06/12/2025

O ecumenismo dos gestos, as divisões da vida

Foto: Settimananews
No seguimento da visita do Papa Leão XIV à Turquia, da oração ecuménica realizada na antiga cidade de Niceia por ocasião dos 1700 anos do I Concílio de Niceia e dos encontros com o Patriarca de Constantinopla Bartolomeu, que culminaram na assinatura de uma
Declaração conjunta, disponibilizamos em português o texto do teólogo Dimitros Karamidas, professor da secção ecumémica da Faculdade de Teologia da Pontifícia Universidade São Tomás de Aquino (Angelicum), em Roma.

A visita do Papa Leão XIV à Turquia, para além de ser a primeira viagem ao estrangeiro do novo pontífice, ficará na memória pela oração ecuménica realizada na antiga cidade de Niceia (a atual Iznik), por ocasião do 1700.º aniversário do Primeiro Concílio Ecuménico, e pelos encontros de carácter formal e litúrgico com o Patriarca Ecuménico Bartolomeu no Fanar, que culminaram com a assinatura de uma Declaração conjunta.
Alguns já descreveram estes acontecimentos como “históricos”. O próprio Papa afirmou ter sentido a profundidade da oração em Niceia e ter sido tocado pela experiência da divina liturgia celebrada na Igreja de São Jorge, catedral da Igreja de Constantinopla. Não há dúvida de que os acontecimentos destes dias serão relatados nos livros de história. Mesmo que apenas o futuro possa desvelar o seu impacto efetivo, não há dúvidas quanto ao grande valor simbólico dos gestos de amizade que, há já décadas, caracterizam as relações entre Roma e Constantinopla.

***

A visita do Papa Leão insere-se no quadro daquele “diálogo da caridade” iniciado nos anos 60 pelo Papa Paulo VI e pelo Patriarca Atenágoras, continuado pelos seus sucessores. Uma relação de diálogo que já não se desenvolve em tons de polémica e de denúncia dos erros alheios, mas no da reconciliação, do perdão e da redescoberta enquanto igrejas irmãs. No fundo, o amor é uma verdadeira obra teologal, dado que Deus é amor.
O espírito de amor criou um contexto psicológico que permitiu também que os debates teológicos se articulassem de modo positivo. Do mesmo modo, ajudou a traduzir a caridade numa convivência e num testemunho conjunto do evangelho. Caridade, teologia e vida foram os pilares do ecumenismo ortodoxo‑católico.
Neste enquadramento, o diálogo teológico internacional, iniciado nos anos 80, pôde produzir documentos de grande amplitude, nos quais emergiram muitas convergências sobre temas eclesiológicos delicados, alguns dos quais — como a sucessão apostólica, o uniatisimo, a sinodalidade e o primado — pareciam até impossíveis de enfrentar. Hoje, a teologia centrada na polémica, aquela que Atenágoras queria exilar numa ilha, deixou praticamente de existir, e as Igrejas já não interpretam muitas das suas diferenças como aspetos inconciliáveis, dando prioridade ao que as une e não ao que as divide.
Atualmente, o diálogo teológico internacional dedica-se a aprofundar os temas da infalibilidade e do Filioque, isto é, a doutrina da procedência do Espírito Santo. Em Iznik, foi recitado o Credo niceno sem o Filioque e, para muitos, no Catolicismo e na Ortodoxia, essa escolha pareceu o fim definitivo da histórica controvérsia.

***

Cumpre, no entanto, referir que a carta papal In unitate fidei, publicada pouco antes da viagem do Papa Leão, tinha-se distanciado tanto de «um ecumenismo de retorno ao estado anterior às divisões» como do «reconhecimento recíproco do atual status quo da diversidade das Igrejas e das Comunidades eclesiais». Leão escrevia, mantendo-se talvez deliberadamente um pouco vago, acerca de «um ecumenismo voltado para o futuro… de troca dos nossos dons e patrimónios espirituais».
Sabemos que, por mais importante que seja, a teologia não será, por si só, suficiente para realizar a unidade. É necessário que o povo da Igreja receba os resultados positivos dos diálogos teológicos e os integre na sua vida. A teologia é certamente capaz de resolver nós teóricos e de reler e superar velhas diatribes, mas não tem o poder de impor a unidade, pois essa tarefa cabe às autoridades eclesiais. Regressamos, portanto, ao valor dos gestos simbólicos, que têm um impacto mais direto no ânimo dos povos e podem determinar novas atitudes e estabelecer percursos comuns.
Neste sentido, alguns aspetos dos últimos dias merecem destaque. Antes de mais, no encontro de oração em Iznik, para além da delegação papal, participaram os primazes ou os representantes dos antigos Patriarcados Ortodoxos, das Igrejas Orientais, da Igreja Assíria, de todas as Igrejas ocidentais e de algumas organizações ecuménicas.
Pode dizer‑se, sem exagero, que o Credo niceno beneficiou de uma antecipação profética da união de todo o mundo cristão na mesma fé. Espera‑se, portanto, que a fé nicena, evocada num contexto litúrgico e de oração, torne ainda mais evidente a necessidade de estarmos juntos e o escândalo de permanecermos divididos.

***

Não se podem, porém, ignorar as ausências de alguns primazes e de algumas Igrejas Ortodoxas, como os Patriarcas de Antioquia e de Jerusalém (que declinaram o convite do Patriarca Ecuménico, enviando representantes) e das outras Igrejas Ortodoxas patriarcais e autocéfalas (não convidadas).
E, se é possível censurar a ausência dos dois Patriarcas (quaisquer que sejam as razões), é difícil compreender os critérios que levaram à escolha de limitar o convite para a oração de Niceia apenas aos Patriarcados da antiga pentarquia, excluindo todas as outras igrejas ortodoxas erigidas no segundo milénio. Uma escolha que, além de anacrónica, revela como as ruturas internas da Ortodoxia tendem a consolidar‑se e a comprometer o diálogo teológico com a Igreja Católica.
Consciente disto, no seu discurso no final da divina liturgia no Fanar, o Papa Leão pediu ao Patriarca Ecuménico que «faça todos os esforços para que todas as Igrejas ortodoxas autocéfalas voltem a participar ativamente nesse empenho». A esperança é que todas as Igrejas Ortodoxas regressem ao diálogo teológico internacional, mesmo se, entretanto, grande parte da Ortodoxia desenvolveu posições eclesiológicas que contradizem a convergência com o Catolicismo arduamente alcançada nos últimos 60 anos.

***

A Declaração conjunta reconhece o progresso teológico realizado e parece ter em conta a necessidade de o transmitir às bases eclesiais. O Papa e o Patriarca exortam «todos os que ainda hesitam perante qualquer forma de diálogo, a escutar o que o Espírito diz às Igrejas, impelindo‑nos, nas atuais circunstâncias da história, a apresentar ao mundo um testemunho renovad de paz, reconciliação e unidade» e exortam «vivamente todos os fiéis das nossas Igrejas, em particular o clero e os teólogos, a acolher com alegria os frutos até agora alcançados e a empenhar‑se no seu contínuo incremento».
Impressiona, antes de mais, o uso do verbo “exortar”. Não parece tratar‑se apenas de uma opção estilística nem tem como objetivo fornecer sugestões ou conselhos. Trata-se de um pedido dirigido aos fiéis para que se envolvam e ultrapassem resistências mentais, vençam sentimentos de medo e suspeita, apoiem o diálogo já existente e escutem a voz do Espírito Santo que chama todos à unidade e não à dispersão.
A Declaração insere assim as relações entre as duas Igrejas num quadro de ação mais vasto. «Para além do papel insubstituível que o diálogo teológico desempenha no processo de aproximação entre as nossas Igrejas, recomendamos também os outros elementos necessários neste processo, entre os quais os contactos fraternos, a oração e o trabalho conjunto em todos os sectores em que a cooperação já é possível».
O Papa e o Patriarca afirmaram estar «conscientes de que a unidade dos cristãos não é simplesmente resultado de esforços humanos, mas um dom que vem do alto». Rezar juntos está no coração do ecumenismo e implica o reconhecimento dos dons espirituais próprios de cada Igreja.
Trata‑se, por outras palavras, de acolher a transversalidade dos dons da fé presentes nas outras igrejas (como a santidade e o martírio) e de pedir o apoio de Deus, reconhecendo os limites de cada tradição cristã no cumprimento dos preceitos evangélicos. Uma Igreja que renuncia à oração é, com efeito, uma Igreja que não precisa que Deus aja nela. A oração comum ajuda a perceber que as tradições confessionais não são fortalezas a defender, mas tesouros espirituais a partilhar.

