24/01/2021

Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos - 24 de janeiro de 2021

DIA 7

Crescendo na unidade
«Eu sou a vinha, vós sois os sarmentos» (João 15,5a)

1 Coríntios 1,10-13; 3,21-23 Acaso o Cristo está dividido?
João 17,20-23 Que sejam um como nós somos um.

Meditação
Na véspera de sua morte, Jesus orou pela unidade daqueles que o Pai lhe dera: «que todos sejam um... para que o mundo creia». Unidos a ele, como ramos na videira, partilhamos a mesma seiva que entre nós circula e nos anima. Cada tradição procura levar-nos ao coração da nossa fé: a comunhão com Deus, através de Cristo, no Espírito. Quanto mais vivermos essa comunhão, mais estaremos unidos aos outros cristãos e a toda a humanidade. Paulo adverte-nos contra uma atitude que já havia ameaçado a unidade dos primeiros cristãos: a absolutização da própria tradição de cada um, em detrimento da unidade do corpo de Cristo. As diferenças tornam-se então fonte de divisão em vez de serem mutuamente enriquecedoras. Paulo tem uma visão bem mais ampla; «Tudo é vosso, mas vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus» (1 Cor 3,22-23).
O desejo de Cristo compromete-nos a seguir um caminho de unidade e reconciliação. Também nos compromete a unir a nossa prece à dele: «que sejam um... a fim de que o mundo creia» (Jo 17,21).
«Nunca te conformes com o escândalo da separação dos cristãos que tão prontamente professam o amor ao próximo mas permanecem divididos. Tem a paixão da unidade do corpo de Cristo».
A Regra de Taizé em francês e em inglês (2012), p. 13

Oração
Santo Espírito, chama vivificante e sopro delicado, vinde e permanecei em nós. Renovai em nós a paixão pela unidade para que vivamos conscientes do vínculo que nos une em vós. Que todos os que se revestiram de Cristo no seu Batismo estejam unidos e juntos deem testemunho da esperança que os sustenta.

23/01/2021

Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos 2021 - Celebração Ecuménica Nacional

23 de janeiro de 2021

Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos - 23 de janeiro de 2021

DIA 6

Acolhendo outros
«Ide produzir frutos, frutos que permaneçam» (João 15,16b)

Génesis 18,1-5 Abraão acolheu os anjos no carvalho de Mambré
Marcos 6,30-44 Jesus tem compaixão da multidão

Meditação
Quando nos deixamos transformar por Cristo, o seu amor cresce em nós e produz fruto. Acolher o outro é um modo concreto de partilhar o amor que está em nós. Ao longo da sua vida, Jesus acolheu aqueles que encontrou. Ele ouviu-os e deixou-se tocar por eles sem ter medo do seu sofrimento. No relato evangélico da multiplicação dos pães, Jesus é movido por compaixão ao ver a multidão faminta. Ele sabe que toda a pessoa humana precisa de ser alimentada, e que só ele pode verdadeiramente satisfazer a fome de pão e a sede de vida. Mas ele não deseja fazê-lo sem os seus discípulos, sem aquele pouco que eles lhe podem dar: cinco pães e dois peixes.
Ele chama-nos ainda hoje para sermos colaboradores no seu cuidado incondicional. Não é preciso muito para que todos se sintam acolhidos: um olhar, um ouvido atento, uma presença verdadeira. Quando oferecemos as nossas pobres possibilidades a Jesus, ele multiplica-as de modo surpreendente.
Então experimentamos o que aconteceu com Abraão, porque é dando que recebemos, e quando acolhemos os outros somos abundantemente abençoados.
«É o próprio Cristo que recebemos num hóspede».
A regra de Taizé em francês e inglês (2012), p. 103
«As pessoas que acolhemos dia após dia encontrarão em nós homens e mulheres radiantes em Cristo, nossa paz?».
As fontes de Taizé (2000), p. 60

Oração
Jesus Cristo, queremos acolher plenamente os irmãos e irmãs que estão connosco. Sabeis como frequentemente nos sentimos incapazes diante do seu sofrimento. Sinda assim, estais sempre ali, antes de nós, e já os recebestes na vossa compaixão. «Falai-lhes através das nossas palavras, ajudai-os através das nossas ações, e deixai que a vossa bênção repouse sobre todos nós.

22/01/2021

Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos - 22 de janeiro de 2021

DIA 5

Deixando-se transformar pela Palavra
«Vós já estais purificados pela Palavra» (João 15,3)

Deuteronómio 30,11-20 A palavra de Deus está bem perto de ti
Mateus 5,1-12 Felizes sois vós

Meditação
A Palavra de Deus está muito perto de nós. É uma bênção e uma promessa de felicidade. Se abrimos nossos corações, Deus fala connosco e pacientemente transforma o que está morrendo em nós. Ele remove o que prejudica o real crescimento de vida, exatamente como o vinhateiro poda a videira. Meditando regularmente sobre um texto bíblico, sozinhos ou em grupo, mudamos a nossa atitude de vida. Muitos cristãos oram a partir das bem-aventuranças todos os dias. As bem-aventuranças revelam-nos uma felicidade que está escondida naquilo que está incompleto, uma felicidade que vai além do sofrimento: abençoados são aqueles que, tocados pelo Espírito, não mais retêm suas lágrimas mas deixam-nas escorrer e assim recebem consolação. À medida que descobrem a fonte escondida no seu interior, crescem neles a fome de justiça e a sede de se comprometerem com os outros por um mundo de paz. Somos constantemente chamados a renovar o nosso compromisso com a vida, através dos nossos pensamentos e ações. Há ocasiões em que já experimentamos, aqui e agora, a bênção que será completada no fim dos tempos.
«Ora e trabalha para que Deus venha reinar. Ao longo dos teus dias deixa a Palavra de Deus soprar vida no trabalho e no descanso. Mantém o silêncio interior em todas as coisas para morares em Cristo. Enche-te do espírito das bem-aventuranças: alegria, simplicidade, misericórdia»
Essas palavras são recitadas diariamente
pelas Irmãs da Comunidade de Grandchamp

Oração
Bendito sois vós, Deus nosso Pai, pelo dom de vossa Palavra na Sagrada Escritura. Bendito sois pelo vosso poder transformador. Ajudai-nos a escolher a vida e guiai-nos com o vosso Espírito, para experimentarmos a felicidade que quereis tanto partilhar connosco.

21/01/2021

Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos - 21 de janeiro de 2021

DIA 4

Orando juntos
«Já não vos chamo servos... chamo-vos amigos» (João 15,15)

Romanos 8,26-27 O espírito vem em socorro da nossa fraqueza
Lucas 11,1-4 Senhor, ensina-nos a rezar

Meditação
Deus tem sede de relacionamento connosco. Ele busca-nos como buscou Adão, chamando-o no jardim: «Onde estás?» (Gênesis 3,9) Em Cristo, Deus vem encontrar-nos. Jesus viveu em oração, intimamente unido a seu Pai, enquanto ia criando amizades com os seus discípulos e com todos os que encontrava. Ele introduziu-os no que era mais precioso para ele: o relacionamento de amor com o seu Pai e nosso Pai. Jesus e os seus discípulos cantavam salmos juntos, enraizados na riqueza da sua tradição judaica. Em outras ocasiões Jesus retirava-se para orar sozinho. A oração pode ser solitária ou partilhada com outros. Pode expressar sensação de maravilha, queixa, intercessão, agradecimento ou simples silêncio. Às vezes o desejo de orar está presente, mas a pessoa sente que não é capaz de o fazer. Dirigindo-nos a Jesus e dizendo-lhe «ensina-me», podemos preparar o caminho. O nosso próprio desejo já é uma oração. Rezando com cristãos de outras tradições, podemos surpreender-nos, sentindo-nos unidos por um vínculo de amizade que vem daquele que está para além de qualquer divisão. As formas podem variar, mas é o mesmo Espírito que nos faz estar juntos.
«Na regularidade da nossa oração comum, o amor de Jesus desponta dentro de nós, não sabemos como. A prece comum não nos dispensa da prece pessoal. Uma sustenta a outra. Em cada dia, reservemos um tempo para renovar a nossa intimidade pessoal com Jesus Cristo».
A regra de Taizé em francês e inglês
Sociedade para a Promoção de Conhecimento Cristão, Grã Bretanha, pp 19. & 21

Oração
Senhor Jesus, toda a vossa vida foi oração, perfeita harmonia com o Pai. Através de vosso Espírito, ensinai-nos a orar de acordo com o vosso desejo de amor. Que os fiéis do mundo inteiro se unam em intercessão e louvor, e venha o vosso Reino de amor.

