08/04/2020

Unidos no Amor e na Esperança

Foto de Quinsey Sablan em Unsplash
Mensagem conjunta de Páscoa 2020 de líderes cristãos em Portugal

Vivemos um tempo particular da nossa história coletiva. Súbita e inesperadamente fomos confrontados com desafios e exigências que nunca tínhamos imaginado. Ficámos privados da liberdade de circulação, impossibilitados de estar juntos e sujeitos a uma ameaça latente capaz de fazer perigar a própria vida. A pandemia do Coronavírus atingiu-nos por igual, sem exceção de classe social, económica ou religião. Percebemo-nos iguais na nossa comum humanidade e necessitados uns dos outros para ultrapassar um desafio que só poderá ser vencido com o trabalho e a união de todos. A indiferença tem dado lugar à solidariedade ativa e a defesa do valor sagrado da vida expressa-se no particular cuidado para com os mais débeis e idosos.
Damos graças a Deus pelos inúmeros exemplos de altruísmo e de profunda dedicação ao próximo a que diariamente assistimos na sociedade portuguesa, nas suas diversas áreas e em particular na área da saúde. Num contexto de dor e de tristeza, o seu testemunho com risco da própria vida, acalenta a esperança no futuro e confere um sentido ao sofrimento vivido. As nossas orações e a nossa solicitude pastoral estão com todos os que choram a perda dos seus queridos e com os que vivem com angústia as exigências do tempo presente.
A celebração da Páscoa que se avizinha e que nos congrega enquanto cristãos, remete-nos para o nosso batismo comum em Jesus Cristo. E no assumir conjunto da nossa vocação batismal redescobrimos que a identidade cristã é estar com Jesus. Neste tempo, de um modo muito profundo, percebemo-Lo presente na intimidade de Deus Pai e na comunhão plena e vivida com todos os que sofrem. Como discípulos de Cristo ressuscitado, e na rica diversidade das tradições que nos identificam, estamos conscientes da importância de estarmos cada vez mais unidos no anúncio e no testemunho do Amor de Deus.
Oramos pelos que nos governam e têm responsabilidades coletivas e apelamos a que todos os cristãos e homens e mulheres de boa vontade se unam cada vez mais, em amor e em serviço.
Oramos também para que o Tempo Pascal nos traga paz, confiança e esperança num futuro melhor.
Aleluia ! Cristo ressuscitou !
Uma Santa e Feliz Páscoa para todos!

Subscrevem a Mensagem conjunta de Páscoa (por ordem alfabética):
Dr. António Calaim – Presidente da Aliança Evangélica Portuguesa
Bispo Jorge Pina Cabral – Igreja Lusitana (Comunhão Anglicana)
Bispo D. Manuel Linda – Diocese Católica Romana do Porto
Pastor Miguel Jerónimo – Diretor Executivo da Sociedade Bíblica
Pastor Paulo Medeiros Silva – Presidente da Igreja Evangélica Presbiteriana de Portugal
Reverendo Cónego Philip Bourne – Igreja Inglesa de St. James’ Porto
Bispo Sifredo Teixeira – Igreja Evangélica Metodista Portuguesa

27/01/2020

Celebração ecuménica no Porto no âmbito da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos

A 24 de janeiro de 2020, às 21 horas, realizou-se a Celebração Ecuménica do Porto, no âmbito da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos. A notícia seguinte e as fotos que a acompanham provêm do semanário diocesano Voz Portucalense.

Decorreu na passada sexta-feira, 24 de janeiro, na Igreja Metodista do Mirante, uma Celebração Ecuménica com a presença dos hierarcas das Igrejas Cristãs do Porto. Um momento de oração organizado pela Comissão Ecuménica do Porto por ocasião da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos (18-25 jan). A Comissão Ecuménica do Porto é constituída pela Igreja Católica, Igreja Lusitana de Comunhão Anglicana, Igreja Anglicana, Igreja Metodista, Igreja Evangélica Luterana Alemã do Porto, Igreja Ortodoxa do Patriarcado de Moscovo e Igreja Ortodoxa do Patriarcado de Constantinopla.
A Igreja Metodista do Mirante, situada na Praça Coronel Pacheco, bem no centro da cidade do Porto, foi pequena para o número de participantes neste encontro de oração. Um encontro que foi precedido no domingo, 19 de janeiro, por uma oração especial conjunta, vivida em cada comunidade, afirmando a unidade dos cristãos do Porto contra o grave problema da violência doméstica. A isso se referiu D. Manuel Linda na homilia que proferiu na celebração ecuménica aproveitando para apontar duas hipóteses de temáticas sociais que podem ser objeto de uma declaração pública das Igrejas Cristã do Porto no futuro: a realidade dos sem-abrigo e a solidão.
Na sua homilia, o bispo do Porto, partindo da Leitura dos Atos dos Apóstolos proposta na oração, salientou que a “humanidade não controla a Natureza” e que não obstante a confiança na tecnologia, não é isso que que salva a humanidade, mas sim Jesus Cristo.
D. Manuel Linda referiu ainda que o exemplo de S. Paulo na leitura proclamada demonstra que “no meio do medo há luz e esperança”. E a religião deve trazer ao mundo essa “palavra de esperança” – afirmou. E num mundo onde aumenta a solidão, também entre os jovens – assinalou o bispo do Porto – é essencial abrir o coração para receber e dar, como fizeram os náufragos do texto dos Atos dos Apóstolos.
RS

25/01/2020

Roteiro Ecuménico do Porto 2020

Publicamos a seguir o Roteiro Ecuménico do Porto 2020, acompanhado do texto que a Comissão Ecuménica do Porto preparou para o a sua divulgação.

«Em cada ano, a Comissão Ecuménica do Porto (www.ecumenismoporto.org), de que fazem partes as Igrejas Católica Romana, Lusitana (Comunhão Anglicana), Metodista, Evangélica Alemã do Porto, Capelania Inglesa St James da Igreja Anglicana, Igreja Ortodoxa do Patriarcado de Moscovo e Igreja Ortodoxa do Patriarcado de Constantinopla, propõe um roteiro ecuménico para a cidade do Porto, onde de forma livre e aberta, qualquer pessoa de sensibilidade confessional diferente pode encontrar e participar em tempos de oração pela unidade, aprender a conhecer e a apreciar celebrações e outras formas de vida espiritual de outras Igrejas, em comunhão com o espírito da Carta Ecuménica para a Europa, assumida no ano 2001.
O novo Roteiro pretende proporcionar, geralmente uma vez em cada mês, novas oportunidades na dimensão celebrativa e orante, estudos bíblicos e conferências, destacando, no mês de maio, uma tertúlia sobre a Violência Doméstica “(re)agir como Cristãos”, bem como iniciativas em prol da justiça climática, tais como "Salvar os Oceanos" e a Oração Ecuménica integrada no Tempo da Criação.
Sob o lema da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos: “Trataram-nos com uma amabilidade fora do comum” (cf. Atos 28, 2), somos desafiados à abertura e participação, entendimento e acolhimento desinteressado do Outro, numa lógica de diálogo fraterno, onde a especificada das diferenças pode constituir, efetivamente, a riqueza da diversidade do corpo de Cristo».



Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos - 25 de janeiro de 2020

DIA 8

Generosidade: Receber e dar

Atos 28,8-10
O pai de Públio estava então de cama, tomado de febres e disenteria. Paulo acudiu à sua cabeceira e, pela oração e imposição de mãos, curou-o. Depois disso, todos os outros habitantes da ilha que estavam doentes vinham ter com ele e por sua vez eram curados. Eles trataram-nos com todas as honras e, quando partimos, deram-nos tudo o que era necessário.

Salmo 103,1-5
Mateus 10,7-8

Reflexão
Esta história está cheia de situações onde se dá e se recebe: Paulo recebeu benevolência fora do comum dos habitantes da ilha; Paulo dá a cura ao pai de Públio e a outros; tendo perdido tudo na tempestade, os 276 recebem muitas provisões quando partiram. Como cristãos, somos chamados a praticar esta benevolência fora do comum. Mas para dar precisamos primeiro de aprender a receber - de Cristo e de outros. Mais frequentemente do que percebemos, somos destinatários de atos de benevolência feitos por pessoas que são diferentes de nós. Esses atos também apontam para a generosidade e a cura que nos vem de nosso Senhor. Nós, que fomos curados pelo Senhor, temos a responsabilidade de passar adiante o que recebemos.

Oração
Deus, doador de vida, nós vos agradecemos pelo dom do vosso amor compassivo que nos conforta e nos fortalece. Oramos para que nas nossas Igrejas possamos sempre estar abertos para receber os dons uns dos outros. Concedei-nos um espírito de generosidade para todos ao caminharmos unidos na direção da unidade cristã. Isso vos pedimos em nome de vosso Filho que reina convosco e com o Espírito Santo. Amém

24/01/2020

Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos - 24 de janeiro de 2020

DIA 7

Conversão: Mudar os nossos corações e mentes

Atos 28,3-6
Paulo tinha juntado uma braçada de lenha seca e lançou-a ao fogo, quando o calor fez sair dela uma víbora que se prendeu na sua mão. Quando os nativos viram esse animal dependurado na mão dele, diziam uns aos outros: “Este homem é certamente um assassino; ele conseguiu escapar do mar, mas a justiça divina não lhe permite viver.” Paulo, na realidade, sacudiu o bicho no fogo, sem sofrer o menor mal. Eles contavam vê-lo inchar ou cair subitamente morto; mas, após longa espera, constataram que nada de anormal lhe acontecia. Mudando então de opinião, repetiam: “É um deus!”

