27/07/2019

Morrer por Kiev? Um trágico duelo eclesial


Irresolúvel. É este, por agora, o nosso “diagnóstico” – depois de termos escutado in loco as partes contrapostas – do puzzle das Igrejas ortodoxas ucranianas, em que a maioritária (IOU), ligada ao Patriarcado de Moscovo, liderado por Kirill, considera “cismática” a recém-nascida e autocéfala Igreja ortodoxa da Ucrânia (IODU), abençoada pelo Patriarcado de Constantinopla, liderado por Bartolomeu, mas já ameaçada pelo autoproclamado “patriarca” de Kiev, Filaret, se bem que tenha sido patrocinador, juntamente com o presidente Petro Poroshenko, da “independência” eclesial ucraniana.

As etapas do cisma

Com uma equipa de Protestantesimo (Raidue), dirigida pelo realizador Paolo Emilio Landi, estivemos em Kiev, de 22 a 25 de junho, para compreendermos melhor os intrincados acontecimentos: já muito se escreveu sobre eles em Confronti e aqui o recapitulámos em flash.
9/4/2018: Poroshenko desloca-se ao Fanar, a residência em Istambul dos patriarcas de Constantinopla, para pedir a concessão da autocefalia da Igreja ucraniana. A 19, a Verkhovna Rada (Parlamento de Kiev) apoia a proposta.
31/8: Kirill, acompanhado pelo metropolita de Volokolamsk, Hilarion, “ministro” dos negócios estrangeiros do Patriarcado russo, chega ao Fanar para reafirmar o “não” seco da Igreja russa à hipotética autocefalia. Bartolomeu permanece vago.
7/9: O Fanar anuncia o envio de dois dos seus bispos a Kiev para preparar a concessão da autocefalia.
14/9: O Santo Sínodo de Moscovo reconhece que a Igreja de Kiev é também a Igreja mãe da Igreja russa, mas recorda que em 1686 Constantinopla confiou a este Sínodo a metrópole de Kiev; o Fanar não pode, pois, interferir nos seus assuntos internos. Se Bartolomeu prosseguir com a “independência” ucraniana, Moscovo suspenderá a sua participação em Assembleias e comissões presididas ou copresididas por representantes do Patriarcado de Constantinopla; e interromperá totalmente a comunhão eucarística com ele. E precisa: no país só é canónica a Igreja ortodoxa ucraniana (IOU), liderada pelo metropolita Onufriy de Kiev, ligada a Moscovo.
15/9: O arcebispo Job de Telmessos (Fanar) reafirma: Constantinopla tem o direito de proclamar a autocefalia da Ucrânia, como nos séculos XIX e XX proclamou a das Igrejas da Roménia, Sérvia, Bulgária.
11/10: Bartolomeu e o seu Sínodo decidem: 1) “avançar” em direção à “independência” ucraniana; 2) restabelecer nos seus lugares hierárquicos Makariy Maletich (da pequena e já existente Igreja autocéfala ucraniana) e Filaret Denisenko (o autoproclamado “patriarca” de Kiev, reduzido ao estado laical em 1992 e em 1997 excomungado pelo Santo Sínodo russo, do qual tinha, contudo, feito parte durante tantos anos); 3) revogar o vínculo jurídico da carta sinodal de 1686.
15/10: O Santo Sínodo de Moscovo: 1) interrompe a comunhão eucarística com Constantinopla (teologicamente, a proclamação do cisma); 2) reivindica a Ucrânia como seu território canónico; 3) recusa a revogação da carta de 1686; 4) exprime desconcerto pela reabilitação do “cismático” senhor Filaret.
15/12: Em Kiev, realiza-se o “Concílio da reunificação” entre a Igreja de Makariy e a Igreja de Filaret. É criada a Igreja ortodoxa da Ucrânia (IODU), autocéfala, e é eleito como seu primaz Epifaniy. Dos 90 bispos da IOU, só dois entram nela. O embaixador dos EUA em Kiev aplaude a nova Igreja. O Kremlin cala-se.
5/1/2019: Bartolomeu, na presença de Proshenko, assina o tomos – decreto sinodal – da autocefalia da IODU. E a 6 entrega-o a Epifaniy. Para Moscovo o cisma está consumado.

A palavra à Igreja ucraniana pró-russa
Numa pequena capela na periferia de Kiev, encontramos o arcipreste Nikolay Danilevich, porta-voz da IOU. Fala um pouco de italiano e um pouco de russo:

«Até 1992, neste país havia, na prática, uma só Igreja ortodoxa, inserida num exarcado do Patriarcado de Moscovo. Filaret era metropolita de Kiev: este e outros, depois do colapso da URSS, queriam absolutamente a autocefalia. A Igreja russa não era, por si mesma, contrária à hipótese; mas relevava: “A situação agora está muito confusa; é preciso esperar”.
Mas ele prosseguiu, apoiando o autoproclamado Patriarcado de Kiev de que em 1995 seria eleito titular. Uma realidade não canónica, como o era a pequena Igreja de Makariy… Com o assim chamado “Concílio de reunificação”, abençoado pelo Fanar, estas duas Igrejas fundiram-se e formaram a IODU. A 5 de janeiro, Bartolomeu deu-lhe a independência canónica. Mas a IOU não entrou nesta nova Igreja, para nós cismática. E até agora nenhuma das 14 Igrejas ortodoxas autocéfalas a reconheceu como a 15ª Igreja autocéfala. Ela tem cerca de 4.000 paróquias; a nossa, 12.500.

Não se misturam demasiado, nestes acontecimentos, questões religiosas e políticas?

Certamente que sim. Poroshenko esteve presente em todas as etapas que conduziram à autocefalia. Foi o Fanar que a defendeu. Geria o “Concílio” de dezembro. Talvez esperasse que este seu empenho, juntamente com a retórica nacionalista antirrussa, o conduzisse à vitória nas eleições presidenciais de há dois meses [a segunda volta realizou-se a 21 de abril, ndt]; mas perdeu-as, e venceu-as Volodymyr Zelenskij. Em suma, a instrumentalização política da religião não funcionou. Além disso, a Igreja não é um departamento do Estado e não está vinculada às suas ideologias. Nós não estamos unidos nem contra o Leste nem contra o Oeste.

Porque é que refutam o método do Fanar para a concessão da autocefalia?

Porque conduz ao cisma, como demonstra o que aconteceu a 20 de junho. Flaret, apesar dos veementes protestos da IODU, convocou naquele dia o seu próprio Concílio local para proclamar que o “Patriarcado de Kiev”, de que se proclama titular, continua a existir; trata-se de um cisma no cisma da Igreja autocéfala! De qualquer modo, nós não reconhecemos como válidos os sacramentos da IODU: se uma pessoa nela batizada vem até nós, rebatizamo-la. 

Padre Nikolay, como se sai deste imbróglio?
Não sou profeta e não sei como acabará. Muitas Igrejas ortodoxas locais (=autocéfalas) propõem que se celebre uma Sinassi – cimeira dos vários primazes –, ou um Concílio ortodoxo para resolver uma questão que interpela toda a Ortodoxia. Os responsáveis da “independência” ucraniana têm de vir ao Concílio e arrepender-se do que fizeram. Esperamo-los de braços abertos. Esquecemos as suas más palavras contra nós».


A palavra à nova Igreja autocéfala 

Brilham ao pôr-do-sol as cúpulas douradas do mosteiro de São Miguel, onde encontramos o arcebispo Yevstratiy, porta-voz da IODU.

«O que é que aconteceu na Ucrânia nos últimos 30 anos?
Temos uma ferida e é preciso tempo para a curar.
Antes do “Concílio da reunificação” de dezembro aqui havia três Igrejas ortodoxas; depois duas uniram-se, enquanto a Igreja pró-russa ficou de fora. Em 1991 foi proclamada a independência da Ucrânia. Mas o Patriarcado de Moscovo ainda crê que a Ucrânia não é um Estado real mas só uma parte da Grande Rússia. Tem uma mentalidade imperial… Em nós, o sentimento religioso e o sentimento nacional estão muito entrelaçados: como há uma Igreja autocéfala na Roménia, na Sérvia, na Bulgária… porque é que Moscovo não quer uma Igreja autocéfala ucraniana?

Por enquanto, todavia, nenhuma Igreja ortodoxa reconhece a CODU.

Iniciamos um processo; é preciso paciência e confiança. O consenso há de chegar. Mais cedo ou mais tarde as circunstâncias políticas mais complicadas vão mudar, como aconteceu em 1991 com o fim da União Soviética. Quando o regime do Kremlin cair, também a posição do Patriarcado de Moscovo mudará. Em todo o caso, é inegável que, do ponto de vista religioso, a Igreja ucraniana é uma “filha” – nascida em 988 – da Igreja-mãe de Constantinopla. Por isso lhe pedimos a autocefalia. Acrescento que a Igreja de Moscovo nunca condenou a agressão russa contra a Crimeia e as interferências russas no nosso país. Para Kirill, a agressão em ato a partir de 2014 na Ucrânia oriental (provocou, até agora, mais de 13.000 vítimas e também enormíssimos danos ecológicos) é uma “guerra civil” intraucraniana!

E o recentíssimo (20 de junho) minicisma de Filaret?
É um caso pessoal.
Mas não é coisa pequena – salientamos. A 24 de junho o Sínodo da IODU reuniu-se, liderado por Epifaniy, para precisar o que já tinha sido dito num comunicado de 20 de junho: 1) O Concílio convocado por Filaret é ilegal; 2) Não se pode falar de “cisma” (porque – subentende-se – não teve um séquito significativo); 3) As paróquias já vinculadas ao Patriarcado de Kiev passam todas à IODU; 4) No “Concílio de reunificação” o Patriarcado de Kiev tinha aceitado confluir para a recém-nascida Igreja autocéfala; 5) Reconhecendo os méritos especiais, no passado, para com a Igreja ortodoxa ucraniana, o Sínodo decidiu que o patriarca Filaret permanece como parte do seu episcopado».
Sublinhamos, por fim: fontes da IODU disseram-nos que não veem que seja possível que um Concílio desminta o que realizou Bartolomeu. Além disso, tanto o P. Nikolay como o bispo admitiram que os ortodoxos ucranianos pouco sabem desta diatribe; frequentam muitas vezes a igreja mais próxima sem se perguntarem a que jurisdição pertence (mas os pró-russos arriscam-se a passar por “traidores da pátria!”). Ambos nos confirmaram ainda que, excetuando contributos para manter ou restaurar obras de arte preciosas – igrejas, mosteiros –, não recebem ajudas do Estado.

