20/04/2018

Um Doutor da Igreja [Gregório de Narek] nos jardins do Vaticano

Saudaram-se diante do monte Ararat, no mosteiro de Khor Virap, libertando duas pombas num voo de amizade, fraternidade e paz. Voltaram a encontrar-se no Vaticano na manhã de 5 de abril, nos jardins diante da sede do Governatorato, para a inauguração da estátua de bronze de São Gregório de Narek, grande arauto da solidariedade universal. O Papa Francisco e Karekin II, catholicos de todos os arménios, renovaram assim o abraço e a oração conjunta partilhados há dois anos, em junho de 2016, por ocasião da visita do Pontífice à Arménia. Estavam presentes também o catholicos da Igreja arménia apostólica da Cilícia, Aram I; o patriarca católico Grégoire Pierre XX Ghabroyan, da Cilícia dos arménios; e o presidente da República da Arménia, Serzh Sargsyan.
O verdadeiro “mestre de cerimónias” deste encontro foi São Gregório de Narek, poeta, monge, místico e teólogo do século X, figura-chave da cultura e do universo espiritual da Arménia, autêntica ponte entre Oriente e Ocidente, voz de um ecumenismo que afunda as suas raízes nos séculos. Durante a visita de 2016, o Papa Francisco definiu o seu Livro das Lamentações como a "constituição espiritual" do povo e falou dele como de um "doutor da paz", citando trechos da sua obra, como a passagem em que escrevia: «Recordai-vos, Senhor, daqueles que, na estirpe humana, são nossos inimigos, mas para o bem deles: cumpri neles perdão e misericórdia. Não extermineis aqueles que me mordem: transformai-os! Extirpai a conduta terrena viciosa, e enraizai em mim e neles a boa». E na missa celebrada em Gyumri, definiu o santo poeta — que o próprio Francisco incluiu entre os doutores da Igreja universal no dia 12 de abril de 2015 — como «grande arauto da misericórdia divina». Naquela ocasião, a 25 de junho de 2016, o Papa passou no meio da multidão para saudar a comunidade católica local e, a bordo do jipe, quis que ao seu lado estivesse Karekin II para lançar uma concreta e visível mensagem de diálogo, paz e fraternidade.
Foi exatamente naquela viagem, durante a visita de cortesia ao palácio presidencial de Yerevan, que o presidente da República Sargsyan, oferecendo ao Pontífice uma pequena estátua de São Gregório de Narek, desejou que um dia a imagem do místico pudesse encontrar lugar também no Vaticano. A obra, de bronze, foi colocada nos jardins do Vaticano, atrás da basílica de São Pedro, entre a estação e o palácio do tribunal, ao longo da rua que dá para a praça da Casa Santa Marta. O autor é David Erevantsi, artista de Yerevan engajado na preservação das tradições arménias no mundo inteiro. Foi realizada totalmente em bronze numa fundição da República Checa. «Que esta imagem de São Gregório de Narek seja benzida e santificada pelo sinal da santa Cruz e do santo Evangelho, e pela graça deste dia», cadenciou solenemente o Papa Francisco, recitando a fórmula de bênção durante a cerimónia, que se tornou ocasião para um breve momento de oração comum.
O Pontífice chegou às 12h20, acompanhado pelo arcebispo Georg Gänswein, prefeito da Casa Pontifícia. Estavam com o Papa na plataforma posta diante da estátua ainda coberta, além de Karekin II, a Aram I e Grégoire Pierre XX Ghabroyan, os cardeais Leonardo Sandri, prefeito da Congregação para as Igrejas orientais, e Kurt Koch, presidente do pontifício Conselho para a promoção da unidade dos cristãos. Ao lado, o presidente arménio Sargsyan. Estavam presentes também diversas autoridades religiosas e civis.
Quem deu início ao rito — dirigido pelo mestre das celebrações litúrgicas pontifícias, monsenhor Guido Marini, coadjuvado pelo cerimoniário Ján Dubina — foi o Papa Francisco com o sinal da cruz. Depois, sete seminaristas do pontifício Colégio arménio entoaram um hino dedicado aos santos tradutores e doutores da Igreja. Após a leitura do trecho do Evangelho de João (15, 9-17) no qual Jesus, durante a última Ceia, confia aos Apóstolos o mandamento do amor: «O que vos mando é que vos ameis uns aos outros», foi recitada uma oração de São Gregório, tirada do Livro das Lamentações. Eis o texto, de grande profundidade teológica e beleza poética: «Senhor, o fogo é para Vós como orvalho que refresca; e a chuva, como chama que arde. Sois poderoso ao configurar a pedra como forma que inspira, e ao erigir o racional como estátua que não fala nem respira. Tornai digno de honra o devedor desanimado e julgais com justiça quem é considerado puro. Remeteis à delícia dos bens quem está próximo da morte, e resgatais o desavergonhado, depois de ter ungido de alegria o seu rosto. Endireitais quem está condenado ao precipício da imundície, e estabeleceis na solidez da rocha quantos vacilam».
No final, o embaixador Minasyan descerrou a estátua para que o Papa Francisco a benzesse.
Imediatamente depois, Aram I, Ghabroyan e Karekin II sucederam-se nas preces de intercessão pela paz. O rito concluiu-se com a recitação comum do Pai-Nosso e com um abraço fraterno.

L'Osservatore Romano. Edição semanal em Português (12 de abril de 2018) 13

Gregório de Narek nosso contemporâneo

Na história arménia, o século X é geralmente considerado o início da “era da prata”. Este período distinguiu-se pela prosperidade da vida monástica, pela fundação de mosteiros e igrejas, pela criação de ricas obras literárias, por uma interação mais estreita com as escolas teológicas e filosóficas do tempo e pela promoção das artes. Todos os problemas pertinentes e as perguntas fundamentais da época ressoaram, de um modo ou de outro, na vida e no pensamento de Gregório de Narek (em arménio, Krikor Narekatsi), um dos grandes místicos do cristianismo mundial.
As informações sobre a sua vida são bastante escassas. Nasceu em 950. Ordenado monge em 977, cedo foi nomeado mestre de patrística, posição reservada aos monges que se tinham distinguido intelectualmente. Assimilou plenamente as ciências escolásticas conhecidas como trivium e quadrivium, e era perito em filosofia e espiritualidade oriental.
Considerado santo ainda em vida, Gregório produziu uma obra que é justamente definida o ápice da espiritualidade arménia, assim como uma das obras-primas do misticismo mundial. O livro é conhecido com diversos títulos e, popularmente, com o de Narek . A identificação do autor com a obra é tal que torna difícil distinguir entre ele e o Narek, expressão autêntica da luta contínua de Gregório para entrar em comunhão com Deus. A obra é uma recolha de 95 discursos, com 336 subdivisões. Não se trata de uma prece a Deus, mas de um «diálogo com Deus, do fundo do coração».
O colóquio entre Deus e o homem apresenta duas questões centrais: quem é o ser humano? Qual é a sua vocação no mundo? No Narek estas perguntas são enfrentadas sob diversas perspetivas e em diferentes contextos, mas sempre numa relação dialética com Deus. O autor está diante de Deus, representando a humanidade inteira. Buscando Deus, ele procura a própria identidade e destino. A compreensão que tem de si mesmo é determinada e condicionada por Deus. Sem Deus, considera-se «desprovido de significado e de finalidade». Compreende o seu ser, a sua existência e o seu destino unicamente em Deus e por meio de Deus.
Gregório é um grande místico, um teólogo extraordinário e um poeta humanista. Estas três dimensões da sua pessoa e do seu pensamento estão intimamente interligadas. O seu misticismo não é negação de si, mas sobretudo afirmação de si mesmo, destinada a recuperar e a redescobrir a imagem de Deus no ser humano. O misticismo do autor é também existencial; nasce de uma espiritualidade vivida. Não é uma fuga do mundo; ao contrário, é um compromisso no mundo de injustiça e de sofrimento, com a clara ideia de transformar a humanidade e a criação com a graça de Deus, através de Jesus Cristo e no poder do Espírito Santo.
A teologia de Gregório é mais espiritual que racional, mais existencial que metafísica, mais dialogal que prescritiva. O autor leva a teologia para fora dos seus confins doutrinais e da esfera transcendente, desenvolvendo-a no contexto de uma relação viva com Deus e com a sua criação. A composição deste pioneiro do renascimento arménio não é uma forma clássica de hinologia, mas poesia pura, tocada pela graça divina; nos seus versos estão presentes os mistérios e as belezas da natureza.
A teologia de Gregório é tanto dialogal como dialética. A visão do absoluto provém do alto e gera uma resposta humana. Para o autor, o ateísmo é uma impossibilidade ontológica. Deus é a fonte, o centro e o fim da vida humana. O pecado original do primeiro homem criou uma divisão entre os seres humanos e Deus. Não se trata de uma dicotomia ontológica; é provisória, por ser devida ao pecado humano. O fim do processo, sustentado pelo amor e pela graça de Deus, é reconciliação e unificação com Deus. Em Gregório, o conceito de unificação com Deus é o ortodoxo de theosis, realçado pelo misticismo oriental. A theosis é a incorporação na natureza divina, sem fusão nem mistura. Ela só é alcançada mediante a intervenção da graça divina e a resposta humana obediente. A theosis não é pessoal; o processo abrange a criação inteira. A meta do misticismo do autor não é a descoberta do infinito, mas a redescoberta de si mesmo no infinito e por meio do infinito. É também uma profunda consciência da presença salvífica de Deus, no poder do Espírito Santo, na humanidade e em toda a criação.
O pensamento de Gregório é dominado por criativa imaginação e rica alegoria. A sua imaginação é tão vasta e profunda que supera os confins do concreto e do visível, e procura penetrar até no mistério divino. O diálogo apaixonado com Deus transcende lógica e razão. É preciso lê-lo várias vezes para discernir as principais correntes do seu pensamento e entender o seu significado. Com efeito, cada frase, e até cada palavra do Narek , descerra ao leitor uma renovada dimensão ou um novo horizonte. O autor recorre abundantemente a metáforas e temas bíblicos, e a sua linguagem é parabólica e repleta de contrastes e paradoxos.
Para Gregório, a oração é o fulcro da relação entre Deus e a humanidade; é uma cura poderosa para corpo e alma. Ele dirige-se a Deus como a um verdadeiro curador: «Sara-me como um médico». Com efeito, o Narek é essencialmente um livro de oração.
A liturgia da Igreja arménia está cheia de preces tiradas do Narek. Muitas vezes os fiéis põem o Narek debaixo do travesseiro dos doentes, julgando que tem o poder de curar. O Narek é uma tentativa audaz de se colocar diante de Deus em nome de toda a humanidade, para conversar com Ele, protestar contra a injustiça e o sofrimento, deplorar a crueldade dos seres humanos e enfrentar a realidade do pecado. É também a vigorosa busca de uma nova visão da humanidade e de uma autêntica existência humana, transformada pela graça divina. O autor recorda a todos os teólogos que a teologia não é um discurso teológico a respeito de Deus mas, fundamentalmente, um esforço de fé, amparado pela razão, para falar com Deus, e que fazer teologia implica engajar-se numa relação viva com Deus e a sua criação. Não é ocasional que o Narek tenha sido companheiro de muitos arménios e que o povo arménio o tenha considerado uma “segunda Bíblia”.
Segundo a tradição, Gregório faleceu em 1003 e foi sepultado no mosteiro de Narek. Em 1021, quando os arménios daquela região foram obrigados a abandonar a terra natal juntamente com o seu rei Senequerim, levaram consigo algumas relíquias do santo e colocaram-nas no mosteiro de Arak. Hoje os dois mosteiros já não existem, mas São Gregório de Narek continua a viver no coração de cada arménio, com o seu “monumento eterno”. Este santo monge, mediante o seu diálogo com Deus, o seu pedido de sentido e de salvação, e a sua luta pela libertação e a transformação permanece nosso eterno contemporâneo.
Aram
Catholicos da Igreja arménia apostólica da Cilícia