Salmo 119,137-144
Mateus 18,1-6

Reflexão
Os nativos perceberam que o julgamento que tinham feito de Paulo de que ele fosse um assassino estava errado e então mudaram de opinião. O extraordinário evento com a víbora leva os nativos a ver as coisas de um novo modo, um modo que poderia prepará-los para ouvir a mensagem de Cristo através de Paulo. Na nossa busca da unidade cristã e da reconciliação somos frequentemente desafiados a repensar a maneira como avaliamos outras tradições e culturas. Isso exige uma crescente conversão a Cristo, na qual as Igrejas aprendem a superar a sua perceção das outras como uma ameaça. Como resultado, as nossas visões pejorativas dos outros serão abandonadas e seremos conduzidos mais de perto à unidade.

Oração
Deus Todo-poderoso, voltamos para vós os nossos corações arrependidos. Na nossa sincera busca pela vossa verdade, purificai-nos das nossas injustas opiniões sobre os outros e conduzi as Igrejas a um crescimento na comunhão. Ajudai-nos e deixar de lado os nossos receios, e assim a compreendermo-nos melhor uns aos outros e aos estranhos que estão em nosso meio. Isso vos pedimos em nome daquele que é o Justo, vosso amado Filho, Jesus Cristo. Ámem.

23/01/2020

Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos - 23 de janeiro de 2020

DIA 6

Hospitalidade: Demonstrar uma amabilidade fora do comum

Atos 28,1-2.7
Já fora de perigo, soubemos que a ilha se chamava Malta. Os nativos demonstraram-nos uma amabilidade fora do comum. Com efeito, acendendo uma grande fogueira, eles convidaram-nos a todos a aproximar-nos, pois começara a chover e fazia frio... Havia, nos arredores, terras que pertenciam ao primeiro magistrado da ilha, chamado Públio. Ele acolheu-nos e hospedou-nos amigavelmente durante três dias.

Salmo 46
Lucas 14,12-24

Reflexão
Depois dos traumas e conflitos da tempestade no mar, o cuidado prático oferecido pelos habitantes da ilha foi entendido como uma amabilidade fora do comum por aqueles que estavam encharcados na praia. Tal amabilidade demonstra a nossa humanidade comum. O Evangelho ensina-nos que quando cuidamos daqueles que estão em sofrimento estamos a mostrar amor pelo próprio Cristo (cf. Mateus 25,40). Além disso, quando mostramos uma bondade amorosa para com os fracos e desvalidos estamos a sintonizar o nosso coração com o coração de Deus, no qual os pobres têm um lugar especial. Acolhendo os que vêm de fora, sejam eles pessoas de outras culturas e crenças, imigrantes ou refugiados, estamos ao mesmo tempo a amar o próprio Cristo e a amar como Deus ama. Como cristãos, somos chamados a ir adiante na fé e a alcançá-los com o amor de Deus que é para todos, mesmo para aqueles que temos dificuldade de amar.

Oração
Deus do órfão, da viúva e do estrangeiro, colocai no nosso coração um profundo sentido de hospitalidade. Abri os nossos olhos e corações quando nos pedis para vos alimentar, vos vestir e vos visitar. Que as nossas Igrejas possam participar na erradicação da fome, da sede, do isolamento e da superação das barreiras que não nos permitem acolher a todos. Isso vos pedimos em nome de vosso Filho, Jesus, que está presente nos mais pequenos dos nossos irmãos e irmãs. Amém.

22/01/2020

Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos - 22 de janeiro de 2020

DIA 5

Fortalecimento: Partilhar o pão para a viagem

Atos 27,33-36
Enquanto se esperava o dia, Paulo exortou todos a se alimentarem, dizendo: “É hoje o décimo quarto dia que passais na expectativa, sem comer, e ainda não comestes nada. Torno a dizer, nenhum de vós perderá um só cabelo de sua cabeça”. Dizendo isto, ele tomou o pão, deu graças a Deus na presença de todos, partiu-o e pôs-se a comer. Todos então, recuperando a coragem, puseram-se também a comer.

Salmo 77
Marcos 6,30-44

Reflexão
O convite de Paulo para comerem é uma exortação para que os que estavam no barco se fortalecessem para o que viria adiante. Esse ato de tomar o pão marca uma mudança de atitude, dado que os que estavam no navio passam do desespero à coragem. De modo semelhante, a Eucaristia ou Ceia do Senhor providencia para nós alimento para a nossa jornada e nos reorienta para a vida em Deus. Somos fortalecidos. A partilha do pão – no coração da vida e do culto da comunidade cristã – edifica-nos quando nos comprometemos a servir como cristãos. Aguardamos o dia em que todos os cristãos poderão partilhar a mesma mesa da Ceia do Senhor e se fortalecer a partir de um mesmo pão e de um mesmo cálice.

Oração
Deus Amoroso, o vosso Filho Jesus Cristo partiu o pão e partilhou o cálice com os seus amigos na véspera da sua Paixão. Queremos crescer juntos em comunhão mais próxima, seguindo o exemplo de Paulo e dos primeiros cristãos. Dai-nos força para construir pontes de compaixão, solidariedade e harmonia. Inspirados pelo Espírito Santo, isso vos pedimos em nome de vosso Filho, que dá a sua vida para que possamos viver. Amém.

21/01/2020

Semana de Oração para a Unidade dos Cristãos - 21 de janeiro de 2020

DIA 4

Confiança: Não tenhas medo, crê

Atos 27,23-26

Com efeito, esta noite mesmo, um anjo do Deus a quem pertenço e a quem sirvo apresentou-se a mim e disse-me: “Não tenhas medo, Paulo: é necessário que compareças diante do imperador; e Deus também te concede a vida de todos os teus companheiros de travessia.” Coragem, pois, meus amigos! Eu tenho confiança em Deus: sucederá como ele me disse! Devemos naufragar em alguma ilha.

Salmo 56
Lucas 12,22-34

Reflexão
No meio da tempestade o encorajamento e a esperança de Paulo contrastavam com o medo e o desespero dos seus companheiros de viagem. O convite para em conjunto sermos discípulos de Cristo também traz um sinal de contradição. Num mundo violentamente dividido com temores, somos chamados a ser testemunhas de esperança, colocando a nossa confiança na providência amorosa de Deus. A experiência cristã mostra-nos que Deus escreve certo por linhas tortas. E sabemos, apesar de todas as previsões, que não nos vamos afogar ou ficar perdidos porque o amor fiel de Deus permanece para sempre.

Oração
Deus Todo-poderoso, o nosso sofrimento pessoal leva-nos a chorar de dor e encolhemo-nos de medo quando experimentamos a doença, a ansiedade ou a morte daqueles que amamos. Ensinai-nos a confiar em vós. Que as Igrejas a que pertencemos sejam sinais do vosso cuidado providencial. Fazei de nós verdadeiros discípulos do vosso Filho, que nos ensinou a ouvir a vossa Palavra e a servir uns aos outros. Confiantes vos pedimos isso em nome do vosso Filho e pelo poder do Espírito Santo. Amém.

20/01/2020

Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos - 20 de janeiro de 2020

DIA 3

Esperança: Mensagem de Paulo

Atos 27,22.34
Mas agora eu convido-vos a manter a coragem; pois nenhum de vós perderá a vida, somente o navio se perderá... nenhum de vós perderá um cabelo sequer da sua cabeça.

Salmo 27
Mateus 11,28-30

Reflexão
Como cristãos que pertencem a Igrejas e a tradições que não estão completamente reconciliadas entre si, ficamos frequentemente desanimados pela falta de progresso na direção da unidade visível. De facto, alguns desistiram de toda a esperança e veem a unidade como um ideal inatingível. Outros nem sequer veem a unidade como uma parte necessária da sua fé cristã. Ao orarmos por esse dom da unidade visível, façamos isso com firmeza de fé, paciência insistente e esperança animadora, confiando na amorosa providência de Deus. A unidade está na prece do Senhor pela sua Igreja e ele acompanha-nos nessa jornada. Não ficaremos perdidos.

Oração
Deus de misericórdia, perdidos e desanimados, voltamo-nos para vós. Colocai em nós o vosso dom da esperança. Que as nossas Igrejas tenham esperança e trabalhem pela unidade pela qual o vosso Filho orou na véspera da sua Paixão. Isso vos pedimos através dele, que vive e reina convosco e com o Espírito Santo para sempre. Amém.

19/01/2020

Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos - 19 de janeiro de 2020

DIA 2

Iluminação: Buscar e apresentar a Luz de Cristo

Atos 27,20
Desde há vários dias nem o sol nem as estrelas apareciam; a tempestade, de uma violência pouco comum, continuava perigosa: doravante, toda a esperança de sermos salvos nos desamparava.

Salmo 119,105-110
Marcos 4,35-41

Reflexão
Cristo é a nossa luz e o nosso guia. Sem a luz e a orientação de Cristo, ficamos desorientados. Quando os cristãos perdem Cristo de vista, ficam assustados e divididos entre si. Além disso, muitas pessoas de boa vontade fora da Igreja ficam incapazes de ver a luz de Cristo porque no meio das nossas divisões refletimos menos claramente essa luz ou, às vezes, bloqueamo-la completamente. À medida que buscamos a luz de Cristo, aproximamo-nos cada vez mais uns dos outros e assim contemplamos essa luz com mais clareza, tornando-nos realmente um sinal de Cristo, a luz do mundo.

