31/08/2019

Tempo da Criação 2019

De 1 de setembro a 4 de outubro, os cristãos em todo o mundo unem-se na ação e na oração pela criação. É o “Tempo da Criação”, celebrado em todas as partes do globo.

Remetemos para a página web da iniciativa Tempo da Criação e da Rede Cuidar da Casa Comum, para a Nota da Comissão Episcopal da Pastoral Social e Mobilidade Humana sobre o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação (1 de setembro), e deixámos o Convite dos líderes das várias confissões cristãs à participação no Tempo da Criação.


Caros irmãos e irmãs em Cristo,

“Vou fazer uma aliança convosco e com vossa posteridade, assim como com todos os seres vivos que estão convosco... na terra” (Génesis 9, 9-10).

Nós somos parte de uma teia de vida maravilhosamente complexa e única, tecida pelas mãos de Deus. Todos os anos, de 1 de setembro a 4 de outubro, a família cristã celebra a boa dádiva da criação. Essa comemoração global teve início em 1989, com o reconhecimento do dia de oração pela criação por parte do Patriarcado Ecuménico de Constantinopla, sendo hoje adotada por toda a comunidade ecuménica.
Durante o Tempo da Criação, unimo-nos como uma só família em Cristo, celebrando os elos que partilhamos uns com os outros e com “todo os seres vivos da Terra” (Génesis 9, 10). A família cristã celebra o Tempo da Criação com oração, refletindo sobre como habitar a nossa casa comum de forma mais sustentável e fazendo ouvir sua voz na esfera pública.
Neste Tempo da Criação, oferecemos as nossas reflexões acerca da própria teia de vida, na esperança de que possamos gerar maior contemplação e respostas mais profundas entre nós, irmão e irmãs. Nós fazemo-lo em espírito ecuménico, reconhecendo que a criação foi entregue como dádiva a todos nós e que somos chamados a partilhar a responsabilidade de a proteger.
As Escrituras iniciam-se com a afirmação divina de que tudo na criação é “muito bom” e, como guardiões da criação de Deus, nós somos chamados a proteger e cultivar essa dádiva (Génesis 1, 28. 30; Jeremias 29, 5-7). Cada espécie e, de facto, toda a criação é preciosa, pois foi feita por Deus. Tudo reflete um aspeto de Deus. “Ó Senhor, quão variadas são as vossas obras! Todas feitas com sabedoria, a terra está cheia das coisas que criastes” (Salmo 104, 24).
É por isso que lamentamos o facto de as criaturas de Deus estarem a desaparecer da Terra num ritmo que mal podemos entender. De humildes insetos a majestosos mamíferos, de plânctones microscópicos a árvores imponentes, plantas e animais do domínio de Deus estão a extinguir-se, para nunca mais ser vistos novamente.
Essa devastação é, em si, uma trágica perda. Nós contemplamos essa perda e pedimos que ela tenha fim. Também oramos por justiça, pois os mais vulneráveis dentre nós são os que mais sofrem com o desfazer da teia de vida. A nossa fé pede-nos que respondamos a essa crise com a urgência da clareza moral.
Nós incentivamos toda a família cristã a juntar-se a nós neste momento especial de oração, reflexão e ousadia para preservarmos a criação em toda a sua complexidade e especificidade. Este ano, em especial, haverá oportunidade de unirmos as nossas vozes em ocasiões como o Congresso Mundial para Conservação da Natureza em junho, a Cimeira climática da ONU em setembro, o Sínodo da Amazónia em outubro, e a conferência da ONU por causa das mudanças climáticas em novembro.
Como canta o salmista: “Do Senhor é a terra e tudo o que ela contém, a órbita
terrestre e todos os que nela habitam” (Salmo 24, 1). Na esperança nascida da graça, oramos para que o Senhor, que é o nosso Criador, Sustentáculo e Redentor, toque os nossos corações e a família humana neste Tempo da Criação.

Na graça de Deus,

Membros do Comité Consultivo do Tempo da Criação:
Bispo Marc Andrus, Diocese Episcopal da Califórnia

Rev. Ed Brown, Cuidado da Criação e Catalisador de Lausanne para o Cuidado da Criação
Dr. Celia Deane-Drummond, Diretora, Instituto de Pesquisa Laudato Si’,
Campion Hall, Universidade de Oxford, Reino Unido
Monsenhor Bruno-Marie Duffé, Secretário, Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento
Humano Integral no Vaticano
Rev. Norm Habel, Projeto Tempo da Criação, Adelaide
Bispo Nick Holtam, Bispo de Salisbury, Presidente do Grupo de Trabalho Ambiental da Igreja da Inglaterra
Pe. Heikki Huttunen, Secretário Geral, Conferência das Igrejas Europeias
Dr. Hefin Jones, Comitê Executivo, Comunhão Mundial das Igrejas Reformadas
Serafim Kykotis, Arcebispo da Igreja Ortodoxa Grega em Zimbábue e Angola
Bispo Mark Macdonald, Bispo Anglicano de Nativos Indígenas, Igreja Anglicana do Canadá
Pe. Martin Michalíček, Secretário Geral, Conselho das Conferências Episcopais da Europa
Ms. Necta Montes, Secretária Geral, Federação Mundial de Alunos Cristãos
Irmã Patricia Murray, Secretária Executiva, União Internacional de Superioras Gerais
Dr. Alexandros K. Papaderos, Conselheiro do Patriarcado Ecuménico de Constantinopla
Dr. Paulo Ueti, Conselheiro Teológico e Diretor Regional da América Latina da Aliança Anglicana
Dr. Ruth Valerio, Diretora Global de Advocacia e Influência, Tearfund

27/07/2019

Morrer por Kiev? Um trágico duelo eclesial


Irresolúvel. É este, por agora, o nosso “diagnóstico” – depois de termos escutado in loco as partes contrapostas – do puzzle das Igrejas ortodoxas ucranianas, em que a maioritária (IOU), ligada ao Patriarcado de Moscovo, liderado por Kirill, considera “cismática” a recém-nascida e autocéfala Igreja ortodoxa da Ucrânia (IODU), abençoada pelo Patriarcado de Constantinopla, liderado por Bartolomeu, mas já ameaçada pelo autoproclamado “patriarca” de Kiev, Filaret, se bem que tenha sido patrocinador, juntamente com o presidente Petro Poroshenko, da “independência” eclesial ucraniana.