L'Osservatore Romano. Edição semanal em Português (12 de abril de 2018) 12

03/03/2018

«Avançar no Espírito: chamados a um discipulado de transformação»: A Conferência Missionária Mundial ecuménica em Arusha (Tanzânia)

De 8 a 13 de março deste ano reunir-se-á em Arusha, na Tanzânia, a Conferência Missionária Mundial, organizada e preparada pela Comissão para a Missão e a Evangelização (CME) do Conselho Ecuménico das Igrejas (CEC). Cerca de 900 participantes vão celebrar os dons de Deus, partilhar histórias pessoais, estudar a Bíblia e procurar a orientação do Espírito, reunidos em volta do toma: «Avançar no Espírito: chamados a um discipulado em transformação».
Esta Conferência será a 12ª de uma longa série, iniciada aproximadamente 20 anos depois da famosa conferência de Edimburgo de 1910, considerada o ponto de partida do movimento ecuménico contemporâneo. É certo que Edimburgo não era uma conferência de natureza "ecuménica" como a entendemos hoje: ela estava em grande parte dominada por pessoas das missões "tradicionais" e evangélicas, provenientes do hemisfério setentrional do globo. Foi peculiar, devido à participação dos anglicanos da "Igreja alta" e à qualidade das intervenções sobre a missão, mas também à reflexão sobre as condições para uma maior unidade entre as igrejas. Indiretamente, Edimburgo deu vida ao Conselho Missionário Internacional (CMI), que organizou a primeira Conferência Missionária Mundial, em Jerusalém, em 1928. A partir de então, tais conferências reuniram-se a cada 8-10 anos. Na sequência da fusão do CMI com o CEC em 1961, estas conferências desenvolveram-se sob a égide do CEC e compreendem não só os representantes dos Conselhos Missionários Nacionais, mas também representantes das igrejas que integram o CEC, também os ortodoxos. A representatividade das Conferências Missionárias Mundiais foi ulteriormente ampliada após o Concílio Vaticano II, quando a adesão à CME foi aberta também aos delegados católicos e, mais recentemente, aos pentecostais e aos evangélicos.

As Conferências Missionárias Mundiais

Qual é o significado de um tal encontro? Ele oferece uma oportunidade aos delegados de todo o mundo e a multas igrejas para repensarem o seu compromisso e as suas prioridades missionárias, assim como o papel das igrejas em ordem aos desafios que, no seu conjunto, podem ser concretizados no estudo e na oração. Os documentos dessas Conferências Missionárias mostram que a ênfase temática recaiu sobre a prática da missão num determinado momento da história. Alguns destes documentos tornaram-se marcos miliários no desenvolvimento do testemunho cristão: a Conferência de Willingen (1952) introduziu o conceito de missio Dei; a da Cidade do México (1963) foi caraterizada pela "missão em seis continentes"; a de Banguecoque (1973) alargou a perspetiva da salvação e desafiou as estruturas missionárias tradicionais, pedindo uma moratória. Em 1980, em Melbourne, a atenção concentrou-se no papel dos pobres na missão libertadora de Deus. A Conferência de Santo António (1989) elaborou uma fórmula de consenso sobre o testemunho cristão perante pessoas de outras religiões. Organizado em Salvador, no Brasil, o encontro de 1996 tomou como tema a relação entre evangelho e culturas. A última conferência da CME ocorreu em Atenas, na Grécia, em 2005, com uma oração como tema: «Vem, Espírito Santo, cura e reconcilia»; deste modo a pneumatologia, algo descurada na missiologia ecuménica, foi levada para o centro da teoria e da prática do testemunho cristão.
A ênfase pneumatológica está agora plenamente presente na nova declaração sobre a missão do CEC, promulgada em 2012, depois de muitos anos de reflexão e de consultas comuns, nomeadamente uma Conferência importante dedicada àquela declaração, em Manila, em 2011. No documento Juntos pela vida, a missão é considerada como inspirada e guiada pelo Espírito Santo. Nele são desenvolvidos quatro aspetos principais: O Espírito como "sopro de vida" ativo na criação e na história humana; o Espírito de libertação que confere poder àqueles que vivem nas margens da sociedade; o Espírito de comunhão que permite às igrejas testemunharem e lutarem pela unidade; e, por fim, o Espírito de Pentecostes que fornece as razões e a capacidade de partilhar a boa notícia com todos. O documento entende todas estas dimensões como referidas ao banquete da vida oferecido por Deus em Cristo, uma vida plena que se realizará no reino que virá, mas que já é real e é celebrada quando vivemos uma espiritualidade transformadora na missão.
O documento Juntos pela vida fornece as bases teológicas principais para a Conferência de Arusha. Podem também referir-se as deliberações da última assembleia do CEC, em Busan, na Coreia, com o seu apelo a uma peregrinação comum pela justiça e a paz: uma espiritualidade transformadora na missão tem de ser vivida como indivíduos, mas também como comunidade e em comunhão e solidariedade com as outras igrejas e os outros povos. Temos, portanto, um claro desenvolvimento temático de Atenas a Arusha.