***

No final da celebração eucarística, da varanda do palácio patriarcal, o Papa e o Patriarca deram a sua bênção à assembleia e, virtualmente, aos seus fiéis em todo o mundo.
Do ponto de vista teológico, trata‑se do reconhecimento de facto da apostolicidade da Igreja de Roma e da fraternidade episcopal entre os dois líderes. Se, para o agir do Patriarcado Ecuménico, tal reconhecimento nunca foi um problema, continua a sê‑lo para alguns sectores antiecuménicos que, embora minoritários, estão muito presentes no episcopado, no clero e no mundo monástico ortodoxo. Também neste caso, o desafio é comunicar de modo convincente aos fiéis a fraternidade existente entre as duas Igrejas, talvez estimulando mais o ecumenismo local, ainda pouco praticado na Ortodoxia.
A Declaração não deixa de acenar às guerras em curso, recordando que «o objetivo da unidade dos cristãos inclui o fim de contribuir de modo fundamental e vivificante para a paz entre todos os povos», fazendo um apelo «a quantos têm responsabilidades civis e políticas, para que façam tudo o possível para garantir que a tragédia da guerra cesse imediatamente, e pedimos a todas as pessoas de boa vontade que apoiem a nossa súplica».
Ligar a unidade cristã à paz significa também dirigir-se às Igrejas que, nos últimos anos, se envolveram em retóricas belicosas, através das quais prejudicaram a imagem do cristianismo e feriram a unidade da Igreja Ortodoxa. Espera‑se que as estratégias para reconduzir essas Igrejas à lógica da paz sejam diferentes das adotadas até agora, que se revelaram pouco eficazes (veja‑se a tentativa de mediação humanitária da Santa Sé entre a Rússia e a Ucrânia) e pouco inclusivas (como a ausência, por parte do Patriarcado Ecuménico, de um plano de ação para pôr termo às numerosas ruturas no mundo ortodoxo).

***

Última nota: depois da assinatura da Declaração, o Patriarca ofereceu ao Papa uma elegante estola com o texto de Efésios 4,15 em grego e latim: «agindo segundo a verdade na caridade, procuremos crescer em tudo, tendendo para ele, que é a cabeça, Cristo». O Papa endossou a estola durante a liturgia bizantina.
Foi mais um sinal do apostolado comum de Roma e Constantinopla e indicador da essência do ministério exercido, de modos diferentes, pelo Papa e pelo Patriarca. O passo paulino diz-nos que o “primeiro” é aquele que se coloca ao serviço de todos, age na caridade não para afirmar a “verdade” de privilégios jurídicos, mas porque Cristo, a verdadeira pedra da fé, exige o martírio como caminho para participar na sua ressurreição.
A morte (o “fazer morrer” antigos privilégios, equilíbrios diplomáticos, compromissos com poderes seculares), por mais dolorosa que seja, é o preço indispensável a pagar para favorecer a convergência para o evangelho da vida e da unidade. Estão as nossas igrejas dispostas a fazê-lo?

Dimitros Karamidas
Settimananews (6 dez. 2025).

05/11/2025

Uma Carta Ecuménica para a Europa

Foto: CCEE
Era, de facto, uma época completamente diferente, e não só para o movimento ecuménico. Quando, em 22 de abril de 2001, na igreja de São Thomas, em Estrasburgo, o metropolita Jéremie, pela KEK (Conferência das Igrejas Europeias), e o cardeal de Praga Vlk, presidente do CCEE (Conselho das Conferências Episcopais da Europa), assinaram a Carta ecuménica, o futuro do encontro entre as Igrejas parecia promissor e cheirava a esperança. Ao contrário de hoje...
A assinatura desse documento – três partes, 12 pontos e 26 compromissos concretos, subtítulo Linhas-guia para o crescimento da colaboração entre as Igrejas na Europa – seguiu as duas primeiras etapas do Processo ecuménico europeu sobre Paz, justiça e salvaguarda da criação, realizado em Basileia em 1989 e em Graz em 1997, que se encerraria em 2007 em Sibiu, na Roménia.

Um texto frágil, mas cheio de esperança

É certo: o texto da Carta era frágil – dizia-se – e, em sentido estrito, não vinculativo para nenhuma das Igrejas signatárias; no entanto, era simbolicamente significativo e auspicioso, tendo surgido numa fase em que a confiança no caminho da unificação continental era muito maior do que hoje (e as Twin Towers ainda estavam de pé).
Na bela cidade da Alsácia, o clima era efervescente, e circulava entre os presentes a sensação de que se tratava de um grande passo para o continente onde tiveram início as grandes fraturas históricas da cristandade.
As mesmas duas organizações iniciaram, a partir de 2022, um processo de revisão desse documento, que deveria ser concluído com a assinatura de uma Carta revista e atualizada em Vilnius, na Lituânia, nos dias 26 e 27 de abril passado, se não tivesse ocorrido a morte do Papa Francisco.
Se o refrão da Carta original era «comprometemo-nos», repetido 22 vezes, na versão atual são 55: com mais atenção à igualdade de género, às relações com o judaísmo e o islamismo, à paz e à proteção da Criação, enquanto, nos parágrafos finais, se trata de migrações, inteligência artificial e Europa no cenário mundial. É claro que esta é apenas uma etapa de um caminho que terá de envolver as Igrejas locais: a missão, sempre a mesma, é sair dos círculos restritos e abrir-se a um público mais vasto.
Após o adiamento em abril, de 4 a 6 de novembro, o Comité Conjunto CCEE e KEK reune-se em Roma. Dois momentos altos do encontro: a cerimónia oficial de assinatura da Carta atualizada, prevista para 5 de novembro na igreja do martírio de São Paulo, na Abadia delle Tre Fontane, confirmando o compromisso comum das Igrejas europeias com a unidade, o diálogo e a cooperação; e, em 6 de novembro, a audiência especial concedida pelo Papa Leão XIV aos participantes da cerimónia de assinatura.
A versão atualizada será assinada por Gintaras Grušas, arcebispo de Vilnius e presidente do CCEE, e pelo arcebispo Nikitas Lioulias de Thyateira e Grã-Bretanha, presidente da KEK.

Um documento comum para um compromisso comum

Para compreender melhor o significado do evento, é importante lembrar que a Carta nasceu para cumprir uma recomendação específica da Assembleia Ecuménica Europeia de Graz (1997), na qual – constatada «a difícil situação em que se encontra a comunidade ecuménica, por vários motivos» e a necessidade de «cultivar uma cultura ecuménica de convivência e colaboração» – se convidavam as Igrejas europeias a «elaborar um documento comum, que contenha os direitos e deveres ecuménicos fundamentais, e a deduzir dele uma série de diretrizes, regras e critérios ecuménicos, que possam ajudar as Igrejas, os seus responsáveis e todos os seus membros a distinguir entre proselitismo e testemunho cristão, entre fundamentalismo e autêntica fidelidade à fé e a configurar, finalmente, num espírito ecuménico, as relações entre as Igrejas maioritárias e as minoritárias».
A assinatura foi o ponto culminante de um processo que durou mais de dois anos, durante o qual as várias Igrejas que integram a KEK e o CCEE discutiram um primeiro esboço e formularam as suas observações; em seguida, uma comissão conjunta dos dois organismos promotores, após recolher mais pareceres, elaborou uma segunda versão do documento, a que foi assinada na Alsácia.
«Foi um trabalho longo – declarou o P. Aldo Giordano, então secretário da CCEE –, no qual aprendemos a conhecer-nos e a falar com franqueza». «Recolher tantas opiniões e tentar construir o mais amplo consenso em torno da Carta foi uma grande aventura ecuménica – afirmou o pastor batista Keith Clements, na época secretário da KEK –, mas é claro que a assinatura de Estrasburgo não é um ponto de chegada; é uma etapa de um caminho que agora deve envolver as Igrejas locais: serão elas a decidir se a Carta é um instrumento válido para a busca da unidade e do testemunho cristão no nosso tempo».
Na vida eclesial, o processo de traditio da mensagem tem sempre de ser seguido por um processo de receptio na fé e de redditio no testemunho ativo. O mesmo acontece no âmbito ecuménico: a entrega de um texto acordado a nível interconfessional tem de ser seguida pela sua receção na fé comum e pela sua restituição através de uma atitude partilhada e ativa de colaboração ecuménica.

O sentir dos jovens

Entre os presentes no encontro de Estrasburgo em 2001 (realizado logo após a Páscoa, que, por uma feliz coincidência, foi celebrada simultaneamente por todas as Igrejas, ocidentais e orientais), além dos responsáveis das próprias Igrejas, havia cerca de uma centena de jovens com menos de 30 anos, representando todas as confissões cristãs do continente, da costa atlântica aos Urais, de Creta à Noruega: uma escolha que se revelou positiva, segundo os comentários dos próprios jovens na assembleia, pois permitiu um confronto inédito entre as gerações.
Na minha memória, por exemplo, está a intervenção de um jovem católico escocês, na conferência de imprensa relativa ao ice-breaking preparatório da assembleia. Ele explicou: «Durante a reunião, sentimo-nos todos ortodoxos, todos católicos, todos protestantes e evangélicos. Mas isso não significa que sejamos uma "sopa ecuménica", onde todos os elementos estão misturados num caldo indistinto e homogéneo: pelo contrário, a nossa comunhão poderia ser descrita como uma "salada ecuménica", onde todas as diferentes cores e sabores – unidos pelo tempero do Espírito Santo – podem ser mais bem percebidos e saboreados». É difícil descrever melhor o futuro do ecumenismo europeu...

Brunetto Salvarani
Settimananews (4 nov. 2025).

31/10/2025

Ecumenismo no Porto avança e propõe iniciativas

Publica-se a notícia disponibilizada pela Comissão Ecuménica do Porto.

