25/08/2020

Tempo da Criação 2020

O que é?


O Tempo da Criação é um tempo para renovar a nossa relação com o Criador e toda a criação através da celebração, da conversão e do compromisso conjunto. Durante o Tempo da Criação, unimo-nos às nossas irmãs e irmãos da família ecuménica em oração e ação pela nossa casa comum.
O Patriarca Ecuménico Dimitrios I proclamou o 1 de setembro como dia de oração pela criação para os ortodoxos em 1989. De facto, o ano litúrgico da Igreja Ortodoxa começa nesse dia com a comemoração do modo como Deus criou o mundo.
O Conselho Mundial de Igrejas foi chave para transformar esta iniciativa num Tempo, estendendo a celebração do dia 1 de setembro a 4 de outubro.
Seguindo Patriarca Ecuménico Dimitrios I e o CMI, os cristãos de todo o mundo abraçaram este Tempo como parte do seu calendário anual. O Papa Francisco integrou oficialmente este Tempo na Igreja Católica Romana em 2015.
Nos últimos anos, declarações de líderes religiosos de todo o mundo também encorajaram os fiéis a dedicarem tempo para cuidar da criação durante este mês de celebração.
O Tempo começa a 1 de setembro, Dia Mundial de Oração pela Criação, e termina no dia 4 de outubro, Festa de São Francisco de Assis, santo padroeiro da ecologia estimado por tantas denominações cristãs.
Durante um mês de celebração, os 2,2 biliões de cristãos do mundo unem-se pelo cuidado da nossa casa comum.


O tema de 2020: «Jubileu pela terra: Novos ritmos, nova esperança»


Todos os anos o Comité diretivo ecuménico sugere um tema para unificar as comunidades cristãs na celebração deste tempo. Para o Tempo da Criação de 2020, o tema sugerido é: «Jubileu pela terra: Novos ritmos, nova esperança».
Neste ano, as crises que abalaram o mundo despertaram-nos para a necessidade urgente de curar as nossas relações com a criação e uns com os outros. Durante a celebração deste ano, entramos num tempo de restauração e esperança, um jubileu pela terra que exige maneiras radicalmente novas de viver com a criação.
Os cristãos de todo o mundo vão aproveitar este tempo para renovarem a sua relação com o Criador e toda a criação através da celebração, da conversão e do compromisso. O Tempo da Criação deste ano é um tempo para considerar a relação integral entre o descanso da terra e a maneira ecológica, económica, social e política de se viver.
Neste ano em particular, os amplos efeitos da pandemia global da COVID-19 revelaram a necessidade de sistemas sustentáveis e justos. Ansiamos pela imaginação ética que acompanha o Jubileu. Como seguidores de Cristo em todo o mundo, compartilhamos o papel de guardiões da criação de Deus. Percebemos que nosso bem-estar está interligado com o bem-estar da criação. Alegramo-nos com esta oportunidade de cuidar da nossa casa comum e das nossas irmãs e irmãos.


Carta do secretário do Dicastério para a promoção do desenvolvimento humano integral (Igreja católica romana)


24 de maio de 2020
Irmãos e irmãs em Cristo,
Saudações pascais a partir de Roma. Durante o Ano Especial de Aniversário da Laudato si', o Dicastério para a Promoção do Desenvolvimento Humano Integral tem o prazer de vos convidar a juntarem-se à família ecuménica na celebração do Tempo da Criação, a celebração anual que se realiza de 1 de setembro, Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, a 4 de outubro, Festa de São Francisco de Assis.
No ano passado, o Santo Padre o Papa Francisco convidou oficialmente os fiéis a participarem neste «tempo de oração e esforço acrescidos em nome da nossa casa comum». Como disse o Santo Padre, «este é o tempo de deixar que a nossa oração seja de novo inspirada», um tempo «para refletir sobre os nossos estilos de vida» e um tempo «para empreender ações proféticas... apelando a decisões corajosas... dirigindo o planeta para a vida, não para a morte».
A mensagem do Papa Francisco, que nos chama a atender às «imensas dificuldades para os que entre nós se encontram mais vulneráveis», é particularmente relevante à luz da pandemia do coronavírus. À medida que o mundo experimenta uma incerteza e um sofrimento profundos no meio de uma situação de emergência global, somos chamados a reconhecer que uma recuperação verdadeiramente saudável consiste em ver que «tudo está ligado» e reparar os laços que quebrámos. Compreendemos que precisamos de crescer cada vez mais em solidariedade e de cuidar uns dos outros em fraternidade.
Inspirados pela exortação apostólica Querida Amazónia, encorajamos o povo de Deus a intensificar os seus passos rumo a novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral, planeando atividades para o Tempo da Criação. Estas podem incluir atividades tais como uma missa especial ou uma peregrinação, práticas de sustentabilidade ou iniciativas de sensibilização para responder ao «grito da terra e ao grito dos pobres», a terem lugar durante este tempo especial.
Encorajamos também os bispos e os organismos eclesiais a fazerem intervenções de sensibilização sobre o Tempo da Criação, ajudando os fiéis a perceberem que «viver a nossa vocação de protetores da obra das mãos de Deus é essencial para uma vida virtuosa; não é um elemento opcional ou secundário da nossa experiência cristã" (Laudato si' 217).
Este tempo especial oferece-nos a oportunidade de trabalhar pela renovação da nossa terra e das relações preciosas que partilhamos, e convido-vos calorosamente a participar na sua comemoração. Rezo por vós e peço-vos que rezeis por mim.
Respeitosamente vosso em Cristo,

Monsenhor Bruno-Marie Duffé
Secretário, Dicastério para a Promoção do Desenvolvimento Humano Integral


Oração


Criador da vida,
À vossa palavra a terra produziu plantas, contendo sementes e árvores de todos os tipos que produzem frutos. Os rios, as montanhas, os minerais, os mares e as florestas sustentaram a vida. Todos os olhos se voltaram para Vós, para satisfazerdes as necessidades de todos os seres vivos. E ao longo do tempo a terra sustentou a vida. Ao longo dos ciclos planetários dos dias e estações, de renovação e crescimento, abris a Vossa mão para dar às criaturas o alimento no momento devido.
Na Vossa sabedoria nos concedestes o shabat; um tempo abençoado para o descanso na gratidão por tudo o que nos destes; um tempo para nos livrarmos do consumo viciante; um tempo para permitir que a terra e todas as criaturas descansem do peso da produção. Mas ultimamente a nossa vida força o planeta para além dos seus limites. As nossas exigências de crescimento e o nosso ciclo de produção e consumo sem fim estão a exaurir o nosso mundo. As florestas estão a ser destruídas, o solo a erodir, os campos a morrer, os desertos a aumentar, os mares a acidificar e as tempestades a crescer. Não temos permitido que as terras guardem o seu shabat, e a terra está a lutar para ser renovada.
Durante este Tempo da Criação pedimos que nos deis coragem para guardar o shabat do nosso planeta. Fortalecei-nos com a fé para acreditarmos na Vossa providência. Inspirai-nos a criatividade para compartilharmos aquilo que recebemos. Ensinai-nos a satisfazer-nos com aquilo que é suficiente. E enquanto proclamamos um Jubileu pela terra, enviai o Vosso Espírito a renovar a face da criação.
Nós Vo-lo pedimos em nome de Jesus Cristo que veio proclamar a boa-nova para toda a criação.
Amém.


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22/08/2020

Ortodoxia bielorrussa: Minsk como Kiev?

O presidente Lukashenko e o metropolita Pavel de Minsk
O presidente Lukashenko e o metropolita Pavel
As tensões políticas na Bielorrússia no rescaldo das disputadas eleições presidenciais repercutem-se também na Igreja. A desejada democracia nacional levanta a questão do futuro da Igreja ortodoxa local (mais de metade dos nove milhões e meio de habitantes) e da sua autonomia em relação ao patriarcado de Moscovo (do qual hoje depende).
Um profundo conhecedor da situação escreveu:
«O patriarca Cirilo partilha com Putin a mesma preocupação.Se as coisas mudarem e a ditadura bielorrussa afrouxar, a Igreja ortodoxa bielorrussa começará a trabalhar pela sua própria autocefalia (independência) relativamente a Moscovo, reforçando tendências semelhantes em todos os estados maioritários islâmicos ligados ao Kremlin. Minsk não é Kiev, mas o impulso de cariz nacional também atravessa o país báltico. Não foi por acaso que Cirilo e o metropolitano bielorrusso Pavel foram os primeiros a congratularem-se (10 de agosto) com os resultados da consulta que atribuíam oitenta por cento dos votos a Lukashenko e, só passados alguns dias, emendaram a mão. A 15 de agosto, o sínodo condenou violências, detenções e extremismos, apelando a que se encontrem soluções políticas. E imediatamente a seguir, Cirilo expressou-se do mesmo modo».


Pedido crescente de autocefalia


O Metropolita Epifânio, chefe da Igreja ortodoxa autocefala da Ucrânia, publicou a 12 de agosto uma mensagem que tocava o âmago da questão. Escrevendo em ucraniano e bielorrusso e postando a imagem da bandeira branca e vermelha (dos manifestantes, diferente da oficial), convidou a Igreja ortodoxa local a romper a ligação a Moscovo:
«Por estes dias o povo bielorrusso está a sofrer muito... A anexação não canónica da sua Igreja por parte de Moscovo tem tido e continua a ter consequências trágicas para a Ortodoxia em toda a Europa oriental. Com a vontade dos fiéis e a bênção da nossa Igreja mãe comum, o patriarcado ecuménico de Constantinopla, a Igreja da Ucrânia foi reconhecida como uma das Igrejas irmãs autocéfalas. A Igreja ortodoxa da Bielorrússia tem as mesmas razões e o direito de pedir um tomo (documento) de autocefalia à Igreja mãe, se assim o desejar».
Lukashenko, que tem hoje o maior apoio em Putin e conta com a identidade russa de uma grande parte da população, acusou a oposição, numa reunião com o Conselho de segurança do país, de querer excluir a Rússia da cooperação económica, militar, linguística e religiosa. A nível eclesial, o "pai e senhor" do país acusou a oposição de pretender a restauração da Igreja autocéfala, em oposição ao patriarcado de Moscovo. E disse: "Sempre nos orgulhámos da paz inter-religiosa do país. Nunca ninguém perturba um crente. Ortodoxos, católicos, muçulmanos e judeus vivem em paz. Agora somos impelidos para uma guerra que é um conflito inter-religioso e, dada a situação, também um conflito étnico. Isto acontecerá para erradicar e desonrar as coisas de que nos orgulhamos".
O metropolita Pavel, que é de etnia russa, tentou recuperar a simpatia dos manifestantes, entre os quais muitos ortodoxos, visitando as vítimas no hospital e manifestando o desejo de uma investigação rigorosa dos delitos cometidos durante as recentes ações de protesto. Seguiu a posição mais explicitamente pró-manifestantes do metropolita católico Tadeusz Kondrusiewicz, que apelou à libertação imediata dos detidos nas recentes manifestações populares. Como bom polaco Kondrusiewicz, propõe uma mesa redonda que ponha em diálogo o poder político com os representantes da sociedade: uma proposta sugestiva para todos e, em particular, para a população católica (15%) das zonas ocidentais do país.