As etapas do cisma

Com uma equipa de Protestantesimo (Raidue), dirigida pelo realizador Paolo Emilio Landi, estivemos em Kiev, de 22 a 25 de junho, para compreendermos melhor os intrincados acontecimentos: já muito se escreveu sobre eles em Confronti e aqui o recapitulámos em flash.
9/4/2018: Poroshenko desloca-se ao Fanar, a residência em Istambul dos patriarcas de Constantinopla, para pedir a concessão da autocefalia da Igreja ucraniana. A 19, a Verkhovna Rada (Parlamento de Kiev) apoia a proposta.
31/8: Kirill, acompanhado pelo metropolita de Volokolamsk, Hilarion, “ministro” dos negócios estrangeiros do Patriarcado russo, chega ao Fanar para reafirmar o “não” seco da Igreja russa à hipotética autocefalia. Bartolomeu permanece vago.
7/9: O Fanar anuncia o envio de dois dos seus bispos a Kiev para preparar a concessão da autocefalia.
14/9: O Santo Sínodo de Moscovo reconhece que a Igreja de Kiev é também a Igreja mãe da Igreja russa, mas recorda que em 1686 Constantinopla confiou a este Sínodo a metrópole de Kiev; o Fanar não pode, pois, interferir nos seus assuntos internos. Se Bartolomeu prosseguir com a “independência” ucraniana, Moscovo suspenderá a sua participação em Assembleias e comissões presididas ou copresididas por representantes do Patriarcado de Constantinopla; e interromperá totalmente a comunhão eucarística com ele. E precisa: no país só é canónica a Igreja ortodoxa ucraniana (IOU), liderada pelo metropolita Onufriy de Kiev, ligada a Moscovo.
15/9: O arcebispo Job de Telmessos (Fanar) reafirma: Constantinopla tem o direito de proclamar a autocefalia da Ucrânia, como nos séculos XIX e XX proclamou a das Igrejas da Roménia, Sérvia, Bulgária.
11/10: Bartolomeu e o seu Sínodo decidem: 1) “avançar” em direção à “independência” ucraniana; 2) restabelecer nos seus lugares hierárquicos Makariy Maletich (da pequena e já existente Igreja autocéfala ucraniana) e Filaret Denisenko (o autoproclamado “patriarca” de Kiev, reduzido ao estado laical em 1992 e em 1997 excomungado pelo Santo Sínodo russo, do qual tinha, contudo, feito parte durante tantos anos); 3) revogar o vínculo jurídico da carta sinodal de 1686.
15/10: O Santo Sínodo de Moscovo: 1) interrompe a comunhão eucarística com Constantinopla (teologicamente, a proclamação do cisma); 2) reivindica a Ucrânia como seu território canónico; 3) recusa a revogação da carta de 1686; 4) exprime desconcerto pela reabilitação do “cismático” senhor Filaret.
15/12: Em Kiev, realiza-se o “Concílio da reunificação” entre a Igreja de Makariy e a Igreja de Filaret. É criada a Igreja ortodoxa da Ucrânia (IODU), autocéfala, e é eleito como seu primaz Epifaniy. Dos 90 bispos da IOU, só dois entram nela. O embaixador dos EUA em Kiev aplaude a nova Igreja. O Kremlin cala-se.
5/1/2019: Bartolomeu, na presença de Proshenko, assina o tomos – decreto sinodal – da autocefalia da IODU. E a 6 entrega-o a Epifaniy. Para Moscovo o cisma está consumado.

A palavra à Igreja ucraniana pró-russa
Numa pequena capela na periferia de Kiev, encontramos o arcipreste Nikolay Danilevich, porta-voz da IOU. Fala um pouco de italiano e um pouco de russo:

«Até 1992, neste país havia, na prática, uma só Igreja ortodoxa, inserida num exarcado do Patriarcado de Moscovo. Filaret era metropolita de Kiev: este e outros, depois do colapso da URSS, queriam absolutamente a autocefalia. A Igreja russa não era, por si mesma, contrária à hipótese; mas relevava: “A situação agora está muito confusa; é preciso esperar”.
Mas ele prosseguiu, apoiando o autoproclamado Patriarcado de Kiev de que em 1995 seria eleito titular. Uma realidade não canónica, como o era a pequena Igreja de Makariy… Com o assim chamado “Concílio de reunificação”, abençoado pelo Fanar, estas duas Igrejas fundiram-se e formaram a IODU. A 5 de janeiro, Bartolomeu deu-lhe a independência canónica. Mas a IOU não entrou nesta nova Igreja, para nós cismática. E até agora nenhuma das 14 Igreja ortodoxas autocéfalas a reconheceu como a 15ª Igreja autocéfala. Ela tem cerca de 4.000 paróquias; a nossa, 12.500.

Não se misturam demasiado, nestes acontecimentos, questões religiosas e políticas?

Certamente que sim. Poroshenko esteve presente em todas as etapas que conduziram à autocefalia. Foi o Fanar que a defendeu. Geria o “Concílio” de dezembro. Talvez esperasse que este seu empenho, juntamente com a retórica nacionalista antirrussa, o conduzisse à vitória nas eleições presidenciais de há dois meses [a segunda volta realizou-se a 21 de abril, ndt]; mas perdeu-as, e venceu-as Volodymyr Zelenskij. Em suma, a instrumentalização política da religião não funcionou. Além disso, la Igreja não é um departamento do Estado e não está vinculada às suas ideologias. Nós não estamos unidos nem contra o Leste e contra o Oeste.