A Igreja de Ramalde, no Porto, foi o lugar escolhido para a reunião mensal da Comissão Ecuménica do Porto no dia 22 de outubro de 2025.
O grupo, constituído por um clérigo e um leigo das Igrejas membro, iniciou o encontro, como de costume, com um tempo devocional, de oração e reflexão bíblica, sustentado nos bons recursos disponibilizados no guião da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos.
Entre os vários assuntos, destacou-se a Vigília Ecuménica de Oração e Unidade, em Tempo da Criação, realizada na Paróquia Lusitana do Salvador do Mundo, a 24 de setembro, que mereceu uma avaliação muito positiva, na medida em que estiveram presentes 10 ministros de várias Igrejas, acompanhados dos respetivos Bispos e uma assembleia com mais de 70 pessoas.
Foi realizado pela RTP2 “A Fé dos Homens”, programa televisivo, que pode ser visualizado no Youtube.
A Comissão atualizou a agenda ecuménica para os próximos meses e aqui se partilham datas e eventos, para que mais pessoas se sintam chamadas a participar na construção permanente e sempre nova da unidade entre os Cristãos, querida e desejada pelo Senhor Jesus “Pai, que eles estejam tão unidos a nós, como tu o estás a mim e eu a ti. Desta maneira, o mundo há de acreditar que tu me enviaste”. S. João 17, 21.
- 3 dezembro, 19h30, Oração e jantar ecuménico (para os membros da comissão) com reflexão dos Bispos, na Paróquia Lusitana do Bom Pastor;
- 12 dezembro, 20h30, Cantares Ecuménicos de Natal pelas ruas do Porto. (brevemente serão partilhadas mais informações no site da comissão);
- 5 e 6 novembro, apresentação pública do importante documento para o ecumenismo: Carta Ecuménica para a Europa, no Vaticano, Roma. O Bispo D. Sifredo Teixeira, estará presente a representar o COPIC – Conselho Português de Igrejas Cristãs. Em Portugal, o documento terá uma apresentação oficial em data a anunciar;
- 18 a 25 janeiro 2026. Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, com o tema «Há um só corpo e um só Espírito, assim como fostes chamados para a única esperança da vossa vocação» (Efésios 4:4)

Sérgio Alves, presbítero
Membro da Comissão Ecuménica do Porto

30/09/2025

«Paz com a Criação» junta Igrejas para Vigília Ecuménica, em Tempo da Criação

Publica-se a notícia disponibilizada pela Comissão Ecuménica do Porto.

Anualmente, entre 1 de setembro e 4 de outubro, celebra-se o Tempo da Criação proposto pelas Igrejas a nível Mundial e com crescente adesão, que tem como objetivo proporcionar vivências de oração e ação conjuntas, e assim, despertar consciências e vontades, na salvaguarda da casa comum, reconhecendo a Criação como o ato divino contínuo, que a todos convoca, como colaboradores, seguidores de Cristo, sabendo que o bem-estar da humanidade está interligado com o bem-estar da Irmã e Mãe Terra.
A Paróquia do Salvador do Mundo, da Igreja Lusitana – Comunhão Anglicana, acolheu a celebração, que teve lugar na noite de 24 de setembro de 2025, promovida pela Comissão Ecuménica do Porto, dentro do roteiro ecuménico de oração. Na saudação de boas-vindas, o pároco local e membro da Comissão Ecuménica do Porto, Presbítero Sérgio Alves, referiu que «esta celebração é já um marco no caminhar ecuménico na cidade e que juntos, estamos a dar um sinal de unidade na diversidade que nos caracteriza, um testemunho profético e comprometido na sociedade».
Estiveram representantes das Igrejas Católica Romana, Lusitana-Comunhão Anglicana, Metodista, Ortodoxa da Ucrânia do Patriarcado de Constantinopla e Ortodoxa de Moscovo, Rússia, acompanhados pelos Bispos D. Manuel Linda, Bispo D. Pina Cabral e Bispo D. Sifredo e sete ministros das respetivas Igrejas, juntamente com uma assembleia que contou com mais de setenta pessoas.
A pregação foi da responsabilidade do Bispo do Porto, D. Manuel Linda, que a todos interpelou pela sua profundidade bíblica, teológica e atualidade, abordando as raízes culturais da crise ecológica e, a partir da Revelação, desenvolveu, fundamentalmente, a confusão que por vezes se faz entre felicidade e posse e a necessidade de desfazer a ideia de «luta contra a natureza», pois a pessoa, que também pertence à natureza, ao lutar contra ela acaba por lutar contra si própria, dizendo que «o homem quis apropriar-se das coisas de Deus, sem Deus e até contra Deus» e, terminando com o pensamento de Agostinho, «o homem não pode salvar-se sem a criação, nem a criação sem o homem».
O tema da vigília, organizada liturgicamente a partir dos recursos disponibilizados pelo Tempo da Criação, foi «Paz com a Criação» (Isaías 32, 14-18). Paz que não é apenas a ausência de guerra, mas a restauração de relações quebradas – com Deus, entre os seres humanos e com a Criação. O profeta Isaías no seu livro bíblico retratou uma criação desolada, desprovida de paz devido à injustiça e à rutura da relação entre os homens e Deus. Atualmente, o Mundo enfrenta 134 guerras e a ONU estima que cerca de 305 milhões de pessoas precisarão de ajuda humanitária este ano por causa das guerras.
A vigília terminou no exterior da Igreja, com velas acesas, sinal de Cristo vivo, luz do mundo. A assembleia orou, pedindo a misericórdia de Deus e a ação do Espírito Santo, para que a Paz nas nações, comece nos corações, a que se seguiu um tempo de confraternização à volta da mesa.
Foram partilhadas duas realidades importantes para o contexto ecuménico, para que os Cristão possam estar atentos e comprometidos. A apresentação da Carta Ecuménica para a Europa, revista, em Roma, no dia 5 de novembro próximo, que num dos seus eixos maiores, trata o tema da Paz e da Reconciliação e o Programa «Eco-Igrejas Portugal», um projeto inovador que propõe uma certificação ambiental das comunidades cristãs.
O cristianismo é um dom, por isso, uma tarefa sempre em construção. Os cristãos não podem ficar parados, desanimados, silenciados. Cristo vive, dá-nos a Paz, para sermos construtores de Paz.

Presbítero Sérgio Alves
Igreja Lusitana-Comunhão Anglicana

19/09/2025

«Paz com a criação»: Vigília de Oração e Unidade

A Comissão Ecuménica do Porto convida a participar na Vigília de Oração e Unidade, inserida no Tempo da Criação, celebrado mundialmente entre 1 de setembro e 4 de outubro. Terá lugar no dia 24 de setembro (quarta-feira), pelas 21h30, na Paróquia S. Salvador do Mundo da Igreja Lusitana, situada no Arco do Prado, em Coimbrões, Vila Nova de Gaia. O tema desta celebração é «Paz com a Criação». Somos chamados a vigiar, escutar, orar e agir na salvaguarda da Criação.


28/08/2025

Tempo da Criação 2025

Todos os anos, de 1 de setembro a 4 de outubro, a família cristã une-se para a celebração mundial de oração e ação com vista à proteção da nossa casa comum. É uma época especial em que celebramos Deus como Criador e reconhecemos a Criação como ato divino contínuo, que nos chama como colaboradores a amar e cuidar do dom de tudo aquilo que é criado. Como seguidores e seguidoras de Cristo em todo o mundo, compartilhamos um chamamento comum pelo cuidado da Criação. Somos cocriadores e parte de tudo o que Deus criou. O nosso bem-estar está interligado com o bem-estar da Terra.
Alegramo-nos com esta oportunidade de proteger a nossa casa comum e todos os seres que a partilham. Este ano, o tema para este tempo é «Paz com a Criação».