20/01/2021

Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos - 20 de janeiro de 2021

DIA 3

Formando um corpo
«Amai-vos uns aos outros como eu vos amei» (João 15,12b)

Colossenses 3,12-17 Revesti-vos de compaixão
João 13,1-15; 34-35 Amai-vos uns aos outros

Meditação
Na véspera da sua morte, Jesus ajoelhou-se para lavar os pés dos discípulos. Ele conhecia a dificuldade de viverem juntos e a importância do perdão e do serviço mútuo. E disse a Pedro: «Se eu não te lavar, não poderás ter parte comigo». Pedro recebeu Jesus a seus pés; ele foi lavado e tocado pela humildade e delicadeza de Cristo. Mais tarde, ele seguiria o exemplo de Jesus e prestaria serviço aos companheiros fiéis da Igreja nascente. Jesus deseja que vida e amor circulem através de nós como a seiva na vinha, para que as comunidades cristãs sejam um só corpo. Mas, hoje como no passado, não é fácil viver juntos. Somos frequentemente colocados diante de nossas limitações. Às vezes falhamos deixando de amar aqueles que estão perto de nós numa comunidade, paróquia ou família. Há situações em que os nossos relacionamentos se rompem completamente. Em Cristo somos convidados a revestirmo-nos de compaixão, em incontáveis recomeços. O reconhecimento de sermos amados por Deus move-nos a acolhermo-nos uns aos outros com as nossas forças e fraquezas. É então que Cristo está no nosso meio.
«Com quase nada, és um criador de reconciliação nessa comunhão de amor, que é o Corpo de Cristo, a sua Igreja? Sustentado por um momento partilhado, alegra-te! Já não estás sozinho. Em todas as coisas estás a avançar junto com os teus irmãos e irmãs. Com eles, és chamado a viver a parábola da comunidade».
As fontes de Taizé (2000), pp. 48-49

Oração
Deus, nosso Pai, revelais-nos o vosso amor, através de Cristo e através dos nossos irmãos e irmãs. Abri os nossos corações para nos acolhermos uns aos outros com as nossas diferenças e vivermos em clima de perdão. Fazei-nos viver unidos num só corpo, para que venha à luz o dom que é cada pessoa. Que juntos possamos todos ser um reflexo de Cristo vivo.

19/01/2021

Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos - 19 de janeiro de 2021

DIA 2

Amadurecendo internamente
«Permanecei em mim como eu permaneço em vós”»(João 15,4a)

Efésios 3,14-21 Cristo habite em vossos corações
Lucas 2,41-52 Maria guardava esses acontecimentos em seu coração

Meditação
O encontro com Jesus desperta o desejo de ficar com ele e permanecer nele: um tempo para o fruto amadurecer. Sendo totalmente humano como nós, Jesus cresceu e amadureceu. Ele viveu uma vida simples, enraizada nas práticas da fé judaica. Na sua vida oculta em Nazaré, onde aparentemente nada de extraordinário aconteceu, a presença do Pai alimentou-o. Maria contemplava as ações de Deus na sua vida e na de seu Filho. Ela valorizava todas essas coisas em seu coração. Assim, aos poucos, ela abraçou o mistério de Jesus. Nós também precisamos de um longo período de maturação, uma vida inteira, para poder mergulhar nas profundidades do amor de Cristo, para deixar que ele permaneça em nós e nós permaneçamos nele. Sem sabermos como, o Espírito faz Cristo morar em nossos corações. E é através da oração, escutando a palavra, partilhando com outros, pondo em prática o que temos compreendido que nosso ser interior é fortalecido.
«Deixando Cristo descer às profundidades do nosso ser... Ele penetrará as regiões da mente e do coração, ele atingirá nossa carne até ao nosso mais profundo ser, para que nós também experimentemos um dia as profundidades da misericórdia».
As fontes de Taizé (2000), p. 134

Oração
Santo Espírito, possamos receber em nossos corações a presença de Cristo e valorizá-la como um segredo de amor. Alimentai a nossa prece, iluminai a nossa leitura da Escritura, agi através de nós, para que os frutos dos vossos dons possam pacientemente crescer em nós.

18/01/2021

Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos - 18 de janeiro de 2021

DIA 1

Chamados por Deus
«Vós não me escolhestes, mas eu vos escolhi» (João 15,16a)


Génesis 12,1-4 O chamamento de Abraão
João 1, 3-51 O chamamento dos primeiros discípulos

Meditação
O começo da jornada é um encontro entre o ser humano e Deus, entre a criatura e o Criador, entre o tempo e a eternidade. Abraão ouviu o chamamento: «Vai para a terra que eu te mostrarei». Como Abraão, somos chamados a deixar o que é familiar e ir para o lugar que Deus tem preparado no mais profundo do nosso coração. Nessa caminhada, tornamo-nos cada vez mais nós mesmos, o povo que Deus queria que fôssemos desde o começo. Atendendo a esse chamamento que nos foi dirigido, tornamo-nos uma bênção para os que amamos, para o nosso próximo e para o mundo. O amor de Deus procura-nos. Deus tornou-se humano em Jesus. Nele encontramos o olhar persistente de Deus. Nas nossas vidas, como no Evangelho de João, o chamamento de Deus é ouvido de diferentes maneiras. Tocados pelo seu amor, seguimos em frente. Nesse encontro, caminhamos por um caminho de transformação - o brilhante começo de um relacionamento de amor que sempre se renova.
«Um dia compreendeste que, sem estares ciente disso, um sim tinha sido inscrito em teu mais profundo interior. E assim escolheste ir adiante nas pegadas de Cristo... Em silêncio na presença de Cristo, o ouviste dizer: “Vem, segue-me; eu te darei um lugar onde repousar teu coração”».
As fontes de Taizé (2000), p.52

Oração
Jesus Cristo, vós procurais-nos, desejais oferecer-nos a vossa amizade e conduzir-nos a uma vida sempre mais plena. Dai-nos a confiança de responder ao vosso chamamento para sermos transformados e nos tornarmos testemunhas de vossa ternura no mundo.

07/01/2021

Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos (18 a 25 de janeiro de 2021)

«Permanecei no meu amor e produzireis muitos frutos»
(Jo 15,5-9)


Foto de "Film is not dead" em "Unsplash"
A Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos em 2021 foi preparada pela Comunidade Monástica de Grandchamp [1] . O tema que foi escolhido - Permanecei no meu amor e produzireis muitos frutos - está baseado em João 15,1-17 e expressa a vocação para a oração, reconciliação e unidade na Igreja e na família humana, presente na Comunidade de Grandchamp.
Nos anos da década de 1930 um grupo de mulheres da Reforma que vinha de uma parte da Suíça de língua francesa, conhecido como “Damas de Morges”, redescobriu a importância do silêncio na escuta da Palavra de Deus. Ao mesmo tempo, elas reviveram a prática de retiros espirituais para alimentar sua vida de fé, inspiradas no exemplo de Cristo que se retirava para rezar em um lugar isolado. Elas foram logo seguidas por outras pessoas que participavam regularmente de retiros organizados em Grandchamp, uma pequena povoação perto das margens do Lago Neuchâtel. Tornou-se necessário providenciar um ambiente permanente de oração e acolhimento para o crescente número de hóspedes e pessoas desejosas de se retirarem em oração.
Hoje a comunidade tem cinquenta irmãs, cinquenta mulheres de diferentes gerações, tradições eclesiais, países e continentes. Na sua diversidade as irmãs são uma parábola viva de comunhão. Elas permanecem fiéis a uma vida de oração, vida em comunidade e acolhimento de hóspedes. As irmãs partilham a graça da sua vida monástica com visitantes e voluntários que vão a Grandchamp para um tempo de retiro, silêncio, cura e em busca de sentido de vida.
As primeiras irmãs experimentaram a dor da divisão entre as Igrejas cristãs. Nessa dificuldade foram encorajadas por sua amizade com o abade Paul Couturier, um pioneiro da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos. Portanto, desde seus mais distantes inícios, a oração pela unidade dos cristãos estava no coração da vida da comunidade. Esse compromisso, juntamente com a fidelidade de Grandchamp aos três pilares - oração, vida comunitária e hospitalidade - está nos fundamentos destes subsídios.