Porque é que refutam o método do Fanar para a concessão da autocefalia?

Porque conduz ao cisma, como demonstra o que aconteceu a 20 de junho. Flaret, apesar dos veementes protestos da IODU, convocou naquele dia o seu próprio Concílio local para proclamar que o “Patriarcado de Kiev”, de que se proclama titular, continua a existir; trata-se de um cisma no cisma da Igreja autocéfala! De qualquer modo, nós não reconhecemos como válidos os sacramentos da IODU: se uma pessoa nela batizada vem até nós, rebatizamo-la. 

Padre Nikolay, como se sai deste imbróglio?
Não sou profeta e não sei como acabará. Muitas Igrejas ortodoxas locais (=autocéfalas) propõem que se celebre uma Sinassi – cimeira dos vários primazes –, ou um Concílio ortodoxo para resolver uma questão que interpela toda a Ortodoxia. Os responsáveis da “independência” ucraniana têm de vir ao Concílio e arrepender-se do que fizeram. Esperamo-los de braços abertos. Esquecemos as suas más palavras contra nós».


A palavra à nova Igreja autocéfala 

Brilham ao pôr-do-sol as cúpulas douradas do mosteiro de São Miguel, onde encontramos o arcebispo Yevstratiy, porta-voz da IODU.

«O que é que aconteceu na Ucrânia nos últimos 30 anos?
Temos uma ferida e é preciso tempo para a curar.
Antes do “Concílio da reunificação” de dezembro aqui havia três Igrejas ortodoxas; depois duas uniram-se, enquanto a Igreja pró-russa ficou de fora. Em 1991 foi proclamada a independência da Ucrânia. Mas o Patriarcado de Moscovo ainda crê que a Ucrânia não é um Estado real mas só uma parte da Grande Rússia. Tem uma mentalidade imperial… Em nós, o sentimento religioso e o sentimento nacional estão muito entrelaçados: como há uma Igreja autocéfala na Roménia, na Sérvia, na Bulgária… porque é que Moscovo não quer uma Igreja autocéfala ucraniana?

Por enquanto, todavia, nenhuma Igreja ortodoxa reconhece a CODU.

Iniciamos um processo; é preciso paciência e confiança. O consenso há de chegar. Mais cedo ou mais tarde as circunstâncias políticas mais complicadas vão mudar, como aconteceu em 1991 com o fim da União Soviética. Quando o regime do Kremlin cair, também a posição do Patriarcado de Moscovo mudará. Em todo o caso, é inegável que, do ponto de vista religioso, a Igreja ucraniana é uma “filha” – nascida em 988 – da Igreja-mãe de Constantinopla. Por isso lhe pedimos a autocefalia. Acrescento que a Igreja de Moscovo nunca condenou a agressão russa contra a Crimeia e as interferências russas no nosso país. Para Kirill, a agressão em ato a partir de 2014 na Ucrânia oriental (provocou, até agora, mais de 13.000 vítimas e também enormíssimos danos ecológicos) é uma “guerra civil” intraucraniana!

E o recentíssimo (20 de junho) minicisma de Filaret?
É um caso pessoal.
Mas não é coisa pequena – salientamos. A 24 de junho o Sínodo da IODU reuniu-se, liderado por Epifaniy, para precisar o que já tinha sido dito num comunicado de 20 de junho: 1) O Concílio convocado por Filaret é ilegal; 2) Não se pode falar de “cisma” (porque – subentende-se – não teve um séquito significativo); 3) As paróquias já vinculadas ao Patriarcado de Kiev passam todas à IODU; 4) No “Concílio de reunificação” o Patriarcado de Kiev tinha aceitado confluir para a recém-nascida Igreja autocéfala; 5) Reconhecendo os méritos especiais, no passado, para com a Igreja ortodoxa ucraniana, o Sínodo decidiu que o patriarca Filaret permanece como parte do seu episcopado».
Sublinhamos, por fim: fontes da IODU disseram-nos que não veem que seja possível que um Concílio desmenta o que realizou Bartolomeu. Além disso, tanto o P. Nikolay como o bispo admitiram que os ortodoxos ucranianos pouco sabem desta diatribe; frequentam muitas vezes a igreja mais próxima sem se perguntarem a que jurisdição pertence (mas os pró-russos arriscam-se a passar por “traidores da pátria!”). Ambos nos confirmaram ainda que, excetuando contributos para manter ou restaurar obras de arte preciosas – igrejas, mosteiros –, não recebem ajudas do Estado.