Putin junto do papa: não resolvido o problema ucraniano 

A 4 de julho, o presidente russo Vladimir Putin foi recebido em audiência (foi a terceira vez) pelo papa. Expressa satisfação pelo desenvolvimento das relações bilaterais – afirmou depois num comunicado: «Foram enfrentadas algumas questões de relevo para a vida da Igreja católica na Rússia. Detivemo-nos depois na questão ecológica e em alguns temas da atualidade internacional, com particular referência à Síria, à Ucrânia e à Venezuela».
Sobre o Médio oriente, ambos – disse-se – concordam com a urgência de defender aí as minorias cristãs, colocadas em perigo por conflitos e perseguições por parte de grupos extremistas islâmicos. Mas sobre a Ucrânia? O comunicado não especifica: Putin e Francisco talvez não estejam de acordo. Com efeito, para a Santa Sé, a questão da Crimeia e da Ucrânia oriental deve resolver-se com base no direito internacional; para o chefe do Kremlin, um retrocesso na península da Ucrânia é impensável.
E a hipótese de uma viagem do papa à Rússia? O Santo Sínodo russo, hoje, é contrário à ideia; e Putin, por agora (por agora!), não se quer impor. A 12 de fevereiro de 2016, deu-se em Havana o primeiro encontro de um papa com um patriarca de Moscovo: um encontro malvisto por setores importantes – como o mundo monástico – da Ortodoxia russa. Além disso, nas vésperas do grande acontecimento de 4 de julho, um porta-voz do Patriarcado, Vladimir Legoyda, precisava: «A Igreja russa não tem comentários a fazer sobre o encontro entre dois chefes de Estado». Acrescentava, todavia, que ele «é importante e útil, dado que o Vaticano e a Rússia defendem o matrimónio tradicional e a família, e protegem os direitos dos cristãos em regiões onde são perseguidos».
De qualquer forma, Francisco, sobre a questão da hipotética viagem à Rússia, não quer forçar, contrariamente ao que fez João Paulo II. Este, apesar do “não” explícito de Eleksij II, então Patriarca de Moscovo, em junho de 2001 visitou a Ucrânia; e, no encontro ecuménico com ele, quem o saudou em nome de todos? O “patriarca” Filaret; uma bofetada para os russos. Dois anos depois Woityla tinha projetado ir, em agosto, a Ulan Bator, na Mongólia, e, nessa ocasião, contava fazer uma escala em Kazan, no Turquestão – 800 Km a leste de Moscovo – para entregar nas mãos de Aleksij um ícone precioso, no Vaticano considerado o original desaparecido de Kazan no início do século XIX e, depois de várias peripécias, chegado de Nova Iorque como oferta ao papa polaco. Perante a nítida recusa do patriarca, aquele pontífice cancelou toda a viagem. 

O contraponto dos greco-católicos ucranianos 

Depois da ouverture da cimeira papa-Putin, nos dois dias seguinte houve outra no Vaticano, já anunciada há dois meses: Francisco, com três cardeais da cúria (entre eles Parolin), juntamente com Sviatoslav Shevchuk, arcebispo maior de Kyiv-Halyc, e os membros permanentes do seu Sínodo, mais os metropolitas. Esta reunião tinha por objetivo «individuar os modos com que a Igreja católica na Ucrânia, e de modo particular a Igreja greco-católica, se pode dedicar mais eficazmente à pregação do Evangelho, contribuir para o apoio aos que sofrem e promover a paz, tanto quanto é possível, com a Igreja católica de rito latino e com as outras Igrejas e comunidades cristãs». 
A propósito da ajuda humanitária a Kiev, recorde-se que com o projeto O Papa para a Ucrânia, iniciado em 2016, Francisco e os organismos do Vaticano enviaram para lá 16 milhões de euros em víveres, materiais, ajudas várias. Após o encontro, na noite de 6 de julho, um comunicado do Vaticano resumia os resultados. Depois de ter dito que o papa apreciou muito a fidelidade dos greco-católicos «à comunhão com o Sucessor de Pedro, confirmada e selada com o sangue dos mártires», precisava: «Foi dedicada particular atenção ao trabalho pastoral, à evangelização, ao ecumenismo, à vocação específica da Igreja greco-católica no contexto dos desafios hodiernos da situação sociopolítica, particularmente da guerra e da crise humanitária na Ucrânia».
A “guerra” na Ucrânia é, portanto, nomeada: mas quem a provocou? O texto não diz. Contudo, nas vésperas do encontro, Shevchuk tinha declarado: «A guerra não pode terminar com uma paz a qualquer custo; seria uma capitulação. É impossível a paz sem justiça». E a 28 de janeiro de 2018, o papa em visita à basílica de Santa Sofia – o centro dos greco-católicos ucranianos em Roma – tinha recordado a “agressão” russa contra a Crimeia. 

Entre religião e política 

Algum flash histórico, para que se compreenda tal atitude. No fim do século XVI, a Ucrânia centro-ocidental estava nas mãos dos reis polaco-lituanos, católicos, enquanto a parte oriental do país estava ligada aos czares, ortodoxos. Em 1595, dois bispos ucranianos reconheceram em Roma a autoridade do papa Clemente VIII e, no ano seguinte, no Sínodo de Brest Litovsk, a maioria dos bispos confirmou esta opção dos “uniatas” (assim chamam os ortodoxos aos gregos unidos a Roma). Em 1946, um pseudossínodo em Lviv, imposto por Estaline, declarou nula a união de 1596: os greco-católicos tornavam-se, pois, por lei, ortodoxos. Quem não aceitou, a começar por bispos e padres, sofreu perseguição e foi preso. Depois, na Ucrânia independente, eles foram e são a ponta de lança para afastar o país da Rússia. Shevchuk considera-se, de facto, “patriarca” greco-católico (e tem dioceses não só na pátria, mas também no estrangeiro, particularmente nas Américas. No conjunto cinco milhões de fiéis), o que irrita Moscovo e também desagrada a Roma. 
Terá solução o conflito eclesial ucraniano? Entretanto, ele mistura-se com a política. Se a Ucrânia se tornar a linha avançada do Ocidente e a sentinela da Casa Branca e da NATO para manter a Rússia em rédea curta, tudo vai piorar; só um novo rumo entre Kiev e Kremlin, e vice-versa, poderia iniciar uma clarificação. E na frente religiosa? Hilarion, nestes meses, em Damasco, Jerusalém e Atenas, defendeu, com os respetivos patriarcas e primazes, a causa russa.
Mas o arcebispo ortodoxo do Chipre, Chrysostomos, esforça-se por reconciliar Kirill e Bartolomeu, tarefa porventura possível no futuro, mas não hoje: em conjunto com razões históricas e canónicas, agravam agora o terreno rivalidades pessoais e institucionais que complicam tudo. Kirill não aceitará nunca que um excomungado do Santo Sínodo seja reabilitado por Bartolomeu.
Enquanto um personagem obscuro e inquietante como Filaret continuar a tecer as suas tramas, a solução do trágico conflito intraortodoxo será impossível. Depois, para alegria da Primeira Roma, a Segunda (Constantinopla) e a Terceira (Moscovo) talvez – nada, porém, é dado como certo – encontrem a paz.

Luigi Sandri
Paolo Emilio Landi
Confronti (julho de 2019)

03/06/2019

As recentes tensões entre as Igrejas ortodoxas a propósito da autocefalia da Igreja ucraniana

Têm-se agravado recentemente até à rutura as relações entre as Igrejas ortodoxas, nomeadamente entre Moscovo e Constantinopla, por causa da autocefalia da Igreja ucraniana. Esta questão de grande relevância eclesial reflete os problemas políticos entre a Rússia e a Ucrânia, recentemente agravados, assim como a relação de dependência das Igrejas face às autoridades políticas por aquelas paragens. Como contributo para a compreensão duma questão com profunda e negativa ressonância no horizonte ecuménico, disponibilizamos em versão portuguesa dois textos: o primeiro favorece a compreensão da questão e a sua evolução nos últimos meses; o segundo reflete sobre o posicionamento do catolicismo romano face ao grave problema que a Ortodoxia está a viver.