A ligação a Moscovo


Mas os laços étnico-culturais da Bielorrússia com Moscovo são muito mais fortes do que os da Ucrânia e o "socialismo de mercado" proposto por Lukashenko vê um próspero sector público (60% do PIB) a funcionar graças aos subsídios diretos e indiretos da Rússia. Os salários são muito baixos, mas os sistemas de saúde e de educação, assim como as infraestruturas, são de bom nível.
Como recorda o perito acima mencionado:
«Moscovo sabia que mais tarde ou mais cedo teria de enfrentar acontecimentos semelhantes. Depois de perder a Ucrânia (apesar da reocupação forçada da Crimeia), não podia dar-se ao luxo de perder a Bielorrússia. Seria um golpe mortal para o projeto político-cultural do mir Ruskj, daquela mundividência russa chamada a restituir alento e substância ao grande império soviético do passado, do qual é parte essencial a ligação das Igrejas à Ortodoxia moscovita. Não acredito que Moscovo recorra à intervenção militar ou que deixe o desenvolvimento à lógica autónoma dos acontecimentos. A próxima administração bielorrussa não pode deixar de permanecer de alguma forma alinhada com Moscovo. Muito provavelmente Putin fará pressão para oferecer a Lukashenko uma saída honrosa a fim de garantir uma sucessão não hostil do poder em Minsk».

Lorenzo Prezzi
21 de agosto de 2020

17/07/2020

Se “Santa Sofia” se tornar uma mesquita

A imperiosa decisão do Presidente turco Recep Tayyip Erdogan de transformar o museu de Santa Sofia (Ayasofya) numa mesquita levanta um conjunto intrincado de questões históricas, religiosas e geopolíticas. Problemas, em si mesmos, distintos, mas tão emaranhados uns com os outros que é muito difícil desatá-los, a não ser que se use a espada – como Alexandre Magno terá feito no passado com o nó de Górdio.

Uma história gloriosa e dolorosa 

Depois de se ter tornado capital do Império Romano do Oriente, Constantinopla devia ter uma catedral esplêndida, que rivalizasse com a da primeira Roma. De facto, com o édito de Milão de 313, os imperadores Constantino e Licínio tinham proclamado o cristianismo “religião lícita”, iniciando assim um caminho que, com um percurso não inteiramente linear, levaria depois Teodósio, em 380, a proclamar essa religião como a primeira e única religião oficial do império.
Foi neste contexto que a primeira “grande igreja” foi construída no século IV. Esta foi destruída e depois reconstruída no século seguinte, mas também ela sofreu várias devastações, designadamente depois de uma revolta popular. Finalmente, no século VI, o Imperador Justiniano quis retomar do zero o grande projeto e, em dezembro de 537, inaugurou solenemente a nova e arquitetonicamente impressionante grande basílica de Hagia Sophia, Santa Sofia (= Divina Sabedoria). Ela sofreu incêndios, terramotos e colapsos da cúpula majestosa – depois reconstruída – mas acabou por resistir, deixando fiéis e visitantes sem palavras, dada a beleza dos seus mosaicos e a ousadia do conjunto. 
Foi no altar de Santa Sofia que em julho de 1054 o cardeal Humberto da Silva Cândida colocou no altar a Bula de excomunhão do patriarca Miguel Cerulário, que respondeu com um gesto semelhante: desde então a “antiga” e a “nova” Roma permanecerão até hoje em estado de cisma, mesmo se a verdadeira rutura se deu em 1204, durante a IV Cruzada, quando os venezianos e outros ocidentais saquearam Constantinopla e ali instalaram um insensato império latino que seria derrotado pelos bizantinos em 1261. 
Entretanto, após conquistarem pouco a pouco toda a Anatólia, os turcos otomanos, liderados por Mehmet II, tomaram Constantinopla a 29 de maio de 1453, pondo fim ao milenário Império Romano do Oriente. O novo sultão transformaria Santa Sofia numa mesquita; e assim permaneceria durante quase meio milénio. Com efeito, quando Mustafà Kemal, mais tarde apelidado de Atatürk, criou em 1923, sobre as cinzas do Império Otomano, a Turquia moderna, um estado absolutamente laico, esperou alguns anos para mudar o estatuto daquela mesquita. Fê-lo finalmente em novembro de 1934, ao decidir transformar Ayasofya num museu, aberto ao público a partir de fevereiro do ano seguinte.

O projeto de Erdogan

Já há alguns anos que o presidente turco tinha deixado claro que tencionava mudar o estatuto de Ayasofya. Para realizar o projeto, esperou pela “luz verde” (ordenada por ele) do Conselho de Estado; e a 10 de julho de 2020, sexta-feira, assinou o decreto que entra formalmente em vigor a 24 de julho, duas semanas depois. O edifício, a partir de aí uma mesquita, fica sob a vigilância do Diyanet, o Departamento para os Assuntos Religiosos, a mais alta autoridade religiosa islâmica sunita da Turquia. 
Para tentar travar o projeto do "sultão", o Secretário de Estado americano, Mike Pompeo, interveio politicamente para sublinhar à amiga Turquia – aliada na NATO! – a “inoportunidade" de realizar um ato que complica a já difícil situação do Mediterrâneo oriental. 
A UNESCO, por seu lado, recordou que a inclusão da Ayasofya no Património da Humanidade em 1985 implicava e implica uma série de obrigações: a Turquia tem de se comprometer a preservar o valor cultural excecional do local e nenhuma alteração pode ser feita sem notificação prévia e aprovação por parte do Comité do Património Cultural. Além disso, a UNESCO recorda que a fusão de elementos arquitetónicos asiáticos e europeus – derivada das diferentes ocupações – e, portanto, a singularidade do edifício foram decisivas no momento da inscrição de Santa Sofia na lista do Património da Humanidade. 
Erdogan, contudo, procedeu sem ouvir ninguém. Porquê? Muitos analistas internacionais acreditam que, com a sua decisão, pensou em reconquistar as massas da Turquia profunda, todas muçulmanas e, até 2008, a ele agradecidas pelas reformas económicas que muito as ajudaram. Mas a crise mundial de há 12 anos e outras subsequentes circunstâncias económicas desfavoráveis também levaram a economia turca à crise; e, portanto, os apoiantes do "sultão", embora sempre numerosos, são agora menos e talvez estejam menos convencidos. Assim, segundo Erdogan, o regresso de Ayasofya ao estatuto de mesquita é ação estrondosa para reconquistar a gratidão e o apoio das massas turcas. E a ouverture das celebrações, em 2023, do centenário do nascimento da Turquia. 
No entanto, na frente muçulmana global, ele considera estar a minar ou pelo menos a enfraquecer o papel principal da Arábia Saudita no mundo sunita. É também, a seu jeito, um sinal para os povos de língua turca da antiga União Soviética, também sunitas. O "sultão", em suma, gostaria de vir a ser novo Atatürk, o refundador da Turquia, já não caracterizada, contudo, por uma laicidade muito rígida, mas antes pelo sublinhar público e social do Islão na Turquia, enquanto país muçulmano. 
A acento étnico-religioso – reforçar o islão e, portanto, defender os povos de língua turca que consideram a Turquia como o seu irmão mais velho – poderá ter o seu peso, por exemplo, na escalada da tensão militar, com cerca de 20 mortos, que eclodiu em meados de julho entre a Arménia e o Azerbaijão, devido à antiga disputa por Nagorno-Karabakh, que se arrasta desde 1988, ou seja, desde o tempo da URSS. Esta é uma região autónoma do Azerbaijão, habitada principalmente por arménios, que consideram que são maltratados por Baku. O governo de Yerevan defende-os, pois, também militarmente. Os arménios são cristãos, os azeris muçulmanos. 
Mas voltemos ao plano de Erdogan para Santa Sofia. Tem um obstáculo em particular: Vladimir Putin. O chefe do Kremlin sabe que toda a Igreja Ortodoxa Russa, liderada pelo patriarca Kirill, está furiosa com o líder turco. Ela pressionou o governo de Moscovo a convencer Erdogan para que desistisse do seu plano: o empenho não teve, contudo, resultados. No entanto, há muitos modos de a Rússia punir indiretamente Erdogan pela sua prepotência. Em suma, não está dito que com Ayasofya convertida em mesquita o caminho político de Erdogan seja triunfal. A breve termo, talvez sim, mas a longo? E atrairá a juventude? 