Putin junto do papa: não resolvido o problema ucraniano 

A 4 de julho, o presidente russo Vladimir Putin foi recebido em audiência (foi a terceira vez) pelo papa. Expressa satisfação pelo desenvolvimento das relações bilaterais – afirmou depois num comunicado: «Foram enfrentadas algumas questões de relevo para a vida da Igreja católica na Rússia. Detivemo-nos depois na questão ecológica e em alguns temas da atualidade internacional, com particular referência à Síria, à Ucrânia e à Venezuela».
Sobre ao Médio oriente, ambos – disse-se – concordam com a urgência de defender aí as minorias cristãs, colocadas em perigo por conflitos e perseguições por parte de grupos extremistas islâmicos. Mas sobre a Ucrânia? O comunicado não especifica: Putin e Francisco talvez não estejam de acordo. Com efeito, para a Santa Sé, a questão da Crimeia e da Ucrânia oriental deve resolver-se com base no direito internacional; para o chefe do Kremlin, um retrocesso na península da Ucrânia é impensável.
E a hipótese de uma viagem do papa à Rússia? O Santo Sínodo russo, hoje, é contrário à ideia; e Putin, por agora (por agora!), não se quer impor. A 12 de fevereiro de 2016, deu-se em Havana o primeiro encontro de um papa com um patriarca de Moscovo: um encontro malvisto por setores importantes – como o mundo monástico – da Ortodoxia russa. Além disso, nas vésperas do grande acontecimento de 4 de julho, um porta-voz do Patriarcado, Vladimir Legoyda, precisava: «A Igreja russa não tem comentários a fazer sobre o encontro entre dois chefes de Estado». Acrescentava, todavia, que ele «é importante e útil, dado que o Vaticano e a Rússia defendem o matrimónio tradicional e a família, e protegem os direitos dos cristãos em regiões onde são perseguidos».
De qualquer forma, Francisco, sobre a questão da hipotética viagem à Rússia, não quer forçar, contrariamente ao que fez João Paulo II. Este, apesar do “não” explícito de Eleksij II, então Patriarca de Moscovo, em junho de 2001 visitou a Ucrânia; e, no encontro ecuménico com ele, quem o saudou em nome de todos? O “patriarca” Filaret; uma bofetada para os russos. Dois anos depois Woityla tinha projetado ir, em agosto, a Ulan Bator, na Mongólia, e, nessa ocasião, contava fazer uma escala em Kazan, no Turquestão – 800 Km a leste de Moscovo – para entregar nas mãos de Aleksij um ícone precioso, no Vaticano considerado o original desaparecido de Kazan no início do século XIX e, depois de várias peripécias, chegado de Nova Iorque como oferta ao papa polaco. Perante a nítida recusa do patriarca, aquele pontífice cancelou toda a viagem. 

O contraponto dos greco-católicos ucranianos 

Depois da ouverture da cimeira papa-Putin, nos dois dias seguinte houve outra no Vaticano, já anunciada há dois meses: Francisco, com três cardeais da cúria (entre eles Parolin), juntamente com Sviatoslav Shevchuk, arcebispo maior de Kyiv-Halyc, e os membros permanentes do seu Sínodo, mais os metropolitas. Esta reunião tinha por objetivo «individuar os modos com que a Igreja católica na Ucrânia, e de modo particular a Igreja greco-católica, se pode dedicar mais eficazmente à pregação do Evangelho, contribuir para o apoio aos que sofrem e promover a paz, tanto quanto é possível, com a Igreja católica de rito latino e com as outras Igrejas e comunidades cristãs». 
A propósito da ajuda humanitária a Kiev, recorde-se que com o projeto O Papa para a Ucrânia, iniciado em 2016, Francisco e os organismos do Vaticano enviaram para lá 16 milhões de euros em víveres, materiais, ajudas várias. Após o encontro, na noite de 6 de julho, um comunicado do Vaticano resumia os resultados. Depois de ter dito que o papa apreciou muito a fidelidade dos greco-católicos «à comunhão com o Sucessor de Pedro, confirmada e selada com o sangue dos mártires», precisava: «Foi dedicada particular atenção ao trabalho pastoral, à evangelização, ao ecumenismo, à vocação específica da Igreja greco-católica no contexto dos desafios hodiernos da situação sociopolítica, particularmente da guerra e da crise humanitária na Ucrânia».
A “guerra” na Ucrânia é, portanto, nomeada: mas quem a provocou? O texto não diz. Contudo, nas vésperas do encontro, Shevchuk tinha declarado: «A guerra não pode terminar com uma paz a qualquer custo; seria uma capitulação. É impossível a paz sem justiça». E a 28 de janeiro de 2018, o papa em visita à basílica de Santa Sofia – o centro dos greco-católicos ucranianos em Roma – tinha recordado a “agressão” russa contra a Crimeia. 

Entre religião e política 

Algum flash histórico, para que se compreenda tal atitude. No fim do século XVI, a Ucrânia centro-ocidental estava nas mãos dos reis polaco-lituanos, católicos, enquanto a parte oriental do país estava ligada aos czares, ortodoxos. Em 1595, dois bispos ucranianos reconheceram em Roma a autoridade do papa Clemente VIII e, no ano seguinte, no Sínodo de Brest Litovsk, a maioria dos bispos confirmou esta opção dos “uniatas” (assim chamam os ortodoxos aos gregos unidos a Roma). Em 1946, um pseudossínodo em Lviv, imposto por Estaline, declarou nula a união de 1596: os greco-católicos tornavam-se, pois, por lei, ortodoxos. Quem não aceitou, a começar por bispos e padres, sofreu perseguição e foi preso. Depois, na Ucrânia independente, eles foram e são a ponta de lança para afastar o país da Rússia. Shevchuk considera-se, de facto, “patriarca” greco-católico (e tem dioceses não só na pátria, mas também no estrangeiro, particularmente nas Américas. No conjunto cinco milhões de fiéis), o que irrita Moscovo e também desagrada a Roma. 
Terá solução o conflito eclesial ucraniano? Entretanto, ele mistura-se com a política. Se a Ucrânia se tornar a linha avançada do Ocidente e a sentinela da Casa Branca e da NATO para manter a Rússia em rédea curta, tudo vai piorar; só um novo rumo entre Kiev e Kremlin, e vice-versa, poderia iniciar uma clarificação. E na frente religiosa? Hilarion, nestes meses, em Damasco, Jerusalém e Atenas, defendeu, com os respetivos patriarcas e primazes, a causa russa.
Mas o arcebispo ortodoxo do Chipre, Chrysostomos, esforça-se por reconciliar Kirill e Bartolomeu, tarefa porventura possível no futuro, mas não hoje: em conjunto com razões históricas e canónicas, agravam agora o terreno rivalidades pessoais e institucionais que complicam tudo. Kirill não aceitará nunca que um excomungado do Santo Sínodo seja reabilitado por Bartolomeu.
Enquanto um personagem obscuro e inquietante como Filaret continuar a tecer as suas tramas, a solução do trágico conflito intraortodoxo será impossível. Depois, para alegria da Primeira Roma, a Segunda (Constantinopla) e a Terceira (Moscovo) talvez – nada, porém, é dado como certo – encontrem a paz.