Um ecumenismo amplo

As dinâmicas de Arusha podem, todavia, ser influenciadas também por um outro desenvolvimento. A partir dos anos 90, o CEC iniciou um processo de reflexão sobre a própria identidade e sobre o próprio papel no interior do movimento ecuménico mais amplo. A deslocação do centro de gravidade do cristianismo do norte para o sul do mundo, mas também o crescimento das igrejas pentecostais e carismáticas exigiram um alargamento dos horizontes. As reflexões sobre a missão e sobre a evangelização têm de ser empreendidas pelo maior número possível de atores, no quadro da grande missão de Deus. Esta cooperação no interior do "movimento ecuménico alargado" tornou-se cada vez mais evidente de 2000 em diante. A Conferência de Atenas foi preparada com uma boa cooperação não só dos católicos, mas também dos pentecostais e dos evangélicos. A celebração do centenário da Conferência de Edimburgo de 1910 teve lugar sob orientação de um Conselho em que participaram os órgãos mais representativos do vasto movimento ecuménico, desde ortodoxos e católicos a evangélicos e pentecostais. A publicação em 2011 de linhas orientadoras comuns sobre o testemunho cristão, com a assinatura do CEC, do Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-religioso e da Aliança Evangélica Mundial, representou um passo importante em tal cooperação. Em Arusha, pelo menos 25% dos participantes deveria representar um espectro mais amplo relativamente ao grupo dos membros do CEC.

Quatro caraterísticas

Os organizadores do encontro de Arusha consideram-no como tendo quatro caraterísticas: será um acontecimento ecuménico, um acontecimento missionário, uma conferência africana e um encontro influenciado pelos jovens. Um olhar histórico retrospetivo mostra como estes encontros influenciaram sempre quer questões relativas à missão, quer o desejo da unidade da Igreja. Acolhido pela Igreja Evangélica Luterana na Tanzânia, o encontro será modelado de modo significativo pelos africanos, que estarão presentes em grande número: a sua vida e as suas dinâmicas espirituais, assim como a sua abordagem dos sinais dos tempos e das questões teológicas deveriam dar a esta Conferência uma ênfase particular. A última Conferência Missionária Mundial do CMI ou CME organizada em solo africano ocorreu em 1958, em Accra, no Gana, e foi durante este encontro no Gana que o CMI tomou a decisão histórica de se fundir com o CEC, para mostrar que missão e Igreja andam juntas.
Os organizadores esperam dos participantes jovens um contributo importante sobre o modo de pensar e de praticar a missão. Seguindo a tradição dos outros acontecimento ecuménicos recentes, paralelamente à Conferência, está prevista a organização de um Instituto Teológico Ecuménico Mundial, em que 100 jovens estudantes, estudiosos e responsáveis das igrejas vão refletir juntos sobre os desafios missionários contemporâneos. As suas deliberações terão impacto sobre toda a Conferência.
«Avançar no Espírito: chamados a um discipulado em transformação»: baseando-se na ênfase pneumatológica colocada pelas recentes reflexões missiológicas na oikumene, a atenção concentra-se no discipulado. A ideia de discipulado tem de ser transformada, para se entender como um apelo a um compromisso ativo na missão de Deus, a um anúncio à maneira de Cristo. Como discípulos temos necessidade de ser constantemente transformados pela força do Espírito, embarcados numa difícil viagem espiritual guiada pelos valores do reino de Deus, em solidariedade com as pessoas que vivem nas margens da sociedade. O convite é para um discipulado com um alto preço que vise transformar este mundo, tão radicalmente marcado pela injustiça, o ódio, o racismo e a exclusão de todo o género. Num texto em anexo ao convite aos participantes, os organizadores formulam este desafio como se segue:
«O que significará para nós, como indivíduos e como igrejas, ser transformados pelo poder do Espírito Santo? O que significará unirmo-nos ao Espírito na sua ação de transformação e de cura de um mundo dilacerado? Estas são as questão que a nossa Conferência afrontará».

Jacques Matthey
Pastor da Igreja Reformada de Genebra e
ex-diretor da Comissão para a Missão e a Evangelização do CEC

03/02/2018

Um diaconado renovado completa a Igreja

Nos últimos séculos, o diaconado gozou apenas de um papel simbólico ou de transição na Igreja. O clero paroquial é ordenado ao presbiterado só depois de servir brevemente no diaconado. É como se os diáconos esperassem «seguir em frente!» ou «moverem-se para cima!». O diaconado foi reduzido a pouco mais do que uma preparação ou premissa para o presbiterado ou para o episcopado. Os dois últimos degraus são muitas vezes considerados mais significativos no ministério ordenado, enquanto o diaconado se assemelha a um tipo de sub-presbiterado, raramente percebido como uma função permanente.
Mas não foi sempre esse o caso. Juntamente com o bispo e os presbíteros, os diáconos foram considerados por Inácio de Antioquia, no final do século I, parte essencial da estrutura da igreja, que realiza sua unidade  de forma mais completa e abrangente  quando a comunidade está «com o bispo e os presbíteros e os diáconos que estão com o bispo... Sem eles», acrescenta Santo Inácio, «[a comunidade] não pode ser chamada de igreja» (Carta aos Tralianos).
São João Crisóstomo lembra-nos o modo como a Igreja primitiva enetndeu os diáconos quando observa: «até os bispos são chamados de diáconos» (Homilia sobre a Carta aos Filipenses, 1). Na verdade, no tempo dos apóstolos, não há indicações de que o diaconado fosse uma condição ou requisito para a elevação ao presbiterado. É por isso que estou convencido de que não pode haver uma compreensão clara do presbiterado  ou mesmo do episcopado  se não apreendermos e apreciarmos primeiro o diaconado em si mesmo. Assim, no início do século VII, Isidoro de Sevilha afirmou corajosamente que, sem o ministério dos diáconos, o presbítero tem o nome, mas não o oficio; o presbítero consagra, reza e santifica; mas o diácono dispensa, recita e partilha (De Ecclesciasticis Officiis).
Uma visão mais completa do ministério ordenado tem de reconhecer o papel do bispo como o vínculo da unidade e o porta-voz para a doutrina. Da mesma forma, tem respeitar o papel do presbítero na celebração da presença de Cristo na comunidade local. No entanto, também tem de perceber o papel do diácono como servidor que completa e complementa esse círculo de unidade e comunidade na Igreja local. O serviço dos diáconos vai além da liturgia e chega à comunidade como um dom na administração, na educação, na orientação pastoral e espiritual e no trabalho juvenil. E, na minha opinião, esses papeis podem ser facilmente realizados tanto por homens como por mulheres.
A nossa teologia do ministério ordenado  atualmente vista como uma pirâmide com o episcopado no topo  tem de ser invertida, começando não de cima para baixo, mas brotando da noção elementar e essencial da diaconia; refletindo aquele que «não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida» (Mc 10, 45); serviço e sacrifício sem os quais nenhuma das ordens sacerdotais faz qualquer sentido. Qualquer revolução na nossa apreciação e realização do ministérios ordenado, em toda a sua amplitude e diversidade, em última análise, virá de baixo para cima, a partir das bases. É aí que os nossos fiéis sabem o que importa e o que funciona na igreja. É também aí que os nossos fiéis percebem as dimensões e as implicações mais amplas do ministério pastoral. É por isso que é crucial que ocorra uma revitalização do diaconado, tanto para uma reorientação do nosso ministério ordenado como para uma revitalização do nosso ministério pastoral.
Agora, ao mesmo tempo que mantém um sentido de simetria dentro do ministério ordenado, o diaconado também mantém um equilíbrio de poder na Igreja. Creio que está aqui o coração do problema: a resistência feroz da Igreja a qualquer desafio à sua atual autoridade institucional. Temos de aprender a procurar uma atitude de humildade e não de poder, a praticar formas eclesiais impregnadas pela simplicidade e não pela cerimónia, a manter uma visão de transformação da Igreja de uma organização hierárquica numa comunidade de serviço, sem nostalgia do passado, mas com abertura em relação ao Reino.
Sem diáconos, uma paróquia torna-se progressivamente insular em vez de católica, mais paroquial do que global. Os diáconos asseguram a dimensão universal da igreja. Os diáconos são, de muitas maneiras, o elo que falta na preservação da plenitude da doutrina da Igreja ou, no mínimo, na prevenção de um certo «monofisismo» na igreja institucional. Bem sabemos que a Igreja prega um Deus  entendido como Trindade e uma Igreja concebida como comunidade.
Se entendermos adequadamente o diaconado, também entenderemos melhor as outras ordens do ministério ordenado. Compreendemos porque é que e as mulheres podem naturalmente  com isto quero dizer, segundo a tradição e não como exceção — participar do diaconado sem que tal provoque receio da sua ordenação para o presbiterado ou da discussão teológica anterior sobre o ministério ordenado masculino. O diálogo sincero sobre o ministério ordenado só pode enriquecer o nosso apreço tanto por ele como pelo sacerdócio real. E «se essa ideia ou obra é de origem humana, falhará; mas se for de Deus, ninguém poderá derrubá-la" (At 5, 38-39).
Desta forma, o diaconado será expandido e potenciado de modo a refletir uma expressão ministerial moderna, se bem que enraizada na experiência apostólica histórica. Afinal, para além da administração e da autoridade na Igreja, há o serviço e... o servir. Para além da observância da liturgia e dos sacramentos, está a atenção às pessoas, qual altar vivo do Corpo de Cristo. Talvez os diáconos despertem gradualmente outros ministérios novos, não restritos às funções e expectativas tradicionais. Um renascimento criativo do diaconado para homens e mulheres no nosso tempo pode converter-se em fonte de ressurreição para o ministério ordenado como um todo, desempenhando assim um papel crucial na mais ampla missão da Igreja. A este respeito, a restauração do diaconado pode bem revelar-se tão oportuna quanto vital.