«Uma bofetada em todo o mundo cristão»

Políticos à parte, a "reconversão" de Ayasofya foi um tremendo choque para o mundo cristão, e especialmente para a Ortodoxia, onde o primus inter pares das 14 Igrejas irmãs é o patriarca de Constantinopla, Bartolomeu. Sendo cidadão turco, é particularmente delicado para ele criticar Erdogan; a sua opção – disse – «vai impelir milhões de cristãos em todo o mundo contra o Islão». Em virtude da sua sacralidade, acrescentou, Santa Sofia é um centro de vida «em que o Oriente e o Ocidente se abraçam», e a sua reconversão em lugar de culto muçulmano «será causa de rutura entre estes dois mundos». De facto, no século XXI é «absurdo e prejudicial que Hagia Sophia, de um lugar que agora permite que os dois povos se encontrem e admirem a sua grandeza, possa voltar a ser motivo de contraposição e confronto». 
Durante 900 anos, o palácio dos patriarcas situou-se ao lado de Santa Sofia. Algum tempo depois da conquista turca da cidade, tiveram de se mudar para longe, para o bairro de Fanar, ao longo do Corno de Ouro, onde ainda hoje residem. Aqui, na igreja de São Jorge, minúscula quando comparada com Santa Sofia, está a cátedra de Bartolomeu, que hoje, não só Istambul mas em toda a Turquia, tem cerca de cinco mil fiéis: uma comunidade muito pequena. Os cerca de três milhões de ortodoxos vinculados ao seu patriarcado encontram-se especialmente nas duas Américas e na Europa ocidental. 
Sobre a questão de Santa Sofia, protestou obviamente a Igreja Ortodoxa Grega. Em Atenas, a Ministra da Cultura, Lina Mendoni, definiu a decisão do Conselho de Estado turco «uma provocação ao mundo civilizado». E disse ainda: «O nacionalismo demonstrado pelo presidente Erdogan faz recuar o seu país seis séculos». Opiniões que para Ancara não significam mais do que nada. 
Talvez conte alguma coisa o parecer da Igreja Russa, porque tem Putin por trás. Kirill recebeu a decisão de Erdogan com «grande pesar e dor». O metropolita Hilarion, "ministro dos negócios estrangeiros" do Patriarcado de Moscovo, falou de «bofetada em toda a cristandade»; e o seu adjunto, Nikolai Balashov, de «um acontecimento que poderá ter consequências graves para toda a civilização humana». 

O pesadelo da “autocefalia” ucraniana

Ao protestar contra a decisão de Erdogan, Kirill fez interessantes reflexões sobre o nascimento do cristianismo na Rússia de Kiev. Recordou que o evangelho foi trazido de Constantinopla ao príncipe Vladimir de Kiev: e assim foi batizado em 988, levando (forçando) todo o seu povo a abraçar o cristianismo. E a partir de Kiev – observa o patriarca – essa religião foi introduzida na Rússia. Portanto, as relações entre o patriarcado de Constantinopla e o patriarcado russo sempre foram muito intensas, mesmo se, salienta, «por vezes houve períodos que não foram simples». Palavras enigmáticas, para aqueles que não estão envolvidos nas tensões internas à Ortodoxia, que têm, portanto, de ser traduzidas. 
Referem-se – falando de hoje – à oposição muito séria entre os dois patriarcas por causa da questão ucraniana. Com brevidade: após o colapso da URSS em 1991, a única Igreja ortodoxa do país – um exarcado ligado a Moscovo – dividiu-se em três partes: a Igreja Ortodoxa Ucraniana (IOU), ligada ao Patriarcado Russo e a mais forte em termos de número de fiéis e paróquias; o Patriarcado de Kiev, por fim liderado pelo metropolita Filaret, antigo membro do Santo Sínodo de Moscovo, por este reduzido ao estado laical e excomungado; uma pequena Igreja autocéfala. 
Em 2018, Bartolomeu abençoou um “Concílio de reunificação” (para Moscovo obviamente “ilegal”) que – apoiado pelo então presidente ucraniano Petro Poroshenko – criou a Igreja Ortodoxa da Ucrânia (IODU), autocéfala, na esperança de que todas as outras convergissem para ela. Não foi o caso, e a IOU continua a ser numericamente a maior das Igrejas ucranianas. Em 5 de janeiro de 2019, o patriarca de Constantinopla concedeu o tomos (decreto) de autocefalia à IODU. Em resposta, Kirill e o seu Sínodo confirmaram o que já tinha sido decidido em 2018: a rutura da comunhão eucarística com o Patriarcado de Constantinopla, acusado de interferência no seu «território canónico». Por conseguinte, está agora em curso um cisma entre as duas partes. Um cisma intraortodoxo dramático que dividiu as Igrejas ortodoxas: umas, como a grega e a alexandrina, pró-Bartolomeu e outras, como a sérvia e a jerosolimitana, pró-russas. 
Neste contexto, surgiu inesperadamente a questão de Santa Sofia. Nos comunicados do Patriarcado de Moscovo, duros para com Erdogan, nunca se faz qualquer menção a Bartolomeu, nem ele, em público, agradeceu a Kirill a sua solidariedade. Será que a grande agitação causada pela transformação de Ayasofya em mesquita ajudará pois a segunda Roma (Constantinopla) e a terceira Roma (Moscovo) a chegarem a um compromisso razoável? Neste momento, não está no horizonte. Contudo, é claro para todos que uma Ortodoxia dilacerada não poderá responder adequadamente ao desafio do "sultão".

Francisco: «Estou muito desolado»

O puzzle de Santa Sofia causou grande embaraço ao Vaticano. A Santa Sé tem relações diplomáticas com a Turquia, e existe uma nunciatura em Ancara. Assim, qualquer reação do Vaticano à atual situação escaldante insere-se nesse contexto. Para complicar uma situação já complexa, há um facto: Bergoglio – que, em novembro de 2014, esteve em Ancara e aí foi recebido pelo presidente antes de prosseguir para Istambul – denunciou o “genocídio arménio”. 

A referência diz respeito ao que aconteceu no então Império Otomano, a partir de 24 de abril de 1915, a começar por Constantinopla. Os arménios – e os maiores historiadores internacionais confirmam esta tese – sustentam que os turcos, diretamente ou forçando-os a marchas extenuantes para acabarem em campos miseráveis, mataram quase um milhão e meio de arménios. A historiografia turca e os governos da Turquia moderna sempre rejeitaram esta tese: não houve, dizem, nenhum “genocídio” deliberado decidido pelas autoridades; mas, no clima de dissolução do Império, ocorreram muitos confrontos entre vários grupos rivais: neles, segundo Ancara, morreram 300 mil arménios, mas também pelo menos quatro milhões de muçulmanos. 
Vários parlamentos em todo o mundo reconheceram o “genocídio arménio”: há ainda raros intelectuais e historiadores turcos que o admitem. Mas Erdogan é inflexível no que respeita à negação desta tese, porque ela colocaria uma mancha indelével na honra do exército turco que, na prática, é herdeiro do otomano. Por estes motivos, é bastante delicado para Francisco, intervir na questão de Ayasofya. Por fim, no Angelus de 12 de julho, recordando que aquele domingo coincidia com o Dia Internacional do Mar, ele disse: «E o mar leva-me com o pensamento um pouco mais longe: a Istambul. Penso em Santa Sofia, e estou muito desolado». Nem mais uma palavra. 
A 4 de fevereiro de 2019, Bergoglio foi a Abu Dhabi, onde juntamente com o grande imã de al-Azhar – o maior centro teológico sunita do mundo – assinou um “Pacto pela fraternidade”, sobretudo entre cristãos e muçulmanos, transbordante de esperança para o futuro. O caso Ayasofya, no entanto, infligiu um duríssimo golpe nessas esperanças[1]

Erdogan viola o Corão?

A transformação de Ayasofya abriu um debate intramuçulmano mundial, e intraturco, que não vai terminar em breve: pelo contrário, vai desencadear novos desenvolvimentos. Orhan Pamuk, Prémio Nobel da Literatura (2006), declarou à BBC: «A reconversão em mesquita está a dizer ao resto do mundo que, infelizmente, já não somos laicos. Há milhões de turcos laicos como eu que se opõem a esta transformação, mas a sua voz não é escutada. A nação turca orgulha-se muito de ser a única nação muçulmana laica, e a basílica era um sinal disso mesmo. Agora retiraram este orgulho à nação». 
As sondagens, no entanto, mostram que a maioria dos turcos aprova entusiasticamente a decisão de Erdogan, que, às críticas externas, replica maçado dizendo no essencial: «Quem nos critica opõe-se à independência da Turquia e interfere nos assuntos internos do país». Mas, inevitavelmente, esta “interferência” vai continuar, oriunda também do variado mundo muçulmano global, onde existe uma maioria maciça, mas onde também existe uma minoria significativa, como em Itália. 
Aliás, Izzedine Elzir, conselheira da UCOII, a União das Comunidades Islâmicas em Itália, comentou: «Estamos a assistir a opções mais políticas do que religiosas. O respeito está na base de toda a coexistência civil. Temos a máxima compreensão pelos nossos irmãos cristãos: não é fácil ver um lugar construído como uma igreja a ser usado para outro culto. É por isso que desejamos que Santa Sofia, mesmo que transformada em mesquita, permaneça aberta a qualquer pessoa que a queira visitar». 
Mas não haverá – imaginamos – qualquer dificuldade em visitar a nova “mesquita”. De facto, quase como que para desafiar Santa Sofia, os turcos no século XVII construíram em frente a belíssima mesquita azul, a 300 metros de distância, para que todos pudessem admirar e avaliar a melhor a civilização – a cristã ou a muçulmana – na arquitetura. E esta mesquita pode ser sempre visitada por todos, exceto durante as horas de oração indicadas pelo muezim. E isto complicará os programas dos muitos turistas que querem visitar a teologicamente renovada Ayasofya, na qual, é lícito pensar, serão bem preservados os belos mosaicos bizantinos, talvez cobertos por uma cortina durante a oração. 
No que respeita às reações dos muçulmanos italianos e de outros países, é demasiado cedo para fazer um mapa geral. Dos primeiros testemunhos tem-se a impressão de uma grande variedade: aqueles que em surdina se alegram com o golpe que o Crescente inflige à Cruz; aqueles que ficam prudentemente em silêncio; aqueles que se exprimem de forma equívoca; aqueles que exaltam Erdogan e aqueles que o condenam. Neste momento, parece-nos que a análise mais dessacralizante da decisão de Erdogan é a de Sayyid M. Syeed, Presidente do Board of Directors of the Islamic Society of North America (ISNA), uma associação que tem mais de 300 filiados nos Estados Unidos e no Canadá. 
O dirigente afirma que Mehmet II já tinha violado o livro sagrado do Islão quando decidiu transformar Santa Sofia em mesquita. E, acrescenta, Erdogan comete agora o mesmo erro. Syeed argumenta: «A sura [capítulo] 40, 22 do Corão afirma claramente que é contra o plano de Alá demolir os lugares de culto e transformá-los em algo diferente. O nosso amado Profeta Maomé – a paz esteja com ele! – tinha confirmado que, na guerra, temos de proteger os inimigos desarmados, as suas colheitas e lugares de culto… A transformação de Hagia Sophia numa mesquita reabrirá as feridas dos cristãos ortodoxos gregos e russos e das comunidades cristãs em todo o mundo». 
Depois uma estocada final. Syeed recorda os protestos de Erdogan contra países que toleraram a violência anti-islâmica – talvez se refira aos protestos de Ancara quando, em fevereiro passado, hindus fanáticos em Deli atacaram mesquitas, queimaram-nas e mataram cerca de 20 muçulmanos indianos. E o dirigente do ISNA pergunta-se onde está a coerência do presidente turco que, ao transformar o Ayasofya, poderá desencadear a violência religiosa no mundo. 

