo convida os cristãos a uma imersão espiritual, a rezar juntos enquanto contemplam a água dos rios, nascentes, fontes, pias batismais, lagos e do mar, inspirados pelo Espírito de Deus e trabalhando juntos pela renovação da Criação.
Este símbolo também nos convida a mergulhar nas «lágrimas» da criação (Rm 8,22-23), permitindo que o nosso coração seja tocado pelo sofrimento dos nossos irmãos e irmãs. De fato, o Tempo da Criação é também um tempo apropriado para a proximidade fraterna e a solidariedade com os vulneráveis e os pobres, principalmente aqueles que sofrem com a degradação ambiental. Podemos aprender com as suas histórias, a sua resiliência e o seu compromisso e, juntos, mantermos viva a esperança.

Oração


Deus Santo, cujo Espírito pairava sobre as águas no princípio, reunimo-nos como parte de toda a criação, que é a tua comunidade, sedentos da tua graça. Nós te damos graças pelo dom da água, veias da nossa casa comum, que sustenta o cedro e a baleia, o pasto e a cidade. Nós te agradecemos pelas águas locais que nutrem as nossas terras e os nossos semelhantes. Nós te damos graças porque, no teu jardim bem regado, cada gota é um testemunho sagrado do teu amor.
Contudo, confessamos que tratámos este dom como mera mercadoria. Sufocámos os mares com os nossos resíduos e assistimos às marés mais quentes a subirem como julgamentos. Choramos pela terra gretada dos atingidos pela seca e pelas lágrimas salgadas dos refugiados climáticos. Derrete os nossos corações congelados, ó Deus, e faz fluir em nós as águas do arrependimento.
Senhor de toda a Vida, prometeste que onde quer que o rio corra, tudo viverá. Desperta em nós o apelo a cuidar das águas: proteger as bacias hidrográficas, defender os direitos da água e honrar a dignidade dos sedentos. Que a tua Palavra seja fonte dentro de nós, jorrando para a cura das nações.
Que Deus nosso Pai, que fez brotar água da rocha, nos sustente no deserto. Cristo, nosso Senhor, que és a Água Viva, revigora-nos para a obra da restauração. E que o Espírito Santo nos leve nas correntes da graça até que a justiça flua como as águas e a retidão como um rio que corre perenemente. Amém.