Agudiza-se o cisma entre Moscovo e o Fanar

O patriarca Bartolomeu assina o tomos
na presença do metropolita Epiphany
5 de janeiro de 2019
Piervy sriedì ravnikh ou Piervy biez ravnykh? São estas, em russo, as expressões jurídicas latinas: Primus inter pares (primeiro entre pares) ou Primus sine paribus (primeiro sem pares, ou seja sem iguais)? A resposta divergente, que o Patriarcado de Moscovo, hoje liderada por Kirill, e o Patriarcado de Constantinopla, governado por Bartolomeu I, dão à pergunta, está na base do seu irredutível desacordo sobre a autocefalia (independência) da Igreja ucraniana. Uma contenda dramática que levou os responsáveis da Igreja russa a proclamarem a interrupção da comunhão eucarística – ou seja, em sentido estrito, o cisma – devido às opções da irmã sediada em Istambul, no bairro do Fanar. 
Resumamos um acontecimento tormentoso, sobre que já escrevemos mais vezes em Confronti. A 19 de abril de 2018, a Verkhovna Rada (Parlamento de Kiev) fez sua a exigência do presidente Petro Poroshenko ao Fanar de conceder a autocefalia à Igreja ortodoxa ucraniana. Bartolomeu, sem responder com um redondo «sim», deixava-o relampejar, alarmando assim Moscovo. Em setembro aceitou a proposta, para finalmente – sustentava – reunir as três Igrejas ortodoxas do país: 
1. A Igreja ortodoxa, ligada a Moscovo, e liderada pelo metropolita de Kiev, Onufry. 
2. O Patriarcado de Kiev, nas mãos de Filaret. 
3. A Igreja autocéfala ucraniana, uma comunidade modesta
O patriarca Bartolomeu entrega o tomos
ao metropolita Epifany
6 de janeiro de 2019
A primeira é a mais numerosa; as outras duas, surgidas em 1992, depois do colapso da URSS e o nascimento a Ucrânia independente, são consideradas cismáticas por Moscovo (que em 1995 já tinha reduzido ao estado laical e em 1997 excomungado Filaret, o autoproclamado “patriarca” de Kiev). Kirill, a 31 de agosto de 2018, dirigiu-se a Bartolomeu, para o deter: este, contudo, com o seu Sínodo, continuava, a “abençoar” um “Concílio para a reunificação” – considerado ilegal por Moscovo – que a 15 de dezembro deu vida, em Kiev, à Igreja ortodoxa da Ucrânia, formada pelo Patriarcado de Kiev e pela Igreja autocéfala ucraniana, e elegeu como primaz Epifany. Poroshenko empenhou-se muito em toda a operação: uma pressão política demasiado indigesta para os russos. Depois, a 5 de janeiro, Bartolomeu assinou o tomos (decreto sinodal) da autocefalia e, no dia seguinte, entregou-o ao novo primaz.
Aos russos que contestavam a legitimidade canónica da decisão, o Patriarcado ecuménico replicava com a invocação do seu direito de conceder a autocefalia aos ucranianos: como demonstraria a história eclesial dos Balcãs – da qual oferecemos aqui uma síntese nossa. 
Quando a Bulgária, em 1393, caiu às mãos dos turcos, perdeu a sua autocefalia. Cinco séculos depois, em 1870, o governo otomano permitiu a reconstituição de Igreja nacional búlgara: mas o Fanar declarou-a cismática e só reconheceu a autocefalia da Igreja búlgara em 1945, pondo fim ao cisma. Outro caso: em 1922 a Igreja ortodoxa albanesa proclamou-se autocéfala, decisão nunca reconhecida por Constantinopla e por grande parte do episcopado grego (irritados por se usar em Tirana o albanês, em vez do grego, como língua litúrgica). Em 1937, porém, o Patriarcado ecuménico concedeu finalmente a autocefalia aos albaneses. 
Ainda: depois da fusão dos principados da Valáquia e da Moldávia, a Roménia tornou-se independente em 1878. O Fanar, sob cuja jurisdição estavam quando faziam parte do império otomano, reconheceu a autocefalia da Igreja romena em 1885. Já tinha reconhecido em 1879 a autocefalia da Igreja sérvia. Houve, contudo, desacordo, após 1945, entre o Fanar e Moscovo, quanto à concessão da autocefalia à Igreja ortodoxa checoslovaca e, com a divisão deste país em 1993, à que se tornou a Igreja das terras checas e da Eslováquia, cujo primaz é desde 2014 Rostislav. A autocefalia das Igrejas balcânicas começou, tanto quanto parece, sem objeções da parte de Moscovo. Recordamos, contudo, que, de 1721 a 1917, a Igreja russa – por decisão de Pedro Grande e dos czares que lhe sucederam – permaneceu sem patriarca; e de novo sem patriarca, por vontade dos soviéticos, de 1925 a 1943. 
Em todo o caso, invocando estes precedentes, Bartolomeu reafirma agora que só ele tem, e não outros, o direito de conceder a autocefalia. Em Kiev, entretanto, na Igreja recém-nascida foi instituído o Sínodo, de que faz parte o “patriarca honorífico Filaret”, o qual, nonagenário, no dia seguinte ao “Concílio” explicitou que ele «permanece patriarca, porque este é para a vida e, juntamente com o primaz, governa a Igreja ortodoxa da Ucrânia». Não só: A 5 de fevereiro, o Sínodo nomeou-o bispo da diocese de Kiev (excluído o mosteiro de São Miguel). Permanece, contudo, um mistério o que é que isso significa, dado que Epifany é metropolita de Kiev.
Afirmando que Bartolomeu é “primeiro” sriedì ma non biez ravnykh, o Santo Sínodo russo nega-lhe o direito de tomar sozinho decisões respeitantes a toda a Ortodoxia: ele pode coordenar o trabalho dos “iguais a ele”, mas nunca interferindo nos assuntos internos das outras Igrejas irmãs, ou ignorando mesmo o parecer delas. Por isso, Kirill reafirma: só a Sinassi (reunião) dos líderes das Igrejas autocéfalas – hoje 14, porque a 15ª, a ucraniana nascida a 15 de dezembro de 2018, não é reconhecida por Moscovo – poderia conceder a uma Igreja a autocefalia. Para os russos, o “como” nasceram as Igrejas autocéfalas balcânicas não prova nada; além disso, nenhuma delas é comparável à situação ucraniana, na qual a maior parte dos ortodoxos, por enquanto, se reconhece na Igreja pró-russa, que considera anticanónico e cismático o “Concílio” de 2018. A 31 de janeiro passado, em Moscovo, foi celebrado solenemente o décimo aniversário da eleição de Kirill como patricarca. Num discurso aos representantes das Igrejas autocéfalas presentes (faltava Constantinopla!), ele ironizou a propósito do “novo” princípio do piervy biez ravnykh: para os russos – subentendia-se – não pode existir um “papa” dos ortodoxos.

Sérvia. Como se posicionou a Ortodoxia face à laceração em curso? Vejamos, por agora, a resposta de algumas Igrejas europeias. O patriarca sérvio, Irenej – que tinha estado em Moscovo para o décimo aniversário de Kirill – e o seu Sínodo, no fim de fevereiro, emitiram uma declaração oficial. Tendo em conta que o próprio Irenej se tinha deslocado a Salónica, para convidar o primus inter pares a retroceder nos seus passos, e dada a inutilidade destes esforços «a Igreja ortodoxa sérvia: 
1. Não reconhece a anticanónica “invasão” do patriarcado de Constantinopla ao território canónico da Santa Igreja russa, dado que o metropolita de Kiev, que inclui dúzias de dioceses, em 1686, tendo por base as decisões do patriarca de Constantinopla, Dionísio IV, foi colocada sob o de Moscovo. 
2. Não reconhece a “Igreja autocéfala da Ucrânia” que, do ponto de vista canónico, não existe. Os cismáticos permanecem cismáticos, a não ser que, com uma sincera confissão, se arrependam. 
3. Não reconhece o “Concílio” de Kiev. Ele é erroneamente chamado de “reunificação” e desintegrou ainda mais a infeliz Ucrânia. 
4. Não reconhece um episcopado cismático, que pertence à ala de Denishenko [Filaret, ndr], reduzido [por Moscovo, ndr] ao estado laical e excomungado. Recomenda aos hierarcas e ao clero que se abstenham de qualquer comunhão litúrgica e canónica não só com o Senhor Epifany e com outros como ele, mas também com os bispos e os clérigos que concelebram com eles… A Igreja sérvia implora a sua Santidade o patriarca ecuménico que reconsidere a decisão tomada».

Roménia. Mais matizada foi a posição do Sínodo romeno reunido a 21 de fevereiro:
«1. Durante cerca de 30 anos o problema da divisão [da Igreja ortodoxa, ndr] na Ucrânia não foi resolvido. 
2. O patriarca ecuménico decidiu sair do impasse e concedeu o tomos da autocefalia. Mas ele só foi acolhido pela Ortodoxia ucraniana fora da comunhão com Moscovo; e assim a questão da unidade da Igreja na Ucrânia permanece não totalmente resolvida. 
3. Recomenda-se ao patriarca ecuménico e ao patriarca de Moscovo que encontrem as vias para resolverem o contencioso, preservarem a unidade na fé, respeitarem a liberdade pastoral e administrativa do clero e fiéis daquele país (incluído o direito à autocefalia) e restabelecerem a comunhão eucarística. 
4. Caso falhe o diálogo bilateral, é necessário reunir a Sinassi dos primazes das Igrejas ortodoxas para resolver o problema pendente». 
O Sínodo insiste, pois, para que às 127 paróquias romeno-ortodoxas na Ucrânia, sobretudo em Bukovyna (região já da Roménia, passada durante a II Guerra Mundial à Ucrânia soviética) seja garantida a liberdade plena e o uso do romeno na liturgia, propostas que Epifany – prestes a deslocar-se a Bucareste – garantiu acolher (aliás no país existe um Vicariato ucraniano ortodoxo com liberdade para se organizar).

Albânia. Já a 4 de janeiro o Sínodo da Igreja albanesa tinha invocado a Sinassi: uma proposta que o arcebispo de Tirana, Anastasios, comunicou a Bartolomeu dez dias depois, com uma carta dada a conhecer só a 7 de março e, traduzida em russo, publicada em Moscovo três dias depois. 
O primaz albanês deplora que a Igreja russa tenha desertado do Concílio de Creta; e que tenha rompido a comunhão eucarística com o Fanar. Mas, ao mesmo tempo, critica a fundo Filaret (um excomungado que – recorda – chegou a consagrar bispos que, por isso, não o são!); e refuta reconhecer a canonicidade da Igreja ucraniana nascida a partir do Concílio de dezembro. 
E então? Bartolomeu, que tem este “privilégio exclusivo”, convoque uma Sinassi, ou um Concílio, «para esconjurar o perigo evidente do princípio de um doloroso cisma, que ameaça a solidez da Ortodoxia e o seu testemunho persuasivo ao mundo de hoje». Bartolomeu respondeu a Anastasios a 20 de fevereiro (mas a carta foi publicada semanas depois), reafirmando as suas teses (em particular, a validade da ordenação dos bispos da nova Igreja da Ucrânia). Mas ignora totalmente a auspiciada reunião da Sinassi. A este respeito, dado que as decisões desta são tomadas por unanimidade, e como Moscovo e Constantinopla divergem quanto aos critérios para conceder a autocefalia, no passado estabeleceu-se não submeter a questão a exame no Concílio ortodoxo (depois celebrado em 2016 em Creta; mas, no último momento, a Igreja russa – que representa cerca de 70% dos 200 milhões de ortodoxos no mundo – recusou-se a participar).

Pergunta: Será possível agora o que não se pôde propor há três anos? Entretanto, partilharam as teses russas Rostislav («Filaret é um impostor») e Sava, primaz dos ortodoxos polacos. Das outras Igrejas autocéfalas surgiram declarações de alguns hierarcas, frequentemente ambíguas – como as que Theophilos III, patriarca grego de Jerusalém. Esperam-se palavras importantes dos vários Sínodos: serão pró-russas as Igrejas eslavas e pró-Fanar as gregas? Não está dito. Entretanto torna-se mais profunda a fenda aberta na Ortodoxia pelo terramoto eclesial ucraniano. 