Luigi Sandri
15 de julho de 2020 


[1] Nota de tradução: A decisão de transformação de Santa Sofia, para além das reações da Ortodoxia e do Santa Sé, também convergiu num pronunciamento do Conselho Mundial das Igrejas através de uma carta de Ioan Sauca, seu secretário geral interino, ao presidente Erdogan, de 11 de julho, que passamos a transcrever em tradução portuguesa: «Estimado presidente: / Desde que começou a funcionar como museu, em 1934, a igreja de Santa Sofia foi um lugar de abertura, encontro e inspiração para pessoas de todas as nações e credos, e uma poderosa expressão do compromisso da República da Turquia com a secularidade e a inclusão, e do seu desejo de deixar para trás os conflitos do passado. / Hoje, contudo, vejo-me obrigado a transmitir-lhe a dor e a consternação que a sua recente decisão provocou no Conselho Mundial das Igrejas, e nas suas 350 igrejas membros de mais de 110 países, as quais representam mais de 500 milhões de cristãos em todo o mundo. Ao optar por reconverter a igreja de Santa Sofia numa mesquita, reverte esse sinal positivo de abertura da Turquia para a converter num sinal de exclusão e divisão. Lamentavelmente, esta decisão foi tomada também sem notificação prévia à UNESCO e sem abordar com esta as consequências desta transformação no valor universal da basílica, reconhecido pela Convenção do Património Mundial. / Durante muitos anos, o Conselho Mundial das Igrejas desenvolveu grandes esforços para apoiar a participação ativa das suas igrejas membros no diálogo inter-religioso, a fim de estender pontes de respeito mútuo e de cooperação alicerçadas nos valores partilhados entre as diferentes comunidades religiosas. Além disso, em tempos difíceis, o CMI e as suas igrejas membros defenderam e apoiaram os direitos e a integridade de outras comunidades religiosas, entre as quais as comunidades muçulmanas. A decisão de anular a condição de museu de um lugar tão emblemático como a igreja de Santa Sofia e de a reconverter em mesquita criará inevitavelmente incerteza, suspeitas e desconfiança, e minará todos os nossos esforços para reunir pessoas de diferentes religiões em torno da mesa do diálogo e da cooperação. Muito receamos, além disso, que a sua decisão venha a alentar as aspirações de certos grupos em outros lugares que procuram derrubar o status quo existente e promover novas divisões entre as comunidades religiosas. / Senhor presidente, afirmou em múltiplas ocasiões a identidade da Turquia moderna como estado laico, mas ontem revogou um compromisso que, desde 1934, manteve este monumento histórico na qualidade de património comum da humanidade. A fim de promover a compreensão mútua, o respeito e a cooperação, e de evitar alimentar antigas animosidades e divisões, pedimos-lhe urgentemente que reconsidere e reverta a sua decisão. Unimo-nos a Sua Toda Santidade o patriarca ecuménico Bartolomeu na expressão das nossas fervorosas orações e esperanças de que a igreja de Santa Sofia não se converta de novo num foco de confronto e conflito, e se restabeleça a emblemática função unificadora que teve desde 1934. / Atentamente / Rev. Ioan Sauca / Secretário Geral Interino do Conselho Mundial das Igrejas» - A tradução portuguesa foi realizada a partir da versão espanhola publicada pelo Conselho Mundial das Igrejas.

25/05/2020

A "Ut Unum Sint" 25 anos depois: Aprender a reconhecer e acolher os dons dos outros

Há 25 anos, a encíclica de São João Paulo II sobre o ecumenismo, "Ut Unum Sint", selou a aprovação papal a uma mudança de abordagem por parte da Igreja Católica no que se refere à busca da unidade dos cristãos.
Durante os 30 anos que decorreram do II Concílio Vaticano II à publicação da encíclica de S. João Paulo II de 25 de maio de 1995, os diálogos ecuménicos oficiais tenderam a centrar-se na comparação e contraste entre os ensinamentos ou práticas católicas e os ensinamentos ou práticas dos seus parceiros de diálogo.
A busca daquilo que os cristãos tinham em comum era um primeiro passo necessário para se reconhecerem uns aos outros como cristãos, chamados por Jesus a serem um só.
Mas na "Ut Unum Sint" (expressão latim que significa "que sejam um"), S. João Paulo disse que o diálogo é mais do que "comparar coisas", disse o bispo Brian Farrell, secretário do Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos.
O diálogo, disse S. João Paulo, é "uma troca de dons".
Na nova abordagem, que se tornou conhecida por "ecumenismo recetivo", os cristãos dizem uns aos outros: "O que eu tenho é um dom para ti e o quetu tens é um dom para mim", disse Farrell.
Reconhecer que outros cristãos têm dons e estar dispostos para os aceitar como algo que poderia ajudar a própria comunidade a crescer na fé requer conversão tanto individual como colectiva, disse o bispo.
Para os católicos, um dos dons a oferecer é o ministério do bispo de Roma - o papado.
S. João Paulo apareceu nas primeiras páginas de todo o mundo quando, na "Ut Unum Sint", convidou "os líderes da igreja e os seus teólogos a empenharem-se comigo num diálogo paciente e fraterno" sobre a forma como o bispo de Roma poderia exercer o seu ministério de unidade entre todos os cristãos.
O papado e o poder envolvido no exercício do ministério papal têm estado no centro da divisão e do debate ao longo de milénios. Foi a questão-chave de muitas das fraturas da comunidade cristã e ainda é debatida no seio da própria Igreja Católica.
Enquanto as Igrejas anglicanas, luteranas, presbiterianas e outras Igrejas protestantes publicaram respostas ao convite de S. João Paulo II, a atenção mais consistente ao papado tem vindo do diálogo oficial ortodoxo - católico-romano
Desde 2006, a Comissão Internacional Conjunta para o Diálogo Teológico entre a Igreja Católica e a Igreja Ortodoxa tem-se concentrado na história e no exercício do papado. E o diálogo está em curso.
Mas um ponto que S. João Paulo II destacou na "Ut Unum Sint " é que a busca da unidade dos cristãos, que necessita de reflexão teológica, não pode ficar por aí. Não se trata simplesmente de um exercício intelectual.
"As discussões teóricas têm de resolver a questão do equilíbrio entre jurisdição e comunhão", disse Farrell. "Mas, no plano prático, estamos a viver uma comunhão normal, positiva e visível" cada vez que o Papa e outros líderes cristãos se reúnem para rezar, pedir orações e promover ações que beneficiam o bem comum, o fim da violência e o cuidado da criação.
O Papa sempre foi o Papa porque é o bispo de Roma, e não vice-versa.
Mas as constantes referências do Papa Francisco a si próprio como bispo de Roma também tiveram um impacto ecuménico positivo.
"Sinto muito que alguns católicos pensem que isto é uma espécie de diminuição, um enfraquecimento da dignidade ou do poder do papado ou algo assim", disse Farrell. "Realmente não é".
Francisco está "teologicamente correto" ao referir-se a si mesmo dessa forma, disse o bispo, "e do ponto de vista ecuménico, ajuda a colocar o papado na sua perspectiva devida".
"Ousaria dizer que alguns católicos têm uma ideia de que o Papa está de alguma forma fora da Igreja, acima dela, separado, isolado, enquanto o Papa Francisco continua a lembrar-nos que o Papa é um bispo dentro da Igreja, mas com responsabilidades particulares", disse Farrell.
A visão do papado e o próprio compromisso ecuménico da Igreja Católica estão radicados na compreensão que o II Concílio Vaticano tem do que é a Igreja, disse ele.
"Mudou a perspectiva da Igreja, que deixou de ser, sobretudo, uma instituição estruturada, mantida em conjunto pelas suas leis", disse ele, "para ser a Igreja, que é uma comunhão de todos aqueles que professam a fé e vivem a vida cristã".
A visão de Francisco da "sinodalidade " decorre dessa noção de Igreja como comunhão. O termo significa "caminhar junto" com cada membro da Igreja, reconhecendo que a graça do batismo faz parte do corpo da Igreja, sendo, portanto, responsável pela sua vida e missão.
A "Ut Unum Sint" não se referiu à importância ecuménica dos sínodos, mas a "sinodalidade" tem sido uma das características das igrejas ortodoxas em particular que Francisco vê como um dom para a Igreja Católica.
E, disse Farrell, Francisco não está a olhar apenas para o funcionamento do Sínodo dos Bispos, mas para a vivência da sinodalidade, de modo que muitos aspetos da vida da Igreja em todo o mundo sejam estudados, rezados e decididos "na situação histórica, cultural e política particular dos diferentes países".
Muitos dos parceiros ecuménicos da Igreja Católica veem na atenção de Francisco à sinodalidade um sinal de esperança relativo à possibilidade de uma verdadeira "unidade na diversidade", quando os cristãos chegarem ao momento de declararem a plena comunhão uns com os outros.
No início do movimento ecuménico, muitas igrejas viram a Igreja Católica "como uma organização enorme, bem organizada, centralizada e dominante", disse Farrell. "E a maioria das outras igrejas sentiu medo de que a Igreja Católica quisesse impor-lhes a nossa maneira de fazer as coisas, e que esse fosse o tipo de ecumenismo que iríamos seguir".
"Tivemos de aprender a mostrar-lhes que não é esse o caso; não queremos que elas sejam como nós", disse ele. "Queremos respeitá-las em tudo o que elas são, e não procuramos qualquer tipo de domínio sobre elas".
A "Ut Unum Sint" é e continua a ser importante porque afirmou claramente que o fim do compromisso ecuménico da Igreja Católica "não é uma espécie de uniformidade católica", disse Farrell. Quando duas formas de pensar ou expressar a fé são complementares, "há lugar para elas. Se se tornarem contraditórias, então têm de ser superadas".
"O fim", disse ele, "é a fidelidade de todos nós a Cristo e ao Evangelho, e o respeito pelas formas em que essa fidelidade tem sido vivida ao longo dos séculos em todas as diferentes circunstâncias culturais".