John Chryssavgis
Diácono da Diocese Ortodoxa Grega da América
Public Orthodoxy (1 dez 2017)

01/02/2018

Roteiro Ecuménico de Oração 2018


No seguimento de edições anteriores, a Comissão Ecuménica do Porto apresentou no contexto da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, o Roteiro Ecuménico de Oração para o ano 2018 para a cidade do Porto.
Em janeiro de 2018, numa declaração conjunta assinada pelo presidente do Conselho das Conferências Episcopais da Europa, Cardeal Angelo Bagnasco, e pelo presidente da Conferência das Igrejas Europeias, o Bispo Anglicano Christopher Hill, exortaram as comunidades dos vários países europeus a “perseverarem no caminho ecuménico” e a fazerem da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, uma ocasião para “gerar esperança nova”.
O novo roteiro é em si uma proposta para que as diversas Igrejas e cristãos do grande Porto partilhem entre si e ao longo de todo o ano os dons espirituais e materiais dados por Cristo. Neste sentido e através de celebrações e encontros em conjunto, haverá uma partilha da riqueza espiritual de cada tradição eclesial na vivência especifica de cada proposta. 
O Roteiro Ecuménico 2018 proporciona aos cristãos das diferentes confissões, interessados na busca da unidade entre os cristãos, um caminho de conhecimento da diversidade eclesial e relação fraterna.
Na Carta Ecuménica para a Europa de 2001, foi assumido o compromisso de celebrar juntos a mesma Fé na vivência das diferentes tradições eclesiais, rezar uns pelos outros e pela unidade dos cristãos, em aprender a conhecer e a apreciar as celebrações e as outras formas de vida espiritual das outras Igrejas.
Neste sentido, a Comissão Ecuménica do Porto a todos lança o desafio de participarem com alegria neste roteiro.

11/01/2018

Subsídios para a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos 2018


A tua direita, Senhor,
resplandeceu de poder
(Ex 15,6)

Subsídios preparados e publicados em conjunto pelo Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos e a Comissão Fé e Constituição do Conselho Mundial de Igrejas.

As Igrejas do Caribe foram escolhidas para preparar o material para a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos de 2018. O Caribe atual está profundamente marcado pelo projeto pouco respeitoso da exploração colonial. Muito lamentavelmente, durante quinhentos anos de colonialismo e escravidão, a atividade missionária cristã na região, com exceção de uns poucos destacados exemplos, esteve muito ligada a esse sistema de cunho desumano e justificava-o e reforçava-o de muitas maneiras. Enquanto aqueles que levaram a Bíblia para essa região usavam as Escrituras para justificar a subjugação do povo dominado, nas mãos dos escravizados ela tornou-se uma inspiração, uma garantia de que Deus estava do lado deles e de que Deus os conduziria à liberdade.
Hoje os cristãos caribenhos de diferentes tradições veem a mão de Deus a agir para pôr fim à escravidão. É uma experiência de união em torno da ação salvadora de Deus que leva à liberdade. Por essa razão, foi considerada muito adequada a escolha do canto de Moisés e Miriam (Ex 15, 1-21) como motivação para a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos de 2018.

Subsídios (versão em português do Brasil):
                 Em texto corrido
                 Em ficheiro pdf
               

Ecumenismo: Um caminho sempre retomado

O início de um novo ano é sempre um tempo de esperança. É o tempo dos projectos, dos propósitos mais ou menos voluntariosos, das decisões que queremos honrar.
É neste início de ano que, há mais de um século, os cristãos das diversas tradições eclesiais – católicos, protestantes, ortodoxos, anglicanos… – são convidados a uma semana mais intensa de oração pela unidade. Como se, também aqui, fôssemos convidados a reacender a esperança, a procurar na oração comum, na escuta e partilha da palavra, nos gestos fraternos, a força para prosseguir a nossa missão comum de testemunharmos a novidade de Jesus, vivo e ressuscitado, como irmãos e irmãs, e de semearmos no nosso dia-a-dia a reconciliação e a confiança.
Este ano, a proposta internacional chega-nos dos cristãos das Caraíbas. Com eles, vem a memória dorida de um passado associado ao colonialismo, à escravatura, ao tratamento desumano do outro.
A novidade cristã foi aqui simultaneamente instrumento de opressão, trazida pelos colonizadores, e instrumento de libertação, quando encarnada na vida dos povos indígenas.
O canto de Moisés, erguido após a passagem do mar Vermelho, é relembrado como expressão dessa liberdade que Deus quer trazer à vida dos homens e mulheres em todos e cada um dos tempos.
A interpelação que aqui nos é lançada obriga-nos a não fazer do ecumenismo apenas algo de espiritual, íntimo, desencarnado da vida. A novidade cristã rompe a aparente vitória do mal e da morte, destrói tudo o que esmaga ou aprisiona cada ser humano. Ser de Cristo faz de cada um dos seus discípulos profetas, construtores de um mundo mais solidário e fraterno, denunciando e lutando contra todas as situações que diminuem ou esmagam a dignidade humana. E isto pode e deve fazer-se também em clave ecuménica.
Este pode ser também um desafio para este ano de 2018, em que comemoraremos vinte anos sobre o início do trabalho ecuménico com os jovens em Portugal e a celebração do primeiro Fórum Ecuménico Jovem. Desde Leiria, em 1999, até hoje, os Fóruns Ecuménicos, esses encontros nacionais de jovens oriundos de diferentes Igrejas, foram um desafio a descobrir a beleza e a urgência do caminho ecuménico. Percorrida a grande maioria das dioceses portuguesas, os fóruns foram-se prolongando em iniciativas mais locais, de oração, de reflexão, de compromisso social, de encontro. Se este é um tempo de dar graças a Deus pelo caminho percorrido, é também um tempo para recomeçar sempre de novo. Porque é preciso dizer, uma vez mais, que é muito mais o que nos une que o que nos separa. Que Cristo já nos reconciliou e chama-nos a ser instrumentos da sua reconciliação. Que é Ele quem quer que sejamos um, para que o mundo creia.