Oração
Deus, a vossa palavra é luz para os nossos passos e sem vós ficamos perdidos e desorientados. Iluminai-nos para que, através da vossa palavra, possamos seguir pelo vosso caminho. Que as nossas Igrejas busquem intensamente a vossa presença orientadora, consoladora e transformadora. Dai-nos a honestidade de que precisamos para reconhecermos quando tornamos difícil para outros a visão da vossa luz e a graça de que necessitamos para partilhar essa luz com outros. Isso vos pedimos em nome de vosso Filho, que chamou a nós, seus seguidores, para sermos luz para o mundo. Amém.

18/01/2020

Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos - 18 de janeiro de 2020

DIA 1 

Reconciliação: Atirar a carga ao mar

Atos 27,18-19.21
No dia seguinte, como fossemos sempre violentamente sacudidos pela tempestade, atirou-se carga ao mar e, no terceiro dia, com as próprias mãos, os marinheiros deitaram à água os apetrechos do navio... Há muito tempo que não comíamos nada, quando Paulo, de pé no meio deles, lhes disse: Estais a ver, meus amigos, tinha sido melhor terdes seguido o meu conselho, não deixar Creta e evitar assim estes prejuízos e perdas.

Salmo 85
Lucas 18,9-14

Reflexão
Como cristãos de diferentes Igrejas e tradições, temos infelizmente, ao longo dos séculos, acumulado muita bagagem que consiste em mútua desconfiança, amargura e suspeita. Agradecemos ao Senhor pelo nascimento e crescimento do movimento ecuménico no século passado. O nosso encontro com cristãos de outras tradições e a nossa oração comum pela Unidade dos Cristãos animam-nos a buscar reciprocamente o perdão, a reconciliação e a aceitação. Não podemos permitir que a bagagem do nosso passado nos impeça de nos aproximarmos cada vez mais uns dos outros. É vontade do Senhor que deixemos isso de lado, para aí dar lugar a Deus!

Oração
Deus misericordioso, libertai-nos das dolorosas lembranças do passado que ferem a nossa  vida cristã compartilhada. Conduzi-nos à reconciliação para que, pela força do Espírito Santo, possamos superar o ódio com amor, a ira com gentileza e a suspeita com confiança. Isso vos pedimos em nome de vosso amado Filho, nosso irmão Jesus. Amém

16/01/2020

Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos no Porto



A Comissão Ecuménica do Porto promove a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, com uma série de iniciativas que visam fortalecer o caminho da unidade desejado por Jesus Cristo, este ano sob o tema “Trataram-nos com uma amabilidade fora do comum” Atos 28, 2, seguindo as propostas celebrativas e de oração, este ano preparadas pelas Igrejas da Ilha de Malta.
Perante a gravidade da violência doméstica, algo a que a consciência social reage fortemente, os “hierarcas” das Igrejas que integram a Comissão Ecuménica do Porto: Igreja Lusitana de Comunhão Anglicana, Igreja Anglicana, Igreja Metodista, Igreja Evangélica Luterana Alemã do Porto, Igreja Ortodoxa do Patriarcado de Moscovo, Igreja Ortodoxa do Patriarcado de Constantinopla acordaram um gesto de repúdio desse género de violência e de invocação do Espírito de Deus para que conceda às famílias o dom da paciência, do respeito e da paz. E combinou-se um dia comum para todos: dia 19 de janeiro para que em todas as celebrações nas várias confissões cristãs seja realizada uma oração própria e se possível a problemática seja refletida nas homilias, sermões, reflexões e grupos.

Oração sobre a Violência Doméstica
Na Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos 2020

Dentro da semana em que oramos pela unidade de todos os cristãos, pedimos ao nosso Deus que proteja todas as famílias da violência doméstica e ampare aquelas que vivem este sofrimento dentro de suas portas.
É a família que nos sustenta, nos orgulha e nos realiza. Normalmente, amamos a nossa família com o mesmo amor com que nos amamos a nós próprios...
Hoje, oramos por uma família que se define, se constrói e se une pelo Dom que Deus faz de Si próprio no nosso amor.
Oramos por um amor livre, mas comprometido;
Amor gratuito e que também sabe receber;
Amor intenso, mas equilibrado;
Amor apaixonado e ao mesmo tempo consciente...
Oramos por um amor mais forte do que a fraqueza,
Mais entregue do que pedido,
Mais doado do que um direito.
O Filho de Deus encarnado ensina-nos que todos merecemos ser amados assim. E os outros também merecem ser assim amados por nós.
Hoje pedimos a Deus, Pai de todos nós, pelo seu Filho jesus Cristo, no Amor do Espírito Santo, que a violência não entre nas nossas casas e todos vivam em paz.
Ámen.

10/01/2020

Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos (18 a 25 de janeiro de 2020)

«Trataram-nos com uma amabilidade fora do comum»
(At 27,18 - 28,10) 

Os materiais para a Semana de Oração pela Unidade Cristã de 2020 foram preparados pelas Igrejas cristãs em Malta e Gozo (Cristãos Unidos em Malta). Em 10 de fevereiro, muitos cristãos em Malta celebram a festa do naufrágio de São Paulo, destacando e agradecendo a chegada da fé cristã nessas ilhas. A leitura de Atos dos Apóstolos usada na festa é o texto escolhido para a Semana de Oração deste ano.
A história começa com Paulo a ser levado para Roma como prisioneiro (At 27,1ss). Paulo está preso, mas mesmo numa viagem que se torna perigosa, a missão de Deus continua através dele.
Essa narrativa é um clássico drama da humanidade confrontada com o aterrorizante poder dos elementos da natureza. Os passageiros do navio estão expostos às forças do mar e das poderosas tempestades que se erguem ao seu redor. Essas forças levam-nos a um território desconhecido, onde estão perdidos e sem esperança.
As 276 pessoas a bordo do navio são divididas em grupos distintos. O centurião e seus soldados têm poder e autoridade mas dependem da perícia e da experiência dos marinheiros. Embora todos estejam assustados e vulneráveis, os prisioneiros são os mais vulneráveis de todos. As suas vidas são consideradas dispensáveis, eles estão em risco de uma execução sumária (cf. 27,42). À medida que a história se desenvolve, sob pressão e temendo por suas vidas, vemos desconfiança e suspeita a ampliar as divisões entre os diferentes grupos.
Notavelmente, porém, Paulo ergue-se como um centro de paz no tumulto. Ele sabe que a sua vida não é governada por forças indiferentes ao seu destino, mas está segura nas mãos do Deus a quem ele pertence e serve (cf. 27,23). Por causa da sua fé, ele está confiante de que se erguerá diante do imperador em Roma, e na força da sua fé pode erguer-se diante dos seus companheiros de viagem e dar graças a Deus. Todos estão encorajados. Seguindo o exemplo de Paulo, eles partilham pão, unidos numa nova esperança e confiando nas suas palavras.
Isso indica o tema principal dessa passagem: a providência divina. Foi decisão do centurião navegar com mau tempo, mas ao longo da tempestade os marinheiros tomam decisões sobre como lidar com o navio. Mas ao final os seus próprios planos são alterados e, somente permanecendo juntos e permitindo que o navio naufrague, eles chegam a ser salvos pela divina providência. O navio e toda a sua valiosa carga perder-se-ão, mas todas as vidas serão salvas: “nenhum de vós perderá um cabelo sequer da vossa cabeça” (cf. 27,34; Lc 21,18). Na nossa busca da unidade cristã, entregar-nos à divina providência vai exigir deixar de lado muitas coisas a que estamos profundamente ligados. O que importa para Deus é a salvação de todas as pessoas.
Esse grupo de pessoas diversas e em conflito desembarca numa ilha (cf 27,26). Tendo sido jogados juntos no mesmo navio, chegam ao mesmo destino, onde a sua unidade humana se manifesta na hospitalidade que recebem dos nativos da ilha. Ao unirem-se ao redor do fogo, cercados por um povo que nem os conhece nem os compreende, as diferenças de poder e posição social esvaem-se. Os 276 não estão mais na dependência de forças indiferentes, mas envolvidos pela amorosa previdência de Deus, que se mostra presente através de um povo que lhes demonstra uma “benevolência fora do comum” (cf. 28,2). Com frio e molhados, eles podem aquecer-se e secar perto do fogo. Com fome, recebem comida. São abrigados até que seja seguro para eles continuar a viagem.
Hoje muitas pessoas estão a enfrentar terrores semelhantes nesses mesmos mares. Os mesmos lugares mencionados no texto lido (cf. 27,1; 28,1) também fazem parte das histórias de migrantes de tempos modernos. Em outras partes do mundo muitos outros estão fazendo jornadas igualmente perigosas por terra e pelo mar para escapar de desastres naturais, guerra e pobreza. As suas vidas também estão expostas a forças imensas e friamente indiferentes - não apenas naturais, mas também políticas, económicas e humanas. Essa indiferença humana assume várias formas: a indiferença dos que vendem lugares em barcos inadequados para pessoas desesperadas; a indiferença que leva à decisão de não enviar barcos de socorro; a indiferença que faz mandar embora barcos de imigrantes. Isso são apenas alguns exemplos. Como cristãos unidos encarando as crises da migração, essa história desafia-nos: apoiamos as frias forças da indiferença, ou mostramos “benevolência fora do comum” e tornamo-nos testemunhas da amorosa providência de Deus para todas as pessoas?
A hospitalidade é uma virtude muito necessária na nossa busca da unidade cristã. É uma prática que nos leva a uma maior generosidade para os necessitados. As pessoas que mostraram benevolência fora do comum a Paulo, e os seus companheiros não conheciam ainda Cristo, mas mesmo assim é através da sua benevolência fora do comum que um povo dividido vai ficando unido. A nossa própria unidade cristã será descoberta não apenas ao mostrarmos hospitalidade de uns para os outros, embora isso seja muito importante, mas também através de encontros amigáveis com aqueles que não partilham a nossa língua, cultura ou fé.
Em tais viagens tempestuosas e encontros casuais, a vontade de Deus para a Igreja e para todas as pessoas será cumprida. Como Paulo proclamará em Roma, a salvação de Deus foi enviada a todos os povos (cf. At 28,28).
As reflexões para os oito dias e a celebração serão baseadas no texto dos Atos dos Apóstolos. Os temas para os oito dias são:
Dia 1: Reconciliação: Atirar a carga ao mar.
Dia 2: Iluminação: Buscar e apresentar a luz de Cristo.
Dia 3: Esperança: Mensagem de Paulo
Dia 4: Confiança: Não tenhas medo, crê.
Dia 5: Fortalecimento: Partilhar o pão para a viagem.
Dia 6: Hospitalidade: Demonstrar uma amabilidade fora do comum.
Dia 7: Conversão: Mudar os nossos corações e mentes
Dia 8: Generosidade: Receber e dar.