Cindy Wooden
25 de maio de 2020








08/04/2020

Unidos no Amor e na Esperança

Foto de Quinsey Sablan em Unsplash
Mensagem conjunta de Páscoa 2020 de líderes cristãos em Portugal

Vivemos um tempo particular da nossa história coletiva. Súbita e inesperadamente fomos confrontados com desafios e exigências que nunca tínhamos imaginado. Ficámos privados da liberdade de circulação, impossibilitados de estar juntos e sujeitos a uma ameaça latente capaz de fazer perigar a própria vida. A pandemia do Coronavírus atingiu-nos por igual, sem exceção de classe social, económica ou religião. Percebemo-nos iguais na nossa comum humanidade e necessitados uns dos outros para ultrapassar um desafio que só poderá ser vencido com o trabalho e a união de todos. A indiferença tem dado lugar à solidariedade ativa e a defesa do valor sagrado da vida expressa-se no particular cuidado para com os mais débeis e idosos.
Damos graças a Deus pelos inúmeros exemplos de altruísmo e de profunda dedicação ao próximo a que diariamente assistimos na sociedade portuguesa, nas suas diversas áreas e em particular na área da saúde. Num contexto de dor e de tristeza, o seu testemunho com risco da própria vida, acalenta a esperança no futuro e confere um sentido ao sofrimento vivido. As nossas orações e a nossa solicitude pastoral estão com todos os que choram a perda dos seus queridos e com os que vivem com angústia as exigências do tempo presente.
A celebração da Páscoa que se avizinha e que nos congrega enquanto cristãos, remete-nos para o nosso batismo comum em Jesus Cristo. E no assumir conjunto da nossa vocação batismal redescobrimos que a identidade cristã é estar com Jesus. Neste tempo, de um modo muito profundo, percebemo-Lo presente na intimidade de Deus Pai e na comunhão plena e vivida com todos os que sofrem. Como discípulos de Cristo ressuscitado, e na rica diversidade das tradições que nos identificam, estamos conscientes da importância de estarmos cada vez mais unidos no anúncio e no testemunho do Amor de Deus.
Oramos pelos que nos governam e têm responsabilidades coletivas e apelamos a que todos os cristãos e homens e mulheres de boa vontade se unam cada vez mais, em amor e em serviço.
Oramos também para que o Tempo Pascal nos traga paz, confiança e esperança num futuro melhor.
Aleluia ! Cristo ressuscitou !
Uma Santa e Feliz Páscoa para todos!

Subscrevem a Mensagem conjunta de Páscoa (por ordem alfabética):
Dr. António Calaim – Presidente da Aliança Evangélica Portuguesa
Bispo Jorge Pina Cabral – Igreja Lusitana (Comunhão Anglicana)
Bispo D. Manuel Linda – Diocese Católica Romana do Porto
Pastor Miguel Jerónimo – Diretor Executivo da Sociedade Bíblica
Pastor Paulo Medeiros Silva – Presidente da Igreja Evangélica Presbiteriana de Portugal
Reverendo Cónego Philip Bourne – Igreja Inglesa de St. James’ Porto
Bispo Sifredo Teixeira – Igreja Evangélica Metodista Portuguesa

27/01/2020

Celebração ecuménica no Porto no âmbito da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos

A 24 de janeiro de 2020, às 21 horas, realizou-se a Celebração Ecuménica do Porto, no âmbito da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos. A notícia seguinte e as fotos que a acompanham provêm do semanário diocesano Voz Portucalense.

Decorreu na passada sexta-feira, 24 de janeiro, na Igreja Metodista do Mirante, uma Celebração Ecuménica com a presença dos hierarcas das Igrejas Cristãs do Porto. Um momento de oração organizado pela Comissão Ecuménica do Porto por ocasião da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos (18-25 jan). A Comissão Ecuménica do Porto é constituída pela Igreja Católica, Igreja Lusitana de Comunhão Anglicana, Igreja Anglicana, Igreja Metodista, Igreja Evangélica Luterana Alemã do Porto, Igreja Ortodoxa do Patriarcado de Moscovo e Igreja Ortodoxa do Patriarcado de Constantinopla.
A Igreja Metodista do Mirante, situada na Praça Coronel Pacheco, bem no centro da cidade do Porto, foi pequena para o número de participantes neste encontro de oração. Um encontro que foi precedido no domingo, 19 de janeiro, por uma oração especial conjunta, vivida em cada comunidade, afirmando a unidade dos cristãos do Porto contra o grave problema da violência doméstica. A isso se referiu D. Manuel Linda na homilia que proferiu na celebração ecuménica aproveitando para apontar duas hipóteses de temáticas sociais que podem ser objeto de uma declaração pública das Igrejas Cristã do Porto no futuro: a realidade dos sem-abrigo e a solidão.
Na sua homilia, o bispo do Porto, partindo da Leitura dos Atos dos Apóstolos proposta na oração, salientou que a “humanidade não controla a Natureza” e que não obstante a confiança na tecnologia, não é isso que que salva a humanidade, mas sim Jesus Cristo.
D. Manuel Linda referiu ainda que o exemplo de S. Paulo na leitura proclamada demonstra que “no meio do medo há luz e esperança”. E a religião deve trazer ao mundo essa “palavra de esperança” – afirmou. E num mundo onde aumenta a solidão, também entre os jovens – assinalou o bispo do Porto – é essencial abrir o coração para receber e dar, como fizeram os náufragos do texto dos Atos dos Apóstolos.
RS

25/01/2020

Roteiro Ecuménico do Porto 2020

Publicamos a seguir o Roteiro Ecuménico do Porto 2020, acompanhado do texto que a Comissão Ecuménica do Porto preparou para o a sua divulgação.

«Em cada ano, a Comissão Ecuménica do Porto (www.ecumenismoporto.org), de que fazem partes as Igrejas Católica Romana, Lusitana (Comunhão Anglicana), Metodista, Evangélica Alemã do Porto, Capelania Inglesa St James da Igreja Anglicana, Igreja Ortodoxa do Patriarcado de Moscovo e Igreja Ortodoxa do Patriarcado de Constantinopla, propõe um roteiro ecuménico para a cidade do Porto, onde de forma livre e aberta, qualquer pessoa de sensibilidade confessional diferente pode encontrar e participar em tempos de oração pela unidade, aprender a conhecer e a apreciar celebrações e outras formas de vida espiritual de outras Igrejas, em comunhão com o espírito da Carta Ecuménica para a Europa, assumida no ano 2001.
O novo Roteiro pretende proporcionar, geralmente uma vez em cada mês, novas oportunidades na dimensão celebrativa e orante, estudos bíblicos e conferências, destacando, no mês de maio, uma tertúlia sobre a Violência Doméstica “(re)agir como Cristãos”, bem como iniciativas em prol da justiça climática, tais como "Salvar os Oceanos" e a Oração Ecuménica integrada no Tempo da Criação.
Sob o lema da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos: “Trataram-nos com uma amabilidade fora do comum” (cf. Atos 28, 2), somos desafiados à abertura e participação, entendimento e acolhimento desinteressado do Outro, numa lógica de diálogo fraterno, onde a especificada das diferenças pode constituir, efetivamente, a riqueza da diversidade do corpo de Cristo».



Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos - 25 de janeiro de 2020

DIA 8

Generosidade: Receber e dar

Atos 28,8-10
O pai de Públio estava então de cama, tomado de febres e disenteria. Paulo acudiu à sua cabeceira e, pela oração e imposição de mãos, curou-o. Depois disso, todos os outros habitantes da ilha que estavam doentes vinham ter com ele e por sua vez eram curados. Eles trataram-nos com todas as honras e, quando partimos, deram-nos tudo o que era necessário.

Salmo 103,1-5
Mateus 10,7-8

Reflexão
Esta história está cheia de situações onde se dá e se recebe: Paulo recebeu benevolência fora do comum dos habitantes da ilha; Paulo dá a cura ao pai de Públio e a outros; tendo perdido tudo na tempestade, os 276 recebem muitas provisões quando partiram. Como cristãos, somos chamados a praticar esta benevolência fora do comum. Mas para dar precisamos primeiro de aprender a receber - de Cristo e de outros. Mais frequentemente do que percebemos, somos destinatários de atos de benevolência feitos por pessoas que são diferentes de nós. Esses atos também apontam para a generosidade e a cura que nos vem de nosso Senhor. Nós, que fomos curados pelo Senhor, temos a responsabilidade de passar adiante o que recebemos.