Luigi Sandri
Paolo Emilio Landi
Confronti (julho de 2019)

03/06/2019

As recentes tensões entre as Igrejas ortodoxas a propósito da autocefalia da Igreja ucraniana

Têm-se agravado recentemente até à rutura as relações entre as Igrejas ortodoxas, nomeadamente entre Moscovo e Constantinopla, por causa da autocefalia da Igreja ucraniana. Esta questão de grande relevância eclesial reflete os problemas políticos entre a Rússia e a Ucrânia, recentemente agravados, assim como a relação de dependência das Igrejas face às autoridades políticas por aquelas paragens. Como contributo para a compreensão duma questão com profunda e negativa ressonância no horizonte ecuménico, disponibilizamos em versão portuguesa dois textos: o primeiro favorece a compreensão da questão e a sua evolução nos últimos meses; o segundo reflete sobre o posicionamento do catolicismo romano face ao grave problema que a Ortodoxia está a viver.

Agudiza-se o cisma entre Moscovo e o Fanar

O patriarca Bartolomeu assina o tomos
na presença do metropolita Epiphany
5 de janeiro de 2019
Piervy sriedì ravnikh ou Piervy biez ravnykh? São estas, em russo, as expressões jurídicas latinas: Primus inter pares (primeiro entre pares) ou Primus sine paribus (primeiro sem pares, ou seja sem iguais)? A resposta divergente, que o Patriarcado de Moscovo, hoje liderada por Kirill, e o Patriarcado de Constantinopla, governado por Bartolomeu I, dão à pergunta, está na base do seu irredutível desacordo sobre a autocefalia (independência) da Igreja ucraniana. Uma contenda dramática que levou os responsáveis da Igreja russa a proclamarem a interrupção da comunhão eucarística – ou seja, em sentido estrito, o cisma – devido às opções da irmã sediada em Istambul, no bairro do Fanar. 
Resumamos um acontecimento tormentoso, sobre que já escrevemos mais vezes em Confronti. A 19 de abril de 2018, a Verkhovna Rada (Parlamento de Kiev) fez sua a exigência do presidente Petro Poroshenko ao Fanar de conceder a autocefalia à Igreja ortodoxa ucraniana. Bartolomeu, sem responder com um redondo «sim», deixava-o relampejar, alarmando assim Moscovo. Em setembro aceitou a proposta, para finalmente – sustentava – reunir as três Igrejas ortodoxas do país: 
1. A Igreja ortodoxa, ligada a Moscovo, e liderada pelo metropolita de Kiev, Onufry. 
2. O Patriarcado de Kiev, nas mãos de Filaret. 
3. A Igreja autocéfala ucraniana, uma comunidade modesta
O patriarca Bartolomeu entrega o tomos
ao metropolita Epifany
6 de janeiro de 2019
A primeira é a mais numerosa; as outras duas, surgidas em 1992, depois do colapso da URSS e o nascimento a Ucrânia independente, são consideradas cismáticas por Moscovo (que em 1995 já tinha reduzido ao estado laical e em 1997 excomungado Filaret, o autoproclamado “patriarca” de Kiev). Kirill, a 31 de agosto de 2018, dirigiu-se a Bartolomeu, para o deter: este, contudo, com o seu Sínodo, continuava, a “abençoar” um “Concílio para a reunificação” – considerado ilegal por Moscovo – que a 15 de dezembro deu vida, em Kiev, à Igreja ortodoxa da Ucrânia, formada pelo Patriarcado de Kiev e pela Igreja autocéfala ucraniana, e elegeu como primaz Epifany. Poroshenko empenhou-se muito em toda a operação: uma pressão política demasiado indigesta para os russos. Depois, a 5 de janeiro, Bartolomeu assinou o tomos (decreto sinodal) da autocefalia e, no dia seguinte, entregou-o ao novo primaz.
Aos russos que contestavam a legitimidade canónica da decisão, o Patriarcado ecuménico replicava com a invocação do seu direito de conceder a autocefalia aos ucranianos: como demonstraria a história eclesial dos Balcãs – da qual oferecemos aqui uma síntese nossa. 
Quando a Bulgária, em 1393, caiu às mãos dos turcos, perdeu a sua autocefalia. Cinco séculos depois, em 1870, o governo otomano permitiu a reconstituição de Igreja nacional búlgara: mas o Fanar declarou-a cismática e só reconheceu a autocefalia da Igreja búlgara em 1945, pondo fim ao cisma. Outro caso: em 1922 a Igreja ortodoxa albanesa proclamou-se autocéfala, decisão nunca reconhecida por Constantinopla e por grande parte do episcopado grego (irritados por se usar em Tirana o albanês, em vez do grego, como língua litúrgica). Em 1937, porém, o Patriarcado ecuménico concedeu finalmente a autocefalia aos albaneses. 
Ainda: depois da fusão dos principados da Valáquia e da Moldávia, a Roménia tornou-se independente em 1878. O Fanar, sob cuja jurisdição estavam quando faziam parte do império otomano, reconheceu a autocefalia da Igreja romena em 1885. Já tinha reconhecido em 1879 a autocefalia da Igreja sérvia. Houve, contudo, desacordo, após 1945, entre o Fanar e Moscovo, quanto à concessão da autocefalia à Igreja ortodoxa checoslovaca e, com a divisão deste país em 1993, à que se tornou a Igreja das terras checas e da Eslováquia, cujo primaz é desde 2014 Rostislav. A autocefalia das Igrejas balcânicas começou, tanto quanto parece, sem objeções da parte de Moscovo. Recordamos, contudo, que, de 1721 a 1917, a Igreja russa – por decisão de Pedro Grande e dos czares que lhe sucederam – permaneceu sem patriarca; e de novo sem patriarca, por vontade dos soviéticos, de 1925 a 1943. 
Em todo o caso, invocando estes precedentes, Bartolomeu reafirma agora que só ele tem, e não outros, o direito de conceder a autocefalia. Em Kiev, entretanto, na Igreja recém-nascida foi instituído o Sínodo, de que faz parte o “patriarca honorífico Filaret”, o qual, nonagenário, no dia seguinte ao “Concílio” explicitou que ele «permanece patriarca, porque este é para a vida e, juntamente com o primaz, governa a Igreja ortodoxa da Ucrânia». Não só: A 5 de fevereiro, o Sínodo nomeou-o bispo da diocese de Kiev (excluído o mosteiro de São Miguel). Permanece, contudo, um mistério o que é que isso significa, dado que Epifany é metropolita de Kiev.
Afirmando que Bartolomeu é “primeiro” sriedì ma non biez ravnykh, o Santo Sínodo russo nega-lhe o direito de tomar sozinho decisões respeitantes a toda a Ortodoxia: ele pode coordenar o trabalho dos “iguais a ele”, mas nunca interferindo nos assuntos internos das outras Igrejas irmãs, ou ignorando mesmo o parecer delas. Por isso, Kirill reafirma: só a Sinassi (reunião) dos líderes das Igrejas autocéfalas – hoje 14, porque a 15ª, a ucraniana nascida a 15 de dezembro de 2018, não é reconhecida por Moscovo – poderia conceder a uma Igreja a autocefalia. Para os russos, o “como” nasceram as Igrejas autocéfalas balcânicas não prova nada; além disso, nenhuma delas é comparável à situação ucraniana, na qual a maior parte dos ortodoxos, por enquanto, se reconhece na Igreja pró-russa, que considera anticanónico e cismático o “Concílio” de 2018. A 31 de janeiro passado, em Moscovo, foi celebrado solenemente o décimo aniversário da eleição de Kirill como patricarca. Num discurso aos representantes das Igrejas autocéfalas presentes (faltava Constantinopla!), ele ironizou a propósito do “novo” princípio do piervy biez ravnykh: para os russos – subentendia-se – não pode existir um “papa” dos ortodoxos.