Permanecer no amor de Deus é estar reconciliado consigo mesmo


As palavras francesas para monge e monja (moine/moniale) vêm da palavra grega µónos que significa sozinho e um. Os nossos corações, corpos e mentes, longe de estarem em unidade, estão muitas vezes dispersos, impelidos em direções opostas. O monge ou a monja desejam ser um consigo mesmo e estar unidos em Cristo. «Permanecei em mim como permaneço em vós», diz-nos Jesus (Jo 15,4a). Uma vida bem integrada pressupõe um caminho de autoaceitação, de reconciliação com as nossas histórias pessoais e herdadas.
Jesus disse aos discípulos «permanecei no meu amor» (Jo 15,9). Ele permanece no amor do Pai (Jo 15,10) e tudo o que deseja é partilhar connosco esse amor: «Chamo-vos amigos, porque tudo o que ouvi junto de meu Pai vo-lo fiz conhecer» (Jo 15,15b). Simbolizado na vinha, que é o próprio Jesus, o Pai torna-se o nosso vinhateiro, que nos poda para nos fazer crescer. Isso descreve o que acontece na oração. O Pai é o centro de nossas vidas, ele nos poda e nos plenifica para darmos frutos. Seres humanos assim dão glória ao Pai.
Permanecer em Cristo é uma atitude interior que gera raízes em nós com o correr do tempo. Ela pede espaço para crescer. Pode ser superada pela luta diante das necessidades da vida e é ameaçada por distrações, ruídos, atividades e desafios da vida.
Na difícil situação da Europa de 1938, Geneviève Micheli, que mais tarde se tornaria Madre Geneviève, a primeira mãe da comunidade, escreveu estas linhas que permanecem relevantes ainda hoje:
«Vivemos numa época que é perturbadora e, ao mesmo tempo magnífica, um tempo perigoso onde nada preserva a alma, onde rápidas conquistas totalmente humanas parecem varrer pessoas para longe... E penso que a nossa civilização morrerá nessa loucura coletiva de barulho e velocidade, onde ninguém consegue pensar... Nós, cristãos, que conhecemos o pleno valor de uma vida espiritual, temos uma imensa responsabilidade e precisamos de tomar consciência de a união e a ajuda mútua são fonte de serenidade e criam refúgios de paz, centros vitais onde o silêncio das pessoas clama pela criativa palavra de Deus. É uma questão de vida ou morte».

Permanecer em Cristo para produzir fruto


«O que glorifica meu Pai é que produzais fruto em abundância» (Jo 15,8). Não podemos produzir fruto só por conta própria. Não podemos dar fruto separados da vinha. É a seiva, a vida de Jesus fluindo em nós, que produz fruto. Permanecer no amor de Jesus, sendo um ramo da vinha, é o que permite que sua vida flua através de nós.
Quando ouvimos Jesus, essa vida flui em nós. Jesus convida-nos a deixar a sua palavra permanecer em nós (Jo 15,7) e então tudo o que pedirmos ser-nos-á concedido. Pela palavra dele produzimos fruto. Como pessoas, como comunidade, como Igreja inteira, desejamos unir-nos a Cristo a fim de guardar o seu mandamento de nos amarmos uns aos outros como ele nos tem amado (Jo 15,12).

Permanecendo em Cristo, fonte de todo amor, o fruto da comunhão cresce


A comunhão com Cristo exige comunhão com os outros. Doroteu de Gaza, um monge da Palestina do século VI, expressou-o da seguinte maneira:
«Imaginai um círculo desenhado no chão, isto é, uma linha circular desenhada com um compasso e um centro. Imaginai que esse círculo é o mundo, o centro é Deus e os raios são os diferentes caminhos ou maneiras de viver do povo. Quando os santos, desejando ser desenhados perto de Deus, caminham em direção o meio do círculo, à medida que penetram no seu interior, vão ficando mais próximos uns dos outros; e quanto mais próximos uns dos outros estiverem, mais próximos ficarão de Deus. Compreendereis que a mesma coisa se aplica de modo inverso quando nos afastamos de Deus e vamos para a parte de fora do círculo. Então se torna óbvio que quanto mais nos afastamos de Deus mais nos afastamos uns dos outros e, quanto mais nos afastamos uns dos outros, mais longe de Deus vamos ficando».
Buscar proximidade com outros, viver juntos em comunidade com outros, pessoas às vezes bem diferentes de nós, pode ser um desafio. As irmãs de Grandchamp conhecem esse desafio e para elas o ensinamento do irmão Roger de Taizé [2] é muito útil: «Não há amizade sem sofrimento purificador. Não há amor ao nosso próximo sem cruz. Só a cruz nos permite conhecer a incompreensível profundidade do amor» [3].
As divisões entre os cristãos, que se afastam uns dos outros, são um escândalo porque nos afastam também de Deus. Muitos cristãos, movidos pela tristeza dessa situação, rezam fervorosamente a Deus pela restauração daquela unidade pela qual Jesus orou. A oração de Jesus pela unidade é um convite para voltarmos a ele e assim ficarmos mais próximos uns dos outros, alegrando-nos com a riqueza da nossa diversidade. Como aprendemos vivendo em comunidade, os esforços para a reconciliação são custosos e pedem sacrifícios. Estamos sustentados pela prece de Jesus, que deseja que possamos ser um como ele é um com o Pai para que o mundo creia (Jo 17,21).

Permanecendo em Cristo, cresce o fruto da solidariedade e do testemunho


Embora nós, como cristãos, permaneçamos no amor de Cristo, também vivemos numa criação que geme enquanto espera ser libertada (cf. Rom 8). No mundo percebemos os males do sofrimento e dos conflitos. Através da solidariedade com aqueles que sofrem permitimos que o amor de Cristo circule através de nós. O mistério pascal gera fruto em nós quando oferecemos amor aos nossos irmãos e irmãs e alimentamos esperança no mundo.
Espiritualidade e solidariedade estão inseparavelmente ligadas. Permanecendo em Cristo, recebemos a força e a sabedoria para agir contra as estruturas de injustiça e opressão, para nos reconhecermos por completo como irmãos e irmãs na humanidade, e para sermos criadores de um novo modo de vida, no respeito e em comunhão com toda a criação.
O sumário da regra de vida [4] que as irmãs de Grandchamp recitam juntas, em cada manhã, começa com as palavras «rezemos e trabalhemos para que Deus possa reinar». Oração e vida diária não são duas realidades separadas mas destinam-se a estar unidas. Tudo o que experimentamos é destinado a tornar-se um encontro com Deus.


Para os oito dias da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos de 2021, propomos um itinerário de oração:


Dia 1 - Chamados por Deus: «Vós não me escolhestes, eu vos escolhi» (Jo 15,16a).
Dia 2 - Amadurecendo interiormente: «Permanecei em mim, como permaneço em vós» (Jo 15,4a).
Dia 3 - Formando um corpo: «Amai-vos uns aos outros como eu vos amei» (Jo 15,12b).
Dia 4 - Orando juntos: «Já não vos chamo servos... chamo-vos amigos» (Jo 15,15).
Dia 5 - Deixando-se transformar pela Palavra: «Vós já estais purificados pela Palavra» (Jo 15,3).
Dia 6 - Acolhendo outros: «Ide produzir frutos, frutos que permaneçam» (Jo 15,16b).
Dia 7 - Crescendo na unidade: «Eu sou a vinha, vós sois os sarmentos» (Jo 15,5a).
Dia 8 - Reconciliando-se com toda a criação: «Para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja perfeita» (Jo 15,11).

[1] Ver também a apresentação da comunidade no final destes subsídios, bem como em www.grandchamp.org.
[2] A Comunidade de Grandchamp e a dos Irmãos de Taizé na França estão unidas em primeiro lugar pela a história de suas origens, mas também pelo facto de as irmãs de Grandchamp basearem a sua Regra no livro mencionado na nota 3.
[3] Irmão Roger de Taizé, Les écrits fondateurs, Dieu nous veux heureux (Taizé, Les Ateliers e Presse de Taizé, 2011), 95.
[4] Durante a celebração ecuménica, sugerimos que este texto seja recitado por todos. ver página 6 dos Subsídios para que a seguir se remete.

Subsídios para a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos e para todo o ano 2021

16/12/2020

Vademécum ecuménico para os bispos

O bispo e a unidade dos cristãos: vademécum ecuménico. Com este título o Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos apresentou a 4 de dezembro um instrumento para orientar a ação ecuménica dos bispos das Igrejas locais. 
O tom geral é de confirmação da direção tomada pelo Vaticano II, com acentuada prudência, mas também com a consciência do papel da Igreja Católica na complexa rede das presenças cristãs no mundo. 
Em cerca de 60 páginas (publicadas pela Libreria Editrice Vaticana) e 42 números, apresenta na primeira parte «A promoção do ecumenismo na Igreja católica» e na segunda «As relações da Igreja católica com os outros cristãos». 
O texto é pontuado por breves resumos que contêm indicações práticas. E é completado, nas últimas 20 páginas, por um útil apêndice em que se elencam as Igrejas cristãs que estão em diálogo com a Igreja católica. 
Retomando o rumo espiritual corajoso dos textos conciliares (Unitatis redintegratio, Lumen gentium) e as encíclicas Ut unum sint (João Paulo II, 1995) e Evangelii gaudium (Francisco, 2013), o vademécum renova e atualiza para os bispos o Diretório para a aplicação dos princípios e normas sobre ecumenismo do Conselho Pontifício de 1993.