Oração
Deus, doador de vida, nós vos agradecemos pelo dom do vosso amor compassivo que nos conforta e nos fortalece. Oramos para que nas nossas Igrejas possamos sempre estar abertos para receber os dons uns dos outros. Concedei-nos um espírito de generosidade para todos ao caminharmos unidos na direção da unidade cristã. Isso vos pedimos em nome de vosso Filho que reina convosco e com o Espírito Santo. Amém

24/01/2020

Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos - 24 de janeiro de 2020

DIA 7

Conversão: Mudar os nossos corações e mentes

Atos 28,3-6
Paulo tinha juntado uma braçada de lenha seca e lançou-a ao fogo, quando o calor fez sair dela uma víbora que se prendeu na sua mão. Quando os nativos viram esse animal dependurado na mão dele, diziam uns aos outros: “Este homem é certamente um assassino; ele conseguiu escapar do mar, mas a justiça divina não lhe permite viver.” Paulo, na realidade, sacudiu o bicho no fogo, sem sofrer o menor mal. Eles contavam vê-lo inchar ou cair subitamente morto; mas, após longa espera, constataram que nada de anormal lhe acontecia. Mudando então de opinião, repetiam: “É um deus!”

Salmo 119,137-144
Mateus 18,1-6

Reflexão
Os nativos perceberam que o julgamento que tinham feito de Paulo de que ele fosse um assassino estava errado e então mudaram de opinião. O extraordinário evento com a víbora leva os nativos a ver as coisas de um novo modo, um modo que poderia prepará-los para ouvir a mensagem de Cristo através de Paulo. Na nossa busca da unidade cristã e da reconciliação somos frequentemente desafiados a repensar a maneira como avaliamos outras tradições e culturas. Isso exige uma crescente conversão a Cristo, na qual as Igrejas aprendem a superar a sua perceção das outras como uma ameaça. Como resultado, as nossas visões pejorativas dos outros serão abandonadas e seremos conduzidos mais de perto à unidade.

Oração
Deus Todo-poderoso, voltamos para vós os nossos corações arrependidos. Na nossa sincera busca pela vossa verdade, purificai-nos das nossas injustas opiniões sobre os outros e conduzi as Igrejas a um crescimento na comunhão. Ajudai-nos e deixar de lado os nossos receios, e assim a compreendermo-nos melhor uns aos outros e aos estranhos que estão em nosso meio. Isso vos pedimos em nome daquele que é o Justo, vosso amado Filho, Jesus Cristo. Ámem.

23/01/2020

Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos - 23 de janeiro de 2020

DIA 6

Hospitalidade: Demonstrar uma amabilidade fora do comum

Atos 28,1-2.7
Já fora de perigo, soubemos que a ilha se chamava Malta. Os nativos demonstraram-nos uma amabilidade fora do comum. Com efeito, acendendo uma grande fogueira, eles convidaram-nos a todos a aproximar-nos, pois começara a chover e fazia frio... Havia, nos arredores, terras que pertenciam ao primeiro magistrado da ilha, chamado Públio. Ele acolheu-nos e hospedou-nos amigavelmente durante três dias.

Salmo 46
Lucas 14,12-24

Reflexão
Depois dos traumas e conflitos da tempestade no mar, o cuidado prático oferecido pelos habitantes da ilha foi entendido como uma amabilidade fora do comum por aqueles que estavam encharcados na praia. Tal amabilidade demonstra a nossa humanidade comum. O Evangelho ensina-nos que quando cuidamos daqueles que estão em sofrimento estamos a mostrar amor pelo próprio Cristo (cf. Mateus 25,40). Além disso, quando mostramos uma bondade amorosa para com os fracos e desvalidos estamos a sintonizar o nosso coração com o coração de Deus, no qual os pobres têm um lugar especial. Acolhendo os que vêm de fora, sejam eles pessoas de outras culturas e crenças, imigrantes ou refugiados, estamos ao mesmo tempo a amar o próprio Cristo e a amar como Deus ama. Como cristãos, somos chamados a ir adiante na fé e a alcançá-los com o amor de Deus que é para todos, mesmo para aqueles que temos dificuldade de amar.

Oração
Deus do órfão, da viúva e do estrangeiro, colocai no nosso coração um profundo sentido de hospitalidade. Abri os nossos olhos e corações quando nos pedis para vos alimentar, vos vestir e vos visitar. Que as nossas Igrejas possam participar na erradicação da fome, da sede, do isolamento e da superação das barreiras que não nos permitem acolher a todos. Isso vos pedimos em nome de vosso Filho, Jesus, que está presente nos mais pequenos dos nossos irmãos e irmãs. Amém.

22/01/2020

Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos - 22 de janeiro de 2020

DIA 5

Fortalecimento: Partilhar o pão para a viagem

Atos 27,33-36
Enquanto se esperava o dia, Paulo exortou todos a se alimentarem, dizendo: “É hoje o décimo quarto dia que passais na expectativa, sem comer, e ainda não comestes nada. Torno a dizer, nenhum de vós perderá um só cabelo de sua cabeça”. Dizendo isto, ele tomou o pão, deu graças a Deus na presença de todos, partiu-o e pôs-se a comer. Todos então, recuperando a coragem, puseram-se também a comer.

Salmo 77
Marcos 6,30-44

Reflexão
O convite de Paulo para comerem é uma exortação para que os que estavam no barco se fortalecessem para o que viria adiante. Esse ato de tomar o pão marca uma mudança de atitude, dado que os que estavam no navio passam do desespero à coragem. De modo semelhante, a Eucaristia ou Ceia do Senhor providencia para nós alimento para a nossa jornada e nos reorienta para a vida em Deus. Somos fortalecidos. A partilha do pão – no coração da vida e do culto da comunidade cristã – edifica-nos quando nos comprometemos a servir como cristãos. Aguardamos o dia em que todos os cristãos poderão partilhar a mesma mesa da Ceia do Senhor e se fortalecer a partir de um mesmo pão e de um mesmo cálice.

Oração
Deus Amoroso, o vosso Filho Jesus Cristo partiu o pão e partilhou o cálice com os seus amigos na véspera da sua Paixão. Queremos crescer juntos em comunhão mais próxima, seguindo o exemplo de Paulo e dos primeiros cristãos. Dai-nos força para construir pontes de compaixão, solidariedade e harmonia. Inspirados pelo Espírito Santo, isso vos pedimos em nome de vosso Filho, que dá a sua vida para que possamos viver. Amém.

21/01/2020

Semana de Oração para a Unidade dos Cristãos - 21 de janeiro de 2020

DIA 4

Confiança: Não tenhas medo, crê

Atos 27,23-26

Com efeito, esta noite mesmo, um anjo do Deus a quem pertenço e a quem sirvo apresentou-se a mim e disse-me: “Não tenhas medo, Paulo: é necessário que compareças diante do imperador; e Deus também te concede a vida de todos os teus companheiros de travessia.” Coragem, pois, meus amigos! Eu tenho confiança em Deus: sucederá como ele me disse! Devemos naufragar em alguma ilha.

Salmo 56
Lucas 12,22-34

Reflexão
No meio da tempestade o encorajamento e a esperança de Paulo contrastavam com o medo e o desespero dos seus companheiros de viagem. O convite para em conjunto sermos discípulos de Cristo também traz um sinal de contradição. Num mundo violentamente dividido com temores, somos chamados a ser testemunhas de esperança, colocando a nossa confiança na providência amorosa de Deus. A experiência cristã mostra-nos que Deus escreve certo por linhas tortas. E sabemos, apesar de todas as previsões, que não nos vamos afogar ou ficar perdidos porque o amor fiel de Deus permanece para sempre.

Oração
Deus Todo-poderoso, o nosso sofrimento pessoal leva-nos a chorar de dor e encolhemo-nos de medo quando experimentamos a doença, a ansiedade ou a morte daqueles que amamos. Ensinai-nos a confiar em vós. Que as Igrejas a que pertencemos sejam sinais do vosso cuidado providencial. Fazei de nós verdadeiros discípulos do vosso Filho, que nos ensinou a ouvir a vossa Palavra e a servir uns aos outros. Confiantes vos pedimos isso em nome do vosso Filho e pelo poder do Espírito Santo. Amém.

20/01/2020

Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos - 20 de janeiro de 2020

DIA 3

Esperança: Mensagem de Paulo

Atos 27,22.34
Mas agora eu convido-vos a manter a coragem; pois nenhum de vós perderá a vida, somente o navio se perderá... nenhum de vós perderá um cabelo sequer da sua cabeça.

Salmo 27
Mateus 11,28-30

Reflexão
Como cristãos que pertencem a Igrejas e a tradições que não estão completamente reconciliadas entre si, ficamos frequentemente desanimados pela falta de progresso na direção da unidade visível. De facto, alguns desistiram de toda a esperança e veem a unidade como um ideal inatingível. Outros nem sequer veem a unidade como uma parte necessária da sua fé cristã. Ao orarmos por esse dom da unidade visível, façamos isso com firmeza de fé, paciência insistente e esperança animadora, confiando na amorosa providência de Deus. A unidade está na prece do Senhor pela sua Igreja e ele acompanha-nos nessa jornada. Não ficaremos perdidos.

Oração
Deus de misericórdia, perdidos e desanimados, voltamo-nos para vós. Colocai em nós o vosso dom da esperança. Que as nossas Igrejas tenham esperança e trabalhem pela unidade pela qual o vosso Filho orou na véspera da sua Paixão. Isso vos pedimos através dele, que vive e reina convosco e com o Espírito Santo para sempre. Amém.

19/01/2020

Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos - 19 de janeiro de 2020

DIA 2

Iluminação: Buscar e apresentar a Luz de Cristo

Atos 27,20
Desde há vários dias nem o sol nem as estrelas apareciam; a tempestade, de uma violência pouco comum, continuava perigosa: doravante, toda a esperança de sermos salvos nos desamparava.

Salmo 119,105-110
Marcos 4,35-41

Reflexão
Cristo é a nossa luz e o nosso guia. Sem a luz e a orientação de Cristo, ficamos desorientados. Quando os cristãos perdem Cristo de vista, ficam assustados e divididos entre si. Além disso, muitas pessoas de boa vontade fora da Igreja ficam incapazes de ver a luz de Cristo porque no meio das nossas divisões refletimos menos claramente essa luz ou, às vezes, bloqueamo-la completamente. À medida que buscamos a luz de Cristo, aproximamo-nos cada vez mais uns dos outros e assim contemplamos essa luz com mais clareza, tornando-nos realmente um sinal de Cristo, a luz do mundo.