Luigi Sandri
Confronti (abril de 2019)

Face às divisões entre as Igrejas ortodoxas

O mistério da Igreja como corpo de Cristo Senhor é revelado e compreendido não só por quem nele acredita, mas sobretudo por quem o vive. O apóstolo Paulo, recorrendo à imagem do corpo humano, escreve: «Como o corpo é um, mesmo tendo muitos membros, e todos os membros do corpo, apesar de serem muitos, formam um só corpo, assim também Cristo… Deus compôs o corpo para que não houvesse divisão no corpo, mas os vários membros cuidassem uns dos outros. Portanto, se um membro sofre, todos os membros sofrem juntos e, se um membro é honrado, todos os membros se alegram juntos» (1 Cor 12, 12.25-26). 
Em virtude precisamente deste grande mistério vivido quotidianamente como exigência absoluta, nós católicos sofremos por causa das tensões, das contendas vividas por vezes pelas diversas Igrejas, inclusivamente a católica, e agora sofremos de modo especial pela interrupção da comunhão eucarística decretada pelo Sínodo do Patriarcado de Moscovo relativamente ao de Constantinopla, duas Igrejas irmãs com as quais a comunhão que nos une é muito mais forte do que o que nos separa. Queremos dizer sobretudo às Igrejas da Ortodoxia que fazemos nosso o seu sofrimento, porque a caridade de Cristo nos impele a esta participação nos seus sentimentos. Pedro Venerável, abade de Cluny, grande monge e expoente espiritual medieval, escrevia numa carta: «Non vegetatur Spiritu Christi qui non sentit vulnera corporis Christi! Não vive do Espírito de Cristo quem não sente as feridas do corpo de Cristo».
Este sofrimento impele-nos sobretudo à oração, à invocação do Espírito de comunhão para todas as Igrejas e sobretudo para as Igrejas atualmente em tensão entre si: como a litania que abre a Divina Liturgia de São João Crisóstomo, nós erguemos a nossa súplica: «Pela paz do mundo inteiro, pela prosperidade das Santas Igrejas de Deus e a união de todos nós, imploramos ao Senhor: Kyrie eleison!». A oração expressa na partilha do sofrimento e no acordo dos pedidos é o primeiro passo urgente e necessário para que as feridas se curem, as contendas se superem e as divisões passadas e presentes deem lugar à comunhão, que é o dom por excelência do Senhor à sua Igreja. 
A Ucrânia é uma terra de encontros, como indica o seu nome, e a herança que ela guarda a partir dos santos fundadores do Mosteiro das Grutas [Mosteiro de Kiev-Pechersk, ndt] – António e Teodósio – é um tesouro precioso, um dom para todas as Igrejas. A contenda ocorrida fere esta herança e fragiliza o anúncio do Evangelho de que esta terra precisa depois de decénios de perseguição religiosa e de padecimentos de todo um povo. Ninguém esquece os sofrimentos humanos e eclesiais do povo ucraniano, e todas as Igrejas cristãs confessam o testemunho dos mártires ortodoxos, católicos de rito oriental ou latino, protestantes, cujo sangue derramado pela fidelidade a Cristo Senhor é semente de fé e, ao mesmo tempo, verdadeiro ecumenismo vivido na carne, no dar a vida por Deus e pelos irmãos e irmãs. À volta do Cordeiro imolado, estes mártires e confessores intercedem unanimemente pelas suas Igrejas e pela Igreja una, santa, católica e apostólica, para que reine a santa koinonia dada pelo Ressuscitado através do Espírito Santo. Estes mártires recordam-nos, também na Ucrânia, que os muros levantados na terra entre as Igrejas não se erguem até ao céu. 
Com esta viva intercessão resistimos, portanto, ao Divisor, ao Diabo que procura sempre levar a divisão aos cristãos para destruir a integridade do corpo de Cristo: não permitamos que o Diabo nos separe e não joguemos o seu jogo! No outono passado, em Bari, todas as Igrejas ortodoxas estiveram em oração e em diálogo juntamente com o Bispo de Roma: acontecimento primaveril do ecumenismo sobre que depressa desceu uma geada querida certamente pelo Divisor. 
Mas, para além da partilha do sofrimento e da oração, o que é que nós católicos podemos fazer? Antes de mais, não realizar o mais pequeno gesto que possa parecer uma intromissão nas questões internas da Ortodoxia, nem alimentar um desejo ou, muito menos, uma pretensão de arbitragem entre as Igrejas ortodoxas que vivem divisões, não só na Ucrânia, mas também no Médio Oriente. 
Nas atuais divisões e tensões intraortodoxas, devemos escutar-nos, encontrar-nos e falar, manifestando o nosso sofrimento, abandonando inimizades e evitando tomadas de posição apodíticas. O percurso é sempre o da desconfiança à confiança recíproca, purificando e curando as memórias, até delinearmos em conjunto o caminho que nos espera, mesurando-o no caminho em direção ao Reino, meta para a qual todas as Igrejas estão em peregrinação. 
Por fim, nesta hora de sofrimento dos homens e mulheres por causa da guerra e da pobreza sofridas pelas populações destas nossas Igrejas irmãs, torna-se necessário colocar-se ao serviço dos que sofrem, dos necessitados, sobretudo das crianças, primeiras vítimas inocentes dos conflitos e da pobreza. Devem inspirar-nos sempre as palavras do apóstolo Paulo: «Sede servos uns dos outros através da caridade» (Gal 5, 13). Para além dos confrontos, as Igrejas ortodoxas unam-se na vivência da caridade concreta para com todos os que sofrem. 
Dizemos, portanto, aos nossos irmãos ortodoxos: «Precisamos do vosso testemunho evangélico, e a vossa divisão fere-nos a todos». O papa Francisco, na celebração de Vésperas, na Basílica de São Paulo Extramuros, a 25 de janeiro de 2015, dizia: «A unidade dos cristãos – estamos convencidos – não será fruto de apuradas discussões teóricas em que cada um tentará convencer o outro do fundamento das próprias opiniões. Virá o Filho do homem e ainda nos encontrará em discussões. Temos de reconhecer que para chegarmos à profundidade do mistério de Deus precisamos uns dos outros, de nos encontrarmos e de nos confrontarmos guiados pelo Espírito Santo, que harmoniza as diversidades e supera os conflitos, reconcilia as diversidades». É com estes sentimentos que dizemos aos patriarcas das Igrejas ortodoxas, aos seus metropolitas e bispos, aos irmãos e às irmãs ortodoxas o nosso amor, a nossa solicitude, a nossa fervorosa intercessão. 

Enzo Bianchi
L'Osservatore Romano (27 de maio de 2019)

27/02/2019

Bispo do Porto abre Paço Episcopal à Comissão Ecuménica do Porto

A Comissão Ecuménica do Porto reuniu-se no Paço Episcopal na quarta-feira 20 de fevereiro a convite do bispo do Porto, D. Manuel Linda. No jantar que se seguiu estiveram também presentes D. Jorge Pina Cabral, bispo da Igreja Lusitana, Comunhão Anglicana, e o bispo Sifredo Teixeira, da Igreja Evangélica Metodista. O Reverendo Sérgio Alves, membro da Comissão Ecuménica, redigiu o texto publicado no jornal diocesano Voz Portucalense, que aqui replicamos.

No contexto da semana de oração pela unidade dos cristãos, o Bispo do Porto, D. Manuel Linda, amavelmente convidou os membros da Comissão Ecuménica do Porto para um encontro seguido de jantar, no Paço Episcopal do Porto, que se realizou no dia 20 de fevereiro.
Os presentes foram fraternalmente acolhidos e tiveram oportunidade de visitar o belíssimo espaço e aprender elementos históricos importantes, em termos de estética e arquitetura e ao nível da relação entre a Igreja e o Estado, bem como perceber a nova dinâmica de abertura ao meio e inovação que está a ser implementada. 
A cidade do Porto é conhecida como a “capital do ecumenismo” na medida em que, desde o século passado, líderes eclesiais e leigos, se devotaram verdadeiramente à causa da unidade entre os cristãos, dando sinal vivo, algumas vezes incompreendido, de oração conjunta, fortalecimento de relações pessoais e propostas inovadoras de atividades ecuménicas na cidade.
Assim a Comissão Ecuménica do Porto, constituída em novos moldes no ano 2005, é herdeira de belo testemunho, verdadeiramente inspirador para o caminhar presente e futuro, não obstante as dificuldades próprias da unidade, que sabemos e cremos, desejada por Cristo: "(…) Pai que eles sejam um como Tu e eu somos um (…)" S. João 17, 21.
A Comissão teve oportunidade de realizar a habitual reunião mensal na sala da biblioteca episcopal a que se seguiu um agradável e fraterno jantar onde se juntaram os Bispos D. Jorge Pina Cabral da Igreja Lusitana – Comunhão Anglicana e o Bispo Sifredo Teixeira da Igreja Metodista Portuguesa.
Na alegria do encontro fraterno à volta mesa, D. Manuel Linda, partilhou o desejo das Igrejas ecuménicas da cidade, fortalecerem o seu testemunho, através do serviço em diversas causas ligadas, por exemplo, à justiça, ao ambiente, reforçando que o “caminho ecuménico é para seguir em frente”.
D. Jorge Pina Cabral, lançou o desafio da Comissão assumir a temática da violência doméstica. O Bispo Sifredo Teixeira, relembrou o sonho não concretizado do Bispo D. Armindo Lopes Coelho, que passava pela criação de um espaço ecuménico na cidade, assegurado em parceria pelas Igrejas e que possibilitasse às pessoas mais informação sobre o mosaico ecuménico existente.
Novas visões para a missão foram partilhadas, num ambiente de respeito, amizade e vontade de continuar, por isso, graças sejam dadas a Deus, que a todos chama, para juntos anunciarmos a Boa Nova de Jesus Cristo.

Rev.º Sérgio Alves

31/01/2019

Roteiro Ecuménico do Porto 2019

No passado dia 25 de janeiro, no contexto da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, a Comissão Ecuménica do Porto divulgou o Roteiro Ecuménico do Porto para 2019, que aqui também deixamos.


Downloads: Cartaz - Flyer

Roteiro Ecuménico do Porto prossegue a Carta Ecuménica para a Europa 

Na Carta Ecuménica para a Europa lançada em 2001, foi assumido o compromisso de “celebrar juntos a mesma Fé na vivência das diferentes tradições eclesiais, rezar uns pelos outros e pela unidade dos cristãos, em aprender a conhecer e a apreciar as celebrações e as outras formas de vida espiritual das outras Igrejas”. 
Concretizando este compromisso e no seguimento de edições anteriores, a Comissão Ecuménica do Porto (www.ecumenismoporto.org) apresentou no contexto da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, o Roteiro Ecuménico de Oração de 2019 para a cidade do Porto. 
O novo roteiro é em si uma proposta para que as diversas Igrejas e cristãos do grande Porto partilhem entre si e ao longo de todo o ano os dons espirituais e materiais dados por Cristo. 
Neste sentido e através de celebrações, encontros em conjunto e outras iniciativas, haverá uma partilha da riqueza espiritual de cada tradição eclesial na vivência especifica de cada proposta. 
O Roteiro Ecuménico 2019 proporciona aos cristãos das diferentes confissões, interessados na busca da unidade entre os cristãos, um caminho de comunhão e alegria no conhecimento da diversidade eclesial e relação fraterna. 

A Comissão Ecuménica do Porto

28/01/2019

Celebração Ecuménica no Porto

Realizou-se no dia 25 de janeiro de 2019, às 21.30 horas, na Igreja ortodoxa russa, situada na Rua Alexandre Herculano, no Porto, a Celebração ecuménica no contexto da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos. Ficam as fotos publicadas no jornal diocesano Voz Portucalense.





Vejam-se mais fotos na página web da Comissão Ecuménica do Porto.

Veja-se a reportagem da Agência Ecclesia

25/01/2019

O esforço das Igrejas cristãs para a unidade

Por ocasião da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos 2019, disponibilizamos o Editorial do jornal diocesano Voz Portucalense de 23 de janeiro de 2019, assinado por Jorge Teixeira da Cunha, sob o título O esforço das Igrejas cristãs para a unidade.



24/01/2019

Guiados pelo Espírito

Por ocasião da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos 2019, D. Manuel Linda, bispo do Porto, publicou a seguinte mensagem na página "web" da Diocese do Porto.