Convite dos líderes religiosos ecuménicos


Caras Irmãs e Irmãos em Cristo,
O Tempo da Criação é a celebração cristã anual para orarmos e respondermos juntos ao clamor da Criação: a família ecuménica em todo o mundo une-se para contemplar e cuidar da nossa casa comum, a Oikos de Deus.
A «Celebração» deste tempo começa no dia 1 de setembro, dia em que várias denominações cristãs celebram o Dia Mundial de Oração pela Criação e que alguns celebram como Festa da Criação, e termina no dia 4 de outubro, Festa de São Francisco de Assis, amado por muitas denominações cristãs.
Este ano, vamos unir-nos em torno do tema «Paz com a Criação», com o símbolo «Jardim da Paz», inspirado em Isaías 32, 14-18.
Líderes ecuménicos de todo o mundo prepararam um convite especial para si e para a sua comunidade participar neste tempo, que pode ser visto aqui.
Muitos também partilharam as suas reflexões para inspirar a nossa família ecuménica nesta jornada, enquanto cristãos de todo o mundo se preparam para testemunhar a esperança e a ação, trabalhando em conjunto com e pela Criação.
Como uma forte declaração sobre a importância deste tempo ecuménico de oração e ação pela Criação, aqui estão as palavras dos líderes religiosos da nossa família cristã a convocar-nos para este tempo especial:
  • «Como ensina a Sagrada Escritura, a terra pertence a Deus e todos nós habitamos nela como «estrangeiros e hóspedes» (Lv 25, 23). Se realmente queremos preparar o caminho da paz no mundo, comprometamo-nos a remediar as causas remotas das injustiças, saldemos as dívidas injustas e insolúveis, saciemos os famintos» – Sua Santidade o Papa Francisco, Bispo de Roma (de 13 de março de 2013 a 21 de abril de 2025), Igreja Católica Romana, Igreja Católica Romana.
  • «Não podemos nem devemos esperar combater as alterações climáticas sem trabalhar em estreita colaboração uns com os outros. Como já afirmámos repetidamente, "estamos todos no mesmo barco". Cuidar da criação é um mandato e uma responsabilidade coletivos» – Sua Santidade o Patriarca Ecuménico Bartolomeu, Santa Igreja Ortodoxa.
  • «Agradecemos a Deus pela nossa participação na Criação, pelo chamamento a valorizá-la, a sermos bons administradores e a discernir os sinais dos tempos. Que possamos agir juntos pela justiça, para proteger as pessoas, os animais e o mundo natural» – +Anthony Poggo, Secretário Geral, Comunhão Anglicana.
  • «Reconhecemos o apelo urgente à ação e reconhecemos que só podemos responder-lhe com base na fé. O Tempo da Criação é uma fonte de força e comunhão» – Rev.da Dr.ª Anne Burghardt, Secretária-Geral da Federação Luterana Mundial.
  • «Vamos celebrar com São Paulo o papel do Espírito como parteiro através da tríplice sequência "cosmoteândrica" do santo gemido da criação como Mãe Terra, do Espírito como parteiro e dos crentes como filhos adotivos de Deus!» – Rev. Dr. Jong Chun J.C. Park, Presidente do Conselho Metodista Mundial.
  • «Somos chamados a ser administradores e cidadãos responsáveis, cuidando e sustentando a terra que pertence ao Senhor. Cada um de nós precisa fazer a sua parte para cuidar da criação» – Rev. Prof. Dr. Jerry Pillay, Secretário-Geral, Conselho Mundial de Igrejas.
  • «Não devemos desapontar o Criador, estragando a sua criação, que Ele nos confiou desde o início dos tempos e continua a proteger-nos de nós mesmos. É extremamente necessária uma mudança de paradigma» – Prof. Michel Abs, Secretário-Geral, Conselho de Igrejas do Médio Oriente.
  • «Temos de abandonar os combustíveis fósseis e avançar para as energias renováveis de forma justa e organizada. A nossa fé exorta-nos a apoiar as comunidades vulneráveis mais afetadas pela crise climática» – Rudelmar Bueno de Faria, Secretário-Geral, ACT Alliance.
  • «Neste Tempo da Criação, exorto todos os cristãos em todo o mundo a tomarem medidas concretas para cuidar do ambiente, conservar os recursos naturais e promover a sustentabilidade para proteger a Terra. Convido todos os cristãos a aderirem a este Tempo» – Seth Appiah-Kubi, Diretor Nacional, A Rocha Gana.
  • «Estar em paz com a criação é viver em harmonia com a presença vivificante de Deus em todas as coisas. O Tempo da Criação chama-nos a uma comunhão mais profunda com a Terra, abraçando o nosso papel na obra de amor, cura e reconciliação que Deus está a realizar para toda a criação» – Dr. Hefin Jones, membro do Comité Executivo, Comunhão Mundial de Igrejas Reformadas.


Tema do Tempo da Criação de 2025


Todos os anos, o Comité Diretivo Ecuménico do Tempo da Criação propõe um tema para este Tempo.
O tema deste ano é «Paz com a Criação», inspirado em Isaías 32, 14-18: «Porque o palácio está abandonado, a cidade tumultuosa, deserta; a fortaleza de Ofel e a torre de vigia estão convertidas para sempre em terras abandonadas, para delícia dos asnos selvagens e pastagem dos rebanhos. Até que, do alto, Deus nos dê novo alento. Então o deserto se converterá em pomar e o pomar será como uma floresta. O direito habitará nestas terras, agora desertas, e a justiça reinará no futuro pomar. A justiça produzirá a paz, e daí resultará para sempre tranquilidade e segurança. O meu povo habitará num oásis de paz, em moradas tranquilas e em lugares sossegados» (BPT09).

«Porque o palácio está abandonado, a cidade tumultuosa, deserta; a fortaleza de Ofel e a torre de vigia estão convertidas para sempre em terras abandonadas, para delícia dos asnos selvagens e pastagem dos rebanhos» (Isaías 32, 14).
O profeta Isaías retrata uma Criação desolada, desprovida de paz devido à injustiça e à rutura da relação entre Deus e os homens. Cidades devastadas e terrenos baldios refletem o impacto destrutivo da humanidade na Terra. Embora o plano de Deus para a Criação esteja enraizado na justiça e na paz, o pecado humano perturba-o, deixando a Criação em ruínas desde palácios ricos a terras agrícolas, florestas e oceanos pobres. Isaías descreve vividamente os resultados do afastamento humano da Criação.
A paz não é apenas a ausência de guerra, mas a restauração de relações quebradas - com Deus, entre os seres humanos e com a Criação. A humanidade faz guerra à Criação através da produção extrativa, do consumo excessivo e da perda de biodiversidade. A ganância das empresas e o consumismo conduzem a práticas insustentáveis, mas os indivíduos também são cúmplices.
O consumo excessivo de carne, a vida de luxo, o desperdício, as emissões de gases com efeito de estufa, a utilização de produtos químicos e a poluição exemplificam o nosso papel na destruição da Criação.
Alguns são mais responsáveis por esta crise - o consumo de elite, os modelos de negócio exploradores e as teorias económicas que dão prioridade ao lucro em detrimento da sustentabilidade. A poluição, as crises sanitárias, a desflorestação e a exploração mineira em zonas de conflito agravam a situação.
A Conferência das Nações Unidas sobre Biodiversidade (COP16), realizada no ano passado em Cali, na Colômbia, com o tema «Paz com a natureza», destacou a urgência dessas questões.
O Cântico das Criaturas, de São Francisco de Assis, chama à Terra nossa irmã e mãe. Como pode a Mãe Terra nutrir-nos se não a contemplarmos, aprendermos com ela e a amarmos? Ignorar a nossa interligação mina esta relação vital.

A nossa esperança: A criação encontrará paz quando a justiça for restaurada

«O direito habitará nestas terras, agora desertas, e a justiça reinará no futuro pomar» (Isaías 32, 16).
Há esperança para uma Terra pacífica. Biblicamente, a esperança é ativa - envolve oração, ação e reconciliação com a Criação e o Criador através do arrependimento (metanoia) e da solidariedade. O Rev. Jerry Pilay, do Conselho Mundial de Igrejas, afirmou: «O mundo está em crise e o nosso ministério e serviço são cada vez mais necessários à medida que procuramos a justiça, a unidade, a paz e a reconciliação».
Isaías 32, 14-18 prevê uma Criação pacífica onde o povo de Deus vive apenas quando a justiça é alcançada. A justiça conduz à paz e restaura a fertilidade da terra: «A justiça produzirá a paz, e daí resultará para sempre tranquilidade e segurança. O meu povo habitará num oásis de paz, em moradas tranquilas e em lugares sossegados» (Isaías 32, 17-18).
A criação é um dom sagrado de Deus, confiado aos cristãos para que a protejam em paz e a transmitam às gerações futuras. A sua interligação torna a paz simultaneamente essencial e delicada» (Isaías 32, 17-18).
O Génesis revela a intenção original de Deus para uma relação harmoniosa entre os seres humanos e a Criação não humana.
O Papa Francisco desafia-nos: «Qual é o objetivo do nosso trabalho? Que necessidade tem a terra de nós? Deixar um planeta habitável às gerações futuras depende de nós» (Laudato Si', 160).
As Igrejas empenham-se globalmente em esforços em favor do clima, da agricultura e da biodiversidade, com base na teologia e num apelo profético ao arrependimento e à justiça. Só através da reconciliação uns com os outros e com o Criador - e da justiça genuína para todos os seres vivos - é que a Criação encontrará a paz, cumprindo a visão de Isaías (32, 16-18).

Um Momento Kairos: 1700 anos do Credo niceno

«Cremos num só Deus, Pai todo-poderoso, criador do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis. E no Senhor Jesus Cristo, por quem todas as coisas foram feitas. Cremos no Espírito Santo, o Senhor, que dá a vida» (Credo niceno*).
O ano de 2025 assinala o 1700º aniversário do Credo de Niceia.
Desde 325, os cristãos de todo o mundo têm seguido o apelo de Niceia a confessar a sua comunhão na fé e a testemunhar a sua fé no contexto de um mundo conturbado, desigual e dividido. O Credo de Niceia tornou-se um vínculo de paz e comunhão entre as igrejas. O nosso trabalho pela paz com a Criação pode apoiar-se nesta antiga e forte comunhão ecuménica. É uma expressão do Credo de Niceia hoje.
O Credo de Niceia afirma que os cristãos acreditam no Deus trino, o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Como cristãos, lemos Isaías 32, 14-18 com base na nossa fé no Deus trino: Reconhecemos o Espírito Santo no espírito de cura que Isaías prevê que seja derramado no deserto. Reconhecemos a obra de justificação do Filho no testemunho de Isaías da promessa de Deus de que «O direito habitará nestas terras, agora desertas, e a justiça reinará no futuro pomar» (Isaías 32, 16).
No nosso mundo conturbado, desigual e dividido, somos fortalecidos pela confissão de fé e pela comunhão ecuménica estabelecida em Niceia a seguir o apelo de Isaías e permanecer firmes no nosso testemunho da promessa de paz de Deus para toda a Criação. Por isso, perante os conflitos e as lutas, proclamemos a promessa de Deus: «A justiça produzirá a paz, e daí resultará para sempre tranquilidade e segurança» (Isaías 32, 17).