Porto: Gesto ecuménico de repúdio da violência doméstica

D. Manuel Linda, Bispo do Porto, deu a conhecer, a 3 de janeiro, na sua conta na rede social Tweet, o gesto acordado com as restantes Igreja Cristãs que integram a Comissão Ecuménica do Porto: «As Igrejas Cristãs do movimento ecuménico do Porto [...] combinaram comigo um gesto de repúdio da violência doméstica: uma oração a 19/01, início da Semana da Unidade dos Cristãos».

A 10 de janeiro, o P. Mário Henrique Melo, presidente da Comissão Diocesana para o Ecuménico, prestou declarações sobre o assunto à Agência Ecclesia. Assim refere a notícia da referida Agência:

«As comunidades cristãs do Porto, entre elas a Igreja Católica, vão rezar em conjunto, no próximo dia 19, contra a violência doméstica, num gesto que vai unir as Igrejas Católica, Lusitana, Anglicana, Metodista, Luterana e Ortodoxa.
O responsável pela Comissão Ecuménica Diocesana do Porto (Igreja Católica) disse hoje à Agência ECCLESIA que a iniciativa de “repúdio contra a violência doméstica” foi uma “decisão dos hierarcas, todos juntos”, que se vai concretizar numa oração comum nas Missas e celebrações desse dia, durante a semana anual dedicada à Unidade dos Cristãos.
“Queremos associar-nos com a nossa oração, com a nossa sensibilidade, das nossas comunidades, para ver se contribuímos de alguma forma para que isso se resolva. Há de ter a sua importância na sensibilização, na educação, é essa a intenção”, explica o padre Mário Henrique Melo.
O sacerdote salientou que as Igrejas Cristãs que integram o movimento ecuménico no Porto querem unir-se “numa oração comum ao mesmo Deus”, num sinal de comunhão e “contra um problema que é evidente na sociedade” como a violência doméstica.
“É muito importante que as Igrejas Cristãs se unam não só por motivos religiosos, mas também por motivos que defendem valores. Nós partilhamos valores, não partilhamos só a fé”, assinalou.
O padre Mário Henrique Melo explica que a oração comum que vai ser lida nas Igrejas Cristãs – nas Missas Católicas, durante o momento da ação de graças – “é uma oração comprometida”, uma vez que a violência doméstica “se manifesta de múltiplas formas”, inclusive nas famílias cristãs».

Juntamente com uma mensagem de 6 de janeiro, dirigida por D. Manuel Linda aos padres da diocese do Porto, seguia a referida oração:

«Dentro da semana em que rezamos pela unidade de todos os cristãos, pedimos ao nosso Deus que proteja todas as famílias da violência doméstica e ampare aquelas que vivem este sofrimento dentro de suas portas. 
É a família que nos sustenta, nos orgulha e nos realiza. Normalmente, amamos a nossa família com o mesmo amor com que nos amamos a nós próprios... 
Hoje, rezamos por uma família que se define, se constrói e se une pelo Dom que Deus faz de Si próprio no nosso amor. Assim: 
Rezamos por um amor livre, mas comprometido; 
Amor gratuito e que também sabe receber; 
Amor intenso, mas equilibrado; 
Amor apaixonado e ao mesmo tempo consciente... 
Rezamos por um amor mais forte do que a fraqueza, 
Mais entregue do que pedido, 
Mais doado do que um direito. 
O Filho de Deus encarnado ensina-nos que todos merecemos ser amados assim. E os outros também merecem ser assim amados por nós. 
Hoje pedimos a Deus, Pai de todos nós, pelo seu Filho jesus Cristo, no Amor do Espírito Santo, que a violência não entre nas nossas casas e todos vivam em paz. Ámen».

31/08/2019

Tempo da Criação 2019

De 1 de setembro a 4 de outubro, os cristãos em todo o mundo unem-se na ação e na oração pela criação. É o “Tempo da Criação”, celebrado em todas as partes do globo.

Remetemos para a página web da iniciativa Tempo da Criação e da Rede Cuidar da Casa Comum, para a Nota da Comissão Episcopal da Pastoral Social e Mobilidade Humana sobre o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação (1 de setembro), e deixámos o Convite dos líderes das várias confissões cristãs à participação no Tempo da Criação.


Caros irmãos e irmãs em Cristo,

“Vou fazer uma aliança convosco e com vossa posteridade, assim como com todos os seres vivos que estão convosco... na terra” (Génesis 9, 9-10).

Nós somos parte de uma teia de vida maravilhosamente complexa e única, tecida pelas mãos de Deus. Todos os anos, de 1 de setembro a 4 de outubro, a família cristã celebra a boa dádiva da criação. Essa comemoração global teve início em 1989, com o reconhecimento do dia de oração pela criação por parte do Patriarcado Ecuménico de Constantinopla, sendo hoje adotada por toda a comunidade ecuménica.
Durante o Tempo da Criação, unimo-nos como uma só família em Cristo, celebrando os elos que partilhamos uns com os outros e com “todo os seres vivos da Terra” (Génesis 9, 10). A família cristã celebra o Tempo da Criação com oração, refletindo sobre como habitar a nossa casa comum de forma mais sustentável e fazendo ouvir sua voz na esfera pública.
Neste Tempo da Criação, oferecemos as nossas reflexões acerca da própria teia de vida, na esperança de que possamos gerar maior contemplação e respostas mais profundas entre nós, irmão e irmãs. Nós fazemo-lo em espírito ecuménico, reconhecendo que a criação foi entregue como dádiva a todos nós e que somos chamados a partilhar a responsabilidade de a proteger.
As Escrituras iniciam-se com a afirmação divina de que tudo na criação é “muito bom” e, como guardiões da criação de Deus, nós somos chamados a proteger e cultivar essa dádiva (Génesis 1, 28. 30; Jeremias 29, 5-7). Cada espécie e, de facto, toda a criação é preciosa, pois foi feita por Deus. Tudo reflete um aspeto de Deus. “Ó Senhor, quão variadas são as vossas obras! Todas feitas com sabedoria, a terra está cheia das coisas que criastes” (Salmo 104, 24).
É por isso que lamentamos o facto de as criaturas de Deus estarem a desaparecer da Terra num ritmo que mal podemos entender. De humildes insetos a majestosos mamíferos, de plânctones microscópicos a árvores imponentes, plantas e animais do domínio de Deus estão a extinguir-se, para nunca mais ser vistos novamente.
Essa devastação é, em si, uma trágica perda. Nós contemplamos essa perda e pedimos que ela tenha fim. Também oramos por justiça, pois os mais vulneráveis dentre nós são os que mais sofrem com o desfazer da teia de vida. A nossa fé pede-nos que respondamos a essa crise com a urgência da clareza moral.
Nós incentivamos toda a família cristã a juntar-se a nós neste momento especial de oração, reflexão e ousadia para preservarmos a criação em toda a sua complexidade e especificidade. Este ano, em especial, haverá oportunidade de unirmos as nossas vozes em ocasiões como o Congresso Mundial para Conservação da Natureza em junho, a Cimeira climática da ONU em setembro, o Sínodo da Amazónia em outubro, e a conferência da ONU por causa das mudanças climáticas em novembro.
Como canta o salmista: “Do Senhor é a terra e tudo o que ela contém, a órbita
terrestre e todos os que nela habitam” (Salmo 24, 1). Na esperança nascida da graça, oramos para que o Senhor, que é o nosso Criador, Sustentáculo e Redentor, toque os nossos corações e a família humana neste Tempo da Criação.