Diálogo entre os cristãos: dom e responsabilidade

O compromisso a favor da unidade das Igrejas é essencial para a nossa identidade cristã: «A busca da unidade cristã não é um ato facultativo ou de oportunidade, mas uma exigência que brota do próprio ser da comunidade cristã» (Ut unum sint). Numa época de renovados impulsos identitários que atravessam nações e corpos sociais e também as confissões cristãs, é importante confirmar a centralidade do batismo partilhado e o reconhecimento de que as confissões são «meios de salvação» mesmo se em comunhão não completa com a Igreja católica. 
O manifesto abrandamento do interesse ecuménico nas várias confissões não deve obscurecer os grandes passos dados na segunda metade do século XX e a consciência do percurso ecuménico como um dom do Espírito de Cristo, com a consequente instrução recordada pelo Papa Francisco: «caminhar juntos, rezar juntos, trabalhar juntos». 
O tom prudente e uma certa cautela no caminho são reconhecíveis não só na referência ao quadro normativo dos Códigos (ocidental e oriental), mas também nas repetidas referências que pontuam o texto. No n. 17 recorda-se que algumas comunidades não aceitam a oração comum, no n. 19 que a abertura ecuménica nem sempre é correspondida e no n. 31 que se deve proceder «gradualmente e com cuidado, sem excluir as dificuldades». 
O dado mais evidente é a não alteração da partilha da vida sacramental (communicatio in sacris) reconduzida à norma atual. «A participação nos sacramentos da eucaristia, da reconciliação e da unção dos enfermos deve ser reservada em geral àqueles que estão em plena comunhão» com a Igreja. Para além dos casos previstos, tais como perigo de morte ou «necessidade grave», não é permitida a intercomunhão. É tarefa dos bispos reconhecer a condição de «necessidade grave», mas «a partilha dos sacramentos nunca pode acontecer por simples cortesia».

As estruturas e a tonalidade partilhada 

O bispo como princípio visível da unidade não pode eximir-se à opção da Igreja em favor do ecumenismo, a ter em conta segundo uma renovada perspetiva sinodal. Entre as estruturas institucionais já previstas e, na sua maioria, já operativas, o documento recorda a nomeação do delegado para o ecumenismo e da comissão ecuménica diocesana, a colaboração com as instituições ecuménicas e o convite para o sínodo diocesano de representantes das outras confissões cristãs. 
Ao bispo compete o dever «de promover tanto o diálogo da caridade como o diálogo da verdade». A verdade e a caridade devem ser vividas em conjunto com humildade. A unidade não pode ser alcançada à custa da verdade, por sua vez tida em conta segundo uma «hierarquia» de afirmações relativas ao fundamento da fé cristã. Com a caridade superam-se as intervenções polémicas da história e na humildade «aprende-se a receber os dons dos nossos irmãos e irmãs». 
O texto confirma a dimensão pervasiva do ecumenismo em toda a vida cristã (catequese, liturgia, caridade) e apela a uma formação específica a este respeito para os agentes pastorais, em particular para os seminaristas e os presbíteros. Acrescenta uma nova atenção aos meios de comunicação social e à web de cariz eclesial.

Feridas do passado e tarefas do presente 

Na segunda parte, apresentam-se as áreas do trabalho ecuménico: o ecumenismo espiritual, o diálogo da caridade, da verdade e da vida. Neste último distinguem-se os âmbitos pastoral, prático e cultural. 
Na base está a convicção de que a unidade é um dom do Senhor e não uma conquista nossa. Alimenta-se da oração e é posta em prática através da conversão e da reforma eclesial contínuas. Como diz o card. W. Kasper: «Só a conversão do coração e a renovação da mente podem curar os laços feridos de comunhão». 
A Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, que geralmente tem lugar de 18 a 25 de janeiro, tornou-se já uma tradição. 
A oração torna-se mais facilmente comunitária face às necessidades do mundo: guerra, pobreza, migrantes, injustiça e perseguição, etc. 
A leitura conjunta das Escrituras é um excelente instrumento para alcançar a unidade. Muitas vezes existe também um lecionário comum e uma tradução interconfessional. É desejável a partilha do ministério da pregação, a troca do ambão. Os tempos fortes do ano litúrgico podem ser uma ocasião propícia, assim como a memória dos santos e dos mártires. As comunidades religiosas, os mosteiros ou os movimentos eclesiais são lugares preciosos de diálogo. 
A tarefa prioritária é a purificação da memória histórica e o perdão recíproco, como no caso da remissão das excomunhões entre Paulo VI e Atenágoras em 1965. Outro exemplo positivo é a releitura comum da história como no documento relativo ao 500º aniversário da Reforma protestante (Do conflito à comunhão). «O que aconteceu no passado não pode ser alterado, mas pode, todavia, mudar, com o passar do tempo, o que é recordado do passado e de que modo». 
O diálogo da caridade apoia a participação nas estruturas que o movimento ecuménico deu a si mesmo, a troca de mensagens, os encontros e as geminações. 
O diálogo da verdade não é uma defesa arrogante, mas um gesto de estima para com o interlocutor, e tem como objetivo a unidade da fé. «O diálogo teológico não procura um mínimo denominador teológico comum para chegar a um compromisso, mas baseia-se antes no aprofundamento de toda a verdade, que Cristo deu à sua Igreja e que, movidos pelo Espírito Santo, não deixamos nunca de compreender melhor». 
O trabalho do Conselho Pontifício nos diálogos bilaterais e multilaterais, assim como o de numerosas comissões nacionais e diocesanas alimenta o campo das convergências de fé e relança ulteriores reflexões. Existem lugares e siglas preciosas, mesmo fora dos enquadramentos institucionais, como o Grupo Dombes, o grupo de trabalho ecuménico entre evangélicos e católicos alemães, a Pro Oriente, as Conversações de Malines, o grupo Santo Ireneu, etc.

Fazer sozinhos apenas o que não se pode fazer em conjunto 

O diálogo da vida inspira-se no «princípio de Lund» segundo o qual os cristãos «devem agir em conjunto em todas as áreas, exceto quando diferenças profundas os obrigam a agir separadamente». 
O ecumenismo pastoral manifesta-se sobretudo no evitar do espírito de competição entre confissões e comunidades cristãs, e na organização conjunta da ação pastoral em hospitais, prisões, capelanias escolares, mas também na concessão aos outros de espaços celebrativos. «O movimento ecuménico sempre teve no seu centro a missão evangelizadora da Igreja», para tornar a mensagem evangélica credível, especialmente onde a presença cristã é minoritária. 
A partilha dos sacramentos já foi mencionada. A sua exigência é particularmente evidente nos casamentos mistos, tanto na sua preparação como na celebração, e nos acontecimentos relevantes, designadamente o nascimento e a educação dos filhos. 
Um ponto delicado é a mudança de pertença confessional, que não deve ser acompanhada por um triunfalismo proselitista, mas eventualmente regulada por códigos de conduta, especialmente quando se trata do clero. 
O ecumenismo prático visa a colaboração entre confissões para a salvaguarda da dignidade humana e o alívio dos sofrimentos em caso de catástrofes e calamidades. Isto inclui a imigração e o cuidado da criação. O diálogo inter-religioso também é útil neste contexto, porventura de acordo com outras confissões. No passado as diferenças culturais reforçaram as divergências teológicas. Agora o ecumenismo cultural deveria inverter o paradigma, através do trabalho conjunto no âmbito académico, científico, artístico, social e mediático. 

As correntes profundas 

O longo apêndice que enumera os 14 diálogos bilaterais e três multilaterais constitui um breve e útil mapeamento de um confronto extenso e complexo que torna evidente um património teológico comum de grande relevo. Poder-se-ia falar de um vasto magistério partilhado com a advertência de não equiparar a sua autoridade ao magistério de cada Igreja, mas também suscetível de solicitar e alimentar uma receção no conjunto do povo de Deus e das diferentes confissões. 
Um resultado inimaginável até há algumas décadas. Basta recordar os seis documentos do diálogo entre a Igreja católica e as Igrejas ortodoxas, O dom da autoridade (1999) entre católicos e anglicanos, a Declaração conjunta sobre a doutrina da justificação (1999) entre a Igreja católica e a Federação luterana mundial ou Igreja: rumo a uma visão comum (2013) entre católicos e o Conselho ecuménico das Igrejas. 
Entre as dinâmicas profundas subjacentes ao texto, é possível recordar o renovado e discutido protagonismo político das comunidades pentecostais da América Latina e das Igrejas ortodoxas da Europa de Leste, que podem ser colocadas no âmbito do ecumenismo cultural. Ou ainda a dramática cisão em ato que se vem desenvolvendo nas Igrejas ortodoxas de raiz eslava e helénica, discretamente evocada na distinção entre Igrejas autocéfalas reconhecidas e «Igrejas autónomas», iniciada com o reconhecimento da autocefalia da Igreja ucraniana por Constantinopla. 
O «ecumenismo do sangue» é, por seu lado, expressamente sublinhado. Com mais de 150 milhões de cristãos sujeitos à perseguição, ganha relevo a nota do Papa Francisco: «Aqueles que perseguem os cristãos reconhecem melhor do que os próprios cristãos a unidade que existe entre eles». Afinal, a unidade é «já perfeita no que todos consideramos o auge da vida de graça, a martyria até à morte, a comunhão mais verdadeira que existe com Cristo» (Ut unum sint, n. 84).