*NB: Foi utilizada na citação a versão do Credo atualizada em 381, conhecida como “Credo niceno-constantinopolitano”.

Um apelo à ação: «A justiça produzirá a paz»

Deus chama-nos a ser pacificadores (Mateus 5, 9). Somos chamados a viver em paz, a adorar o Criador e a trabalhar por uma comunidade justa e sustentável que se alinhe com os planos eternos de Deus. Como colaboradores do Criador, temos de encarnar a paz com toda a Criação.
  • «O meu povo habitará num oásis de paz» (v. 18). A paz de Deus é incondicional, enraizada na justiça e na retidão para todas as pessoas e para a Criação. A paz não pode existir apenas para alguns.
  • «Em moradas tranquilas e em lugares sossegados» (v. 18). Deus declarou “boa” toda a Criação. Apesar dos danos causados pelo pecado (Génesis 3, 17-19), a biodiversidade reflete generosidade e abundância. Através de Cristo, Deus tornou-se humano, chamando-nos a aprender com a Criação, a respeitá-la e a protegê-la.
  • «A cidade tumultuosa, deserta» (v. 14). Rezemos e respondamos aos gritos das comunidades que perdem terras e meios de subsistência devido à guerra, às alterações climáticas ou à usurpação de terras, e das que são sobrecarregadas por práticas insustentáveis ou por dívidas.
  • «Até que, do alto, Deus nos dê novo alento» (v. 15). O Espírito guia-nos para a conversão ecológica e para uma compreensão mais profunda da nossa família cósmica. Temos de mudar as nossas mentalidades, abraçar a justiça e ensinar estes valores às gerações futuras.
  • A paz com a Criação exige passos proativos. Jesus ensinou o arrependimento e a justiça reparadora. Temos de reparar as relações quebradas: entre os seres humanos e a Terra, os seres humanos e as outras criaturas, e os seres humanos e Deus.
  • «A justiça produzirá a paz» (v. 17). Embora os desafios possam parecer esmagadores, Cristo recorda-nos: «Com Deus tudo é possível» (Mateus 19, 26). A esperança alimenta a ação; através da oração, do discernimento e do empenho, podemos criar uma base para a mudança.
  • A paz de Deus emerge quando trabalhamos pela justiça, a solidariedade, a reconciliação e a harmonia com a Criação. A transformação requer paciência, compreensão e confiança.
  • A ação pode incluir a defesa de causas, projetos de sustentabilidade, campanhas de limpeza ou educação para mostrar que cuidar da Criação é fundamental para a nossa fé. Temos de colaborar e basear-nos diversidade para alcançar a paz.
  • «O deserto converter-se-á em pomar» (v. 15). Os processos de paz, como a reflorestação, a limpeza de rios ou a construção de poços, podem unir até grupos divididos.
Que o Espírito seja derramado sobre nós para que possamos trabalhar juntos pela paz com a Criação.

Símbolo do Tempo da Criação de 2025



O símbolo de 2025 é inspirado em Isaías 32, 14-18. Intitulado «Jardim da Paz», retrata uma pomba branca a voar sobre uma árvore. O lado esquerdo da árvore está árido, com raízes a penetrar no solo seco, rodeado por uma paisagem árida e desolada. Em contraste, o lado direito da árvore é exuberante e verde, erguendo-se no meio de uma paisagem florescente. A pomba, carregando um ramo de oliveira no bico, voa para a direita, simbolizando a paz como uma transição de uma terra devastada pela guerra e excessivamente explorada para uma terra fértil, próspera e hospitaleira.
Lembremo-nos que a humanidade foi originalmente chamada a cuidar de um jardim. No curso do Tempo da Criação deste ano, refletiremos sobre a conexão entre cuidar da criação e promover a paz. A pomba branca com um ramo de oliveira é um símbolo de paz reconhecido mundialmente. Na história de Noé, também significa uma nova vida após a destruição.
Nota: Este logótipo não pretende diminuir o valor único dos ecossistemas do deserto e das suas criaturas, que também fazem parte da criação de Deus. Além disso, o deserto tem um papel significativo na Bíblia.

Oração do Tempo da Criação 2025


Criador de tudo,
Nós Te louvamos pelo dom da vida
e pela fé que nos une no cuidado da nossa casa comum.
Confessamos que nos afastamos uns dos outros,
da tua Criação e do nosso verdadeiro eu.
Reconhecemos que a nossa ganância e os nossos impulsos destrutivos
fraturaram as nossas relações contigo, com os outros e com a Terra.
Os campos férteis tornaram-se áridos,
as florestas estão desoladas,
os oceanos e os rios estão poluídos.
Comunidades prósperas tornaram-se lugares de sofrimento,
e a terra clama.

Amado Cristo,
que disseste "shalom" aos corações assustados,
estimula-nos a uma ação compassiva.
Inspira-nos a trabalhar pelo fim dos conflitos
e pela restauração total das relações quebradas
- contigo, com a comunidade ecuménica,
com a família humana
e com toda a Criação.

 Príncipe da Paz,
através das tuas feridas,
ensina-nos a ser solidários com os feridos,
com a Criação e com o mundo.
Através da tua ressurreição,
faz de nós pessoas de esperança
- com uma visão de espadas transformadas em arados
e lágrimas transformadas em alegria.
Que possamos unir-nos como uma família,
para trabalhar pela tua paz
- um "shalom" onde todo o teu povo possa viver em segurança
e descansar em lugares tranquilos.
Amém.

18/06/2025

CCC: «"Nós cremos"»: As Igrejas cristãs no Porto no 17º centenário do I Concílio de Niceia»

Decorreu a 17 de junho, por videoconferência, a última sessão do ciclo Peregrinos de esperança, organizado pelo Centro de Cultura Católica do Porto e pelo diaconado permanente em conjugação com alguns secretariados e organismos eclesiais. Esta sessão, coordenada pela Comissão Ecuménica do Porto, contou a intervenção do P. Maria Henrique Melo e pelo Rev.do Sérgio Alves, que integram a referida Comissão respetivamente pela Igreja Católica Roma e pela Igreja Lusitana (Comunhão Anglicana). Ainda na referência à comemoração do I Concílio de Niceia, a sessão versou sobre o tema «Nós cremos»: As Igrejas cristãs no Porto no 17º centenário do I Concílio de Niceia.
Veja-se a notícia da sessão na página web do Centro de Cultura Católica.


17/06/2025

«Declaração da Conjunta sobre o Espírito Santo, a Igreja e o Mundo» da Comissão Mista para o Diálogo Teológico entre a Federação Luterana Mundial e a Igreja Ortodoxa

Por ocasião do 1700º aniversário do Concílio de Niceia e como preparação para o Domingo de Pentecostes, a Comissão Mista para o Diálogo Teológico entre a Federação Luterana Mundial e a Igreja Ortodoxa publicou a 6 de junho a Declaração da Conjunta sobre o Espírito Santo, a Igreja e o Mundo. O texto, resultante dos trabalhos da Comissão iniciados em 2019 em Tirana (Albânia) e concluídos em 2024 no Cairo (Egito), é composto por cinco capítulos e algumas recomendações.
Os títulos dos capítulos são: O Espírito Santo na criação; o Espírito Santo na economia da salvação e na proclamação do Evangelho; o Espírito Santo no mundo; o Espírito Santo, a liturgia e a Igreja; epiclese (invocação do Espírito) na vida da Igreja e para além da liturgia eucarística.
As recomendações finais são cinco e referem o seguinte:

«1. Porque a epiclese sublinha o papel essencial do Espírito Santo na consagração dos elementos eucarísticos, na santificação da comunidade eucarística e na atração dos participantes para a vida divina, a nossa comissão exorta as igrejas luteranas que não introduziram a epiclese nas suas liturgias eucarísticas a fazê-lo, e as que tornaram a epiclese facultativa a começarem a usá-la mais regularmente.
2. Porque é importante que os crentes aprendam e compreendam mais claramente o papel do Espírito Santo na Eucaristia, a nossa comissão apela às igrejas ortodoxas que pronunciam a epiclese em silêncio que considerem dizê-la em voz alta para a edificação dos leigos.
3. À luz das afirmações anteriores, as nossas igrejas e os nossos professores podem também considerar como se pode desenvolver uma eclesiologia eucarística e epiclética que facilite o entendimento entre luteranos e ortodoxos.
4. Festa da Criação: Enquanto as comunhões mundiais consideram a possibilidade de estabelecer uma Festa da Criação celebrada ecumenicamente, apelamos às nossas igrejas para que aprofundem a ligação entre a criação e a nossa fé trinitária.
5. A Comissão mista internacional luterano-ortodoxa recomenda que todas as igrejas luteranas que ainda não o fazem comecem a usar traduções do Símbolo de Niceia baseadas no texto original grego, sem o Filioque».

Veja-se o documento em inglês, alemão, espanhol e francês.