Sérvia. Como se posicionou a Ortodoxia face à laceração em curso? Vejamos, por agora, a resposta de algumas Igrejas europeias. O patriarca sérvio, Irenej – que tinha estado em Moscovo para o décimo aniversário de Kirill – e o seu Sínodo, no fim de fevereiro, emitiram uma declaração oficial. Tendo em conta que o próprio Irenej se tinha deslocado a Salónica, para convidar o primus inter pares a retroceder nos seus passos, e dada a inutilidade destes esforços «a Igreja ortodoxa sérvia: 
1. Não reconhece a anticanónica “invasão” do patriarcado de Constantinopla ao território canónico da Santa Igreja russa, dado que o metropolita de Kiev, que inclui dúzias de dioceses, em 1686, tendo por base as decisões do patriarca de Constantinopla, Dionísio IV, foi colocada sob o de Moscovo. 
2. Não reconhece a “Igreja autocéfala da Ucrânia” que, do ponto de vista canónico, não existe. Os cismáticos permanecem cismáticos, a não ser que, com uma sincera confissão, se arrependam. 
3. Não reconhece o “Concílio” de Kiev. Ele é erroneamente chamado de “reunificação” e desintegrou ainda mais a infeliz Ucrânia. 
4. Não reconhece um episcopado cismático, que pertence à ala de Denishenko [Filaret, ndr], reduzido [por Moscovo, ndr] ao estado laical e excomungado. Recomenda aos hierarcas e ao clero que se abstenham de qualquer comunhão litúrgica e canónica não só com o Senhor Epifany e com outros como ele, mas também com os bispos e os clérigos que concelebram com eles… A Igreja sérvia implora a sua Santidade o patriarca ecuménico que reconsidere a decisão tomada».

Roménia. Mais matizada foi a posição do Sínodo romeno reunido a 21 de fevereiro:
«1. Durante cerca de 30 anos o problema da divisão [da Igreja ortodoxa, ndr] na Ucrânia não foi resolvido. 
2. O patriarca ecuménico decidiu sair do impasse e concedeu o tomos da autocefalia. Mas ele só foi acolhido pela Ortodoxia ucraniana fora da comunhão com Moscovo; e assim a questão da unidade da Igreja na Ucrânia permanece não totalmente resolvida. 
3. Recomenda-se ao patriarca ecuménico e ao patriarca de Moscovo que encontrem as vias para resolverem o contencioso, preservarem a unidade na fé, respeitarem a liberdade pastoral e administrativa do clero e fiéis daquele país (incluído o direito à autocefalia) e restabelecerem a comunhão eucarística. 
4. Caso falhe o diálogo bilateral, é necessário reunir a Sinassi dos primazes das Igrejas ortodoxas para resolver o problema pendente». 
O Sínodo insiste, pois, para que às 127 paróquias romeno-ortodoxas na Ucrânia, sobretudo em Bukovyna (região já da Roménia, passada durante a II Guerra Mundial à Ucrânia soviética) seja garantida a liberdade plena e o uso do romeno na liturgia, propostas que Epifany – prestes a deslocar-se a Bucareste – garantiu acolher (aliás no país existe um Vicariato ucraniano ortodoxo com liberdade para se organizar).