As responsabilidades da Igreja católica 

Estão em ação contextualmente tendências centrípetas e centrífugas. Se a Aliança mundial das Igrejas reformadas e o Conselho ecuménico reformado se uniram na Comunhão mundial das Igrejas reformadas, e se um processo análogo está na origem da Conferência menonita mundial e da Comunhão das Igrejas protestantes na Europa, é necessário registar também uma distância crescente entre a Ortodoxia e as Igrejas protestantes, e entre as Igrejas anglicanas do terceiro mundo e as Igrejas anglicanas do Ocidente. 
Ainda largamente pouco percecionado é o diferente dinamismo de crescimento entre a relativa estabilidade das Igrejas históricas e o crescimento das novas comunidades pentecostais. Se o Conselho ecuménico das Igrejas representa 500 milhões de fiéis, as novas Igrejas carismáticas reúnem mais de 500 milhões (apenas em parte coincidentes com os primeiros). E, embora o diálogo com as primeiras tenha produzido convergências significativas, o diálogo com as segundas está apenas no início. Não é casual o nascimento do Fórum cristão mundial, que reúne não só algumas Igrejas históricas, mas também novas comunidades e alianças cristãs, sem o constrangimento de uma adesão formal. 
Voltando ao interlocutor do documento, o bispo diocesano, é útil sublinhar que lhe é confiada com uma consciência nova a responsabilidade do ecumenismo. Num contexto em que não faltam tensões, recuos, impulsos secularistas e urgências inter-religiosas, a Igreja católica reconhece aos pastores a grave responsabilidade do percurso ecuménico. «Os católicos não devem esperar que sejam os outros a aproximarem-se deles, mas devem estar sempre prontos a dar o primeiro passo em direção aos outros». Nem sempre tem sido assim. 

Lorenzo Prezzi

Veja-se o documento na sua versão portuguesa.

30/09/2020

Cristãos do Porto oram juntos pela Criação, em ano de “Jubileu pela Terra”

Unidos a uma grande corrente de oração e ação, pela salvaguarda da Criação, vivida por milhares de Cristãos em todo o mundo, no Tempo da Criação, celebrado entre os dias 1 de setembro e 4 de outubro, a Comissão Ecuménica do Porto, através do Roteiro Ecuménico de Oração, promoveu no dia 23 de setembro, na Paróquia Lusitana do Salvador do Mundo (Gaia), uma Oração Ecuménica, que reuniu líderes e povo das Igrejas Católica, Lusitana, Metodista, Evangélica Alemã e Ortodoxa Russa. Devido às medidas de contingência, e com o objetivo de chegar a mais pessoas, a Celebração foi transmitida nas redes sociais.
A reflexão esteve a cargo do Bispo Auxiliar do Porto e atual responsável pela área do Ecumenismo da Conferência Episcopal Portuguesa, D. Armando Esteves.
Como referiu D. Armando, «tudo está conectado. O ser humano não está dissociado da Terra ou da natureza, eles são partes de um mesmo todo. Portanto, destruir a natureza equivale a destruir o homem. E destruir o homem, é atentado à própria imagem de Deus. Da mesma forma, não é possível falar em proteção ambiental sem que esta envolva também a proteção ao ser humano, em especial os mais pobres, vulneráveis e os refugiados do clima»
Pequenas árvores, junto com outros símbolos da Criação, foram apresentadas por cada uma das Igrejas comprometidas na construção da unidade, nesta Casa Comum que habitamos, e, no final, em jeito de envio e compromisso, cada líder, recebeu uma árvore com missão de a plantar e cuidar, como bom jardineiro de Deus.

Comissão Ecuménica do Porto


20/09/2020

«Percorri um caminho de conversão, de compreensão do problema ecológico»

Discurso do Papa Francisco na audiência a um grupo de peritos que colaboram com a Conferência dos Bispos de França sobre o tema da Laudato si'


Estou grato a todos vós pela vossa visita e agradeço ao Senhor Presidente do Episcopado.
Vejo que cada um de vós tem a tradução do que vou dizer. E parte da conversão ecológica consiste em não perder tempo. É por isso que tendes o texto oficial. Agora prefiro falar espontaneamente. Entrego o original.
Gostaria de começar com um fragmento de história. Em 2007 teve lugar a Conferência do Episcopado Latino-Americano no Brasil, em Aparecida. Fiz parte do grupo de redatores do documento final, e chegavam propostas sobre a Amazónia. Eu disse: «Mas estes brasileiros, como aborrecem com esta Amazónia! O que tem a Amazónia a ver com a evangelização?». Eu era assim em 2007. Depois, em 2015, saiu a Laudato si’. Percorri um caminho de conversão, de compreensão do problema ecológico. Antes eu não entendia nada!
Quando fui a Estrasburgo, à União Europeia, o Presidente Hollande pediu à Ministra do Meio Ambiente, Ségolène Royale, que me recebesse. Falamos no aeroporto... No início um pouco, porque já havia o programa, mas depois, no final, antes de partir, tivemos de esperar um pouco e falamos mais. E a Senhora Ségolène Royale disse-me o seguinte: «É verdade que o Senhor está a escrever algo sobre a ecologia? — c’était vrai! — Por favor, publique-a antes do encontro de Paris!».
Chamei o grupo de pessoas que a redigia — para que saibais que não a escrevi sozinho, mas com um grupo de cientistas, um grupo de teólogos, e todos juntos fizemos esta reflexão — chamei o grupo e disse: «Tem que sair antes do encontro de Paris» —  «Mas porquê?» — «Para fazer pressão». De Aparecida à Laudato si’, para mim foi um caminho interior.
Quando comecei a pensar nesta Encíclica, chamei os cientistas — um bom grupo — e disse-lhes: «Dizei-me coisas claras e comprovadas, não hipóteses, mas realidades». E eles trouxeram o que hoje vós ledes aqui. Em seguida, chamei um grupo de filósofos e teólogos [e disse-lhes]: «Gostaria de fazer uma reflexão sobre isto. Trabalhai vós e dialogai comigo». E eles realizaram o primeiro trabalho, depois eu intervim. E, no final, fiz a redação conclusiva. Essa é a origem.
Mas quero frisar isto: da absoluta incompreensão, em Aparecida em 2007, à Encíclica. Gosto de dar testemunho disto. Temos que trabalhar para que todos percorram este caminho de conversão ecológica.
Depois veio o Sínodo sobre a Amazónia. Quando fui à Amazónia, encontrei muitas pessoas. Fui a Puerto Maldonado, na Amazónia peruana. Falei com as pessoas, com muitas culturas indígenas diferentes. Depois almocei com 14 caciques deles, todos com plumas, trajados segundo a tradição. Falavam com uma linguagem de sabedoria e de inteligência muito elevadas! Não só de inteligência, mas de sabedoria. E depois perguntei: «Qual é a sua profissão?» — «Sou professor na universidade». Um indígena que ali usava plumas, mas na universidade andava à paisana. «E a Senhora?» — «Sou a responsável pelo ministério da educação em toda esta região». E assim, um após o outro. E depois uma jovem: «Sou uma estudante de ciências políticas». E ali vi que era necessário eliminar a imagem dos índios que nós só vemos com setas. Lado a lado, descobri a sabedoria dos povos indígenas, inclusive a sabedoria do “bem viver”, como lhe chamam. O “bem viver" não é a boa vida, não, não é a ociosidade, não. O “bem viver” consiste em viver em harmonia com a criação. E nós perdemos esta sabedoria do “bem viver”. Os povos originários abrem-nos esta porta. E alguns anciãos dos povos originários do oeste do Canadá queixam-se que os seus netos partem para a cidade e abraçam a modernidade, esquecendo-se das raízes. E isto esquecimento das raízes é um drama não só dos aborígenes, mas também da cultura contemporânea.
E assim, é preciso encontrar esta sabedoria que talvez tenhamos perdido com demasiada inteligência. Nós — é uma lástima — somos “macrocéfalos”: muitas das nossas universidades ensinam-nos ideias, conceitos... Somos herdeiros do liberalismo, do iluminismo... E perdemos a harmonia das três linguagens. A linguagem da cabeça: pensar; a linguagem do coração: sentir; a linguagem das mãos: fazer. E promover esta harmonia, para que todos pensem o que sentem e fazem; que todos sintam o que pensam e fazem; que todos façam o que sentem e pensam. Esta é a harmonia da sabedoria. Não é um pouco a desarmonia — mas não digo isto em sentido pejorativo — das especializações. Os especialistas são necessários, são necessários, contanto que estejam enraizados na sabedoria humana. Erradicados desta sabedoria, os especialistas são robôs.
Recentemente, falando sobre a inteligência artificial — no Dicastério para a Cultura dispomos de um grupo de estudo de nível alto, muito alto — uma pessoa perguntou-me: «Mas será a inteligência artificial capaz de fazer tudo?» — «Os futuros robôs serão capazes de fazer tudo o que uma pessoa faz. Exceto o quê? — disse eu — o que não poderão fazer?». Ela refletiu um pouco e disse-me: «Só uma coisa eles não poderão ter: ternura». E a ternura é como a esperança. Como diz Péguy, trata-se de virtudes humildes. São virtudes que acariciam, que não afirmam... E creio — gostaria de ressaltar — que, na nossa conversão ecológica, devemos trabalhar nesta ecologia humana; trabalhar na nossa ternura e capacidade de acariciar... Tu, com os teus filhos... A capacidade de acariciar, algo ligado ao viver bem, em harmonia.
Além disso, gostaria de dizer mais uma coisa sobre a ecologia humana. A conversão ecológica faz-nos ver a harmonia geral, a correlação de tudo: tudo está interligado, tudo está correlacionado. Nas nossas sociedades humanas, perdemos este sentido da correlação humana. Sim, há associações, grupos — como o vosso — que se reúnem para fazer algo... Mas refiro-me àquele relacionamento fundamental que cria a harmonia humana. E muitas vezes perdemos o sentido das raízes, da pertença. O sentido da pertença. Quando um povo perde o sentido das raízes, perde a própria identidade — Mas não! Somos modernos! Pensemos nos nossos avós, nos nossos bisavós... Coisas antigas! — Mas existe outra realidade, que é a história; existe a pertença a uma tradição, a uma humanidade, a um estilo de vida... Por isso, hoje é muito importante cuidar disto, cuidar das raízes da nossa pertença, para que os frutos sejam bons.
Por isso, hoje mais do que nunca, é necessário o diálogo entre avós e netos. Isto pode parecer um pouco estranho, mas se um jovem — sois todos jovens aqui — não tiver o sentido de uma relação com os avós, o sentido das raízes, não terá a capacidade de continuar a própria história, a humanidade, e acabará por ceder a um acordo, a um compromisso, com as circunstâncias. A harmonia humana não tolera pactos de compromisso. Sim, a política humana — que é outra arte necessária — faz-se desta forma, com compromissos, porque pode levar todos em frente. Mas a harmonia não. Se não tiveres raízes, a árvore não crescerá. Um poeta argentino, Francisco Luis Bernárdez — já falecido, um dos nossos grandes poetas — diz: «Todo lo que el árbol tiene de florido vive de lo que tiene sepultado». Se a harmonia humana dá frutos, é porque tem raízes.
E por que o diálogo com os avós? Posso falar com os pais, isto é muito importante! Falar com os pais é muito importante. Mas os avós têm algo mais, como o bom vinho. Quanto mais velho é o vinho, tanto melhor se torna. Vós, franceses, sabeis estas coisas, não é verdade? Os avós têm esta sabedoria. Sempre me impressionou o trecho do Livro de Joel: «Os avós sonharão. Os idosos sonharão e os jovens profetizarão». Os jovens são profetas. Os idosos são sonhadores. Parece o contrário, mas não é assim! Contanto que os idosos e os avós falem uns com os outros. É nisto que consiste a ecologia humana.
É uma lástima, mas temos de terminar, pois também o Papa é escravo do relógio! Mas eu quis dar este testemunho da minha história, dizer estas coisas, para ir em frente. E a palavra-chave é harmonia. E a palavra-chave humana é ternura, a capacidade de acariciar. A estrutura humana é uma das numerosas estruturas políticas que são necessárias. A estrutura humana é o diálogo entre os idosos e os jovens.
Obrigado pelo que levais a cabo. Aprouve-me enviar este [discurso escrito] para o vosso arquivo — lede-o mais tarde — e dizer, do fundo do coração, o que eu sinto. Parecia-me mais humano. Desejo-vos o melhor. Et priez pour moi. J’en ai besoin. Ce travail n’est pas facile. Et que le Seigneur benisse vous tous!