Oração
Deus, a vossa palavra é luz para os nossos passos e sem vós ficamos perdidos e desorientados. Iluminai-nos para que, através da vossa palavra, possamos seguir pelo vosso caminho. Que as nossas Igrejas busquem intensamente a vossa presença orientadora, consoladora e transformadora. Dai-nos a honestidade de que precisamos para reconhecermos quando tornamos difícil para outros a visão da vossa luz e a graça de que necessitamos para partilhar essa luz com outros. Isso vos pedimos em nome de vosso Filho, que chamou a nós, seus seguidores, para sermos luz para o mundo. Amém.

18/01/2020

Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos - 18 de janeiro de 2020

DIA 1 

Reconciliação: Atirar a carga ao mar

Atos 27,18-19.21
No dia seguinte, como fossemos sempre violentamente sacudidos pela tempestade, atirou-se carga ao mar e, no terceiro dia, com as próprias mãos, os marinheiros deitaram à água os apetrechos do navio... Há muito tempo que não comíamos nada, quando Paulo, de pé no meio deles, lhes disse: Estais a ver, meus amigos, tinha sido melhor terdes seguido o meu conselho, não deixar Creta e evitar assim estes prejuízos e perdas.

Salmo 85
Lucas 18,9-14

Reflexão
Como cristãos de diferentes Igrejas e tradições, temos infelizmente, ao longo dos séculos, acumulado muita bagagem que consiste em mútua desconfiança, amargura e suspeita. Agradecemos ao Senhor pelo nascimento e crescimento do movimento ecuménico no século passado. O nosso encontro com cristãos de outras tradições e a nossa oração comum pela Unidade dos Cristãos animam-nos a buscar reciprocamente o perdão, a reconciliação e a aceitação. Não podemos permitir que a bagagem do nosso passado nos impeça de nos aproximarmos cada vez mais uns dos outros. É vontade do Senhor que deixemos isso de lado, para aí dar lugar a Deus!

Oração
Deus misericordioso, libertai-nos das dolorosas lembranças do passado que ferem a nossa  vida cristã compartilhada. Conduzi-nos à reconciliação para que, pela força do Espírito Santo, possamos superar o ódio com amor, a ira com gentileza e a suspeita com confiança. Isso vos pedimos em nome de vosso amado Filho, nosso irmão Jesus. Amém

16/01/2020

Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos no Porto



A Comissão Ecuménica do Porto promove a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, com uma série de iniciativas que visam fortalecer o caminho da unidade desejado por Jesus Cristo, este ano sob o tema “Trataram-nos com uma amabilidade fora do comum” Atos 28, 2, seguindo as propostas celebrativas e de oração, este ano preparadas pelas Igrejas da Ilha de Malta.
Perante a gravidade da violência doméstica, algo a que a consciência social reage fortemente, os “hierarcas” das Igrejas que integram a Comissão Ecuménica do Porto: Igreja Lusitana de Comunhão Anglicana, Igreja Anglicana, Igreja Metodista, Igreja Evangélica Luterana Alemã do Porto, Igreja Ortodoxa do Patriarcado de Moscovo, Igreja Ortodoxa do Patriarcado de Constantinopla acordaram um gesto de repúdio desse género de violência e de invocação do Espírito de Deus para que conceda às famílias o dom da paciência, do respeito e da paz. E combinou-se um dia comum para todos: dia 19 de janeiro para que em todas as celebrações nas várias confissões cristãs seja realizada uma oração própria e se possível a problemática seja refletida nas homilias, sermões, reflexões e grupos.

Oração sobre a Violência Doméstica
Na Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos 2020

Dentro da semana em que oramos pela unidade de todos os cristãos, pedimos ao nosso Deus que proteja todas as famílias da violência doméstica e ampare aquelas que vivem este sofrimento dentro de suas portas.
É a família que nos sustenta, nos orgulha e nos realiza. Normalmente, amamos a nossa família com o mesmo amor com que nos amamos a nós próprios...
Hoje, oramos por uma família que se define, se constrói e se une pelo Dom que Deus faz de Si próprio no nosso amor.
Oramos por um amor livre, mas comprometido;
Amor gratuito e que também sabe receber;
Amor intenso, mas equilibrado;
Amor apaixonado e ao mesmo tempo consciente...
Oramos por um amor mais forte do que a fraqueza,
Mais entregue do que pedido,
Mais doado do que um direito.
O Filho de Deus encarnado ensina-nos que todos merecemos ser amados assim. E os outros também merecem ser assim amados por nós.
Hoje pedimos a Deus, Pai de todos nós, pelo seu Filho jesus Cristo, no Amor do Espírito Santo, que a violência não entre nas nossas casas e todos vivam em paz.
Ámen.

10/01/2020

Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos (18 a 25 de janeiro de 2020)

«Trataram-nos com uma amabilidade fora do comum»
(At 27,18 - 28,10) 

Os materiais para a Semana de Oração pela Unidade Cristã de 2020 foram preparados pelas Igrejas cristãs em Malta e Gozo (Cristãos Unidos em Malta). Em 10 de fevereiro, muitos cristãos em Malta celebram a festa do naufrágio de São Paulo, destacando e agradecendo a chegada da fé cristã nessas ilhas. A leitura de Atos dos Apóstolos usada na festa é o texto escolhido para a Semana de Oração deste ano.
A história começa com Paulo a ser levado para Roma como prisioneiro (At 27,1ss). Paulo está preso, mas mesmo numa viagem que se torna perigosa, a missão de Deus continua através dele.
Essa narrativa é um clássico drama da humanidade confrontada com o aterrorizante poder dos elementos da natureza. Os passageiros do navio estão expostos às forças do mar e das poderosas tempestades que se erguem ao seu redor. Essas forças levam-nos a um território desconhecido, onde estão perdidos e sem esperança.
As 276 pessoas a bordo do navio são divididas em grupos distintos. O centurião e seus soldados têm poder e autoridade mas dependem da perícia e da experiência dos marinheiros. Embora todos estejam assustados e vulneráveis, os prisioneiros são os mais vulneráveis de todos. As suas vidas são consideradas dispensáveis, eles estão em risco de uma execução sumária (cf. 27,42). À medida que a história se desenvolve, sob pressão e temendo por suas vidas, vemos desconfiança e suspeita a ampliar as divisões entre os diferentes grupos.
Notavelmente, porém, Paulo ergue-se como um centro de paz no tumulto. Ele sabe que a sua vida não é governada por forças indiferentes ao seu destino, mas está segura nas mãos do Deus a quem ele pertence e serve (cf. 27,23). Por causa da sua fé, ele está confiante de que se erguerá diante do imperador em Roma, e na força da sua fé pode erguer-se diante dos seus companheiros de viagem e dar graças a Deus. Todos estão encorajados. Seguindo o exemplo de Paulo, eles partilham pão, unidos numa nova esperança e confiando nas suas palavras.
Isso indica o tema principal dessa passagem: a providência divina. Foi decisão do centurião navegar com mau tempo, mas ao longo da tempestade os marinheiros tomam decisões sobre como lidar com o navio. Mas ao final os seus próprios planos são alterados e, somente permanecendo juntos e permitindo que o navio naufrague, eles chegam a ser salvos pela divina providência. O navio e toda a sua valiosa carga perder-se-ão, mas todas as vidas serão salvas: “nenhum de vós perderá um cabelo sequer da vossa cabeça” (cf. 27,34; Lc 21,18). Na nossa busca da unidade cristã, entregar-nos à divina providência vai exigir deixar de lado muitas coisas a que estamos profundamente ligados. O que importa para Deus é a salvação de todas as pessoas.
Esse grupo de pessoas diversas e em conflito desembarca numa ilha (cf 27,26). Tendo sido jogados juntos no mesmo navio, chegam ao mesmo destino, onde a sua unidade humana se manifesta na hospitalidade que recebem dos nativos da ilha. Ao unirem-se ao redor do fogo, cercados por um povo que nem os conhece nem os compreende, as diferenças de poder e posição social esvaem-se. Os 276 não estão mais na dependência de forças indiferentes, mas envolvidos pela amorosa previdência de Deus, que se mostra presente através de um povo que lhes demonstra uma “benevolência fora do comum” (cf. 28,2). Com frio e molhados, eles podem aquecer-se e secar perto do fogo. Com fome, recebem comida. São abrigados até que seja seguro para eles continuar a viagem.
Hoje muitas pessoas estão a enfrentar terrores semelhantes nesses mesmos mares. Os mesmos lugares mencionados no texto lido (cf. 27,1; 28,1) também fazem parte das histórias de migrantes de tempos modernos. Em outras partes do mundo muitos outros estão fazendo jornadas igualmente perigosas por terra e pelo mar para escapar de desastres naturais, guerra e pobreza. As suas vidas também estão expostas a forças imensas e friamente indiferentes - não apenas naturais, mas também políticas, económicas e humanas. Essa indiferença humana assume várias formas: a indiferença dos que vendem lugares em barcos inadequados para pessoas desesperadas; a indiferença que leva à decisão de não enviar barcos de socorro; a indiferença que faz mandar embora barcos de imigrantes. Isso são apenas alguns exemplos. Como cristãos unidos encarando as crises da migração, essa história desafia-nos: apoiamos as frias forças da indiferença, ou mostramos “benevolência fora do comum” e tornamo-nos testemunhas da amorosa providência de Deus para todas as pessoas?
A hospitalidade é uma virtude muito necessária na nossa busca da unidade cristã. É uma prática que nos leva a uma maior generosidade para os necessitados. As pessoas que mostraram benevolência fora do comum a Paulo, e os seus companheiros não conheciam ainda Cristo, mas mesmo assim é através da sua benevolência fora do comum que um povo dividido vai ficando unido. A nossa própria unidade cristã será descoberta não apenas ao mostrarmos hospitalidade de uns para os outros, embora isso seja muito importante, mas também através de encontros amigáveis com aqueles que não partilham a nossa língua, cultura ou fé.
Em tais viagens tempestuosas e encontros casuais, a vontade de Deus para a Igreja e para todas as pessoas será cumprida. Como Paulo proclamará em Roma, a salvação de Deus foi enviada a todos os povos (cf. At 28,28).
As reflexões para os oito dias e a celebração serão baseadas no texto dos Atos dos Apóstolos. Os temas para os oito dias são:
Dia 1: Reconciliação: Atirar a carga ao mar.
Dia 2: Iluminação: Buscar e apresentar a luz de Cristo.
Dia 3: Esperança: Mensagem de Paulo
Dia 4: Confiança: Não tenhas medo, crê.
Dia 5: Fortalecimento: Partilhar o pão para a viagem.
Dia 6: Hospitalidade: Demonstrar uma amabilidade fora do comum.
Dia 7: Conversão: Mudar os nossos corações e mentes
Dia 8: Generosidade: Receber e dar.