Na graça de Deus,

Membros do Comité Consultivo do Tempo da Criação:
Bispo Marc Andrus, Diocese Episcopal da Califórnia

Rev. Ed Brown, Cuidado da Criação e Catalisador de Lausanne para o Cuidado da Criação
Dr. Celia Deane-Drummond, Diretora, Instituto de Pesquisa Laudato Si’,
Campion Hall, Universidade de Oxford, Reino Unido
Monsenhor Bruno-Marie Duffé, Secretário, Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento
Humano Integral no Vaticano
Rev. Norm Habel, Projeto Tempo da Criação, Adelaide
Bispo Nick Holtam, Bispo de Salisbury, Presidente do Grupo de Trabalho Ambiental da Igreja da Inglaterra
Pe. Heikki Huttunen, Secretário Geral, Conferência das Igrejas Europeias
Dr. Hefin Jones, Comitê Executivo, Comunhão Mundial das Igrejas Reformadas
Serafim Kykotis, Arcebispo da Igreja Ortodoxa Grega em Zimbábue e Angola
Bispo Mark Macdonald, Bispo Anglicano de Nativos Indígenas, Igreja Anglicana do Canadá
Pe. Martin Michalíček, Secretário Geral, Conselho das Conferências Episcopais da Europa
Ms. Necta Montes, Secretária Geral, Federação Mundial de Alunos Cristãos
Irmã Patricia Murray, Secretária Executiva, União Internacional de Superioras Gerais
Dr. Alexandros K. Papaderos, Conselheiro do Patriarcado Ecuménico de Constantinopla
Dr. Paulo Ueti, Conselheiro Teológico e Diretor Regional da América Latina da Aliança Anglicana
Dr. Ruth Valerio, Diretora Global de Advocacia e Influência, Tearfund

27/07/2019

Morrer por Kiev? Um trágico duelo eclesial


Irresolúvel. É este, por agora, o nosso “diagnóstico” – depois de termos escutado in loco as partes contrapostas – do puzzle das Igrejas ortodoxas ucranianas, em que a maioritária (IOU), ligada ao Patriarcado de Moscovo, liderado por Kirill, considera “cismática” a recém-nascida e autocéfala Igreja ortodoxa da Ucrânia (IODU), abençoada pelo Patriarcado de Constantinopla, liderado por Bartolomeu, mas já ameaçada pelo autoproclamado “patriarca” de Kiev, Filaret, se bem que tenha sido patrocinador, juntamente com o presidente Petro Poroshenko, da “independência” eclesial ucraniana.

As etapas do cisma

Com uma equipa de Protestantesimo (Raidue), dirigida pelo realizador Paolo Emilio Landi, estivemos em Kiev, de 22 a 25 de junho, para compreendermos melhor os intrincados acontecimentos: já muito se escreveu sobre eles em Confronti e aqui o recapitulámos em flash.
9/4/2018: Poroshenko desloca-se ao Fanar, a residência em Istambul dos patriarcas de Constantinopla, para pedir a concessão da autocefalia da Igreja ucraniana. A 19, a Verkhovna Rada (Parlamento de Kiev) apoia a proposta.
31/8: Kirill, acompanhado pelo metropolita de Volokolamsk, Hilarion, “ministro” dos negócios estrangeiros do Patriarcado russo, chega ao Fanar para reafirmar o “não” seco da Igreja russa à hipotética autocefalia. Bartolomeu permanece vago.
7/9: O Fanar anuncia o envio de dois dos seus bispos a Kiev para preparar a concessão da autocefalia.
14/9: O Santo Sínodo de Moscovo reconhece que a Igreja de Kiev é também a Igreja mãe da Igreja russa, mas recorda que em 1686 Constantinopla confiou a este Sínodo a metrópole de Kiev; o Fanar não pode, pois, interferir nos seus assuntos internos. Se Bartolomeu prosseguir com a “independência” ucraniana, Moscovo suspenderá a sua participação em Assembleias e comissões presididas ou copresididas por representantes do Patriarcado de Constantinopla; e interromperá totalmente a comunhão eucarística com ele. E precisa: no país só é canónica a Igreja ortodoxa ucraniana (IOU), liderada pelo metropolita Onufriy de Kiev, ligada a Moscovo.
15/9: O arcebispo Job de Telmessos (Fanar) reafirma: Constantinopla tem o direito de proclamar a autocefalia da Ucrânia, como nos séculos XIX e XX proclamou a das Igrejas da Roménia, Sérvia, Bulgária.
11/10: Bartolomeu e o seu Sínodo decidem: 1) “avançar” em direção à “independência” ucraniana; 2) restabelecer nos seus lugares hierárquicos Makariy Maletich (da pequena e já existente Igreja autocéfala ucraniana) e Filaret Denisenko (o autoproclamado “patriarca” de Kiev, reduzido ao estado laical em 1992 e em 1997 excomungado pelo Santo Sínodo russo, do qual tinha, contudo, feito parte durante tantos anos); 3) revogar o vínculo jurídico da carta sinodal de 1686.
15/10: O Santo Sínodo de Moscovo: 1) interrompe a comunhão eucarística com Constantinopla (teologicamente, a proclamação do cisma); 2) reivindica a Ucrânia como seu território canónico; 3) recusa a revogação da carta de 1686; 4) exprime desconcerto pela reabilitação do “cismático” senhor Filaret.
15/12: Em Kiev, realiza-se o “Concílio da reunificação” entre a Igreja de Makariy e a Igreja de Filaret. É criada a Igreja ortodoxa da Ucrânia (IODU), autocéfala, e é eleito como seu primaz Epifaniy. Dos 90 bispos da IOU, só dois entram nela. O embaixador dos EUA em Kiev aplaude a nova Igreja. O Kremlin cala-se.
5/1/2019: Bartolomeu, na presença de Proshenko, assina o tomos – decreto sinodal – da autocefalia da IODU. E a 6 entrega-o a Epifaniy. Para Moscovo o cisma está consumado.

A palavra à Igreja ucraniana pró-russa
Numa pequena capela na periferia de Kiev, encontramos o arcipreste Nikolay Danilevich, porta-voz da IOU. Fala um pouco de italiano e um pouco de russo:

«Até 1992, neste país havia, na prática, uma só Igreja ortodoxa, inserida num exarcado do Patriarcado de Moscovo. Filaret era metropolita de Kiev: este e outros, depois do colapso da URSS, queriam absolutamente a autocefalia. A Igreja russa não era, por si mesma, contrária à hipótese; mas relevava: “A situação agora está muito confusa; é preciso esperar”.
Mas ele prosseguiu, apoiando o autoproclamado Patriarcado de Kiev de que em 1995 seria eleito titular. Uma realidade não canónica, como o era a pequena Igreja de Makariy… Com o assim chamado “Concílio de reunificação”, abençoado pelo Fanar, estas duas Igrejas fundiram-se e formaram a IODU. A 5 de janeiro, Bartolomeu deu-lhe a independência canónica. Mas a IOU não entrou nesta nova Igreja, para nós cismática. E até agora nenhuma das 14 Igrejas ortodoxas autocéfalas a reconheceu como a 15ª Igreja autocéfala. Ela tem cerca de 4.000 paróquias; a nossa, 12.500.

Não se misturam demasiado, nestes acontecimentos, questões religiosas e políticas?

Certamente que sim. Poroshenko esteve presente em todas as etapas que conduziram à autocefalia. Foi o Fanar que a defendeu. Geria o “Concílio” de dezembro. Talvez esperasse que este seu empenho, juntamente com a retórica nacionalista antirrussa, o conduzisse à vitória nas eleições presidenciais de há dois meses [a segunda volta realizou-se a 21 de abril, ndt]; mas perdeu-as, e venceu-as Volodymyr Zelenskij. Em suma, a instrumentalização política da religião não funcionou. Além disso, a Igreja não é um departamento do Estado e não está vinculada às suas ideologias. Nós não estamos unidos nem contra o Leste nem contra o Oeste.

Porque é que refutam o método do Fanar para a concessão da autocefalia?

Porque conduz ao cisma, como demonstra o que aconteceu a 20 de junho. Flaret, apesar dos veementes protestos da IODU, convocou naquele dia o seu próprio Concílio local para proclamar que o “Patriarcado de Kiev”, de que se proclama titular, continua a existir; trata-se de um cisma no cisma da Igreja autocéfala! De qualquer modo, nós não reconhecemos como válidos os sacramentos da IODU: se uma pessoa nela batizada vem até nós, rebatizamo-la. 

Padre Nikolay, como se sai deste imbróglio?
Não sou profeta e não sei como acabará. Muitas Igrejas ortodoxas locais (=autocéfalas) propõem que se celebre uma Sinassi – cimeira dos vários primazes –, ou um Concílio ortodoxo para resolver uma questão que interpela toda a Ortodoxia. Os responsáveis da “independência” ucraniana têm de vir ao Concílio e arrepender-se do que fizeram. Esperamo-los de braços abertos. Esquecemos as suas más palavras contra nós».


A palavra à nova Igreja autocéfala 

Brilham ao pôr-do-sol as cúpulas douradas do mosteiro de São Miguel, onde encontramos o arcebispo Yevstratiy, porta-voz da IODU.

«O que é que aconteceu na Ucrânia nos últimos 30 anos?
Temos uma ferida e é preciso tempo para a curar.
Antes do “Concílio da reunificação” de dezembro aqui havia três Igrejas ortodoxas; depois duas uniram-se, enquanto a Igreja pró-russa ficou de fora. Em 1991 foi proclamada a independência da Ucrânia. Mas o Patriarcado de Moscovo ainda crê que a Ucrânia não é um Estado real mas só uma parte da Grande Rússia. Tem uma mentalidade imperial… Em nós, o sentimento religioso e o sentimento nacional estão muito entrelaçados: como há uma Igreja autocéfala na Roménia, na Sérvia, na Bulgária… porque é que Moscovo não quer uma Igreja autocéfala ucraniana?

Por enquanto, todavia, nenhuma Igreja ortodoxa reconhece a CODU.

Iniciamos um processo; é preciso paciência e confiança. O consenso há de chegar. Mais cedo ou mais tarde as circunstâncias políticas mais complicadas vão mudar, como aconteceu em 1991 com o fim da União Soviética. Quando o regime do Kremlin cair, também a posição do Patriarcado de Moscovo mudará. Em todo o caso, é inegável que, do ponto de vista religioso, a Igreja ucraniana é uma “filha” – nascida em 988 – da Igreja-mãe de Constantinopla. Por isso lhe pedimos a autocefalia. Acrescento que a Igreja de Moscovo nunca condenou a agressão russa contra a Crimeia e as interferências russas no nosso país. Para Kirill, a agressão em ato a partir de 2014 na Ucrânia oriental (provocou, até agora, mais de 13.000 vítimas e também enormíssimos danos ecológicos) é uma “guerra civil” intraucraniana!