3 de setembro de 2020.

Francisco

08/09/2020

Ações comuns para salvar o planeta

Mensagem do Patriarca de Constantinopla por ocasião do início do novo ano eclesiástico e do Dia de oração pela proteção do meio ambiente


Caríssimos irmãos hierarcas e amados filhos no Senhor, é uma convicção comum que, no tempo presente, o meio ambiente está ameaçado mais do que nunca na história da humanidade. A amplitude desta ameaça manifesta-se na constatação de que quanto está em jogo já não é a qualidade, mas a preservação da vida no nosso planeta. Pela primeira vez na história, o homem é capaz de destruir as condições de vida na Terra. As armas nucleares constituem o símbolo do titanismo prometeico do homem, a expressão tangível do “complexo de omnipotência” do “homem-deus” contemporâneo.
No uso do poder que deriva da ciência e da tecnologia, hoje revela-se a ambivalência da liberdade humana. A ciência serve a vida; contribui para o progresso, para debelar doenças e muitas condições até agora consideradas “fatais”; cria novas perspetivas positivas para o futuro. Mas, ao mesmo tempo, oferece ao homem meios extremamente poderosos, cujo uso impróprio pode ser transformado em destruidor. Experimentamos o avanço da destruição do meio ambiente, da biodiversidade, da flora e da fauna, da poluição dos recursos aquáticos e da atmosfera, o colapso progressivo do equilíbrio climático, assim como outras formas de superação de limites e medidas em muitas dimensões da vida. De modo correto e maravilhoso, o santo e grande Concílio da Igreja ortodoxa (Creta, 2016) decretou que «o conhecimento científico não mobiliza a vontade moral do homem, o qual conhece os perigos mas continua a agir como se não os conhecesse» (Encíclica, 11).
É evidente que a salvaguarda do bem comum, da integridade do meio ambiente, é responsabilidade comum de todos os habitantes da Terra. O categórico imperativo contemporâneo para a humanidade é viver sem destruir o meio ambiente. No entanto, enquanto no plano pessoal e a nível de numerosas comunidades, grupos, movimentos e organizações existe uma demonstração de grande sensibilidade e responsabilidade ecológica, as nações e os agentes económicos não são capazes — em nome das ambições geopolíticas e da “autonomia da economia” — de tomar decisões corretas para a tutela da criação e, ao contrário, cultivam a ilusão de que a presumível “destruição ecológica global” é uma invenção ideológica de movimentos ecológicos e que o meio ambiente tem o poder de se renovar. Contudo, subsiste a questão crucial: por quanto tempo a natureza suportará debates e consultas infrutíferas, bem como qualquer outro atraso na tomada de medidas decisivas para a sua proteção?
Observamos que, durante o período da pandemia do novo coronavírus Covid-19, com as restrições obrigatórias à circulação, o fechamento das fábricas e a diminuição da atividade e da produção industrial, houve uma redução da poluição e do seu peso na atmosfera, e isto demonstrou o caráter antropogénico da crise ecológica contemporânea. Tornou-se mais uma vez evidente que a indústria, os meios de transporte atuais, o automóvel e o avião, a prioridade não negociável dos indicadores económicos, e assim por diante, têm um impacto negativo sobre o equilíbrio ambiental e que uma mudança de rumo para uma economia ecológica constitui uma necessidade firme. Não existe progresso real algum, fundado na destruição do meio ambiente. É inconcebível que as decisões económicas sejam tomadas sem ter em consideração inclusive as suas consequências ecológicas. O desenvolvimento económico não pode permanecer um pesadelo para a ecologia. Estamos certos de que existe uma forma alternativa de estrutura e progresso económico, para além do economismo e da orientação da atividade económica para a maximização do lucro.
O futuro da humanidade não é o homo œconomicus. O patriarcado ecuménico, que nas últimas décadas foi pioneiro no campo da tutela da criação, dará continuidade às suas iniciativas ecológicas, à organização de conferências sobre a ecologia, à mobilização dos seus fiéis e sobretudo dos jovens, à promoção da salvaguarda do meio ambiente como tema fundamental para o diálogo inter-religioso e as iniciativas conjuntas das religiões, o colóquio com os líderes políticos e as instituições, a cooperação com organizações ambientalistas e movimentos ecológicos. É evidente que a cooperação para a proteção do meio ambiente cria novas formas de comunicação e possibilidades de ulteriores ações conjuntas.
Reiteramos que as atividades ambientais do patriarcado ecuménico representam uma extensão da sua autoconsciência eclesiológica e não constituem a simples reação circunstancial a um novo fenómeno. A própria vida da Igreja é uma ecologia aplicada. Os sacramentos da Igreja, toda a sua vida de culto, o seu ascetismo e a vida comunitária, a vida diária dos seus fiéis, exprimem e geram o mais profundo respeito pela criação. A sensibilidade ecológica da ortodoxia não foi criada mas surgi da crise ambiental contemporânea. A luta pela tutela da criação é uma dimensão fulcral da nossa fé. O respeito pelo meio ambiente constitui um ato de doxologia do nome de Deus, enquanto que a destruição da criação é uma ofensa contra o Criador, totalmente inconciliável com os princípios fundamentais da teologia cristã.
Distintos irmãos e amados filhos, os valores favoráveis à ecologia da tradição ortodoxa, precioso legado dos Padres, constituem um obstáculo contra a cultura, cujo fundamento axiológico é o domínio do homem sobre a natureza. A fé em Cristo inspira e fortalece o compromisso humano, inclusive face aos imensos desafios. Da ótica da fé, somos capazes de descobrir e avaliar não apenas as dimensões problemáticas, mas também as possibilidades e perspetivas positivas da civilização contemporânea. Pedimos aos jovens, homens e mulheres, ortodoxos que compreendam a importância de viver como cristãos fiéis e pessoas contemporâneas. A fé no destino eterno do homem reforça o nosso testemunho no mundo.
É neste espírito que, do Fanar, desejamos a todos vós um novo ano eclesiástico propício e abençoado, fecundo de gestos a exemplo de Cristo, para o bem de toda a criação e para a glória do omnisciente Criador de todas as coisas. E invocamos sobre vós, através das intercessões da Santíssima Theotokos, da Pammakaristos, a graça e a misericórdia do Deus das maravilhas.