João Luís Fontes
Grupo Ecuménico Jovem
Além-mar n. 676 (Janeiro de 2018) 13

20/11/2017

Comunicado conjunto na conclusão da comemoração comum da Reforma

Hoje, 31 de outubro de 2017, último dia da Comemoração comum da Reforma, damos graças pelos dons espirituais e teológicos recebidos através da Reforma; tratou-se de uma comemoração partilhada não só entre nós mas também com os nossos parceiros ecuménicos a nível mundial. Ao mesmo tempo, pedimos perdão pelas nossas culpas e pelo modo com que os cristãos feriram o Corpo do Senhor e se ofenderam reciprocamente nos quinhentos anos desde o início da Reforma até hoje.
Nós, luteranos e católicos, estamos profundamente agradecidos pelo caminho ecuménico que empreendemos juntos nos últimos cinquenta anos. Esta peregrinação, apoiada pela nossa oração comum, pelo culto divino e pelo diálogo ecuménico, levou à superação de preconceitos, à intensificação da compreensão recíproca e à obtenção de acordos teológicos decisivos. À luz de tão grandes bênçãos ao longo do nosso percurso, elevemos os nossos corações no louvor a Deus uno e trino pela graça recebida.
Hoje queremos recordar um ano marcado por eventos ecuménicos de importância incisiva,iniciado a 31 de outubro de 2016 com a oração conjunta luterano-católica celebrada em Lund, na Suécia, na presença dos nossos parceiros ecuménicos. O Papa Francisco e o Bispo Munib A. Younan, então Presidente da Federação Luterana Mundial, durante aquela função litúrgica por eles presidida, assinaram uma declaração comum, comprometendo-se a prosseguir juntos o caminho ecuménico rumo à unidade pela qual Cristo rezou (cf. João 17, 21). No mesmo dia, também o nosso serviço comum a favor de quantos necessitam da nossa ajuda e solidariedade foi fortalecido graças a uma carta de intenções assinada pela Caritas Internationalis e pela Lutheran World Federation World Service.
O Papa Francisco e o Presidente Yuonan declararam juntos: «Muitos membros das nossas comunidades aspiram receber a Eucaristia numa mesa única, como expressão concreta da plena unidade. Fazemos experiência da dor de quantos partilham toda a sua vida, mas não podem partilhar a presença redentora de Deus na mesa eucarística. Reconhecemos a nossa comum responsabilidade pastoral de responder à sede e à fome espirituais do nosso povo de ser um em Cristo. Desejamos ardentemente que esta ferida no Corpo de Cristo seja curada. Este é o objetivo dos nossos esforços ecuménicos, que queremos fazer progredir, inclusive renovando o nosso compromisso pelo diálogo teológico».
Entre as bênçãos recebidas durante o ano da Comemoração, há o facto que, pela primeira vez, luteranos e católicos viram a Reforma de uma perspetiva ecuménica. Isto tornou possível uma nova compreensão dos eventos do século XVI que provocaram a nossa separação. Reconhecemos que, se é verdade que não se pode mudar o passado, é verdade também que o seu impacto hodierno sobre nós pode ser transformado de modo que se torne um impulso para o crescimento da comunhão e um sinal de esperança para o mundo: a esperança de superar a divisão e a fragmentação. Mais uma vez, sobressaiu claramente que aquilo que nos une é muito superior ao que nos separa.
Sentimo-nos felizes por a Declaração conjunta sobre a doutrina da justificação, assinada solenemente pela Federação Luterana Mundial e pela Igreja romano-católica em 1999, ter sido assinada também pelo Conselho Metodista Mundial em 2006 e, durante esse ano de Comemoração da Reforma, pela Comunhão Mundial das Igrejas Reformadas. Hoje mesmo, a Declaração foi aceite e recebida pela Comunhão Anglicana durante uma cerimónia solene na Abadia de Westminster. Sobre esta base as nossas comunidades cristãs podem construir um vínculo cada vez mais estreito de consenso espiritual e de testemunho comum ao serviço do Evangelho.
Olhamos com satisfação para as numerosas iniciativas de oração comum e de culto divino que luteranos e católicos partilharam juntamente com os seus parceiros ecuménicos em várias partes do mundo, assim como para os encontros teológicos e as importantes publicações que deram substância a este ano de Comemoração.
Com o olhar dirigido para o futuro, comprometemo-nos a prosseguir o nosso caminho comum, guiados pelo Espírito de Deus, rumo à crescente unidade desejada pelo nosso Senhor Jesus Cristo. Com a ajuda de Deus e num espírito de oração, pretendemos discernir a nossa interpretação de Igreja, Eucaristia e Ministério, esforçando-nos para chegar a um consenso substancial a fim de superar as diferenças que até agora são fonte de divisão entre nós. Com profunda alegria e gratidão, confiemos no facto de «que aquele que iniciou em vós esta obra excelente lhe dará o cumprimento até o dia de Jesus Cristo» (Filipenses 1, 6).

31 de outubro de 2017.

Federação Luterana Mundial
Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos

21/09/2017

Uma primeira leitura da Mensagem conjunta para o Dia Mundial de Oração pela Criação

Neste dia 21 de setembro de 2017, em que os cristãos do Grande Porto, se encontram na Paróquia do Salvador do Mundo, da Igreja Lusitana – Comunhão Anglicana, pelas 21.30 h., para um Tempo de Oração pela Criação, integrado no Roteiro Ecuménico, disponibilizamos em tradução portuguesa uma leitura da Mensagem conjunta do papa Francisco e do patriarca Bartolomeu para o Dia Mundial da Criação, ocorrido no passado dia 1 de setembro, que também faz o ponto da situação das iniciativas ecuménicas relacionadas com o cuidado e salvaguarda da criação.

A 31 de agosto foi publicada a Mensagem conjunta para o Dia Mundial de Oração pela Criação, assinada pelo para Francisco e pelo patriarca ecuménico Bartolomeu: esta mensagem pode ser considerada uma «pedra vida» para o caminho ecuménico pelo seu conteúdo e pelo seu significado, como tantos sublinharam com comentários favoráveis à Mensagem e poucos ignoraram com leituras políticas e com algum silêncio sobre este ato ecuménico.
A Mensagem parte da ideia de que qualquer reflexão sobre a criação deve estar radicada numa leitura comum das Sagradas Escrituras, que representam uma fonte extraordinária para compreender cada vez melhor, dia após dia, quão precioso e único é o dom da terra; os cristãos estão chamados a ser responsáveis até ao fim, visto que «todas as coisas no céu e na terra serão recapituladas em Cristo», tanto mais que «a dignidade e a prosperidade humanas estão profundamente conexas com o cuidado no que respeita a toda a criação». Encontra-se, portanto, na Palavra de Deus o fundamento do desejo partilhado por Roma e Constantinopla de condenar as agressões a que a criação continua a ser submetida; sobre estas agressões, de que a humanidade é responsável, detêm-se o papa Francisco e o patriarca Bartolomeu depois deste apelo para as Sagradas Escrituras, que pode ser acolhido por todos os cristãos.
Diante deste dom pelo qual estamos chamados a viver «a vocação a ser colaboradores de Deus», é impossível não observar o que o tempo presente mostra sobre o modo como esta vocação é ofuscada: as escolhas dos homens e mulheres do século XXI parecem não ter em conta a natureza, que deve ser sustentada e não explorada indiscriminadamente, manipulando e destruindo os recursos limitados do mundo: «Já não respeitamos a natureza como dom partilhado; consideramo-la antes como posse privada. Já não nos relacionamos com a natureza para a sustentar; pomos e dispomos mais dela para alimentar as nossas estruturas».
Oferecida esta leitura da relação distorcida com a criação, distante do desígnio de Deus, o papa Francisco e o patriarca Bartolomeu convidam a refletir sobre as consequências «trágicas e duradoiras», que provocam mudanças climáticas, atingindo sobretudo «as pessoas mais vulneráveis... quantos vivem pobremente em cada ponto do globo»: assim, «usar responsavelmente os bens da terra» significa ter em consideração a criação de todas as formas; os cristãos são, por isso, agora chamados a cuidar da criação, encontrando novos caminhos para favorecer «um desenvolvimento sustentável e integral», que não é um slogan político, mas é uma resposta afirmativa a quanto o Senhor pede.
Ao partilharem «a mesma preocupação pela criação de Deus, reconhecendo que a terra é um bem em comum», o papa e o patriarca ecuménico dirigem-se «a todas as pessoas de boa vontade» para que vivam o dia 1 de setembro como «um tempo de oração pelo ambiente», dando graças ao Senhor pelo dom da criação e refletindo, uma vez mais, no facto de que só com a oração se podem modificar as situações, ou seja «mudar o modo como percebemos o mundo com o objetivo de mudarmos o modo como nos relacionamos com o mundo». Na oração pela criação pode encontrar-se a força para desenvolver uma solidariedade cada vez mais forte, que tem um sabor ecuménico, a partir do momento em que chama os cristãos a partilharem denúncias, projetos e esperanças.
A Mensagem conclui-se com um apelo dirigido «a quantos ocupam uma posição de relevo no âmbito social, económico, político e cultural»; trata-se de um apelo «urgente» pelo qual que se pede que se formulem políticas que possam responder às necessidades de quem vive nas margens da sociedade e que se escutem as propostas de «tantos» que pedem mudanças para sarar «a criação ferida». As últimas palavras do papa e do patriarca indicam um percurso a realizar, a partir do momento em que não pode «haver uma solução genuína e duradoira para o desafio da crise ecológica e das alterações climáticas sem uma resposta concertada e coletiva, sem uma responsabilidade partilhada e em condições de prestar contas de quanto realiza, sem dar prioridade à solidariedade e ao serviço».
Esta Mensagem assumiu um relevo muito particular não só pelo seu conteúdo, mas também pelas múltiplas implicações no caminho ecuménico. Antes de mais, a Mensagem reafirmou a profunda comunhão entre Roma e Constantinopla sobre um tema tão relevante como é a salvaguarda da criação para a presença da Igreja na sociedade contemporânea: isto aconteceu graças ao patriarca Bartolomeu, que soube, com uma série de iniciativas internacionais e com a publicação de textos, não só por ocasião do Dia da Criação, enriquecer a tradição oriental que, desde há séculos, se interroga sobre a relação entre o homem e a criação; o patriarca Bartolomeu conseguiu também com a sua constante chamada de atenção para o património comum do oriente cristão, na sua ação pela salvaguarda da criação, vencer resistências e perplexidades no mundo ortodoxo, onde cada Igreja, mais ou menos lentamente, começou a pensar a relação entre Igreja, religiões, sociedade e criação, criando ocasiões de comunhão real entre ortodoxos. O papa Francisco também contribuiu para tornar tornar o tema da salvaguarda da criação um dos eixos privilegiados da relação entre Roma e Constantinopla: o papa Francisco colocou-se numa tradição  antiga, minoritária, ligada frequentemente a lugares e figuras locais, matizada nas formas  presente na Igreja católica, relançando a ideia de que os católicos têm de estar na primeira linha da denúncia das agressões contra a criação, que determinam novas pobrezas, agravando as já existentes, e na formulação de propostas concretas para uma sociedade mais equitativa na distribuição dos bens e mais respeitosa pelo mundo na definição dos programas económicos. O papa Francisco publicou a encíclica Lodato Si', na qual, desde os primeiros «rumores» que acompanharam a sua redação, surgiu como central a dimensão ecuménica, reafirmada com a instituição, a poucas semanas da publicação da encíclica, de um Dia Mundial da Criação para o dia 1 de setembro, de modo a coincidir com o calendário da Igreja ortodoxa. O constante apelo à Lodato Si', tão presente nas intervenções do papa Francisco, como aconteceu ainda na última viagem à Colômbia, manteve bem viva esta atenção em ordem a um repensamento da relação com a criação, como sinal tangível de uma etapa da Igreja e do mundo.
A Mensagem também tem um significado particular para o diálogo ecuménico à luz de tantas iniciativas em que os cristãos se juntam pela salvaguarda da criação, em tantas partes do mundo, com iniciativas que vão mesmo para além dos confins da ecumene cristã, assumindo uma dimensão interreligiosa. Entre estas iniciativas  muitas das quais com um caminho de várias décadas, agora conhecido e partilhado  recorde-se o empenho do Conselho Ecuménico das Igrejas que vive a tensão ecuménica pela salvaguarda da criação, não só no Tempo da Criação (1 de setembro - 4 de outubro), mas também em diversos momentos do ano, como nas sete semanas da Quaresma, onde é central a reflexão sobre a água. Deste horizonte ecuménico, tão vivo e articulado, faz parte também a Giornata per la custodia del creato, instituída há doze anos pela Conferência Episcopal Italiana, para favorecer uma reflexão, guiada por uma mensagem anual, com um tema e uma passagem bíblica de referência, de modo a envolver toda a sociedade, a partir dos cristãos que ainda não se encontram em comunhão plena e visível com a Igreja católica. Esta Giornata, que inclui sempre uma celebração nacional num lugar sempre diferente  este ano realizou-se em Gubbio para refletir e para rezar sobre «O Senhor está realmente neste lugar e eu não sabia» (Gen 28, 16). Viajantes na terra de Deus  assumiu formas muito diversas nas várias dioceses: estas celebrações têm em comum o desejo de ultrapassar as fronteiras da Igreja católica, que, após as decisões tomadas na III Assembleia Ecuménica Europeia (Sibiu, 4-9 de setembro de 2007), decidiu permitir que esta Giornata se celebrasse no Tempo da Criação, que vai de 1 de setembro a 4 de outubro, o dia em que a Igreja católica faz memória de Francisco de Assis.
Da Mensagem do papa Francisco e do patriarca Bartolomeu emerge, com renovada força para os cristãos do século XXI, a importância de recordar a todos, a começar pelos fiéis de Roma e de Constantinopla, que é fundamental para a missão do anúncio do evangelho e do seu testemunho no mundo fazem juntos, sempre, o que se pode e deve fazer, como rezar pela salvaguarda da criação, pedindo em alta voz que se ponha fim às agressões contra a natureza para construir uma sociedade mais justa, na qual o desenvolvimento económico esteja em harmonia com o desígnio de Deus para o mundo, de modo a derrotar a marginalização e a pobreza.