16/06/2025

Celebração entre igrejas cristãs recordou a realização do primeiro concílio ecuménico e os desafios que hoje coloca

Foto: COPIC
O Conselho Português das Igrejas Cristãs (COPIC) e a Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) promoveram este sábado [14/6/2025] uma celebração ecuménica nacional para assinalar os 1700 do primeiro Concílio de Niceia, que convoca para uma «Igreja indivisa» e «revigora o compromisso ecuménico».
«Niceia hoje vale para nós porque definiu aquilo que é essencial, a fé num Deus que é trino, Pai, Filho e Espírito Santo, deixando também espaço para outras vivências da fé, não uniformizando», afirmou D. Jorge Pina Cabral, bispo da Igreja Anglicana, em declarações à Agência ECCLESIA.
D. Pina Cabral, que preside ao COPIC, recordou que «Niceia era a Igreja indivisa» e foi um «um concílio universal», constituindo um desafio à unidade «naquilo que é essencial».
«Para nós é como que um sinal e um desafio às várias tradições de sermos capazes, como os bispos foram naquela altura, de nos juntarmos novamente para reafirmar a nossa fé naquilo que é essencial, respeitando a diversidade das tradições», indicou.
«Niceia revigora o compromisso ecuménico para nós hoje».
O bispo da Igreja Anglicana lembrou que o encontro entre igrejas cristãs, como o que aconteceu na celebração ecuménica que decorreu na Catedral Lusitana de S. Paulo, este sábado, é um sinal da «reflexão na ação» e de um caminho conjunto «no Espírito Santo».
«Ao celebrarmos o aniversário do primeiro Concílio de Niceia, nós celebramos a mesma fé em Jesus Cristo e esta celebração também nos aproxima, une-nos e compromete-nos. Não poderíamos deixar passar este ano sem nos reunirmos para celebrar este aniversário», afirmou D. Jorge Pina Cabral.
O bispo da Igreja Lusitana de Comunhão Anglicana presidiu à celebração, onde o patriarca de Lisboa fez uma reflexão sobre a «dimensão ecuménica deste aniversário e seu contributo para a unidade visível dos cristãos», indica um comunicado enviado à Agência ECCLESIA.
Na homilia, D. Rui Valério afirmou que a celebração ecuménica que assinala os 1700 anos do Concílio de Niceia é um «momento de alegria e de esperança» e, no ambiente da Catedral Lusitana de S. Paulo, um «cenáculo» é sinal de que a comunidade está a «aderir a um projeto maior, a um projeto de dignidade, a um projeto de paz».
Para o padre Peter Stilwell, diretor do Departamento das Relações Ecuménicas e do Diálogo Inter-Religioso, no Patriarcado de Lisboa, a celebração ecuménica foi uma ocasião para fortalecer a consciência de que, «apesar das divisões que ao longo dos séculos se foram multiplicando», os cristãos estão «unidos no essencial» e que o mundo «está realmente carenciado da Boa Nova» que testemunham.
«Um mandato que todos nós temos, apesar dos nossos talentos diferentes, é uma capacidade de reconciliação, de perdão, de entendimento, de construção da paz. Juntando os nossos talentos diferentes podemos colaborar nessa resposta ao mundo», afirmou o padre Peter Stilwell.
No fim da celebração, o bispo da Igreja Anglicana lembrou à Agência ECCLESIA o caminho conjunto entre o Conselho Português das Igrejas Cristãs e a Conferência Episcopal Portuguesa, nomeadamente o «reconhecimento mútuo do batismo, a celebração de uma mesma fé, o compromisso para com a criação, o compromisso para com os migrantes», lembrando que falta o «passo» para a «mesma mesa eucarística».
«Falta ainda o abeirarmos a mesma mesa eucarística. E esse é verdadeiramente um passo que as igrejas têm que dar para sermos ainda mais sinal para o mundo», afirmou.
O Concílio de Niceia teve a missão de preservar a unidade da Igreja, perante correntes teológicas que negavam a plena divindade de Jesus Cristo e a sua igualdade com o Pai, reunindo cerca de 300 bispos, convocados pelo imperador Constantino, a 20 de maio do ano 325.
Os participantes acabaram por definir o «Símbolo de fé», o Credo, que ainda hoje se professa nas celebrações eucarísticas dominicais.

Ecclesia (15 Junho, 2025).

14/06/2025

«Nós cremos»: As Igrejas cristãs no Porto no 17º centenário do I Concílio de Niceia

Divulga-se a sessão «“Nós cremos”: As Igrejas cristãs no Porto no 17º centenário do I Concílio de Niceia», coordenada pela Comissão Ecuménica do Porto, na conclusão do ciclo «Peregrinos de esperança», organizado pelo Centro de Cultura Católica do Porto e pelo Diaconado Portucalense, em colaboração com diversos organismos eclesiais, no contexto do 17º Centenário do I Concílio de Niceia (325).Na sessão anterior foi abordado o referido Concílio, no seu contexto histórico, na evolução na práxis sinodal na época antiga e na profissão fé que nos legou. Na próxima sessão, evoca-se o aniversário de Niceia, na sua relevância para as várias Igrejas cristã e no quadro do movimento ecuménico contemporâneo, também no Porto.
A sessão realiza-se no dia 17 de junho de 2025, terça-feira, às 21 horas, em sala virtual da plataforma Zoom, cuja coordenadas de ingresso se podem pedir para ccc@diocese-porto.pt.

07/06/2025

Viver juntos a fé apostólica hoje: comemoração do 1700.º aniversário do primeiro Concílio Ecuménico de Niceia (325-2025)

Publica-se o comunicado de divulgação da celebração ecuménica promovida pela Conferência Episcopal Portuguesa e pelo Conselho Português das Igrejas Cristãs por ocasião do 17º centenário do I Concílio de Niceia.

A Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) e o Conselho Português de Igrejas Cristãs (COPIC) promovem uma celebração ecuménica nacional, comemorativa do aniversário do Concílio Ecuménico de Niceia. Simbolicamente a celebração ocorrerá no sábado dia 14 de junho, véspera do Domingo da Santíssima Trindade, no qual as Igrejas celebram a doutrina da Trindade expressa no Credo. Terá lugar na Catedral Lusitana de S. Paulo à Rua das Janelas Verdes em Lisboa às 15h00 e estarão presentes representantes de diversas Igrejas e tradições cristãs presentes em Portugal e convidados oficiais.
A cerimónia é uma oportunidade de celebrar a fé comum dos cristãos conforme expressa no Credo formulado no Concílio de Niceia. A celebração desta herança compartilhada permite aprofundar a fé que une os cristãos em Jesus Cristo e reforçar o testemunho conjunto que visa a unidade visível entre os cristãos e o serviço à sociedade. O Sr. Patriarca de Lisboa, D. Rui Valério, apresentará uma reflexão sobre a dimensão ecuménica deste aniversário e seu contributo para a unidade visível dos cristãos.
A liturgia da celebração oferecerá orações de intercessão, baseadas em escritos patrísticos dos séculos II a VIII, que são em si um chamado para um crescimento na fé no testemunho de Deus, Pai, Filho e Espírito Santo no mundo atual. Serão lidos textos da Sagrada Escritura, proclamada a fé uma vez dada aos santos contida no Credo de Niceia e o Pai nosso será recitado em conjunto.
Todos são bem-vindos e convidados a participar num mesmo espírito fraterno de oração e ação de graças ao Deus Uno e Trino fonte de comunhão e de amor.

Lisboa, 3 de junho de 2025.


12/05/2025

Juntos pela Europa na Igreja de Cedofeita

Na sexta-feira, 9 de maio de 2025, a Igreja de Cedofeita acolheu um momento de oração ecuménico no âmbito da iniciativa Juntos pela Europa, que reuniu cristãos da cidade do Porto, juntamente com representantes de diferentes Igrejas, Movimentos e Comunidades.
Num ambiente de profunda espiritualidade, invocou-se a Paz, a Luz e a Coragem , com um desejo comum: que todos os homens e mulheres de boa vontade se tornem verdadeiros construtores de pontes entre os povos .
Foi um encontro simples, mas profundamente significativo. Num clima de fraternidade e recolhimento, elevou-se uma oração comum pela Europa e pela paz no mundo . Durante a celebração, foi realizado um gesto simbólico: um disco foi suspenso para cada país indicado na oração, num sinal de compromisso espiritual e solidariedade com essas nações. Um ritual pequeno, mas cheio de esperança, que ganhou força à medida que a lista de países crescia.
A oração começou com um canto da Igreja Ortodoxa Russa e terminou com a delicadeza de um coral infantil da Igreja Ortodoxa Ucraniana – uma expressão tocante de reconciliação e unidade.
Este momento deixou marcas nos corações de todos os participantes . Recordou-nos que uma oração partilhada pode ser o primeiro passo para um mundo mais justo, fraterno e pacífico.
Juntos pela Europa é uma rede de mais de 300 Comunidades e Movimentos cristãos de diversas Igrejas por toda a Europa. Unidos pelos carismas e dons recebidos de Deus, percorrendo o caminho da comunhão e da fraternidade, sinal da vocação da Europa à unidade.