Guiados pelo Espírito

Os gregos antigos chamavam "oikuméne" a toda a terra habitada. O cristianismo pediu-lhes a palavra e manteve-lhe o significado. Por isso, às assembleias dos bispos convocadas para discutir âmbitos que interessassem a todos os crentes, chamou-lhes Concílios Ecuménicos. Só perto de nós, em pleno século XX, é que a palavra se transmutou um pouquito e passou a significar espírito de abertura, capacidade de escuta, disponibilidade para o diálogo, prazer de caminhar com os demais.
Mesmo aqui, ainda é visível o sentido de tensão para a unidade. Mas, primitivamente, estava mais expressa a ideia da comum condição humana: ser pessoa é habitar o espaço que nos é concedido e, já que pisamos o mesmo terreno e respiramos o mesmo ar, nele harmonizarmos o nosso viver com os outros, sob pena de passarmos a vida aos encontrões.
Este dado da união é tão determinante para o cristianismo que, no Credo, o colocou como a primeira nota constitutiva do "corpo" que o vive e exprime: “Creio na Igreja una…”. Pode mesmo dizer-se que, no primeiro milénio, a unidade constituiu o maior empenho e desafio para a Igreja. Por isso, quando as fraturas se verificaram, sofreu-as como o pecado dos pecados.
E hoje? Os passos iniciais para a unidade foram intentados pelos nossos irmãos separados. E começaram pelas «bases»: os estudos universitários, os movimentos juvenis cristãos, as iniciativas do “Evangelho social” que viria a gerar o dito “a doutrina divide, o serviço une” e, fundamentalmente, a colaboração e a ajuda entre os missionários protestantes. A Igreja Católica viria a juntar-se a este movimento, de alma e coração, a partir do Concílio Vaticano II e da sua persuasão de que o dinamismo ecuménico é um “impulso suscitado e guiado pelo Espírito” (UR 1).
Como seguir por esta via? É válido tudo o que o Espírito gerou no coração dos iniciadores do movimento ecuménico: a indispensável renovação teológica, a colaboração na caridade, o sentimento de unidade que advém da oração e do trabalho pastoral conjunto. Conquanto não nos esqueçamos de um dado: a renovação e reforma de todas as Igrejas. É que, se as divisões se deveram, quase sempre, aos atrasos, inadequações, soberbas, orgulhos e outros pecados dos cristãos, em especial dos ministros/dirigentes, a solução, logicamente, passa por um contínuo confronto com o Evangelho, com o Espírito, com a graça e com a purificação do coração.
O ecumenismo nada tem a ver com as “joint ventures”: não é uma questão de fortalecimento empresarial, de eficiência ou facilidade para a conquista de mercado. O ecumenismo é o sentido da orientação interior pelo qual se toma consciência da vontade fundacional de Cristo que pede ao Pai: “Que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti” (Jo 17, 21).

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15/01/2019

Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos 2019 no Porto


Divulgamos a informação disponibilizada pela Comissão Ecuménica do Porto relativa à celebração da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, que decorre de 18 a 25 de janeiro de 2019, sob o tema Procurarás a justiça e nada mais que a justiça. O Porto acolhe este ano a celebração nacional, que terá lugar no dia 25 de janeiro na Igreja Ortodoxa Russa (Rua Alexandre Herculano, 123, Porto). À nota da Comissão Ecuménica do Porto, juntamos o cartaz de divulgação da celebração principal, o cartaz com as demais celebrações e o apontador do Guião preparado pelo Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos e pela Comissão Fé e Constituição do Conselho Mundial de Igrejas.


Um convite para a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos de 2019

“Procurarás a Justiça e nada mais do que a justiça” Deuteronómio 16, 18-20

A semana de oração pela unidade dos cristãos, realizada em todo o mundo, há mais de 100 anos, entre os dias 18 e 25 de janeiro, foi este ano preparada pelos cristãos da Indonésia, país que tem a maior população muçulmana e onde cristãos de diversas confissões constituem uma minoria, representando 10% da população.
Num contexto social, marcado pelo crescimento económico galopante, pluralidade de ilhas, grupos étnicos e línguas, os indonésios têm vivido segundo o principio do gotong royong, que é viver em solidariedade e em colaboração. Atualmente, a ganância pelo lucro desmedido tem provocado fenómenos de corrupção e injustiça, com consequências devastadoras para as pessoas e para o ambiente, por isso, a escolha do tema da justiça.
A unidade, desejada pelo Senhor Jesus diante do Pai “(…) que todos sejam um, assim como tu, ó Pai, és em mim, e eu em ti, para que o mundo creia (…)” S. João 17, 21, torna-se um imperativo para a oração e missão dos cristãos em todo o tempo e lugar, como um fermento novo que é verdadeiramente capaz de fazer levedar a justiça e o amor em contextos de trevas.
O movimento ecuménico, suscitado pelo Espírito Santo, tem diversas expressões na cidade do Porto, dinamizadas pela Comissão Ecuménica do Porto, que ano após ano, se renovam, com o propósito de chegar e envolver mais pessoas na busca da unidade entre os cristãos para que mais possam crer e viver animados pela alegria do Evangelho.
A Celebração Diocesana, aberta a todos os que queiram participar, terá lugar no dia 25 de janeiro, pelas 21h30, na Igreja Ortodoxa Russa, à rua Alexandre Herculano e vai acolher a Celebração Nacional, que junta o COPIC, Conselho Português de Igrejas Cristãs, e a Comissão Episcopal Missão e Nova Evangelização da Igreja Católica Romana. Na celebração, será lançado o Roteiro Ecuménico para o ano 2019, com propostas mensais dinamizadas pelas Igrejas, permitindo a quem o desejar, vivenciar e conhecer a riqueza da diversidade que subsiste na Igreja de Cristo.
Aceite o convite e participe com a sua oração e o seu compromisso pela unidade desejada por Jesus.
Para mais informações, visitar o site: www.ecumenismoporto.org

Pela Comissão Ecuménica do Porto

Revº Sérgio Alves
Igreja Lusitana - Comunhão Anglicana



09/01/2019

Unidade dos cristãos: Música católica e luterana na Alemanha seiscentista

Divulgamos o ciclo de recitais de órgão da Igreja de São Lourenço no Porto, que abre com um concerto alusivo à unidade dos cristãos, a 24 de janeiro de 2019, no contexto da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos.


21/12/2018

Servir a comunhão

No sentido de informar e formar para o ecumenismo na Igreja do Porto, divulgamos, em versão portuguesa, a notícia duma iniciativa do movimento ecuménico, neste caso no âmbito do diálogo entre católicos romanos e ortodoxos, publicada pela Finestra Ecumenica do Mosteiro de Bose.

O diálogo teológico entre a Igreja católica e a Igreja ortodoxa não acontece apenas a nível oficial, através do mandato confiado pelas igrejas à Comissão mista internacional para o diálogo teológico entre a Igreja católica e a Igreja ortodoxa, mas também graças à reflexão e aos encontros fraternos de teólogos que se sentem comprometidos pelo evangelho na busca da unidade.
Neste espírito, com o fim de ajudar e apoiar o diálogo teológico oficial entre ortodoxos e católicos, que no início dos anos 2000 conhecia um abrandamento devido ao problema do uniatismo, nasceu em 2004 o Grupo de trabalho misto ortodoxo-católico Santo Ireneu, graças à iniciativa do Instituto ecuménico Johann Adam Möhler de Paderborn. Um grupo de teólogos católicos e ortodoxos decidiu empreender livremente um percurso de estudo para aprofundar os aspetos mais problemáticos que ainda dividem as suas igrejas, através do confronto respeitoso de mentalidades e de modelos de pensamento diferentes, num diálogo que não dissolva mas enriqueça a identidade de cada interlocutor.
Um primeiro fruto desta procura comum é o documento “Servir a comunhão. Repensar a relação entre primado e sonodalidade”, resultado de diversos anos de trabalho e apresentado em Graz a 18 de outubro de 2018. No decurso da apresentação oficial, no Meerscheinschlössl da Universidade de Graz, intervieram os dois copresidentes do Grupo Santo Ireneu, o bispo católico Gerhard Feige de Magdeburgo e o metropolita ortodoxo romeno Serafim (Joantă) da Alemanha, Europa central e setentrional, o bispo de Graz-Seckau Wilhelm Krautwaschl, o bispo ortodoxo sérvio Andrej (Ćilerdžić) da Áustria e Suíça e o vice-decano da Faculdade teológica de Graz, Rainer Bucher.
O Grupo Santo Ireneu, que em 2012 tinha tido a sua sessão anual no Mosteiro de Bose, é formado por 13 membros ortodoxos pertencentes às diversas igrejas ortodoxas (os patriarcados de Constantinopla, Antioquia, Moscovo, Sérvia, Roménia, Bulgária, a Igreja ortodoxa da Grécia e a Igreja ortodoxa da América) e 13 membros católicos de diversos países (Argentina, Áustria, Alemanha, França, Itália, Líbano, Malta, Países Baixos e Estados Unidos). Os membros do Grupo Santo Ireneu não são delegados das respetivas igrejas, mas são convidados tendo por base as suas competências: não se trata, por isso, de uma comissão oficial de diálogo, mas de um grupo de trabalho livre, que se reúne com a intenção de promover o diálogo ortodoxo-católico a nível internacional, em espírito de serviço às igrejas.
Neste sentido, o estudo apresentado em Graz toca um dos temas de maior importância no diálogo atual entre a Igreja ortodoxa e a Igreja católica: o modo em que se articulam, enquanto termos correlativos, primado e sinodalidade, a todos os níveis: local, regional, universal. É o tema objeto dos dois últimos documentos da Comissão mista internacional para o Diálogo teológico entre a Igreja católica e a Igreja ortodoxa, o de Ravena (“As consequências eclesiológicas e canónicas da natureza sacramental da Igreja: Comunhão eclesial, conciliaridade e autoridade”, 2007) e o de Chieti (“Sinodalidade e primado durante o primeiro milénio: Rumo a uma compreensão comum ao serviço da unidade da Igreja”, 2016).
A importância do documento do Grupo Santo Ireneu reside tanto no método como nos conteúdos. Não se trata tecnicamente de um texto de consenso, mas de um estudo histórico e teológico sobre como, ao longo de dois milénios de história das igrejas, formas de governo sinodais e formas primaciais  se formaram e consolidaram, estiveram em tensão mas também em fecunda interação. Uma primeira novidade está, portanto, na extensão cronológica: o estudo diz respeito não só ao primeiro milénio mas também ao segundo, quando as divisões e os conflitos entre as igrejas já não puderam ser sanados. Um outro aspeto importante do documento reside na opção metodológica de utilizar uma grelha em que a abordagem hermenêutica, o estudo da história das igrejas e a reflexão sistemática procuram estar em constante inter-relação. Que significado têm nos diversos contextos e nas diversas tradições palavras como “catolicidade”, “primado”, “sinodalidade”, “colegialidade”, “conciliaridade”? O que é que significam exatamente os termos “primado de honra”, “infalibilidade”, “jurisdição universal”? Como é que a experiência conciliar do século XX e XXI, tanto na Igreja católica com o II Concílio do Vaticano, como nas igrejas ortodoxas com o Concílio de Moscovo de 1917-18 e o Concílio panortodoxo de Creta (2016), abriu novos caminhos para pensar e praticar a unidade na Igreja e entre as igrejas? São estas as questões colocadas pelo documento de Graz, a que procura dar uma resposta partilhada por católicos e ortodoxos.
Na conclusão do estudo, sublinha-se a importância da eucaristia como magistério para a unidade: “A interação entre aquele que preside e a assembleia eucarística constitui […] o fundamento teológico para uma renovada compreensão do primado e da sinodalidade na Igreja e da autoridade que, exercitada tanto de modo primacial como sinodal, tem de estar sempre ao serviço da comunidade. Tanto a Escritura como a Tradição atestam a necessidade de um ministério primacial para servir a unidade da Igreja a vários níveis. Mas atestam também a necessidade da sinodalidade a todos os níveis da vida eclesial. A complementaridade destes dois princípios será central para uma mais profunda compreensão teológica da Igreja, que tornará mais fácil a reconciliação entre ortodoxos e católicos” (17.5).
Mesmo na consciência “de não terem chegado ainda ao ponto de formularem recomendações concretas que possam constituir a base para a restauração da plena comunhão”, os membros do Grupo Santo Ireneu estão convencidos “que o diálogo ortodoxo-católico está no caminho da unidade e que ainda hoje é possível discernir as grandes linhas de uma Igreja católica e ortodoxa plenamente em comunhão”. Para isto, naturalmente, não é suficiente o diálogo e o estudo teológicos, mas são necessários “a boa vontade, o desejo de cooperar e de trabalhar em conjunto para construir pontes, não só entre teólogos académicos, mas também entre os padres, que têm ao seu cuidado a vida eclesial quotidiana, e entre todos os batizados, que têm de encontrar a sua própria voz como membros do Corpo de Cristo”.