E o recentíssimo (20 de junho) minicisma de Filaret?
É um caso pessoal.
Mas não é coisa pequena – salientamos. A 24 de junho o Sínodo da IODU reuniu-se, liderado por Epifaniy, para precisar o que já tinha sido dito num comunicado de 20 de junho: 1) O Concílio convocado por Filaret é ilegal; 2) Não se pode falar de “cisma” (porque – subentende-se – não teve um séquito significativo); 3) As paróquias já vinculadas ao Patriarcado de Kiev passam todas à IODU; 4) No “Concílio de reunificação” o Patriarcado de Kiev tinha aceitado confluir para a recém-nascida Igreja autocéfala; 5) Reconhecendo os méritos especiais, no passado, para com a Igreja ortodoxa ucraniana, o Sínodo decidiu que o patriarca Filaret permanece como parte do seu episcopado».
Sublinhamos, por fim: fontes da IODU disseram-nos que não veem que seja possível que um Concílio desminta o que realizou Bartolomeu. Além disso, tanto o P. Nikolay como o bispo admitiram que os ortodoxos ucranianos pouco sabem desta diatribe; frequentam muitas vezes a igreja mais próxima sem se perguntarem a que jurisdição pertence (mas os pró-russos arriscam-se a passar por “traidores da pátria!”). Ambos nos confirmaram ainda que, excetuando contributos para manter ou restaurar obras de arte preciosas – igrejas, mosteiros –, não recebem ajudas do Estado.

Putin junto do papa: não resolvido o problema ucraniano 

A 4 de julho, o presidente russo Vladimir Putin foi recebido em audiência (foi a terceira vez) pelo papa. Expressa satisfação pelo desenvolvimento das relações bilaterais – afirmou depois num comunicado: «Foram enfrentadas algumas questões de relevo para a vida da Igreja católica na Rússia. Detivemo-nos depois na questão ecológica e em alguns temas da atualidade internacional, com particular referência à Síria, à Ucrânia e à Venezuela».
Sobre o Médio oriente, ambos – disse-se – concordam com a urgência de defender aí as minorias cristãs, colocadas em perigo por conflitos e perseguições por parte de grupos extremistas islâmicos. Mas sobre a Ucrânia? O comunicado não especifica: Putin e Francisco talvez não estejam de acordo. Com efeito, para a Santa Sé, a questão da Crimeia e da Ucrânia oriental deve resolver-se com base no direito internacional; para o chefe do Kremlin, um retrocesso na península da Ucrânia é impensável.
E a hipótese de uma viagem do papa à Rússia? O Santo Sínodo russo, hoje, é contrário à ideia; e Putin, por agora (por agora!), não se quer impor. A 12 de fevereiro de 2016, deu-se em Havana o primeiro encontro de um papa com um patriarca de Moscovo: um encontro malvisto por setores importantes – como o mundo monástico – da Ortodoxia russa. Além disso, nas vésperas do grande acontecimento de 4 de julho, um porta-voz do Patriarcado, Vladimir Legoyda, precisava: «A Igreja russa não tem comentários a fazer sobre o encontro entre dois chefes de Estado». Acrescentava, todavia, que ele «é importante e útil, dado que o Vaticano e a Rússia defendem o matrimónio tradicional e a família, e protegem os direitos dos cristãos em regiões onde são perseguidos».
De qualquer forma, Francisco, sobre a questão da hipotética viagem à Rússia, não quer forçar, contrariamente ao que fez João Paulo II. Este, apesar do “não” explícito de Eleksij II, então Patriarca de Moscovo, em junho de 2001 visitou a Ucrânia; e, no encontro ecuménico com ele, quem o saudou em nome de todos? O “patriarca” Filaret; uma bofetada para os russos. Dois anos depois Woityla tinha projetado ir, em agosto, a Ulan Bator, na Mongólia, e, nessa ocasião, contava fazer uma escala em Kazan, no Turquestão – 800 Km a leste de Moscovo – para entregar nas mãos de Aleksij um ícone precioso, no Vaticano considerado o original desaparecido de Kazan no início do século XIX e, depois de várias peripécias, chegado de Nova Iorque como oferta ao papa polaco. Perante a nítida recusa do patriarca, aquele pontífice cancelou toda a viagem. 

O contraponto dos greco-católicos ucranianos 

Depois da ouverture da cimeira papa-Putin, nos dois dias seguinte houve outra no Vaticano, já anunciada há dois meses: Francisco, com três cardeais da cúria (entre eles Parolin), juntamente com Sviatoslav Shevchuk, arcebispo maior de Kyiv-Halyc, e os membros permanentes do seu Sínodo, mais os metropolitas. Esta reunião tinha por objetivo «individuar os modos com que a Igreja católica na Ucrânia, e de modo particular a Igreja greco-católica, se pode dedicar mais eficazmente à pregação do Evangelho, contribuir para o apoio aos que sofrem e promover a paz, tanto quanto é possível, com a Igreja católica de rito latino e com as outras Igrejas e comunidades cristãs». 
A propósito da ajuda humanitária a Kiev, recorde-se que com o projeto O Papa para a Ucrânia, iniciado em 2016, Francisco e os organismos do Vaticano enviaram para lá 16 milhões de euros em víveres, materiais, ajudas várias. Após o encontro, na noite de 6 de julho, um comunicado do Vaticano resumia os resultados. Depois de ter dito que o papa apreciou muito a fidelidade dos greco-católicos «à comunhão com o Sucessor de Pedro, confirmada e selada com o sangue dos mártires», precisava: «Foi dedicada particular atenção ao trabalho pastoral, à evangelização, ao ecumenismo, à vocação específica da Igreja greco-católica no contexto dos desafios hodiernos da situação sociopolítica, particularmente da guerra e da crise humanitária na Ucrânia».
A “guerra” na Ucrânia é, portanto, nomeada: mas quem a provocou? O texto não diz. Contudo, nas vésperas do encontro, Shevchuk tinha declarado: «A guerra não pode terminar com uma paz a qualquer custo; seria uma capitulação. É impossível a paz sem justiça». E a 28 de janeiro de 2018, o papa em visita à basílica de Santa Sofia – o centro dos greco-católicos ucranianos em Roma – tinha recordado a “agressão” russa contra a Crimeia. 

Entre religião e política 

Algum flash histórico, para que se compreenda tal atitude. No fim do século XVI, a Ucrânia centro-ocidental estava nas mãos dos reis polaco-lituanos, católicos, enquanto a parte oriental do país estava ligada aos czares, ortodoxos. Em 1595, dois bispos ucranianos reconheceram em Roma a autoridade do papa Clemente VIII e, no ano seguinte, no Sínodo de Brest Litovsk, a maioria dos bispos confirmou esta opção dos “uniatas” (assim chamam os ortodoxos aos gregos unidos a Roma). Em 1946, um pseudossínodo em Lviv, imposto por Estaline, declarou nula a união de 1596: os greco-católicos tornavam-se, pois, por lei, ortodoxos. Quem não aceitou, a começar por bispos e padres, sofreu perseguição e foi preso. Depois, na Ucrânia independente, eles foram e são a ponta de lança para afastar o país da Rússia. Shevchuk considera-se, de facto, “patriarca” greco-católico (e tem dioceses não só na pátria, mas também no estrangeiro, particularmente nas Américas. No conjunto cinco milhões de fiéis), o que irrita Moscovo e também desagrada a Roma. 
Terá solução o conflito eclesial ucraniano? Entretanto, ele mistura-se com a política. Se a Ucrânia se tornar a linha avançada do Ocidente e a sentinela da Casa Branca e da NATO para manter a Rússia em rédea curta, tudo vai piorar; só um novo rumo entre Kiev e Kremlin, e vice-versa, poderia iniciar uma clarificação. E na frente religiosa? Hilarion, nestes meses, em Damasco, Jerusalém e Atenas, defendeu, com os respetivos patriarcas e primazes, a causa russa.
Mas o arcebispo ortodoxo do Chipre, Chrysostomos, esforça-se por reconciliar Kirill e Bartolomeu, tarefa porventura possível no futuro, mas não hoje: em conjunto com razões históricas e canónicas, agravam agora o terreno rivalidades pessoais e institucionais que complicam tudo. Kirill não aceitará nunca que um excomungado do Santo Sínodo seja reabilitado por Bartolomeu.
Enquanto um personagem obscuro e inquietante como Filaret continuar a tecer as suas tramas, a solução do trágico conflito intraortodoxo será impossível. Depois, para alegria da Primeira Roma, a Segunda (Constantinopla) e a Terceira (Moscovo) talvez – nada, porém, é dado como certo – encontrem a paz.

Luigi Sandri
Paolo Emilio Landi
Confronti (julho de 2019)

03/06/2019

As recentes tensões entre as Igrejas ortodoxas a propósito da autocefalia da Igreja ucraniana

Têm-se agravado recentemente até à rutura as relações entre as Igrejas ortodoxas, nomeadamente entre Moscovo e Constantinopla, por causa da autocefalia da Igreja ucraniana. Esta questão de grande relevância eclesial reflete os problemas políticos entre a Rússia e a Ucrânia, recentemente agravados, assim como a relação de dependência das Igrejas face às autoridades políticas por aquelas paragens. Como contributo para a compreensão duma questão com profunda e negativa ressonância no horizonte ecuménico, disponibilizamos em versão portuguesa dois textos: o primeiro favorece a compreensão da questão e a sua evolução nos últimos meses; o segundo reflete sobre o posicionamento do catolicismo romano face ao grave problema que a Ortodoxia está a viver.