19/01/2025

Igrejas cristãs afirmam juntas a «opção pela paz»

As Igrejas cristãs que participam no movimento ecuménico, em Portugal, assinalaram em conjunto o início do Oitavário de Oração pela Unidade dos Cristãos numa celebração que afirmou a «opção pela paz».
«Ao celebrarmos a fé em Jesus Cristo, celebramos uma opção pela paz, pela reconciliação, pela compreensão e pelo diálogo que, percebemos hoje mais do que nunca, são modos de estar, vivências e valores cada vez mais necessários no nosso mundo», disse à Agência Ecclesia o bispo D. Jorge Pina Cabral.
Para o responsável pela Igreja Lusitana, de Comunhão Anglicana, em Portugal, é «muito importante hoje as religiões estarem unidas, é muito importante o diálogo, é muito importante a cooperação para dizer que as guerras que são feitas em nome das religiões não são verdadeiras».
«Não é a religião ou as incompatibilidades entre religiosos que provocam as guerras, mas uma sede de poder, de política, de autoridade», afirmou.
«As religiões hoje estão unidas na promoção da paz», sublinhou.
Entre este sábado, 18 de janeiro, e o dia 25, assinala-se a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, este ano centrada no tema «Crês nisso?», lembrando também os 1700º aniversário do primeiro Concílio Ecuménico, realizado em Niceia.
Para este ano de 2025, as orações e reflexões para a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos foram preparadas pelos irmãos e irmãs da comunidade monástica de Bose, no Norte da Itália, e a celebração ecuménica nacional de abertura do oitavário decorreu na tarde deste sábado, na Paróquia Lusitana de São João Evangelista, em Vila Nova de Gaia.
A celebração ecuménica nacional, presidida por D. Jorge Pina Cabral, contou com a presença do presidente da Câmara Municipal de Gaia e de representantes das várias igrejas cristãs, nomeadamente D. Roberto Mariz, bispo auxiliar do Porto, e D. Manuel Felício, administrador apostólico da Diocese da Guarda e que acompanha na Conferência Episcopal Portuguesa o tema do ecumenismo.
Em declarações à Agência Ecclesia, D. Roberto Mariz disse que o início da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos situa-se num «patamar de esperança» e espera «passos claros, concretos» rumo à unidade, na pluralidade da «vivência cristã» e na «mesma fé em Jesus e no mesmo Evangelho».
«Assim nos possamos apresentar no mundo: na nossa pluralidade, numa verdadeira unidade, a partir do Espírito. E nessa unidade, possamos ser um sinal profético num mundo dilacerado por guerras e conflitos», disse o bispo auxiliar do Porto.
D. Roberto Mariz referiu que o encontro entre religiões cristãs desafia a sociedade à «unidade, na tolerância das suas diferenças» e valorizou o diálogo ecuménico como oportunidade de «fazer pontes».
«O diálogo ecuménico tem uma importância essencial: permite sentarmo-nos à mesma mesa, olharmo-nos no rosto, sentirmos as palavras que ecoam o nosso coração, os pensamentos que cruzamos em torno do nosso credo, da nossa crença e das vivências da fé, no concreto de cada religião. Que possamos, nesse diálogo, fazer pontes no respeito de uns pelos outros e caminhando irmãmente», disse o bispo auxiliar do Porto.
Na reflexão que partilhou na celebração, D. Roberto Rosmarinho Mariz recordou os 1700 anos do I Concílio Ecuménico de Niceia, que ocorreu no «início da liberdade de culto no império romano, num esforço por encontrar os termos e conceitos centrais da fé cristã, ultrapassando as divisões e conflitos».
«Um caminho percorrido em conjunto, sinodalmente, para se encontrar os termos convergentes em torno da fé que brota do mesmo Evangelho. Conseguiram. E hoje? Podemos conseguir hoje. Devemos conseguir», afirmou.
O bispo auxiliar do Porto disse que a «fé é a âncora, a motivação e a razão» para que crentes de várias confissões estejam «reunidos e unidos em Oração pela unidade de todos cristãos».
«É importante deixar ideias pessoais, preconceitos e elementos acessórios para nos centrarmos no essencial, naquilo que nos une», indicou D. Roberto Mariz.
O tema da Semana – «Crês nisso?» – é inspirado no diálogo entre Jesus e Marta, quando Jesus visitou a casa de Marta e Maria em Betânia, após a morte de seu irmão Lázaro, conforme narra o evangelista João.
O oitavário pela unidade da Igreja, hoje com outra denominação, começou a ser celebrado em 1908, por iniciativa do norte-americano Paul Wattson, presbítero anglicano que mais tarde se converteu ao catolicismo.
As principais divisões entre as Igrejas cristãs ocorreram no século V, depois dos Concílios de Éfeso e de Calcedónia (Igreja copta, do Egito, entre outras); no século XI com a cisão entre o Ocidente e o Oriente (Igrejas Ortodoxas); no século XVI, com a Reforma Protestante e, posteriormente, a separação da Igreja de Inglaterra (Anglicana).

Ecclesia (18 jan. 2025)


18/01/2025

Pela unidade dos cristãos



Entrevista ao Prof. Riccardo Burigana, diretor do Centro de Estudos para o Ecumenismo em Itália, por ocasião da celebração da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos (18-25 de janeiro) e também da Jornada de Diálogo Judaico-Cristão (17 de janeiro), esta última uma iniciativa italiana que remonta a 1990.




O título da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos deste ano é uma pergunta: «Crês nisso?». Como é que o ecumenismo contribui para lhe dar resposta?

A Semana parte este ano, como acontece há décadas, de uma passagem da Escritura  «Crês nisso?» (de João 11,26)  mas gira em torno dos 1700 anos da celebração do Concílio de Niceia. É um convite a repensar as origens do cristianismo de modo a olhar para hoje, tanto mais que este aniversário recorda um tema central do caminho ecuménico contemporâneo, a saber: para além das Escrituras, em que acreditamos realmente em conjunto?
A confissão de fé é um dos temas com que os cristãos se têm confrontado ao longo da história, sempre a pensar em Niceia. A profissão de fé de Niceia foi, por vezes, utilizada para fins apologéticos. Contudo, desde meados do século XIX, desde o início do movimento ecuménico contemporâneo, representa a verdadeira “estrela polar” de referência.
Recordemos que o diálogo entre os cristãos, que na altura pensavam Cristo de formas muito diferentes, não surgiu apenas para acabar com as divisões, mas porque, ainda que com sensibilidades diferentes, sentiam necessidade de anunciar ao mundo o mesmo Cristo. Podemos dizer que o ecumenismo começou aí e é uma experiência que torna a fé viva e dinâmica, que recorda a dimensão global do anúncio de Cristo ao mundo, algo que o Papa Francisco, nestes tempos, tem bem presente e reiterou várias vezes.
À sua pergunta precisa, respondo, pois, da seguinte forma: o movimento ecuménico deu e continua a dar um grande contributo para que todos os cristãos continuem a meditar sobre a centralidade da fé em Cristo, que é o coração pulsante da vida individual e comunitária. E Cristo, hoje como sempre, é o Messias, príncipe da paz, segundo Isaías 9,6.

Vê mesmo este avanço no ecumenismo?

O movimento ecuménico desenvolveu-se a vários níveis, em muitas direções, com a sua própria globalidade e dinamismo. Há o ecumenismo dos encontros oficiais, ao mais alto nível dos responsáveis das Igrejas. Parece-me que este ecumenismo já permitiu sair das pretensões do passado: «Eu tenho razão, por isso és tu que tens de mudar!». A purificação da memória e a cura das feridas reciprocamente criadas, encontraram um grande impulso no Jubileu do ano 2000, embora já fosse um tema central há décadas no diálogo entre cristãos. Estes passos foram impulsionados pela reflexão teológica e abriram novas perspetivas rumo à unidade na diversidade.
Paralelamente ao nível “oficial”, existe o ecumenismo da experiência vivida no quotidiano. Interrogamo-nos acerca dele: perguntamo-nos até que ponto está difundido, não tendo por vezes dele uma perceção exata. Em Itália, como noutros lugares, são inúmeras as experiências locais de cristãos que, mesmo não estando ainda em plena comunhão, se procuram e se encontram, para juntos testemunharem Cristo: destas experiências de ecumenismo quotidiano nasceu um estilo ecuménico, feito de acolhimento recíproco e de diálogo caracterizado pela franqueza das visões diferentes, sempre com o objetivo de tornar mais eficaz o anúncio e o testemunho.
A Igreja católica celebrou, há poucas semanas, o 60º aniversário do Unitatis redintegratio, uma fonte preciosa e única para encarnar o estilo ecuménico  a unidade na diversidade  a partir das comunidades locais, onde os fiéis vivem concretamente a sua fé. O decreto conciliar foi concebido para os católicos, para os ajudar a descobrir como viver a sua vocação à comunhão e, assim, encorajar um repensar radical das formas e do conteúdo da participação da Igreja católica no movimento ecuménico contemporâneo.

Hoje em dia temos as guerras, com cristãos de ambos os lados: quanto pesam nas boas intenções ecuménicas?

A escalada da guerra na Ucrânia, com a invasão russa em fevereiro de 2022, marcou profundamente as Igrejas e, portanto, o caminho ecuménico: as imagens da bênção das armas não fizeram certamente bem aos cristãos de todo o mundo. Perante esta tragédia, muitos cristãos não só condenaram a guerra com palavras, mas também abriram as suas casas àqueles que foram obrigados a fugir.
Houve, pois, palavras e gestos com os quais os cristãos, em conjunto, tomaram distância da violência, como o Evangelho exige. Os organismos ecuménicos têm multiplicado as suas posições neste sentido, se bem que tal tenha tido pouco destaque mediático, em comparação com a crueza das imagens de laceração religiosa.
Também não escondemos que ainda há Igrejas que colocam problemas  por exemplo, a pena de morte, o acolhimento dos migrantes (sejam eles quem forem), a paridade de género e outros – a outros cristãos que se empenham, com muita alegria e paixão, no movimento ecuménico.
Estou convencido, porém, que o debate em torno destas dificuldades pode revigorar nos cristãos o desejo de unidade, a ponto de podermos levantar a voz e dizer que chegou agora o momento de «dar um salto em frente» no caminho ecuménico.
O compromisso na construção da paz esteve sempre no horizonte do ecumenismo contemporâneo: parece-me exemplar o facto de que tenha caído por terra o pedido, formulado por alguns cristãos, de expulsar o Patriarca de Moscovo do Conselho Ecuménico das Igrejas. A história do Conselho ajuda a compreender esta opção: aquando da sua fundação, em Amesterdão, em 1948, foram convidados todos os representantes das Igrejas, mesmo os das Igrejas evangélicas alemãs que tinham colaborado ativamente com o nazismo.
A exigência do diálogo ininterrupto não dispensa, sem sombra de dúvida, a condenação dos métodos de violência: esta nunca pode ser justificada com o Evangelho na mão. Infelizmente, isto já aconteceu claramente no passado, mas o próprio movimento ecuménico testemunha que os cristãos do século XXI são pela paz e sentem-se comprometidos na construção da paz em condições de justiça.