22/11/2018

Fortalecer o Ecumenismo motiva encontro de responsáveis eclesiais do Porto

No seguimento do encontro ecuménico realizado pela Equipa Ecuménica do Porto no passado dia 16 de novembro, na Paróquia Lusitana do Bom Pastor, em Vila Nova de Gaia, transcrevemos a notícia redigida pelo Rev. Sérgio Alves para a página web da Comissão Ecuménica do Porto, para que também remetemos:

A Comissão Ecuménica do Porto (www.ecumenismoporto.org), promoveu no dia 16 de novembro de 2018, um encontro ecuménico seguido de jantar de confraternização, na Paróquia Lusitana do Bom Pastor, no Candal, em Vila Nova de Gaia.
Estiveram representadas várias Igrejas que vivem assumidamente o ecumenismo como parte integrante da sua missão. Diversas pessoas ligadas ao ecumenismo da cidade do grande Porto estiveram presentes, entre as quais destacam-se, D. Manuel Linda, Bispo do Porto da Igreja Católica Romana, o Bispo Sifredo Teixeira, da Igreja Evangélica Metodista de Portugal, o Bispo D. Jorge Pina Cabral da Igreja Lusitana – Comunhão Anglicana, o Padre Ivan, em representação do Arquimandrita Plhilip, da Igreja Ortodoxa do Patriarcado Ecuménico de Constantinopla, o Padre Alexandre Pisconov, em representação da Igreja Ortodoxa do Patriarcado de Moscovo, o Pastor Decker da Igreja Evangélica Alemã do Porto, o Cónego Philip Bourne representou a Igreja Anglicana de St James, a Revª Diácona Isabel Silva em representação do Dia Mundial de Oração, o Padre Paulo Teixeira, Capelão do Hospital de S. João, e as jovens Catarina e Carla do Grupo Ecuménico Jovem do Porto.
O evento teve início com um momento devocional, sustentado na oração da tarde da liturgia da Igreja Lusitana, dirigido pelo Pároco da comunidade local, Revº Sérgio Alves.
Seguiu-se um tempo aberto de partilha de visões e reflexões, sobre o atual momento do movimento ecuménico na cidade que proporcionou o renovar da motivação no exigente trabalho a realizar.
A volta da mesa do jantar, numa ambiência fraterna e alegre, estreitaram-se relações e planearam-se atividades para a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos do ano 2019, a realizar entre os dias 18 e 25 de janeiro, que terá como tema: “Procurarás a justiça e nada além da justiça” Deuteronómio 16, 18-20.
Orar juntos, confraternizar, estar à volta de uma mesa comum, durante o jantar, constituiu um sinal animador, fortalecedor e promissor da unidade na diversidade, que se procura alcançar no movimento ecuménico, que é caminho que se faz caminhando, em processo de (re)construção permanente que em cada tempo requer energia e empenho renovado, das bases até às hierarquias e das hierarquias até às bases.

Pela Comissão Ecuménica do Porto

Revº Sérgio Alves
Membro da Comissão Ecuménico do Porto

30/08/2018

Tempo da Criação 2018


De 1 de setembro a 4 de outubro, os cristãos em todo o mundo unem-se na ação e na oração pela criação. É o “Tempo da Criação”, celebrado em todas as partes do globo.
Remetemos para a página web da iniciativa e deixámos a declaração conjunta dos líderes das várias confissões cristãs.



Caros irmãos e irmãs em Cristo,

“Pergunta, pois, aos animais e eles te ensinarão; às aves do céu e elas te instruirão. Fala (aos répteis) da terra, e eles te responderão, e aos peixes do mar, e eles te darão lições. Entre todos esses seres quem não sabe que a mão de Deus fez tudo isso?” (Jó 12,7-9).
Um vez por ano, de 1 de setembro a 4 de outubro, os membros da família de Cristo reservam um tempo para aprofundar seu relacionamento com o Criador, com o próximo e toda a criação. Estamos a falar do Tempo da Criação, que teve início em 1989 com o primeiro reconhecimento do dia de oração pela criação por parte do Patriarcado Ecuménico de Constantinopla, mas que agora é celebrado por toda a família ecuménica.
Durante o Tempo da Criação, unimo-nos para celebrar a boa dádiva da criação e refletir sobre o cuidado que lhe dispensamos. Essa é uma oportunidade preciosa que temos para interromper as nossas rotinas diárias a fim de contemplar a teia de vida que nos une.
À medida que a crise ambiental se aprofunda, nós cristão somos chamados a dar testemunho de nossa fé, tomando medidas ousadas para preservar a dádiva que partilhamos. Como canta o salmista: “Do Senhor é a terra e tudo o que ela contém, a órbita terrestre e todos os que nela habitam” (Salmo 24,1). Durante o Tempo da Criação, devemos perguntar-nos: Será que nossas ações honram o Senhor como Criador? Existe alguma forma de aprofundar a nossa fé, protegendo os nossos irmãos e irmãs mais vulneráveis, que sofrem as consequências diretas da degradação ambiental?
Nós convidamo-lo a juntar-se a nós numa jornada de fé que nos desafia e recompensa com novas perspetivas e laços mais profundos de amor. Unidos por um desejo sincero de proteger a criação e todos os que a partilham, damos as nossas mãos como irmãos e irmãs em Cristo, independentemente das nossas denominações. Neste Tempo da Criação, caminharemos juntos para desempenhar melhor o nosso papel como guardiões da criação.
“Bendize, ó minha alma, o Senhor! Senhor, meu Deus, vós sois imensamente grande! De majestade e esplendor vos revestis, envolvido de luz como de um manto. Vós estendestes o céu qual pavilhão” (Salmo 104,1-2).
Consigo, damos graças pela comunidade de cristãos em todo o mundo que tem levado o amor para o Tempo da Criação, e louvamos ao Criador pelas dádivas que recebemos.

Na graça de Deus,

Arcebispo Job de Telmessos, Representante Permanente do Patriarcado Ecuménico ao Conselho Mundial de Igrejas, em nome de Sua Santidade, o Patriarca Ecuménico Bartolomeu I
V. Em.ª Justin Welby, Arcebispo de Cantuária
Cardeal Peter K. A. Turkson, Presidente do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral
Dr. Olav Fykse Tveit, Secretário Geral do Conselho Mundial de Igrejas
Bispo Efraim Tendero, Secretário Geral da Aliança Mundial Evangélica
Dr. Martin Junge, Secretário Geral da Federação Luterana Mundial
Rudelmar Bueno de Faria, Secretário Geral da ACT Alliance

29/06/2018

O papa Francisco peregrino no Conselho Ecuménico das Igrejas

«Desejei vir aqui, peregrino à procura de unidade e de paz», assim resumiu o papa Francisco o estilo e as intenções da sua visita a Genebra no passado 21 de junho, por ocasião do 70º aniversário do Conselho Ecuménico das Igrejas (CEC). Desejo, peregrinação, procura, unidade e paz: estes foram os eixos de um acontecimento que o Secretário geral do CEC, o pastor luterano norueguês Olav Fykse Tveit non hesitou em definir como «pedra miliar» no caminho ecuménico. Um acontecimento em que um irmão nosso teve o dom de poder participar, como sinal da colaboração fraterna instaurada há diversos decénios entre o nosso Mosteiro [de Bose] e a CEC.
Este caminho - sublinhou o papa Francisco no discurso durante a oração ecuménica, na abertura da intensa jornada fraterna - é um «caminho que tem um meta precisa: a unidade». Por isso, o mote escolhido para a jornada - «Caminhar juntos, rezar juntos, trabalhar juntos» - foi declinado pelo papa Francisco como um «rezar, evangelizar e servir juntos». E se ao «rezar juntos» falta ainda a possibilidade de partilhar a mesa eucarística e se o «servir juntos» assumiu a caraterística operosa de uma peregrinação de justiça e de paz para os povos e as igrejas mais provadas, o convite a «evangelizar juntos» é um forte apelo às próprias raízes do movimento ecuménico e um desafio para o futuro, uma resposta à «preocupação» que habita o coração do papa Francisco e de muitos homens e mulheres empenhados na procura da unidade dos cristãos.
De facto, é a partir da consciência do escândalo de uma prática confessional e, por vezes, competitiva, concorrencial da missão que despontou o movimento ecuménico no início do século XX. Como podem os cristãos divididos pensar que é possível anunciar de modo credível o Evangelho do seu único Senhor? Assim «evangelizar juntos» não só afasta todas as tentações de proselitismo, como também e sobretudo reporta os discípulos de Cristo às palavras do seu Senhor: «todos sejam um só para que o mundo creia» (Jo 17, 21), «pelo amor que tiverdes uns para com os outros reconhecerão que sois meus discípulos» (Jo 13, 25). Evangelizar juntos, então, «é possível e agradável a Deus», como assegurou com força o papa Francisco, porque «agora já é possível caminhar segundo o Espírito».
Nenhuma cedência à mundanidade, nenhuma procura de unir as forças entre cristãos para contarmos mais, talvez «com a intenção de satisfazer algum interesse particular». Pelo contrário, a aceitação de que o ecumenismo é «trabalhar em perda... uma grande tarefa em perda», mas uma «perda evangélica, segundo o caminho traçado por Jesus».
Palpável era a sintonia dos participantes no encontro de Genebra - em representação de cerca de 350 Igrejas que são membros do CEC - com as palavras do bispo de Roma que os veio encontrar (e que, também para sublinhar este seu ministério, quis pronunciar os seus discursos em italiano): quer nos momentos fortes da oração ecuménica da manhã e do encontro de reflexão da tarde, quer nos encontros informais de permeio constatava-se um contínuo percorrer de novo com alegria e gratidão o caminho já percorrido juntos e as novas etapas de um percurso que não quer ser outro que a «vinda da Palavra» (cf. 2 Tes 2, 1) à história: uma palavra de vida plena para os homens e as mulheres do nosso tempo, a começar pelos últimos, os prediletos do Senhor.