Albânia. Já a 4 de janeiro o Sínodo da Igreja albanesa tinha invocado a Sinassi: uma proposta que o arcebispo de Tirana, Anastasios, comunicou a Bartolomeu dez dias depois, com uma carta dada a conhecer só a 7 de março e, traduzida em russo, publicada em Moscovo três dias depois. 
O primaz albanês deplora que a Igreja russa tenha desertado do Concílio de Creta; e que tenha rompido a comunhão eucarística com o Fanar. Mas, ao mesmo tempo, critica a fundo Filaret (um excomungado que – recorda – chegou a consagrar bispos que, por isso, não o são!); e refuta reconhecer a canonicidade da Igreja ucraniana nascida a partir do Concílio de dezembro. 
E então? Bartolomeu, que tem este “privilégio exclusivo”, convoque uma Sinassi, ou um Concílio, «para esconjurar o perigo evidente do princípio de um doloroso cisma, que ameaça a solidez da Ortodoxia e o seu testemunho persuasivo ao mundo de hoje». Bartolomeu respondeu a Anastasios a 20 de fevereiro (mas a carta foi publicada semanas depois), reafirmando as suas teses (em particular, a validade da ordenação dos bispos da nova Igreja da Ucrânia). Mas ignora totalmente a auspiciada reunião da Sinassi. A este respeito, dado que as decisões desta são tomadas por unanimidade, e como Moscovo e Constantinopla divergem quanto aos critérios para conceder a autocefalia, no passado estabeleceu-se não submeter a questão a exame no Concílio ortodoxo (depois celebrado em 2016 em Creta; mas, no último momento, a Igreja russa – que representa cerca de 70% dos 200 milhões de ortodoxos no mundo – recusou-se a participar).

Pergunta: Será possível agora o que não se pôde propor há três anos? Entretanto, partilharam as teses russas Rostislav («Filaret é um impostor») e Sava, primaz dos ortodoxos polacos. Das outras Igrejas autocéfalas surgiram declarações de alguns hierarcas, frequentemente ambíguas – como as que Theophilos III, patriarca grego de Jerusalém. Esperam-se palavras importantes dos vários Sínodos: serão pró-russas as Igrejas eslavas e pró-Fanar as gregas? Não está dito. Entretanto torna-se mais profunda a fenda aberta na Ortodoxia pelo terramoto eclesial ucraniano. 

Luigi Sandri
Confronti (abril de 2019)

Face às divisões entre as Igrejas ortodoxas

O mistério da Igreja como corpo de Cristo Senhor é revelado e compreendido não só por quem nele acredita, mas sobretudo por quem o vive. O apóstolo Paulo, recorrendo à imagem do corpo humano, escreve: «Como o corpo é um, mesmo tendo muitos membros, e todos os membros do corpo, apesar de serem muitos, formam um só corpo, assim também Cristo… Deus compôs o corpo para que não houvesse divisão no corpo, mas os vários membros cuidassem uns dos outros. Portanto, se um membro sofre, todos os membros sofrem juntos e, se um membro é honrado, todos os membros se alegram juntos» (1 Cor 12, 12.25-26). 
Em virtude precisamente deste grande mistério vivido quotidianamente como exigência absoluta, nós católicos sofremos por causa das tensões, das contendas vividas por vezes pelas diversas Igrejas, inclusivamente a católica, e agora sofremos de modo especial pela interrupção da comunhão eucarística decretada pelo Sínodo do Patriarcado de Moscovo relativamente ao de Constantinopla, duas Igrejas irmãs com as quais a comunhão que nos une é muito mais forte do que o que nos separa. Queremos dizer sobretudo às Igrejas da Ortodoxia que fazemos nosso o seu sofrimento, porque a caridade de Cristo nos impele a esta participação nos seus sentimentos. Pedro Venerável, abade de Cluny, grande monge e expoente espiritual medieval, escrevia numa carta: «Non vegetatur Spiritu Christi qui non sentit vulnera corporis Christi! Não vive do Espírito de Cristo quem não sente as feridas do corpo de Cristo».
Este sofrimento impele-nos sobretudo à oração, à invocação do Espírito de comunhão para todas as Igrejas e sobretudo para as Igrejas atualmente em tensão entre si: como a litania que abre a Divina Liturgia de São João Crisóstomo, nós erguemos a nossa súplica: «Pela paz do mundo inteiro, pela prosperidade das Santas Igrejas de Deus e a união de todos nós, imploramos ao Senhor: Kyrie eleison!». A oração expressa na partilha do sofrimento e no acordo dos pedidos é o primeiro passo urgente e necessário para que as feridas se curem, as contendas se superem e as divisões passadas e presentes deem lugar à comunhão, que é o dom por excelência do Senhor à sua Igreja. 
A Ucrânia é uma terra de encontros, como indica o seu nome, e a herança que ela guarda a partir dos santos fundadores do Mosteiro das Grutas [Mosteiro de Kiev-Pechersk, ndt] – António e Teodósio – é um tesouro precioso, um dom para todas as Igrejas. A contenda ocorrida fere esta herança e fragiliza o anúncio do Evangelho de que esta terra precisa depois de decénios de perseguição religiosa e de padecimentos de todo um povo. Ninguém esquece os sofrimentos humanos e eclesiais do povo ucraniano, e todas as Igrejas cristãs confessam o testemunho dos mártires ortodoxos, católicos de rito oriental ou latino, protestantes, cujo sangue derramado pela fidelidade a Cristo Senhor é semente de fé e, ao mesmo tempo, verdadeiro ecumenismo vivido na carne, no dar a vida por Deus e pelos irmãos e irmãs. À volta do Cordeiro imolado, estes mártires e confessores intercedem unanimemente pelas suas Igrejas e pela Igreja una, santa, católica e apostólica, para que reine a santa koinonia dada pelo Ressuscitado através do Espírito Santo. Estes mártires recordam-nos, também na Ucrânia, que os muros levantados na terra entre as Igrejas não se erguem até ao céu. 
Com esta viva intercessão resistimos, portanto, ao Divisor, ao Diabo que procura sempre levar a divisão aos cristãos para destruir a integridade do corpo de Cristo: não permitamos que o Diabo nos separe e não joguemos o seu jogo! No outono passado, em Bari, todas as Igrejas ortodoxas estiveram em oração e em diálogo juntamente com o Bispo de Roma: acontecimento primaveril do ecumenismo sobre que depressa desceu uma geada querida certamente pelo Divisor. 
Mas, para além da partilha do sofrimento e da oração, o que é que nós católicos podemos fazer? Antes de mais, não realizar o mais pequeno gesto que possa parecer uma intromissão nas questões internas da Ortodoxia, nem alimentar um desejo ou, muito menos, uma pretensão de arbitragem entre as Igrejas ortodoxas que vivem divisões, não só na Ucrânia, mas também no Médio Oriente. 
Nas atuais divisões e tensões intraortodoxas, devemos escutar-nos, encontrar-nos e falar, manifestando o nosso sofrimento, abandonando inimizades e evitando tomadas de posição apodíticas. O percurso é sempre o da desconfiança à confiança recíproca, purificando e curando as memórias, até delinearmos em conjunto o caminho que nos espera, mesurando-o no caminho em direção ao Reino, meta para a qual todas as Igrejas estão em peregrinação. 
Por fim, nesta hora de sofrimento dos homens e mulheres por causa da guerra e da pobreza sofridas pelas populações destas nossas Igrejas irmãs, torna-se necessário colocar-se ao serviço dos que sofrem, dos necessitados, sobretudo das crianças, primeiras vítimas inocentes dos conflitos e da pobreza. Devem inspirar-nos sempre as palavras do apóstolo Paulo: «Sede servos uns dos outros através da caridade» (Gal 5, 13). Para além dos confrontos, as Igrejas ortodoxas unam-se na vivência da caridade concreta para com todos os que sofrem. 
Dizemos, portanto, aos nossos irmãos ortodoxos: «Precisamos do vosso testemunho evangélico, e a vossa divisão fere-nos a todos». O papa Francisco, na celebração de Vésperas, na Basílica de São Paulo Extramuros, a 25 de janeiro de 2015, dizia: «A unidade dos cristãos – estamos convencidos – não será fruto de apuradas discussões teóricas em que cada um tentará convencer o outro do fundamento das próprias opiniões. Virá o Filho do homem e ainda nos encontrará em discussões. Temos de reconhecer que para chegarmos à profundidade do mistério de Deus precisamos uns dos outros, de nos encontrarmos e de nos confrontarmos guiados pelo Espírito Santo, que harmoniza as diversidades e supera os conflitos, reconcilia as diversidades». É com estes sentimentos que dizemos aos patriarcas das Igrejas ortodoxas, aos seus metropolitas e bispos, aos irmãos e às irmãs ortodoxas o nosso amor, a nossa solicitude, a nossa fervorosa intercessão. 