1 de setembro de 2020

Bartolomeu

L'Osservatore RomanoEdição portuguesa (8 de setembro de 2020) 4.

01/09/2020

Mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação

Foto de Pawan Kawan em Unsplash
«Santificareis o quinquagésimo ano, proclamando na vossa terra a liberdade
de todos os que a habitam. Este ano será para vós um Jubileu» (Lv 25, 10).

Queridos irmãos e irmãs,
Anualmente, sobretudo desde a publicação da carta encíclica Laudato si’ (24/5/2015; daqui em diante, citada com a sigla LS), o primeiro dia de setembro assinala, para a família cristã, o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação; e com ele se abre o Tempo da Criação que se conclui no dia 4 de outubro, memória de São Francisco de Assis. Durante este período, os cristãos renovam em todo o mundo a fé em Deus criador e unem-se de maneira especial na oração e na ação pela preservação da casa comum.
Alegro-me com o tema escolhido pela família ecuménica para a celebração do Tempo da Criação 2020, ou seja, um "Jubileu pela Terra", tendo em vista que se celebra precisamente este ano o quinquagésimo aniversário do Dia da Terra.
Na Sagrada Escritura, o Jubileu é um tempo sagrado para recordar, regressar, repousar, restaurar e rejubilar.

1. Um tempo para recordar


Somos convidados a lembrar sobretudo que o destino último da criação é entrar no "sábado eterno" de Deus. É uma viagem que se realiza no tempo, abraçando o ritmo dos sete dias da semana, o ciclo dos sete anos e o grande Ano Jubilar que sobrevém ao concluírem-se os sete anos sabáticos.
Depois o Jubileu é um tempo de graça para recordar a vocação primordial da criação: ser e prosperar como comunidade de amor. Existimos apenas graças às relações com Deus criador, com os irmãos e irmãs enquanto membros duma família comum e com todas as criaturas que habitam na mesma casa que nós. «Tudo está relacionado, e todos nós, seres humanos, caminhamos juntos como irmãos e irmãs numa peregrinação maravilhosa, entrelaçados pelo amor que Deus tem a cada uma das suas criaturas e que nos une também, com terna afeição, ao irmão sol, à irmã lua, ao irmão rio e à mãe terra» (LS, 92).
Por isso o Jubileu é um tempo para a recordação, repassando na memória a nossa existência inter-relacional. Temos necessidade constante de nos lembrar que «tudo está inter-relacionado e o cuidado autêntico da nossa própria vida e das nossas relações com a natureza é inseparável da fraternidade, da justiça e da fidelidade aos outros» (LS, 70).

2. Um tempo para regressar


O Jubileu é um tempo para voltar atrás e arrepender-se. Quebramos os laços que nos uniam ao Criador, aos outros seres humanos e ao resto da criação. Precisamos de sarar estas relações danificadas, que são essenciais para sustentáculo de nós mesmos e de toda a trama da vida.
O Jubileu é um tempo de regresso a Deus, nosso criador amoroso. Não é possível viver em harmonia com a criação, sem estar em paz com o Criador, fonte e origem de todas as coisas. Como observou o Papa Bento XVI, «o consumo brutal da criação começa lá onde Deus não está, onde a matéria já é somente material para nós, onde nós mesmos somos a última instância, onde o conjunto é simplesmente nossa propriedade» (Encontro com o Clero da diocese de Bolzano-Bressanone, 06/7/2008).
O Jubileu convida-nos a pensar novamente nos outros, especialmente nos pobres e nos mais vulneráveis. Somos chamados a acolher de novo o plano primordial e amoroso de Deus para a criação como uma herança comum, um banquete que deve ser partilhado com todos os irmãos e irmãs em espírito de convivialidade; não numa competição desatinada, mas numa comunhão jubilosa, onde nos apoiamos e protegemos mutuamente. O Jubileu é um tempo para dar liberdade aos oprimidos e a quantos estão acorrentados aos grilhões das várias formas de escravidão moderna, nomeadamente o tráfico de pessoas e o trabalho infantil.
Além disso precisamos de voltar a ouvir a terra, expressa na Sagrada Escritura pelo termo adamah, o lugar donde foi tirado Adam, o homem. Hoje, a voz da criação incita-nos, alarmada, a regressar ao lugar certo na ordem natural, lembrando-nos que somos parte, não patrões, da rede interligada da vida. A desintegração da biodiversidade, o aumento vertiginoso de catástrofes climáticas, o impacto desproporcionado que tem a pandemia atual sobre os mais pobres e frágeis são sinais de alarme perante a avidez desenfreada do consumo.
De modo particular durante este Tempo da Criação, ouçamos o pulsar da criação. Com efeito, esta nasceu para manifestar e comunicar a glória de Deus, para nos ajudar a encontrar na sua beleza o Senhor de todas as coisas e regressar a Ele (cf. São Boaventura, In II Sent., I, 2,2, q. 1, concl; Brevil., II, 5.11). Por isso, a terra da qual fomos tirados é lugar de oração e meditação: «despertemos o sentido estético e contemplativo que Deus colocou em nós» (Francisco, Exort. ap. Querida Amazonia, 56). A capacidade de contemplar e nos maravilharmos é algo que podemos aprender especialmente dos irmãos e irmãs indígenas, que vivem em harmonia com a terra e as suas variadas formas de vida.


3. Um tempo para repousar


Deus, na sua sabedoria, reservou o dia de sábado para que a terra e os seus habitantes pudessem descansar e restaurar-se. Hoje, porém, os nossos estilos de vida forçam o planeta para além dos seus limites. A procura contínua de crescimento e o ciclo incessante da produção e do consumo estão a extenuar o ambiente. As florestas dissipam-se, o solo torna-se erosivo, os campos desaparecem, os desertos avançam, os mares tornam-se ácidos e as tempestades intensificam-se: a criação geme!
Durante o Jubileu, o Povo de Deus era convidado a repousar dos seus trabalhos habituais, para deixar – graças à diminuição do consumo habitual – que a terra se regenerasse e o mundo reentrasse na ordem. Hoje precisamos de encontrar estilos de vida équos e sustentáveis, que restituam à Terra o repouso que lhe cabe, vias de subsistência suficientes para todos, sem destruir os ecossistemas que nos sustentam.
De algum modo a pandemia atual levou-nos a redescobrir estilos de vida mais simples e sustentáveis. A crise deu-nos, em certo sentido, a possibilidade de desenvolver novas maneiras de viver. Foi possível constatar como a Terra consegue recuperar, se a deixarmos descansar: o ar tornou-se mais puro, as águas mais transparentes, as espécies animais voltaram para muitos lugares donde tinham desaparecido. A pandemia levou-nos a uma encruzilhada. Devemos aproveitar este momento decisivo para acabar com atividades e objetivos supérfluos e destrutivos, e cultivar valores, vínculos e projetos criadores. Devemos examinar os nossos hábitos no uso da energia, no consumo, nos transportes e na alimentação. Devemos retirar, das nossas economias, aspetos não essenciais e nocivos, e criar modalidades vantajosas de comércio, produção e transporte dos bens.