Porto: Gesto ecuménico de repúdio da violência doméstica

D. Manuel Linda, Bispo do Porto, deu a conhecer, a 3 de janeiro, na sua conta na rede social Tweet, o gesto acordado com as restantes Igreja Cristãs que integram a Comissão Ecuménica do Porto: «As Igrejas Cristãs do movimento ecuménico do Porto [...] combinaram comigo um gesto de repúdio da violência doméstica: uma oração a 19/01, início da Semana da Unidade dos Cristãos».

A 10 de janeiro, o P. Mário Henrique Melo, presidente da Comissão Diocesana para o Ecuménico, prestou declarações sobre o assunto à Agência Ecclesia. Assim refere a notícia da referida Agência:

«As comunidades cristãs do Porto, entre elas a Igreja Católica, vão rezar em conjunto, no próximo dia 19, contra a violência doméstica, num gesto que vai unir as Igrejas Católica, Lusitana, Anglicana, Metodista, Luterana e Ortodoxa.
O responsável pela Comissão Ecuménica Diocesana do Porto (Igreja Católica) disse hoje à Agência ECCLESIA que a iniciativa de “repúdio contra a violência doméstica” foi uma “decisão dos hierarcas, todos juntos”, que se vai concretizar numa oração comum nas Missas e celebrações desse dia, durante a semana anual dedicada à Unidade dos Cristãos.
“Queremos associar-nos com a nossa oração, com a nossa sensibilidade, das nossas comunidades, para ver se contribuímos de alguma forma para que isso se resolva. Há de ter a sua importância na sensibilização, na educação, é essa a intenção”, explica o padre Mário Henrique Melo.
O sacerdote salientou que as Igrejas Cristãs que integram o movimento ecuménico no Porto querem unir-se “numa oração comum ao mesmo Deus”, num sinal de comunhão e “contra um problema que é evidente na sociedade” como a violência doméstica.
“É muito importante que as Igrejas Cristãs se unam não só por motivos religiosos, mas também por motivos que defendem valores. Nós partilhamos valores, não partilhamos só a fé”, assinalou.
O padre Mário Henrique Melo explica que a oração comum que vai ser lida nas Igrejas Cristãs – nas Missas Católicas, durante o momento da ação de graças – “é uma oração comprometida”, uma vez que a violência doméstica “se manifesta de múltiplas formas”, inclusive nas famílias cristãs».

Juntamente com uma mensagem de 6 de janeiro, dirigida por D. Manuel Linda aos padres da diocese do Porto, seguia a referida oração:

«Dentro da semana em que rezamos pela unidade de todos os cristãos, pedimos ao nosso Deus que proteja todas as famílias da violência doméstica e ampare aquelas que vivem este sofrimento dentro de suas portas. 
É a família que nos sustenta, nos orgulha e nos realiza. Normalmente, amamos a nossa família com o mesmo amor com que nos amamos a nós próprios... 
Hoje, rezamos por uma família que se define, se constrói e se une pelo Dom que Deus faz de Si próprio no nosso amor. Assim: 
Rezamos por um amor livre, mas comprometido; 
Amor gratuito e que também sabe receber; 
Amor intenso, mas equilibrado; 
Amor apaixonado e ao mesmo tempo consciente... 
Rezamos por um amor mais forte do que a fraqueza, 
Mais entregue do que pedido, 
Mais doado do que um direito. 
O Filho de Deus encarnado ensina-nos que todos merecemos ser amados assim. E os outros também merecem ser assim amados por nós. 
Hoje pedimos a Deus, Pai de todos nós, pelo seu Filho jesus Cristo, no Amor do Espírito Santo, que a violência não entre nas nossas casas e todos vivam em paz. Ámen».

31/08/2019

Tempo da Criação 2019

De 1 de setembro a 4 de outubro, os cristãos em todo o mundo unem-se na ação e na oração pela criação. É o “Tempo da Criação”, celebrado em todas as partes do globo.

Remetemos para a página web da iniciativa Tempo da Criação e da Rede Cuidar da Casa Comum, para a Nota da Comissão Episcopal da Pastoral Social e Mobilidade Humana sobre o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação (1 de setembro), e deixámos o Convite dos líderes das várias confissões cristãs à participação no Tempo da Criação.


Caros irmãos e irmãs em Cristo,

“Vou fazer uma aliança convosco e com vossa posteridade, assim como com todos os seres vivos que estão convosco... na terra” (Génesis 9, 9-10).

Nós somos parte de uma teia de vida maravilhosamente complexa e única, tecida pelas mãos de Deus. Todos os anos, de 1 de setembro a 4 de outubro, a família cristã celebra a boa dádiva da criação. Essa comemoração global teve início em 1989, com o reconhecimento do dia de oração pela criação por parte do Patriarcado Ecuménico de Constantinopla, sendo hoje adotada por toda a comunidade ecuménica.
Durante o Tempo da Criação, unimo-nos como uma só família em Cristo, celebrando os elos que partilhamos uns com os outros e com “todo os seres vivos da Terra” (Génesis 9, 10). A família cristã celebra o Tempo da Criação com oração, refletindo sobre como habitar a nossa casa comum de forma mais sustentável e fazendo ouvir sua voz na esfera pública.
Neste Tempo da Criação, oferecemos as nossas reflexões acerca da própria teia de vida, na esperança de que possamos gerar maior contemplação e respostas mais profundas entre nós, irmão e irmãs. Nós fazemo-lo em espírito ecuménico, reconhecendo que a criação foi entregue como dádiva a todos nós e que somos chamados a partilhar a responsabilidade de a proteger.
As Escrituras iniciam-se com a afirmação divina de que tudo na criação é “muito bom” e, como guardiões da criação de Deus, nós somos chamados a proteger e cultivar essa dádiva (Génesis 1, 28. 30; Jeremias 29, 5-7). Cada espécie e, de facto, toda a criação é preciosa, pois foi feita por Deus. Tudo reflete um aspeto de Deus. “Ó Senhor, quão variadas são as vossas obras! Todas feitas com sabedoria, a terra está cheia das coisas que criastes” (Salmo 104, 24).
É por isso que lamentamos o facto de as criaturas de Deus estarem a desaparecer da Terra num ritmo que mal podemos entender. De humildes insetos a majestosos mamíferos, de plânctones microscópicos a árvores imponentes, plantas e animais do domínio de Deus estão a extinguir-se, para nunca mais ser vistos novamente.
Essa devastação é, em si, uma trágica perda. Nós contemplamos essa perda e pedimos que ela tenha fim. Também oramos por justiça, pois os mais vulneráveis dentre nós são os que mais sofrem com o desfazer da teia de vida. A nossa fé pede-nos que respondamos a essa crise com a urgência da clareza moral.
Nós incentivamos toda a família cristã a juntar-se a nós neste momento especial de oração, reflexão e ousadia para preservarmos a criação em toda a sua complexidade e especificidade. Este ano, em especial, haverá oportunidade de unirmos as nossas vozes em ocasiões como o Congresso Mundial para Conservação da Natureza em junho, a Cimeira climática da ONU em setembro, o Sínodo da Amazónia em outubro, e a conferência da ONU por causa das mudanças climáticas em novembro.
Como canta o salmista: “Do Senhor é a terra e tudo o que ela contém, a órbita
terrestre e todos os que nela habitam” (Salmo 24, 1). Na esperança nascida da graça, oramos para que o Senhor, que é o nosso Criador, Sustentáculo e Redentor, toque os nossos corações e a família humana neste Tempo da Criação.

Na graça de Deus,

Membros do Comité Consultivo do Tempo da Criação:
Bispo Marc Andrus, Diocese Episcopal da Califórnia

Rev. Ed Brown, Cuidado da Criação e Catalisador de Lausanne para o Cuidado da Criação
Dr. Celia Deane-Drummond, Diretora, Instituto de Pesquisa Laudato Si’,
Campion Hall, Universidade de Oxford, Reino Unido
Monsenhor Bruno-Marie Duffé, Secretário, Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento
Humano Integral no Vaticano
Rev. Norm Habel, Projeto Tempo da Criação, Adelaide
Bispo Nick Holtam, Bispo de Salisbury, Presidente do Grupo de Trabalho Ambiental da Igreja da Inglaterra
Pe. Heikki Huttunen, Secretário Geral, Conferência das Igrejas Europeias
Dr. Hefin Jones, Comitê Executivo, Comunhão Mundial das Igrejas Reformadas
Serafim Kykotis, Arcebispo da Igreja Ortodoxa Grega em Zimbábue e Angola
Bispo Mark Macdonald, Bispo Anglicano de Nativos Indígenas, Igreja Anglicana do Canadá
Pe. Martin Michalíček, Secretário Geral, Conselho das Conferências Episcopais da Europa
Ms. Necta Montes, Secretária Geral, Federação Mundial de Alunos Cristãos
Irmã Patricia Murray, Secretária Executiva, União Internacional de Superioras Gerais
Dr. Alexandros K. Papaderos, Conselheiro do Patriarcado Ecuménico de Constantinopla
Dr. Paulo Ueti, Conselheiro Teológico e Diretor Regional da América Latina da Aliança Anglicana
Dr. Ruth Valerio, Diretora Global de Advocacia e Influência, Tearfund