21/06/2018

Discurso do papa Francisco por ocasião Peregrinação Ecuménica a Genebra no 70º aniversário do Conselho Mundial das Igrejas

Amados irmãos e irmãs!

Estou feliz por vos encontrar e grato pela vossa calorosa receção. Agradeço de modo particular ao Secretário-Geral, Reverendo Dr. Olav Fykse Tveit, e à Moderadora, Dra. Agnes Abuom, pelas suas palavras e por me terem convidado por ocasião do septuagésimo aniversário da criação do Conselho Mundial das Igrejas.
Biblicamente, o cômputo de setenta anos evoca a duração completa duma vida, sinal de bênção divina. Mas, setenta é também um número que traz à mente duas passagens famosas do Evangelho. Na primeira, o Senhor mandou perdoar-nos, não até sete vezes, mas «até setenta vezes sete» (Mt 18, 22). O número não pretende por certo indicar um limite quantitativo, mas abrir um horizonte qualitativo: não mede a justiça, mas alonga a medida para uma caridade desmesurada, capaz de perdoar sem limites. É esta caridade que nos permite, depois de séculos de contrastes, estar juntos como irmãos e irmãs reconciliados e agradecidos a Deus nosso Pai.
O facto de nos encontrarmos aqui deve-se também a quantos nos precederam no caminho, escolhendo a estrada do perdão e consumindo-se para responder à vontade do Senhor: que «todos sejam um só» (Jo 17, 21). Impelidos pelo desejo ardente de Jesus, não se deixaram manietar pelos nós complicados das controvérsias, mas encontraram a audácia de olhar mais além e acreditar na unidade, superando as barreiras das suspeitas e do medo. É verdade aquilo que afirmava um antigo pai na fé: «Se verdadeiramente o amor conseguir eliminar o medo e este se transformar em amor, então descobrir-se-á que o que salva é precisamente a unidade» (São Gregório de Nissa, Homilia 15 sobre o Cântico dos Cânticos). Somos os beneficiários da fé, da caridade e da esperança de muitos que tiveram, com a força desarmada do Evangelho, a coragem de inverter o sentido da história; aquela história que nos levara a desconfiar uns dos outros e a alhear-nos mutuamente, seguindo a espiral diabólica de incessantes fragmentações. Graças ao Espírito Santo, inspirador e guia do ecumenismo, o sentido mudou e ficou indelevelmente traçado um caminho novo e, ao mesmo tempo, antigo: o caminho da comunhão reconciliada, rumo à manifestação visível daquela fraternidade que já une os crentes.
Mas, o número setenta proporciona-nos um segundo motivo evangélico: lembra aqueles discípulos que Jesus, durante o ministério público, enviou em missão (cf. Lc 10, 1) e são objeto de celebração no Oriente cristão. O número destes discípulos alude ao número das nações conhecidas, elencadas nos primeiros capítulos da Sagrada Escritura (cf. Gn 10). Que sugestão nos deixa isto? Que a missão tem em vista todos os povos, e cada discípulo, para ser tal, deve tornar-se apóstolo, missionário. O Conselho Ecuménico das Igrejas nasceu como instrumento do movimento ecuménico que foi suscitado por um forte apelo à missão: como podem os cristãos evangelizar, se estão divididos entre si? Esta premente interpelação orienta ainda o nosso caminho e traduz o pedido do Senhor para permanecermos unidos a fim de que «o mundo creia» (Jo 17, 21).
Permiti-me, amados irmãos e irmãs, que, além de viva gratidão pelo empenho que dedicais à unidade, vos manifeste também uma preocupação. Esta deriva da impressão de que o ecumenismo e a missão já não aparecem tão intimamente interligados como no princípio. E todavia o mandato missionário, que é mais do que a diakonia e a promoção do desenvolvimento humano, não pode ser esquecido nem anulado. Em causa está a nossa identidade. O anúncio do Evangelho até aos últimos confins da terra é conatural ao nosso ser de cristãos. Com certeza, a maneira de exercer a missão varia segundo os tempos e lugares e, perante a tentação – infelizmente habitual – de se impor seguindo lógicas mundanas, é preciso lembrar-se de que a Igreja de Cristo cresce por atração.
Mas, em que consiste esta força de atração? Não está por certo nas nossas ideias, estratégias ou programas: não se crê em Jesus Cristo através duma recolha de consensos, nem o Povo de Deus se pode reduzir ao nível duma organização não-governamental. Não! A força de atração está toda naquele dom sublime que conquistou o apóstolo Paulo: «Conhecer a [Cristo], na força da sua ressurreição e na comunhão com os seus sofrimentos» (Flp 3, 10). Este é o nosso único motivo de glória: «o conhecimento da glória de Deus, que resplandece na face de Cristo» (2 Cor 4, 6) e que nos foi dado pelo Espírito vivificador. Este é o tesouro que nós, frágeis vasos de barro (cf. 2 Cor 4, 7), devemos oferecer a este nosso amado e atribulado mundo. Não seríamos fiéis à missão que nos foi confiada, se reduzíssemos este tesouro ao valor dum humanismo puramente imanente, ao sabor das modas do momento. E seríamos maus guardiões, se quiséssemos apenas preservá-lo, enterrando-o com medo de sermos provocados pelos desafios do mundo (cf. Mt 25, 25).
Aquilo de que temos verdadeiramente necessidade é dum novo ímpeto evangelizador. Somos chamados a ser um povo que vive e partilha a alegria do Evangelho, que louva ao Senhor e serve os irmãos, com o espírito que deseja ardentemente descerrar horizontes de bondade e beleza inauditos a quem ainda não teve a graça de conhecer verdadeiramente a Jesus. Estou convencido que, se aumentar o impulso missionário, crescerá também a unidade entre nós. Como nos primórdios o anúncio marcou a primavera da Igreja, assim a evangelização marcará o florescimento duma nova primavera ecuménica. Como nos primórdios, estreitemo-nos em comunhão ao redor do Mestre, envergonhando-nos das nossas contínuas hesitações e dizendo-Lhe com Pedro: «A quem iremos nós, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna» (Jo 6, 68).
Amados irmãos e irmãs, desejei participar pessoalmente nas comemorações deste aniversário do Conselho inclusive para reafirmar o empenhamento da Igreja Católica na causa ecuménica e encorajar a cooperação com as Igrejas-membros e com os parceiros ecuménicos. A propósito, quero deter-me um pouco, também eu, no lema escolhido para este dia: Caminhar - Rezar - Trabalhar juntos.
Caminhar sim, mas para onde? Na base do que ficou dito, sugeriria um movimento duplo: de entrada e de saída. De entrada, a fim de nos dirigirmos constantemente para o centro, reconhecendo-nos ramos enxertados na única videira que é Jesus (cf. Jo 15, 1-8). Não daremos fruto sem nos ajudarmos mutuamente a permanecer unidos a Ele. De saída, rumo às múltiplas periferias existenciais de hoje, para levarmos juntos a graça sanadora do Evangelho à humanidade atribulada. Poderíamos interrogar-nos se estamos a caminhar de verdade ou apenas em palavras, se apresentamos os irmãos ao Senhor e os temos verdadeiramente a peito, ou se estão longe dos nossos reais interesses. Poderíamos interrogar-nos também se o nosso caminho é um mero cirandar sobre os nossos passos, ou uma convicta saída pelo mundo levando-lhe o Senhor.
Rezar: como no caminho, também na oração não podemos avançar sozinhos, porque a graça de Deus, mais do que retalhar-se à medida do indivíduo, difunde-se harmoniosamente entre os crentes que se amam. Quando dizemos «Pai nosso», ressoa dentro de nós a nossa filiação, mas também o nosso ser de irmãos. A oração é o oxigénio do ecumenismo. Sem oração, a comunhão asfixia e não avança, porque impedimos que o vento do Espírito a empurre para diante. Interroguemo-nos: Quanto rezamos uns pelos outros? O Senhor rezou para sermos um só; imitamo-Lo nisto?
Trabalhar juntos: a propósito, quero reiterar que a Igreja Católica reconhece a importância particular do trabalho realizado pela Comissão Fé e Constituição e deseja continuar a contribuir para ele através da participação de teólogos altamente qualificados. A pesquisa de Fé e Constituição em ordem a uma visão comum da Igreja e o seu trabalho no discernimento das questões morais e éticas tocam pontos nevrálgicos do desafio ecuménico. De igual modo a presença ativa na Comissão para a Missão e a Evangelização, a colaboração com o Departamento para o Diálogo Inter-religioso e a Cooperação – ainda recentemente sobre o tema importante da educação para a paz –, a preparação conjunta dos textos para a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos e várias outras formas de sinergia são elementos constitutivos duma sólida e corroborada colaboração. Além disso, aprecio o papel imprescindível do Instituto Ecuménico de Bossey na formação ecuménica das jovens gerações de responsáveis pastorais e académicos de muitas Igrejas e Confissões Cristãs de todo o mundo. Há muitos anos que a Igreja Católica colabora nesta obra educativa com a presença dum professor católico na Faculdade; e cada ano tenho a alegria de saudar o grupo de alunos que realiza a sua visita de estudo a Roma. Quero também mencionar, como bom sinal de «harmonia ecuménica», a crescente adesão ao Dia de Oração pela Salvaguarda da Criação.
Além disso, o trabalho tipicamente eclesial tem um sinónimo bem definido: diakonia. É o caminho por onde podemos seguir o Mestre, que «não veio para ser servido, mas para servir» (Mc 10, 45). O serviço variado e intenso das Igrejas-membros do Conselho encontra uma expressão emblemática na Peregrinação de Justiça e de Paz. A credibilidade do Evangelho é testada pela maneira como os cristãos respondem ao clamor de quantos injustamente, nos diferentes cantos da terra, são vítimas do trágico aumento duma exclusão que, gerando pobreza, fomenta os conflitos. Os fracos são cada vez mais marginalizados, vendo-se sem pão, sem trabalho nem futuro, enquanto os ricos são sempre menos e sempre mais ricos. Sintamo-nos interpelados pelo pranto dos que sofrem e compadeçamo-nos, porque «o programa do cristão (…) é um coração que vê» (Bento XVI, Carta enc. Deus caritas est, 31). Vejamos o que é possível fazer concretamente, em vez de nos desencorajar pelo que não o é. Olhemos também para muitos dos nossos irmãos e irmãs que em várias partes do mundo, especialmente no Médio Oriente, sofrem porque são cristãos. Estejamos ao seu lado. E lembremo-nos de que o nosso caminho ecuménico é precedido e acompanhado por um ecumenismo já realizado, o ecumenismo do sangue, que nos exorta a avançar.
Encorajemo-nos a superar a tentação de absolutizar certos paradigmas culturais e de nos deixar absorver por interesses de parte. Ajudemos as pessoas de boa vontade a dar maior espaço a situações e vicissitudes que afetam grande parte da humanidade, mas ocupam um lugar demasiado marginal na grande informação. Não podemos desinteressar-nos, e devemos inquietar-nos quando alguns cristãos se mostram indiferentes face a quem passa necessidade. E mais triste ainda é a convicção de quantos consideram os seus benefícios como puros sinais de predileção divina, e não como apelo a servir responsavelmente a família humana e salvaguardar a criação. É sobre o amor ao próximo, a cada pessoa que nos está próxima, que nos interpelará o Senhor (cf. Mt 25, 31-46), o Bom Samaritano da humanidade (cf. Lc 10, 29-37). Perguntemo-nos então: que podemos fazer juntos? Se um serviço é possível, por que não projetá-lo e realizá-lo conjuntamente, começando a experimentar uma fraternidade mais intensa no exercício da caridade concreta?
Amados irmãos e irmãs, reitero-vos a minha cordial gratidão. Ajudemo-nos a caminhar, rezar e trabalhar juntos, para que, com a ajuda de Deus, progrida a unidade e o mundo acredite. Obrigado.