4. Um tempo para restaurar


O Jubileu é um tempo para restaurar a harmonia primordial da criação e para curar relações humanas comprometidas.
Convida a restabelecer relações sociais equitativas, restituindo a cada um a sua liberdade e os bens próprios, e perdoando as dívidas dos outros. Por isso não devemos esquecer a história de exploração do Sul do planeta, que provocou um enorme deficit ecológico, devido principalmente à depredação dos recursos e ao uso excessivo do espaço ambiental comum para a eliminação dos resíduos. É o tempo duma justiça reparadora. A este respeito, renovo o meu apelo para se cancelar a dívida dos países mais frágeis, à luz do grave impacto das crises sanitárias, sociais e económicas que aqueles têm de enfrentar na sequência do vírus Covid-19. É necessário ainda assegurar que os incentivos para a recuperação, em fase de elaboração e implementação a nível mundial, regional e nacional, se tornem realmente eficazes mediante políticas, legislações e investimentos centrados no bem comum e com a garantia de se alcançar os objetivos sociais e ambientais globais.
De igual modo é preciso restaurar a terra. O restabelecimento dum equilíbrio climático é extremamente importante, vista a urgência em que nos encontramos. Estamos a ficar sem tempo, como nos lembram os nossos filhos e os jovens. Tem-se de fazer todo o possível para manter o aumento da temperatura média global abaixo do limite de 1,5 graus centígrados, como ficou consagrado no Acordo de Paris sobre o Clima: ultrapassar tal limite revelar-se-á catastrófico, sobretudo para as comunidades mais pobres em todo o mundo. Neste momento crítico, é necessário promover uma solidariedade intra e intergeracional. Como preparação para a importante Cimeira do Clima em Glasgow, no Reino Unido (COP 26), convido cada país a adotar metas nacionais mais ambiciosas para reduzir as emissões.
O restabelecimento da biodiversidade é igualmente crucial no contexto duma extinção de espécies e uma degradação dos ecossistemas sem precedentes. É necessário apoiar o apelo das Nações Unidas para preservar 30% da Terra como habitat protegido até 2030, a fim de conter a taxa alarmante de perda da biodiversidade. Exorto a comunidade internacional a colaborar para garantir que a Cimeira sobre a Biodiversidade (COP 15) de Kunming, na China, constitua um ponto de viragem no sentido do restabelecimento da Terra como casa onde, segundo a vontade do Criador, a vida seja abundante.
Somos obrigados a reparar segundo justiça, garantindo, a quantos habitaram uma terra durante gerações, que possam recuperar plenamente a sua utilização. É preciso proteger as comunidades indígenas de empresas, particularmente multinacionais, que, com a extração perniciosa de combustíveis fósseis, minerais, madeira e produtos agroindustriais, «fazem nos países menos desenvolvidos aquilo que não podem fazer nos países que lhes dão o capital» (LS, 51). Esta má conduta das empresas representa um «novo tipo de colonialismo» (São João Paulo II, Discurso à Academia Pontifícia das Ciências Sociais, 27/IV/2001, citado na Exort. ap. Querida Amazonia, 14), que explora vergonhosamente comunidades e países mais pobres a braços com uma busca desesperada de desenvolvimento económico. É necessário consolidar as legislações nacionais e internacionais, para que regulamentem as atividades das empresas extrativas e garantam o acesso à justiça aos prejudicados.

5. Um tempo para rejubilar


Na tradição bíblica, o Jubileu constitui um acontecimento festivo, inaugurado por um som de tromba que ressoa por toda a terra. Sabemos que o clamor da Terra e dos pobres se tornou, nos anos passados, ainda mais rumoroso. Simultaneamente somos testemunhas do modo como o Espírito Santo está inspirando por todo o lado indivíduos e comunidades a unirem-se para reconstruir a casa comum e defender os mais vulneráveis. Assistimos ao surgimento gradual duma grande mobilização de pessoas que, partindo de baixo e das periferias, se estão empenhando generosamente em prol da proteção da terra e dos pobres. É uma alegria ver tantos jovens e comunidades, especialmente indígenas, na linha da frente para dar resposta à crise ecológica. Apelam por um Jubileu da Terra e um novo começo, cientes de que «as coisas podem mudar» (LS, 13).
Temos ainda motivo para nos alegrar quando constatamos como o Ano especial de aniversário da Laudato si' está a inspirar numerosas iniciativas a nível local e global em prol do cuidado da casa comum e dos pobres. Este ano deveria levar a planos operacionais de longo prazo, para chegar a haver uma ecologia integral nas famílias, paróquias, dioceses, ordens religiosas, escolas, universidades, cuidados da saúde, empresas, fazendas agrícolas e em muitas outras áreas.
Regozijamo-nos também com as comunidades de crentes que se estão dando as mãos para criar um mundo mais justo, pacífico e sustentável. É motivo de particular alegria que o Tempo da Criação se esteja a tornar uma iniciativa verdadeiramente ecuménica. Continuemos a crescer na consciência de que todos moramos numa casa comum enquanto membros da mesma família!
Alegremo-nos porque o Criador, no seu amor, sustenta os nossos humildes esforços em prol da Terra. Esta é também a casa de Deus, onde a sua Palavra «Se fez carne e veio habitar connosco» (Jo 1, 14), o lugar que a efusão do Espírito Santo renova sem cessar.

«Enviai, Senhor, o vosso Espírito e renovai a face da terra» (cf. Sal 104/103, 30).

Roma, em São João de Latrão, 1 de setembro de 2020.

Francisco

29/08/2020

Jardineiros no jardim de Deus

Nota pastoral do Bispo do Porto


De 1 de setembro, início do ano pastoral e escolar, a 4 de outubro, memória litúrgica de São Francisco de Assis, Patrono da Ecologia, a Igreja Católica e as Igrejas Irmãs Evangélicas colocam como sua referência especial a ligação à “Casa comum”, ou seja, à natureza, sem a qual pessoas, animais, plantas e outros seres não poderíamos sobreviver. Numa dupla perspetiva: como dimensão ética que nos obriga a específicos comportamentos respeitosos para com esta grande e bela obra de um Deus que nos oferece semelhante dádiva; e como fonte de espiritualidade, pois a contemplação da beleza da criatura ajuda-nos a admirar e amar mais o seu Criador.
Desde que o Papa Francisco nos alertou para a urgência de novas atitudes para com a natureza, com a publicação da encíclica Laudato si', esta celebração universalizou-se e passou a entrar, mais autenticamente, no rol das nossas preocupações e vivências eclesiais. Como é sabido, para assinalar o quinto aniversário desta encíclica dedicada a uma temática absolutamente nova, o Dicastério para a Promoção do Desenvolvimento Humano Integral, da Santa Sé, anunciou um ano celebrativo especial, de 24 de maio de 2020 a 24 de maio de 2021. Está a decorrer, embora o contexto de pandemia acabasse por ofuscar muitas ações que poderiam constituir grandes e motivadoras notícias.
Na Diocese do Porto, evidentemente, o tema também deu entrada no nosso Plano Pastoral. Nas “Emergências pastorais” refere-se, no nº 13, a necessidade do alargamento do «horizonte do nosso cuidado pela Casa Comum», aliás, um dos quatro “objetivos” para o ano de 2020/21, assim especificado: «Assumir a vocação de que Deus Pai e Criador nos confiou de guardiões da obra de Deus, como parte essencial de uma vida cristã virtuosa; acolher criativamente as propostas do Ano Laudato Si'.
Por tudo isto, convido amigavelmente os Sacerdotes e Diáconos, os Institutos Religiosos e Seculares, as Associações, Movimentos e Obras e todo o Povo de Deus, mormente por intermédio dos seus organismos mais representativos – escolas, universidades, hospitais, empresas, famílias, comunicação social, administração, autarquias, associações culturais e desportivas, artistas, etc. – a celebrarmos este tempo da Criação com ações de sensibilização ambiental, reflexão sobre a interligação da pessoa com a natureza e, se possível, com a oração de louvor pela magnífica oferta que o Criador nos concedeu.
Não faltam materiais para nos ajudar nesta vivência. Refiro, especialmente, os provenientes do Dicastério para o Desenvolvimento Humano Integral  (www.sowinghopefortheplanet.org/files/shftp_uploads/2020/6/Laudato_Si_Portuguese_compressed.pdf) ou da Comissão Ecuménica (seasonofcreation.org/pt/about-pt). A nível local, entre nós, a Comissão Diocesana para o Ecumenismo (ecumenismodioceseporto.blogspot.com) já publicou válidas achegas. O nosso Secretariado Diocesano do Ensino da Igreja nas Escolas, a quem confiei a tarefa da mobilização em favor da “Casa comum”, pretende viver o ano escolar à base deste slogan, jogando com as iniciais da sigla: «Dá cá mais 5 c’s: Crescer na Consciência do Cuidado da Casa Comum». Creio que, com esta ou outra formulação, este desiderato deveria constituir uma preocupação de toda a Igreja diocesana.
E rezemos: «Senhor da Vida, durante este Tempo da Criação pedimos que nos deis coragem para guardar o shabat do nosso planeta. Fortalecei-nos com a fé para acreditarmos na Vossa providência. Inspirai-nos com a criatividade para compartilharmos aquilo que recebemos. Ensinai-nos a satisfazer-nos com aquilo que é suficiente. E enquanto proclamamos um Jubileu pela terra, enviai o Vosso Espírito a renovar a face da criação. Nós Vo-lo pedimos em nome de Jesus Cristo que veio proclamar a boa-nova para toda a criação».

Porto, 27 de agosto de 2020

+ Manuel, Bispo do Porto