Riccardo Burigana

Mensagem conjunta do papa Francisco e do patriarca ecuménico Bartolomeu no Dia Mundial de Oração pela Criação

Neste dia 21 de setembro de 2017, em que os cristãos do Grande Porto, se encontram na Paróquia do Salvador do Mundo, da Igreja Lusitana – Comunhão Anglicana, pelas 21.30 h., para um Tempo de Oração pela Criação, integrado no Roteiro Ecuménico, disponibilizamos para reflexão a Mensagem conjunta do papa Francisco e do patriarca Bartolomeu para o Dia Mundial da Criação, ocorrido no passado dia 1 de setembro.

A narração da criação oferece-nos uma visão panorâmica do mundo. A Sagrada Escritura revela que, «no princípio», Deus designou a humanidade como cooperadora na guarda e proteção do ambiente natural. Ao início, como lemos no Génesis (2, 5), «ainda não havia arbusto algum pelos campos, nem sequer uma planta germinara ainda, porque o Senhor Deus ainda não tinha feito chover sobre a terra, e não havia homem para a cultivar». A terra foi-nos confiada como dom sublime e como herança, cuja responsabilidade todos compartilhamos até que, «no fim», todas as coisas no céu e na terra sejam restauradas em Cristo (cf. Ef 1, 10). A dignidade e a prosperidade humanas estão profundamente interligadas com a solicitude por toda a criação.
«No período intermédio», porém, a história do mundo apresenta uma situação muito diferente. Revela-nos um cenário moralmente decadente, onde as nossas atitudes e comportamentos para com a criação ofuscam a vocação de ser cooperadores de Deus. A nossa tendência a romper os delicados e equilibrados ecossistemas do mundo, o desejo insaciável de manipular e controlar os limitados recursos do planeta, a avidez de retirar do mercado lucros ilimitados: tudo isto nos alienou do desígnio original da criação. Deixamos de respeitar a natureza como um dom compartilhado, considerando-a, ao invés, como posse privada. O nosso relacionamento com a natureza já não é para a sustentar, mas para a subjugar a fim de alimentar as nossas estruturas.
As consequências desta visão alternativa do mundo são trágicas e duradouras. O ambiente humano e o ambiente natural estão a deteriorar-se conjuntamente, e esta deterioração do planeta pesa sobre as pessoas mais vulneráveis. O impacto das mudanças climáticas repercute-se, antes de mais nada, sobre aqueles que vivem pobremente em cada ângulo do globo. O dever que temos de usar responsavelmente dos bens da terra implica o reconhecimento e o respeito por cada pessoa e por todas as criaturas vivas. O apelo e o desafio urgentes a cuidar da criação constituem um convite a toda a humanidade para trabalhar por um desenvolvimento sustentável e integral.
Por isso, unidos pela mesma preocupação com a criação de Deus e reconhecendo que a terra é um bem dado em comum, convidamos ardorosamente todas as pessoas de boa vontade a dedicar, no dia 1 de setembro, um tempo de oração pelo ambiente. Nesta ocasião, desejamos elevar uma ação de graças ao benévolo Criador pelo magnífico dom da criação e comprometer-nos a cuidar dele e preservá-lo para o bem das gerações futuras. Sabemos que, no fim de contas, é em vão que nos afadigamos, se o Senhor não estiver ao nosso lado (cf. Sal 126/127), se a oração não estiver no centro das nossas reflexões e celebrações. Na verdade, um dos objetivos da nossa oração é mudar o modo como percebemos o mundo, para mudar a forma como nos relacionamos com o mundo. O fim que nos propomos é ser audazes em abraçar, nos nossos estilos de vida, uma maior simplicidade e solidariedade.
A quantos ocupam uma posição de relevo em âmbito social, económico, político e cultural, dirigimos um apelo urgente a prestar responsavelmente ouvidos ao grito da terra e a cuidar das necessidades de quem está marginalizado, mas sobretudo a responder à súplica de tanta gente e apoiar o consenso global para que seja sanada a criação ferida. Estamos convencidos de que não poderá haver uma solução genuína e duradoura para o desafio da crise ecológica e das mudanças climáticas, sem uma resposta concertada e coletiva, sem uma responsabilidade compartilhada e capaz de prestar contas do seu agir, sem dar prioridade à solidariedade e ao serviço.

Do Vaticano e do Fanar, 1 de setembro de 2017.

Papa Francisco e Patriarca Ecuménico Bartolomeu

17/09/2017

Tempo de Oração pela Criação no Grande Porto - 21 de setembro de 2017

Divulgamos a mensagem da Comissão Ecuménica do Porto alusiva ao Tempo de Oração pela Criação, previsto para 21 de setembro, às 21.30 h. na Paróquia do Salvador do Mundo da Igreja Lusitana.

“Toda a Criação louva a Deus pois Ele traz justiça e salvação” (Salmo 98)
Tempo de Oração pela Criação – 21 de setembro

Cristãos de todo o mundo e homens e mulheres de boa vontade estão convocados para viverem ativamente o Tempo da Criação, entre 1 de setembro e 4 de outubro.
É um grande movimento ecuménico mundial de oração e compromisso (http://seasonofcreation.org) que nos é proposto pelos líderes das Igrejas ao qual não podemos ser indiferentes.
A nossa Irmã e Mãe Terra geme com o nosso descuido e as alterações climáticas têm dado provas fortíssimas do gradual desequilíbrio por nós provocado. É tempo de orar e transformar velhos hábitos em sinais de vida nova!
Ao nível do Grande Porto a Comissão Ecuménica do Porto, propõe-nos um Tempo de Oração pela Criação, integrado no Roteiro Ecuménico, a ter lugar na Paróquia do Salvador do Mundo, da Igreja Lusitana – Comunhão Anglicana, na quinta-feira, dia 21 de setembro, pelas 21.30 h.
Todos estão convidados!