Agudiza-se o cisma entre Moscovo e o Fanar

O patriarca Bartolomeu assina o tomos
na presença do metropolita Epiphany
5 de janeiro de 2019
Piervy sriedì ravnikh ou Piervy biez ravnykh? São estas, em russo, as expressões jurídicas latinas: Primus inter pares (primeiro entre pares) ou Primus sine paribus (primeiro sem pares, ou seja sem iguais)? A resposta divergente, que o Patriarcado de Moscovo, hoje liderada por Kirill, e o Patriarcado de Constantinopla, governado por Bartolomeu I, dão à pergunta, está na base do seu irredutível desacordo sobre a autocefalia (independência) da Igreja ucraniana. Uma contenda dramática que levou os responsáveis da Igreja russa a proclamarem a interrupção da comunhão eucarística – ou seja, em sentido estrito, o cisma – devido às opções da irmã sediada em Istambul, no bairro do Fanar. 
Resumamos um acontecimento tormentoso, sobre que já escrevemos mais vezes em Confronti. A 19 de abril de 2018, a Verkhovna Rada (Parlamento de Kiev) fez sua a exigência do presidente Petro Poroshenko ao Fanar de conceder a autocefalia à Igreja ortodoxa ucraniana. Bartolomeu, sem responder com um redondo «sim», deixava-o relampejar, alarmando assim Moscovo. Em setembro aceitou a proposta, para finalmente – sustentava – reunir as três Igrejas ortodoxas do país: 
1. A Igreja ortodoxa, ligada a Moscovo, e liderada pelo metropolita de Kiev, Onufry. 
2. O Patriarcado de Kiev, nas mãos de Filaret. 
3. A Igreja autocéfala ucraniana, uma comunidade modesta
O patriarca Bartolomeu entrega o tomos
ao metropolita Epifany
6 de janeiro de 2019
A primeira é a mais numerosa; as outras duas, surgidas em 1992, depois do colapso da URSS e o nascimento a Ucrânia independente, são consideradas cismáticas por Moscovo (que em 1995 já tinha reduzido ao estado laical e em 1997 excomungado Filaret, o autoproclamado “patriarca” de Kiev). Kirill, a 31 de agosto de 2018, dirigiu-se a Bartolomeu, para o deter: este, contudo, com o seu Sínodo, continuava, a “abençoar” um “Concílio para a reunificação” – considerado ilegal por Moscovo – que a 15 de dezembro deu vida, em Kiev, à Igreja ortodoxa da Ucrânia, formada pelo Patriarcado de Kiev e pela Igreja autocéfala ucraniana, e elegeu como primaz Epifany. Poroshenko empenhou-se muito em toda a operação: uma pressão política demasiado indigesta para os russos. Depois, a 5 de janeiro, Bartolomeu assinou o tomos (decreto sinodal) da autocefalia e, no dia seguinte, entregou-o ao novo primaz.
Aos russos que contestavam a legitimidade canónica da decisão, o Patriarcado ecuménico replicava com a invocação do seu direito de conceder a autocefalia aos ucranianos: como demonstraria a história eclesial dos Balcãs – da qual oferecemos aqui uma síntese nossa. 
Quando a Bulgária, em 1393, caiu às mãos dos turcos, perdeu a sua autocefalia. Cinco séculos depois, em 1870, o governo otomano permitiu a reconstituição de Igreja nacional búlgara: mas o Fanar declarou-a cismática e só reconheceu a autocefalia da Igreja búlgara em 1945, pondo fim ao cisma. Outro caso: em 1922 a Igreja ortodoxa albanesa proclamou-se autocéfala, decisão nunca reconhecida por Constantinopla e por grande parte do episcopado grego (irritados por se usar em Tirana o albanês, em vez do grego, como língua litúrgica). Em 1937, porém, o Patriarcado ecuménico concedeu finalmente a autocefalia aos albaneses. 
Ainda: depois da fusão dos principados da Valáquia e da Moldávia, a Roménia tornou-se independente em 1878. O Fanar, sob cuja jurisdição estavam quando faziam parte do império otomano, reconheceu a autocefalia da Igreja romena em 1885. Já tinha reconhecido em 1879 a autocefalia da Igreja sérvia. Houve, contudo, desacordo, após 1945, entre o Fanar e Moscovo, quanto à concessão da autocefalia à Igreja ortodoxa checoslovaca e, com a divisão deste país em 1993, à que se tornou a Igreja das terras checas e da Eslováquia, cujo primaz é desde 2014 Rostislav. A autocefalia das Igrejas balcânicas começou, tanto quanto parece, sem objeções da parte de Moscovo. Recordamos, contudo, que, de 1721 a 1917, a Igreja russa – por decisão de Pedro Grande e dos czares que lhe sucederam – permaneceu sem patriarca; e de novo sem patriarca, por vontade dos soviéticos, de 1925 a 1943. 
Em todo o caso, invocando estes precedentes, Bartolomeu reafirma agora que só ele tem, e não outros, o direito de conceder a autocefalia. Em Kiev, entretanto, na Igreja recém-nascida foi instituído o Sínodo, de que faz parte o “patriarca honorífico Filaret”, o qual, nonagenário, no dia seguinte ao “Concílio” explicitou que ele «permanece patriarca, porque este é para a vida e, juntamente com o primaz, governa a Igreja ortodoxa da Ucrânia». Não só: A 5 de fevereiro, o Sínodo nomeou-o bispo da diocese de Kiev (excluído o mosteiro de São Miguel). Permanece, contudo, um mistério o que é que isso significa, dado que Epifany é metropolita de Kiev.
Afirmando que Bartolomeu é “primeiro” sriedì ma non biez ravnykh, o Santo Sínodo russo nega-lhe o direito de tomar sozinho decisões respeitantes a toda a Ortodoxia: ele pode coordenar o trabalho dos “iguais a ele”, mas nunca interferindo nos assuntos internos das outras Igrejas irmãs, ou ignorando mesmo o parecer delas. Por isso, Kirill reafirma: só a Sinassi (reunião) dos líderes das Igrejas autocéfalas – hoje 14, porque a 15ª, a ucraniana nascida a 15 de dezembro de 2018, não é reconhecida por Moscovo – poderia conceder a uma Igreja a autocefalia. Para os russos, o “como” nasceram as Igrejas autocéfalas balcânicas não prova nada; além disso, nenhuma delas é comparável à situação ucraniana, na qual a maior parte dos ortodoxos, por enquanto, se reconhece na Igreja pró-russa, que considera anticanónico e cismático o “Concílio” de 2018. A 31 de janeiro passado, em Moscovo, foi celebrado solenemente o décimo aniversário da eleição de Kirill como patricarca. Num discurso aos representantes das Igrejas autocéfalas presentes (faltava Constantinopla!), ele ironizou a propósito do “novo” princípio do piervy biez ravnykh: para os russos – subentendia-se – não pode existir um “papa” dos ortodoxos.

Sérvia. Como se posicionou a Ortodoxia face à laceração em curso? Vejamos, por agora, a resposta de algumas Igrejas europeias. O patriarca sérvio, Irenej – que tinha estado em Moscovo para o décimo aniversário de Kirill – e o seu Sínodo, no fim de fevereiro, emitiram uma declaração oficial. Tendo em conta que o próprio Irenej se tinha deslocado a Salónica, para convidar o primus inter pares a retroceder nos seus passos, e dada a inutilidade destes esforços «a Igreja ortodoxa sérvia: 
1. Não reconhece a anticanónica “invasão” do patriarcado de Constantinopla ao território canónico da Santa Igreja russa, dado que o metropolita de Kiev, que inclui dúzias de dioceses, em 1686, tendo por base as decisões do patriarca de Constantinopla, Dionísio IV, foi colocada sob o de Moscovo. 
2. Não reconhece a “Igreja autocéfala da Ucrânia” que, do ponto de vista canónico, não existe. Os cismáticos permanecem cismáticos, a não ser que, com uma sincera confissão, se arrependam. 
3. Não reconhece o “Concílio” de Kiev. Ele é erroneamente chamado de “reunificação” e desintegrou ainda mais a infeliz Ucrânia. 
4. Não reconhece um episcopado cismático, que pertence à ala de Denishenko [Filaret, ndr], reduzido [por Moscovo, ndr] ao estado laical e excomungado. Recomenda aos hierarcas e ao clero que se abstenham de qualquer comunhão litúrgica e canónica não só com o Senhor Epifany e com outros como ele, mas também com os bispos e os clérigos que concelebram com eles… A Igreja sérvia implora a sua Santidade o patriarca ecuménico que reconsidere a decisão tomada».

Roménia. Mais matizada foi a posição do Sínodo romeno reunido a 21 de fevereiro:
«1. Durante cerca de 30 anos o problema da divisão [da Igreja ortodoxa, ndr] na Ucrânia não foi resolvido. 
2. O patriarca ecuménico decidiu sair do impasse e concedeu o tomos da autocefalia. Mas ele só foi acolhido pela Ortodoxia ucraniana fora da comunhão com Moscovo; e assim a questão da unidade da Igreja na Ucrânia permanece não totalmente resolvida. 
3. Recomenda-se ao patriarca ecuménico e ao patriarca de Moscovo que encontrem as vias para resolverem o contencioso, preservarem a unidade na fé, respeitarem a liberdade pastoral e administrativa do clero e fiéis daquele país (incluído o direito à autocefalia) e restabelecerem a comunhão eucarística. 
4. Caso falhe o diálogo bilateral, é necessário reunir a Sinassi dos primazes das Igrejas ortodoxas para resolver o problema pendente». 
O Sínodo insiste, pois, para que às 127 paróquias romeno-ortodoxas na Ucrânia, sobretudo em Bukovyna (região já da Roménia, passada durante a II Guerra Mundial à Ucrânia soviética) seja garantida a liberdade plena e o uso do romeno na liturgia, propostas que Epifany – prestes a deslocar-se a Bucareste – garantiu acolher (aliás no país existe um Vicariato ucraniano ortodoxo com liberdade para se organizar).