Enzo Bianchi
L'Osservatore Romano (27 de maio de 2019)

27/02/2019

Bispo do Porto abre Paço Episcopal à Comissão Ecuménica do Porto

A Comissão Ecuménica do Porto reuniu-se no Paço Episcopal na quarta-feira 20 de fevereiro a convite do bispo do Porto, D. Manuel Linda. No jantar que se seguiu estiveram também presentes D. Jorge Pina Cabral, bispo da Igreja Lusitana, Comunhão Anglicana, e o bispo Sifredo Teixeira, da Igreja Evangélica Metodista. O Reverendo Sérgio Alves, membro da Comissão Ecuménica, redigiu o texto publicado no jornal diocesano Voz Portucalense, que aqui replicamos.

No contexto da semana de oração pela unidade dos cristãos, o Bispo do Porto, D. Manuel Linda, amavelmente convidou os membros da Comissão Ecuménica do Porto para um encontro seguido de jantar, no Paço Episcopal do Porto, que se realizou no dia 20 de fevereiro.
Os presentes foram fraternalmente acolhidos e tiveram oportunidade de visitar o belíssimo espaço e aprender elementos históricos importantes, em termos de estética e arquitetura e ao nível da relação entre a Igreja e o Estado, bem como perceber a nova dinâmica de abertura ao meio e inovação que está a ser implementada. 
A cidade do Porto é conhecida como a “capital do ecumenismo” na medida em que, desde o século passado, líderes eclesiais e leigos, se devotaram verdadeiramente à causa da unidade entre os cristãos, dando sinal vivo, algumas vezes incompreendido, de oração conjunta, fortalecimento de relações pessoais e propostas inovadoras de atividades ecuménicas na cidade.
Assim a Comissão Ecuménica do Porto, constituída em novos moldes no ano 2005, é herdeira de belo testemunho, verdadeiramente inspirador para o caminhar presente e futuro, não obstante as dificuldades próprias da unidade, que sabemos e cremos, desejada por Cristo: "(…) Pai que eles sejam um como Tu e eu somos um (…)" S. João 17, 21.
A Comissão teve oportunidade de realizar a habitual reunião mensal na sala da biblioteca episcopal a que se seguiu um agradável e fraterno jantar onde se juntaram os Bispos D. Jorge Pina Cabral da Igreja Lusitana – Comunhão Anglicana e o Bispo Sifredo Teixeira da Igreja Metodista Portuguesa.
Na alegria do encontro fraterno à volta mesa, D. Manuel Linda, partilhou o desejo das Igrejas ecuménicas da cidade, fortalecerem o seu testemunho, através do serviço em diversas causas ligadas, por exemplo, à justiça, ao ambiente, reforçando que o “caminho ecuménico é para seguir em frente”.
D. Jorge Pina Cabral, lançou o desafio da Comissão assumir a temática da violência doméstica. O Bispo Sifredo Teixeira, relembrou o sonho não concretizado do Bispo D. Armindo Lopes Coelho, que passava pela criação de um espaço ecuménico na cidade, assegurado em parceria pelas Igrejas e que possibilitasse às pessoas mais informação sobre o mosaico ecuménico existente.
Novas visões para a missão foram partilhadas, num ambiente de respeito, amizade e vontade de continuar, por isso, graças sejam dadas a Deus, que a todos chama, para juntos anunciarmos a Boa Nova de Jesus Cristo.

Rev.º Sérgio Alves