Facebook - evento: (clique aqui) e convide amigos.
Morada da Paróquia do Salvador do Mundo: Largo Arco do Prado, nº 15 – Coimbrões, Vila Nova de Gaia. Junto ao Centro de Saúde Barão do Corvo.

Oração
Deus de toda a Criação,
por interesse próprio e ganância
nós saqueámos os recursos do mundo
e comprometemos a atmosfera e o clima do nosso planeta.
O aquecimento global e a subida do nível das águas do mar ameaçam as nações insulares
e os povos mais vulneráveis e os seus habitats.
Dá-nos uma visão nova sobre o nosso planeta
e cria em nós um novo sentido de justiça social e ecológica.
Mediante Jesus Cristo, nosso Senhor. Ámen

15/09/2017

Comunicado da Comissão Ecuménica Diocesana por ocasião do falecimento de D. António Francisco dos Santos


Por ocasião do falecimento de D. António Francisco dos Santos, a Comissão Ecuménica do Porto, que reúne várias Igreja cristãs presentes no Grande Porto, emitiu o comunicado para que remetemos através do seguinte apontador:

31/08/2017

Tempo da Criação - uma iniciativa ecuménica de 1 de setembro a 4 de outubro

O Tempo da Criação acontece todos os anos entre 1 de setembro e 4 de outubro, convidando a 2,2 bilhões de cristãos a cuidar da criação e orar por ela.
O dia 1 de setembro foi proclamado como o Dia de Oração pela Criação (ou seja, o Dia da Criação) pelo Patriarca Ecuménico Demétrio I, em 1989, e foi assumido por outras grandes Igrejas cristãs europeias em 2001 e pelo Papa Francisco na Igreja Católica em 2015.
Nos últimos anos, muitas igrejas cristãs começaram a celebrar o Tempo da Criação entre essa data e 4 de outubro, festa de São Francisco de Assis.
Ele foi criado para flexibilizar a realização de iniciativas de oração pela criação em datas alternativas durante todo o mês, paralelamente a outras ações de cuidado da criação.
Várias declarações apelam à observância do Tempo da Criação, como as dos Bispos Católicos das Filipinas, em 2003, a Terceira Assembleia Ecuménica Europeia, em Sibiu, em 2007, e o Conselho Mundial de Igrejas em 2008.
Nas celebrações deste ano, as comunidades cristãs estão comprometidas com ações simbólicas em áreas de mineração de carvão, fracking e outros locais de destruição ecológica.
No dia 24 de setembro, uma ação simbólica especial ocorrerá em Taizé, França, na Conferência Europeia da Comissão de Justiça e Paz.  intitulada “Comunhão para responder ao grito da terra e ao grito dos pobres”. O Conselho das Conferências Episcopais Europeias (CCEE), a Comissão das Conferências Episcopais da Comunidade Europeia (COMECE) e a Conferência das Igrejas Europeias (CEC) estão convidados.


Mais informações em seasonofcreation.org.

PRIMEIRA SEMANA: ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS E ECO-JUSTIÇA

Preparação: Decorem o altar com plantas e ramos secos em vez de flores. 
Frase de abertura: A terra seca e murcha… a terra encontra-se poluída sob os seus habitantes.
Ato penitencial: Confessemos o nosso pecado de ganância e amor pelos bens materiais que está a destruir a terra de Deus que os nossos filhos herdarão. 
Hinos: escolham hinos sobre justiça e cuidado com o mundo de Deus. 

Oração própria
Deus de toda a Criação, por interesse próprio e ganância nós saqueámos os recursos do mundo e comprometemos a atmosfera e o clima do nosso planeta. O aquecimento global e a subida do nível das águas do mar ameaçam as nações insulares e os povos mais vulneráveis e os seus habitats. Dá-nos uma visão nova sobre o nosso planeta e cria em nós um novo sentido de justiça social e ecológica. Por Jesus Cristo, nosso Senhor. Ámen.

Palavra do Senhor
Primeira Leitura: Gen 6, 9-22 e Gen 9,8-17
A história de Noé: após o grande dilúvio, Deus faz uma aliança com a família de Noé e todos as criaturas vivas.
Salmo: Salmo 98
Toda a criação louva a Deus pois Ele traz justiça e salvação.
Segunda Leitura: Rom 8,18-25 
 Esta passagem reconhece o sofrimento da criação e a nós como parte da teia da criação. Contém igualmente uma visão excitante da redenção futura que nos espera como filhos de Deus. A criação espera que nós lideremos a ação!
Cântico: Um cântico da criação
Evangelho: Mt 8,23–27
As mudanças climáticas levam a cheias e tempestades. Estes acontecimentos climáticos extremos não podem nunca ser apelidados de “atos de Deus”. Devem na realidade ser descritos como “atos de mudança climática induzidos pelo homem”. Na leitura do Evangelho levanta-se uma grande tempestade e os discípulos ficam cheios de medo. Jesus acalma a tempestade, mostrando que Ele tem poder sobre as forças da natureza.

Factos sobre a mudança climática
Os impactos das mudanças climáticas refletem-se nas alterações na água:
- Mais seca: à medida que as temperaturas aumentam, há mais secas que levam à perda de colheitas, ao aumento dos preços dos alimentos e à fome.
- Mais chuvas fortes: à medida que a água dos mares aquece, mais água se evapora e produzem-se  ventos mais fortes, o que leva a maiores tempestades, que destroem casas, estradas e edificações e eliminam a camada superficial dos solos.
- Subida dos níveis das águas das mares: à medida que os mares aquecem, a água expande-se o que, juntamente com o derreter das calotes de gelo, leva à subida dos níveis das águas dos mares. Isto afeta diretamente áreas costeiras e ilhas, destruindo edifícios e tornando o solo salgado. 
 A mudança climática é causada pela queima de combustíveis fósseis como o carvão e o petróleo. Temos de reduzir o nosso uso destes combustíveis e utilizar o mais rapidamente possível energias renováveis, de maneira a evitarmos uma mudança catastrófica do clima.

Bênção
Ide pelo mundo confiantes na esperança pela qual fostes salvos; louvai o Senhor em toda a criação; segui Cristo através de quem todas as coisas foram feitas; pelo poder do Espírito sede faróis de esperança no mundo; e que a bênção do Deus Criador,  o Pai Eterno, o Filho Ressuscitado e o Espírito Santo Prometido, estejam convosco para que possais ser uma bênção para os outros hoje e sempre. Ámen.


11/08/2017

Um ano depois do Santo e Grande Concílio da Igreja Ortodoxa: Que receção?