Ecumenismo e diálogo inter-religioso, qual é hoje a sua relação?

Nesta mesma Semana de Oração, que para a Igreja Católica se situa no âmbito do ano jubilar, está a ser relançada com força a ideia de que os cristãos podem e devem caminhar juntos, apresentar-se a uma só voz no diálogo com as outras religiões. Neste ponto, o Papa Francisco está a encontrar sintonia por parte de numerosos líderes cristãos.
Ecumenismo e diálogo inter-religioso são âmbitos diferentes, como indica claramente o magistério da Igreja católica desde o II Concílio do Vaticano, mas,, no movimento ecuménico, surge cada vez mais a necessidade de refletir em conjunto, como cristãos, sobre o património dos valores que podem ser partilhados com os membros de outras tradições religiosas – da liberdade religiosa à paz, ao cuidado do ambiente –, para repensar a comunidade humana contemporânea global.
Nos primeiros passos deste ano jubilar, são numerosas as iniciativas destinadas a criar ou desenvolver um diálogo a três vozes, entre cristãos, judeus e muçulmanos: nalguns casos, não se trata de novidade, mas de passos que assumem perspetivas novas e mais elevadas. Pode dizer-se que, deste ponto de vista, estamos a superar os resultados do encontro entre as religiões em Assis, desejado por João Paulo II em 1986.

Na própria Igreja Católica, há muitas resistências a este respeito. O caminho do Papa Francisco não é partilhado por todos.

Francisco lançou sementes, abriu percursos inovadores com uma releitura pessoal do II Concílio do Vaticano e da sua receção e, por isso, suscitou perplexidades e críticas mesmo no seio da Igreja católica: alguns continuam a pensar que o diálogo pode debilitar a missão da Igreja.
Mas a «fraternidade» de que fala o Papa Francisco nasce de uma profunda comunhão eclesial, sinal da escuta da própria Palavra de Deus.

Mesmo em relação ao tema do cuidado comum da criação, Francisco está a encontrar fortes resistências. Qual é a posição do ecumenismo?

O tema está hoje muito difundido entre todos os cristãos: muitas Igrejas estão a caminhar na mesma linha de Francisco, porque, nestes últimos anos, houve uma recuperação muito forte da reflexão sobre a relação entre criação, criatura e Criador.
É um tema que também assumiu uma dimensão inter-religiosa, com a descoberta do que as religiões têm em comum. Muitas religiões, sem partirem do livro do Génesis ou dos Padres do deserto, sabem colocar no centro a questão do respeito pelo ambiente e por toda a vida de que fazemos parte.
Em Itália, a investigação do Centro de Estudos para o Ecumenismo sobre as iniciativas do Tempo da Criação, que decorre de 1 de setembro a 4 de outubro, mostra o quanto este tema se enraizou e se difundiu com uma conotação ecuménica e/ou inter-religiosa. Dos encontros de oração às mesas redondas de aprofundamento, à formulação de propostas concretas, à realização de pequenos gestos, estas iniciativas mostram o grande interesse que existe nas Igrejas e fora delas pelo destino da criação e das criaturas que aqui vivem; há fermento e há também preocupação.
A partir das Sagradas Escrituras, o movimento ecuménico soube colher o fundamento da «justiça ecológica», denunciando os processos económicos que visam apenas o lucro imediato, sem refletir sobre o hoje e o amanhã, sobre o dom da criação que torna possível a nossa vida.
A propósito da criação, também se medem as divisões entre os cristãos: de facto, não faltam aqueles que, a partir precisamente das Sagradas Escrituras, contestam estas iniciativas, relançando a ideia de que o homem é senhor da criação por mandato divino.

Outros motivos de contradição, na própria Igreja Católica, conduzem-nos ao conflito israelo palestiniano. O ponto de vista ecuménico, qual é?

É claro que os trágicos acontecimentos deste conflito estão a dificultar o diálogo com o judaísmo, que há décadas se tem confrontado com uma pluralidade de aspetos. Gosto de recordar que o primeiro esquema para repensar as relações entre a Igreja católica e o povo judeu, desejado por João XXIII para o futuro Concílio – depois levado por diante pelo cardeal Bea na fase preparatória do II Concílio do Vaticano – nem sequer chegou a ser discutido: em junho de 1962 foi retirado por causa das “consequências políticas” que este esquema poderia ter, apesar de ter sido redigido com fins teológicos.
Aproximamo-nos, pois, da Jornada de Diálogo Judaico-Cristão, que se celebra [em Itália] no dia 17 de janeiro: alcançamos a XXXVI edição e talvez tenha chegado o tempo de fazer um balanço do que foi feito e dito ao longo deste caminho, iniciado em 1990, depois de o Conselho Permanente da Conferência Episcopal Italiana ter aprovado a ideia de uma Jornada anual dedicada ao aprofundamento do conhecimento do povo judeu.
Devido precisamente aos acontecimentos dos últimos meses, que provocaram silêncios e lacerações mesmo em Itália, poder-se-ia temer uma Jornada “diminuída”. Não faltam realidades que decidiram adiar o tradicional encontro dedicado, mas, no estado atual de recolha de informações, já são 25 as dioceses diretamente envolvidas, por vezes com mais de um encontro no mesmo lugar: de Acireale a Milão, passando por Brindisi, Florença, Modena, Bolonha, Parma e Treviso, sem esquecer Roma.
Penso que voltar a ler em conjunto as Escrituras comuns, definindo desde o início um percurso partilhado, tendo em vista o dia 17 de janeiro, pode ajudar neste «percurso difícil também para Deus», segundo a recente definição do meu amigo Brunetto Salvarani, que há anos está empenhado neste diálogo que tanto tem a oferecer aos cristãos, aos judeus e à sociedade em geral.

Que manifestações do programa ecuménico nos dão esperança?

O mapeamento está em curso. O Centro de Estudos para o Ecumenismo, fundado em 2008 e com sede em Florença, recolheu até agora as iniciativas de 114 dioceses: por vezes, há apenas um encontro diocesano de oração, porque esta é uma Semana de Oração, precisamente para rezar em conjunto. Muitas vezes o bispo está presente nestes encontros, segundo uma tradição que se tem vindo a consolidar nos últimos anos.
Do quadro, ainda provisório, emergem alguns elementos: a reflexão sobre o Concílio de Niceia, sobre a sua atualidade e sobre a sua importância para o caminho ecuménico, com particular atenção à centralidade da Trindade na vida dos crentes; o renovado compromisso na construção da paz como testemunho ecuménico de primeira ordem; o desejo de um maior envolvimento dos jovens, precisamente para que saibam apreender as riquezas das diversas confissões cristãs.
Sobre este aspeto dos jovens, gostaria de recordar que, em Bolonha, está a ser programada uma tarde na qual que os que frequentam a catequese e os grupos de escuteiros, com as suas famílias, são convidados a visitar as Igrejas cristãs não católicas da cidade: uma tarde que termina com um momento de oração ecuménica.
Também neste ano haverá uma oração nacional: terá lugar em Nápoles, com a participação dos representantes das Igrejas cristãs em Itália, acolhidos pelo cardeal Domenico Battaglia, arcebispo de Nápoles, e por D. Gaetano Castello, bispo auxiliar, empenhado há anos na construção de um diálogo de fraternidade evangélica. Em Bari, a conclusão da Semana de Oração coincidirá com o início de uma «Conversa entre católicos e ortodoxos no Espírito Santo», graças à Comunidade de Jesus, fundada e dirigida por Matteo Calisi, para aprofundar, não só do ponto de vista teológico, Theosis e charismata.
Por fim, quero salientar, embora ainda haja muito a dizer sobre as iniciativas locais, que no dia 21 de janeiro terá início, com uma intervenção de D. Erio Castellucci – com o título Niceia hoje: A fecundidade do Concílio para uma Igreja a caminho – o percurso 325-2025: O Concílio de Niceia e os cristãos a caminho da unidade, um congresso promovido pela Eparquia de Lungro, pela Pontifícia Faculdade Teológica da Itália Meridional e pelo Centro de Estudos para o Ecumenismo em Itália, «destinado a quem deseja fazer ou aprofundar um percurso formativo, totalmente gratuito, sobre a centralidade da dimensão ecuménica no testemunho de Cristo no século XXI», como referiu D. Donato Oliverio, bispo de Lungro.

Andrea Capelletti e Giordano Cavallari (coord.)
Settimana news (14 jan. 2025)