Centro Ecuménico - Visser't Hooft Hall, Genebra, 21 de junho de 2018

Francisco

01/06/2018

Bartolomeu no Vaticano: uma agenda comum contra o individualismo

Cerca de meia hora de conversa entre Bergoglio e o patriarca de Constantinopla que abre a sessão no Vaticano do congresso da Fundação Centesimus Annus: «Hoje uma imensa crise de solidariedade atinge o mundo, a tecnologia é o nosso deus».

«Bom dia, Santidade». «Bom dia, acho-o melhor». Entre Francisco e Bartolomeu há confiança, os gestos são os de dois irmãos que se reúnem passado algum tempo: os sorrisos, abraços, graças sobre a saúde do patriarca hospitalizado no dia 6 de maio do ano passado, no Hospital Americano de Constantinopla devido a tonturas, provavelmente causadas por vertigens.
O "feeling" entre o Papa e o primaz ortodoxo, sucessores dos apóstolos Pedro e André, estabeleceu-se muito antes do encontro privado desta manhã [26 de maio de 2018], no Vaticano, onde o patriarca participa na conferência internacional «Novas políticas e estilos de vida na era digital», Promovido pela Fundação Centesimus Annus pro Pontifice, no seu 25º aniversário. Desde a missa do início do seu pontificado a 19 de março de 2013 - pela primeira um patriarca ortodoxo esteve na Praça de São Pedro - passando pelas reuniões históricas de Jerusalém, Istambul, Assis, Roma, até a viagem a Lesbos entre os refugiados do campo de Moira, Francisco e Bartolomeu compartilharam etapas inesquecíveis do seu ministério, assinando também, a 1 de setembro de 2017, uma mensagem conjunta para o Dia Mundial da Criação, uma preocupação comum de ambos os líderes religiosos.
O encontro desta manhã aconteceu na Sala da Biblioteca do Palácio Apostólico Vaticano, onde os dois dialogaram durante cerca de 25 minutos. O tempo é pouco e o patriarca - que na quarta-feira viveu um momento ecuménico indo à Basílica dos Doze Apóstolos para venerar as relíquias dos Santos Filipe e Tiago - às 10.30 h. tem de abrir a sessão da conferência da «Centesimus Annus», que, após dois dias de trabalhos no Palácio da Chancelaria, em Roma, tem lugar no Vaticano, na presença do cardeal secretário de Estado Pietro Parolin.
O papa e o patriarca saúdam-se em frente dos jornalistas e fotógrafos na Sala do "Tronetto"; os primeiros minutos são dedicados a perguntas sobre as condições de saúde do líder ortodoxo, que também fala ao Papa sobre seus colaboradores mais próximos. No final da conversa, acontece a habitual troca de presentes. Bartolomeu traz ao Pontífice uma pequena imagem de Nossa Senhora e o Menino, um ícone de São Francisco, patrono do papa argentino, e um livro sobre o Patriarcado de Constantinopla. Depois outro pequeno presente, um sinal de carinho que vai além do formalismo: uma caixa de chocolates. Francisco sorri e brinca ao recebê-la, e responde com um presente especial, nunca antes feito a um hóspede: a recente Exortação Apostólica «Gaudete et Exsultate» sobre o tema da santidade na vida quotidiana. Bergoglio assina a cópia diante do amigo patriarca e deixa, junto com a exortação, uma reprodução em bronze da Porta Santa.
Após o encontro com o papa - que voltará a ver às 12.30 h. durante uma audiência com os membros da «Centesimus Annus» - Bartolomeo desloca-se à próxima Sala Regia para proferir o seu longo discurso (todos em Inglês) sobre o tema «Uma agenda cristã comum para o bem comum». Perto, conta ter visitado Bento XVI no mosteiro Mater Ecclesiae ontem à tarde: «Uma grande alegria»; em seguida, desenvolve a sua reflexão a partir da encíclica de João Paulo II que dá nome à Fundação, a «Centesimus Annus», assinada pelo papa polaco a 1 de maio de 1991, no centenário da «Rerum Novarum».
«O que é verdadeiramente cristã é essencialmente social», começa Bartolomeu, «a fé não se limita apenas a "alma", sem qualquer interesse pela dimensão social, mas também desempenha um papel vital no nível da sociedade. As nossas Igrejas preservaram valores elevados, um precioso património espiritual e moral e um profundo conhecimento antropológico. A Igreja de Roma tem um ensinamento social sistemático, que contém soluções para problemas difíceis no espírito do respeito pelos princípios individuais de solidariedade, subsidiariedade e bem comum ", diz ele.
Com base nestes princípios e nos vários modelos desenvolvidos, o primaz ortodoxo reitera a urgência por parte das Igrejas Católica e Ortodoxa de «enfrentar os desafios sociais e proteger a dignidade humana». Também porque, sublinha, não se pode ignorar a «imensa crise de solidariedade» entendida como «o processo em curso de "dessolidarização" que ameaça o futuro da própria humanidade» e que segue em conjunto com os inúmeros problemas económicos e sociais que afetam diretamente a «existência» do homem.
Nasce daqui a necessidade de «uma agenda cristã comum para o bem comum», cujo princípio basilar é que cada um precisa do outro. Como homens, como igreja. «Ninguém pode enfrentar sozinho», diz Bartolomeu, os desafios que marcam a contemporaneidade, sobretudo a nível económico e social, mas também no campo da política, da ecologia, da ciência e da tecnologia. Especialmente neste último ponto, o patriarca de Constantinopla não esconde sua «preocupação» diante de uma certa «autonomia» em relação às «necessidades vitais do ser humano» e ao facto de que, apesar dos numerosos apelos, continuamos a produzir «armas terríveis de destruição maciça» que trazem consigo «o risco da guerra nuclear».
«O rápido progresso da ciência e tecnologia, juntamente com suas consequências benéficas, também conduz a resultados que não promovem uma cultura de solidariedade», diz o patriarca. «A tecnologia já não está ao serviço do homem, mas é sua principal força motriz, que requer completa obediência, além de impor os seus princípios em todos os aspectos da vida. Os omnipresentes meios eletrónicos de comunicação não difundem simplesmente informações, mas também transmitem valores - os seus valores - e reformulam as nossas opiniões sobre o significado da vida, dirigem as nossas necessidades, criando assim necessidades artificiais, e abrem caminho a um futuro que é dominado por eles».
Tais conquistas tecnológicas têm o seu próprio «fascínio», de tal modo que que, na opinião comum, o progresso da tecnologia é identificado com o progresso tecnológico. «Adoramos a tecnologia e seu símbolo mais alto, o computador, como nosso deus, e ao mesmo tempo esperamos receber todos os nossos benefícios: alegria, comunicação, progresso, informação, trabalho, etc. O «homo faber» torna-se «homo fabricatus» - sublinha Bartolomeu. De facto, enfrentamos uma infinidade de problemas que não são de natureza tecnológica e não podem ser resolvidos através da acumulação de informações adicionais. A injustiça social, os divórcios, a violência, os crimes, a solidão, o fanatismo e o choque de civilizações não são causados ​​pela falta de informação e tecnologia. Vemos que alguns desses problemas estão efetivamente a crescer juntamente com o progresso tecnológico da sociedade».
Diante desse complexo panorama, «precisamos uns dos outros», reafirma Bartolomeu; precisamos «de uma mobilização comum, de esforços comuns e objetivos comuns». É crucial, neste sentido, «a contribuição das nossas Igrejas" que, promovendo «o conteúdo social do Evangelho», constroem muros contra as injustiças e os poderes «que minam a coesão social». Este é precisamente o ponto, «a coesão social», afirma o patriarca; a que foi defendida pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, assinada em 1948, definida como «o fio de Ariadne» no interior do «labirinto do pluralismo contemporâneo».
Setenta anos depois desse importante documento, parece que domina tanto um «individualismo desenfreado», feito de palavras-chave como «eu», «eu mesmo», «meu», «autonomia», «auto-realização», «auto-admiração». «Uma das tendências contemporâneas mais perigosas para uma cultura de solidariedade é o individualismo, a auto-idolatria e o auto-encerrar-se na auto-suficiência egoísta, que cria abismos entre as pessoas», observa o primaz ecuménico. «No Ocidente, a explosão de conhecimento e informação estimula o desinteresse para com as outras pessoas, bem como um espírito de individualismo e deificação da propriedade; enquanto, em outras regiões do mundo, a tecnologia coexiste facilmente com a injustiça social e o fundamentalismo religioso», acrescenta.
E conclui, exortando a olhar para cima e apostando na realização de uma «comunidade de pessoas», na qual «mente e coração, fé e conhecimento, liberdade e amor, indivíduo e sociedade, ser humano e toda a criação são reconciliados».