Uma receção difícil

Em junho do ano passado, na solenidade de Pentecostes, encerrava solenemente em Creta o Santo e Grande Concílio da Igreja Ortodoxa (Kolymbari, 20-26 de junho de 2016). Como notávamos então, «o modo como este concílio será considerado dependerá da receção que terá na consciência e na vida eclesial de toda a ortodoxia».
O metropolita Chrysostomos de Messénia reafirmou que «a receção é um processo contínuo da própria vida da Igreja... é uma questão que dificilmente pode ser superada ou transcurada, visto que constitui a expressão da capacidade do corpo eclesial tornar "suas" as decisões sinodais».
No caso do concílio de Creta, a receção tornou-se mais complexa, como se sabe, pelo facto de quatro das catorze Igrejas que formam a Igreja Ortodoxa (Patriarcado de Antioquia, Patriarcado de Moscovo, Igreja ortodoxa búlgara, Igreja ortodoxa da Geórgia) terem decidido não tomar parte. Nas declarações oficiais dos sínodos dessas Igrejas, a assembleia de Creta, mesmo se considerada «um acontecimento importante», não é reconhecida como «Santo e Grande Concílio» e às suas decisões não é atribuído valor vinculante. O Patriarcado de Moscovo e o da Geórgia confiaram o exame dos documentos conciliares (os seis documentos aprovados, juntamente com a Encíclica e a Mensagem) a comissões teológicas próprias, para avaliar se podem constituir a base de discussão para um próximo concílio.
Numa entrevista recente, o Metropolita Hilarion de Volokolamsk, à frente do departamento para as relações externas do Patriarcado de Moscovo, definiu o concílio de Creta «um concílio de dez Igrejas ortodoxas locais» e «um importante passo para um concílio pan-ortodoxo» e afirmou que «de momento continuamos a estudar as decisões do concílio de Creta, e os nossos teólogos estão a trabalhar. Brevemente deveremos dar o nosso parecer sobre estes documentos, mas consideramos que a nossa tarefa principal, depois do concílio como já tinha sido antes dele, é a de reforçar a unidade pan-ortodoxa e de nos abstermos de todos os passos que possam prejudicar esta unidade».
O concílio de Creta é assim concebido como o primeiro passado de um caminho conciliar que está ainda em curso e que tem de continuar com o concurso de todas as Igrejas ortodoxas.
Aliás, na sua Mensagem aos fiéis ortodoxos e a todas as pessoas de boa vontade, o concílio de Creta tinha «formulado a proposta de fazer do Santo e Grande Concílio uma instituição a convocar a cada 7 ou 10 anos». O Patriarcado da Roménia já se declarou disponível para receber um futuro concílio, «abrindo» também para a posição das Igrejas não presentes em Creta: «Os textos [dos documentos conciliares] podem ser explicados, em parte matizados ou desenvolvidos por um futuro Grande e Santo Concílio da Igreja Ortodoxa. Todavia, a sua interpretação e a redação dos novos textos sobre diversas questões não devem ser realizadas com precipitação e sem acordo pan-ortodoxo, mas devem ser retardados e revistos até que se encontro um pleno acordo». A Igreja da Roménia confirma assim o seu precioso papel mediador, fazendo entrever a possibilidade de uma «terceira solução», alternativa quer à receção dos documentos conciliares como vinculantes, quer à sua total recusa. Até agora a proposta não obteve respostas.
As Igrejas, como Patriarcado ecuménico, que insistem em defender a «autoridade pan-ortodoxa» das decisões tomadas no concílio apelam para o regulamento do próprio concílio, aprovado pelos primazes de todas as Igrejas ortodoxas em janeiro de 2016 (cf. Regulamento, art. 14, par. 2). Algumas Igrejas locais, como a Igreja da Grécia e a Igreja do Chipre, publicaram nos meses passados encíclicas e comunicados para informarem o conjunto do povo ortodoxo sobre os conteúdos do Santo e Grande Concílio realizado em Creta. O Santo Sínodo da Igreja da Grécia afirmou que «os textos do Santo e Grande Concílio da Igreja Ortodoxa constituem objeto de aprofundamento e de ulterior reflexão. Isto vale para todos os concílio da Igreja. O diálogo teológico não está interrompido. Pressuposto certamente necessário é que seja guardada intacta a verdade teológica e que este diálogo seja realizado sem fanatismos nem contraposições, sem conspirações nem divisões que firam a unidade da Igreja. As divisões (cismas) são graves doenças espirituais. Segundo as palavras de São João Crisóstomo, "dividir a Igreja, cultivar a discórdia e gerar dissensões e afastar-se continuamente do caminho comum (sínodo) é imperdoável e digno de condenação" (PG 48, 872). Por isso, exortam-se os fiéis e não darem peso às palavras daqueles que os impelem a afastarem-se da Igreja para constituírem um grupo separado do corpo eclesial, fazendo apelo a motivos fantasiosos de correção dogmática».
Muito importante foi também a aprovação das decisões conciliares por parte do Santo Sínodo do Patriarcado da Sérvia, considerando que no seu interior se tinham manifestado inicialmente oposições ao concílio ao ponto de ter sido colocada em dúvida a sua participação nele.

As oposições ao concílio

O comunicado da Igreja da Grécia alude a alguns grupos «zelotes» contrários desde o início à própria ideia do concílio e agora mais do que nunca intrépidos opositores das suas decisões (particularmente hostilizada a aceitação do termo «Igrejas» para as comunidades cristãs não ortodoxas).
Semelhantes oposições «tradicionalistas» emergiram também no interior das outras Igrejas ortodoxas, como por exemplo na Igreja da Roménia e do Chipre; estes grupos de oposição são transversais relativamente a cada Igreja autocéfala para procurarem apoio recíproco e empreenderem mais eficazmente a sua batalha comum.
Como notou o teólogo ortodoxo Paul Ladouceur «o neotradicionalismo na ortodoxia é caraterizado pela insistência numa estrita adesão à letra da tradição antiga que se reflete na teologia patrística, na liturgia e no direito canónico. Manifesta-se emblematicamente através de um sistemático e estridente anti-ocidentalismo, que evidencia os factores e«históricos, culturais, teológicos e sociopolíticos  que distinguem o cristianismo oriental do ocidental, muitas vezes transcurando ou desvalorizando oportunamente elementos que os unem» (Neo-Tradicionalism in Orthodoxy and the Great and Holy Council).
Estas oposições manifestaram-se no interior das Igreja da Grécia, com o apoio aberto, em alguns casos, dos bispos locais, chegando mesmo à grave decisão de rutura da comunhão eucarística, criando confusão e desconcerto no povo de Deus. O Patriarca Ecuménico, numa carta pessoal ao Arcebispo Hieronymos de Atenas (de 19 de novembro de 2016), exortou-o a tomar medidas adequadas no confronto com estes bispos, clérigos, monges e leigos que criam escândalo e divisão na Igreja, opondo-se às decisões do concílio.
A situação de tensão parece hoje estar recomposta. O próprio Patriarca Ecuménico Bartholomeos, na recente visita a Atenas, a 7 de junho de 2017, agradeceu ao Arcebispo Hieronymos pelo seu «apoio absoluto» durante o grande acontecimento do Santo e Grande Concílio.
Na mesma circunstância, o Patriarca falou da necessidade de que as decisões do concílio sejam dadas a conhecer mais adequadamente, sublinhando que «agora, todos juntos, temos de aplicar as decisões do concílio. Muitas faculdades teológicas e teólogos individualmente já as desenvolvem. Está, por isso, em preparação um grande congresso teológico inter-ortodoxo para Salónica, em abril de 2018, com o objetivo de que as decisões deste concílio sejam difundidas o mais amplamente possível, de modo a chegarem à posse dos fiéis ortodoxos».

O debate teológico

O acontecimento e os temas do concílio animam o debate teológico ortodoxo, como testemunham os numerosos congressos deste ano: o congresso organizado de 26 a 28 de abril de 2017 pela Faculdade teológica e pelo Centro de Estudos de direito canónico da Universidade de Babeș-Bolylai (Cluj-Napoca, Roménia), «O Santo e Grande Concílio: Acontecimento escatológico ou normalidade eclesial?»; o congresso organizado pela diocese grega de Katerini a 11 de maio, «O dia seguinte ao Santo e Grande Concílio: Perspetivas e esperanças»; o seminário desenvolvido em 16 de maio na Academia de Creta, «Aproximação teológica aos textos do Santo e Grande Concílio da Igreja Ortodoca», onde, na sua mensagem, o Patriarca Ecuménico sublinhou que «O Santo e Grande Concílio de Creta... representa, sem dúvida, o acontecimento mais importante da nossa Igreja Ortodoxa nos últimos anos, realizado para o reforço da sua unidade e do funcionamento da instituição conciliar no seu interior».
Como escreveu um teólogo da diáspora ortodoxa norte-americana, Athanasios Giocas, «em definitivo, o concílio de 2016, tanto nos seus sucessos como nos seus percebidos defeitos, reflete as forças e as debilidades do curso histórico da Igreja visível. Agora mais do que nunca é tempo para uma cauta reflexão, com o objetivo de aprender com a experiência do concílio, tanto com os seus aspetos positivos como com os negativos, em ordem a confirmar (ou repensar) o formato do próximo concílio». Um desejo semelhante foi formulado por um teólogo da Igreja de Antioquia, Assaad Elias Kattan, aliás crítico dos resultados do concílio: «O que espera as Igrejas ortodoxas depois do concílio de Creta é bastante mais importante do que o que o precedeu. Os ortodoxos encontram-se, portanto, ainda no início do caminho quando se trata das grandes questões e dos grandes desafios presentes no nosso mundo contemporâneo. Neste sentido o concílio de Creta era indispensável para que pudéssemos aprender. Esperando, claro, que aprendamos...».
O caminho do Santo e Grande Concílio da Igreja Ortodoxa neste ano realizou os seus primeiros passos. O bispo Maxim (diocese ocidental dos Estados Unidos da América do Patriarcado da Sérvia), no seu Diário do Concílio, anota: «Para a opinião repetidamente formulada, segundo a qual este concílio não é nem Santo nem Grande por causa de algumas das suas deficiências, não há outra resposta a dar que esta: será o futuro a dar significado e substância ao passado. O período que se seguirá ao concílio mostrará se este concílio correspondeu e realizou o critério dos concílios ecuménicos» (Diary of the Council. Reflections fron the Holy and Great Council, Los Angeles - Creta 2016, pp. 41-42).
Estamos convencidos da verdade das palavras pronunciadas pelo Patriarca Bartholomeos no encerramento do concílio de Creta: «O significado e o peso deste concílio está, em primeiro lugar, no próprio facto de ter sido realizado, por graça de Deus, depois de tantos séculos durante os quais não tinha sido possível. Só isto bastaria para o tornar num dos grandes acontecimentos da história da Igreja».
De resto, como afirmou o Arcebispo Jovan de Ochrida, «os problemas citados... parecem pequenos diante da grandeza do acontecimento do concílio. E a partir do momento em que se encontrou a força para realizar este concílio, apesar dos muitos obstáculos, agora, depois do concílio, tudo parece mais promissor. O passo do nada ao mínimo é bastante maior do que o do mínimo ao muito».