Albânia. Já a 4 de janeiro o Sínodo da Igreja albanesa tinha invocado a Sinassi: uma proposta que o arcebispo de Tirana, Anastasios, comunicou a Bartolomeu dez dias depois, com uma carta dada a conhecer só a 7 de março e, traduzida em russo, publicada em Moscovo três dias depois. 
O primaz albanês deplora que a Igreja russa tenha desertado do Concílio de Creta; e que tenha rompido a comunhão eucarística com o Fanar. Mas, ao mesmo tempo, critica a fundo Filaret (um excomungado que – recorda – chegou a consagrar bispos que, por isso, não o são!); e refuta reconhecer a canonicidade da Igreja ucraniana nascida a partir do Concílio de dezembro. 
E então? Bartolomeu, que tem este “privilégio exclusivo”, convoque uma Sinassi, ou um Concílio, «para esconjurar o perigo evidente do princípio de um doloroso cisma, que ameaça a solidez da Ortodoxia e o seu testemunho persuasivo ao mundo de hoje». Bartolomeu respondeu a Anastasios a 20 de fevereiro (mas a carta foi publicada semanas depois), reafirmando as suas teses (em particular, a validade da ordenação dos bispos da nova Igreja da Ucrânia). Mas ignora totalmente a auspiciada reunião da Sinassi. A este respeito, dado que as decisões desta são tomadas por unanimidade, e como Moscovo e Constantinopla divergem quanto aos critérios para conceder a autocefalia, no passado estabeleceu-se não submeter a questão a exame no Concílio ortodoxo (depois celebrado em 2016 em Creta; mas, no último momento, a Igreja russa – que representa cerca de 70% dos 200 milhões de ortodoxos no mundo – recusou-se a participar).

Pergunta: Será possível agora o que não se pôde propor há três anos? Entretanto, partilharam as teses russas Rostislav («Filaret é um impostor») e Sava, primaz dos ortodoxos polacos. Das outras Igrejas autocéfalas surgiram declarações de alguns hierarcas, frequentemente ambíguas – como as que Theophilos III, patriarca grego de Jerusalém. Esperam-se palavras importantes dos vários Sínodos: serão pró-russas as Igrejas eslavas e pró-Fanar as gregas? Não está dito. Entretanto torna-se mais profunda a fenda aberta na Ortodoxia pelo terramoto eclesial ucraniano. 

Luigi Sandri
Confronti (abril de 2019)

Face às divisões entre as Igrejas ortodoxas

O mistério da Igreja como corpo de Cristo Senhor é revelado e compreendido não só por quem nele acredita, mas sobretudo por quem o vive. O apóstolo Paulo, recorrendo à imagem do corpo humano, escreve: «Como o corpo é um, mesmo tendo muitos membros, e todos os membros do corpo, apesar de serem muitos, formam um só corpo, assim também Cristo… Deus compôs o corpo para que não houvesse divisão no corpo, mas os vários membros cuidassem uns dos outros. Portanto, se um membro sofre, todos os membros sofrem juntos e, se um membro é honrado, todos os membros se alegram juntos» (1 Cor 12, 12.25-26). 
Em virtude precisamente deste grande mistério vivido quotidianamente como exigência absoluta, nós católicos sofremos por causa das tensões, das contendas vividas por vezes pelas diversas Igrejas, inclusivamente a católica, e agora sofremos de modo especial pela interrupção da comunhão eucarística decretada pelo Sínodo do Patriarcado de Moscovo relativamente ao de Constantinopla, duas Igrejas irmãs com as quais a comunhão que nos une é muito mais forte do que o que nos separa. Queremos dizer sobretudo às Igrejas da Ortodoxia que fazemos nosso o seu sofrimento, porque a caridade de Cristo nos impele a esta participação nos seus sentimentos. Pedro Venerável, abade de Cluny, grande monge e expoente espiritual medieval, escrevia numa carta: «Non vegetatur Spiritu Christi qui non sentit vulnera corporis Christi! Não vive do Espírito de Cristo quem não sente as feridas do corpo de Cristo».
Este sofrimento impele-nos sobretudo à oração, à invocação do Espírito de comunhão para todas as Igrejas e sobretudo para as Igrejas atualmente em tensão entre si: como a litania que abre a Divina Liturgia de São João Crisóstomo, nós erguemos a nossa súplica: «Pela paz do mundo inteiro, pela prosperidade das Santas Igrejas de Deus e a união de todos nós, imploramos ao Senhor: Kyrie eleison!». A oração expressa na partilha do sofrimento e no acordo dos pedidos é o primeiro passo urgente e necessário para que as feridas se curem, as contendas se superem e as divisões passadas e presentes deem lugar à comunhão, que é o dom por excelência do Senhor à sua Igreja. 
A Ucrânia é uma terra de encontros, como indica o seu nome, e a herança que ela guarda a partir dos santos fundadores do Mosteiro das Grutas [Mosteiro de Kiev-Pechersk, ndt] – António e Teodósio – é um tesouro precioso, um dom para todas as Igrejas. A contenda ocorrida fere esta herança e fragiliza o anúncio do Evangelho de que esta terra precisa depois de decénios de perseguição religiosa e de padecimentos de todo um povo. Ninguém esquece os sofrimentos humanos e eclesiais do povo ucraniano, e todas as Igrejas cristãs confessam o testemunho dos mártires ortodoxos, católicos de rito oriental ou latino, protestantes, cujo sangue derramado pela fidelidade a Cristo Senhor é semente de fé e, ao mesmo tempo, verdadeiro ecumenismo vivido na carne, no dar a vida por Deus e pelos irmãos e irmãs. À volta do Cordeiro imolado, estes mártires e confessores intercedem unanimemente pelas suas Igrejas e pela Igreja una, santa, católica e apostólica, para que reine a santa koinonia dada pelo Ressuscitado através do Espírito Santo. Estes mártires recordam-nos, também na Ucrânia, que os muros levantados na terra entre as Igrejas não se erguem até ao céu. 
Com esta viva intercessão resistimos, portanto, ao Divisor, ao Diabo que procura sempre levar a divisão aos cristãos para destruir a integridade do corpo de Cristo: não permitamos que o Diabo nos separe e não joguemos o seu jogo! No outono passado, em Bari, todas as Igrejas ortodoxas estiveram em oração e em diálogo juntamente com o Bispo de Roma: acontecimento primaveril do ecumenismo sobre que depressa desceu uma geada querida certamente pelo Divisor. 
Mas, para além da partilha do sofrimento e da oração, o que é que nós católicos podemos fazer? Antes de mais, não realizar o mais pequeno gesto que possa parecer uma intromissão nas questões internas da Ortodoxia, nem alimentar um desejo ou, muito menos, uma pretensão de arbitragem entre as Igrejas ortodoxas que vivem divisões, não só na Ucrânia, mas também no Médio Oriente. 
Nas atuais divisões e tensões intraortodoxas, devemos escutar-nos, encontrar-nos e falar, manifestando o nosso sofrimento, abandonando inimizades e evitando tomadas de posição apodíticas. O percurso é sempre o da desconfiança à confiança recíproca, purificando e curando as memórias, até delinearmos em conjunto o caminho que nos espera, mesurando-o no caminho em direção ao Reino, meta para a qual todas as Igrejas estão em peregrinação. 
Por fim, nesta hora de sofrimento dos homens e mulheres por causa da guerra e da pobreza sofridas pelas populações destas nossas Igrejas irmãs, torna-se necessário colocar-se ao serviço dos que sofrem, dos necessitados, sobretudo das crianças, primeiras vítimas inocentes dos conflitos e da pobreza. Devem inspirar-nos sempre as palavras do apóstolo Paulo: «Sede servos uns dos outros através da caridade» (Gal 5, 13). Para além dos confrontos, as Igrejas ortodoxas unam-se na vivência da caridade concreta para com todos os que sofrem. 
Dizemos, portanto, aos nossos irmãos ortodoxos: «Precisamos do vosso testemunho evangélico, e a vossa divisão fere-nos a todos». O papa Francisco, na celebração de Vésperas, na Basílica de São Paulo Extramuros, a 25 de janeiro de 2015, dizia: «A unidade dos cristãos – estamos convencidos – não será fruto de apuradas discussões teóricas em que cada um tentará convencer o outro do fundamento das próprias opiniões. Virá o Filho do homem e ainda nos encontrará em discussões. Temos de reconhecer que para chegarmos à profundidade do mistério de Deus precisamos uns dos outros, de nos encontrarmos e de nos confrontarmos guiados pelo Espírito Santo, que harmoniza as diversidades e supera os conflitos, reconcilia as diversidades». É com estes sentimentos que dizemos aos patriarcas das Igrejas ortodoxas, aos seus metropolitas e bispos, aos irmãos e às irmãs ortodoxas o nosso amor, a nossa solicitude, a nossa fervorosa intercessão. 

Enzo Bianchi
L'Osservatore Romano (27 de maio de 2019)