22/11/2018

Fortalecer o Ecumenismo motiva encontro de responsáveis eclesiais do Porto

No seguimento do encontro ecuménico realizado pela Equipa Ecuménica do Porto no passado dia 16 de novembro, na Paróquia Lusitana do Bom Pastor, em Vila Nova de Gaia, transcrevemos a notícia redigida pelo Rev. Sérgio Alves para a página web da Comissão Ecuménica do Porto, para que também remetemos:

A Comissão Ecuménica do Porto (www.ecumenismoporto.org), promoveu no dia 16 de novembro de 2018, um encontro ecuménico seguido de jantar de confraternização, na Paróquia Lusitana do Bom Pastor, no Candal, em Vila Nova de Gaia.
Estiveram representadas várias Igrejas que vivem assumidamente o ecumenismo como parte integrante da sua missão. Diversas pessoas ligadas ao ecumenismo da cidade do grande Porto estiveram presentes, entre as quais destacam-se, D. Manuel Linda, Bispo do Porto da Igreja Católica Romana, o Bispo Sifredo Teixeira, da Igreja Evangélica Metodista de Portugal, o Bispo D. Jorge Pina Cabral da Igreja Lusitana – Comunhão Anglicana, o Padre Ivan, em representação do Arquimandrita Plhilip, da Igreja Ortodoxa do Patriarcado Ecuménico de Constantinopla, o Padre Alexandre Pisconov, em representação da Igreja Ortodoxa do Patriarcado de Moscovo, o Pastor Decker da Igreja Evangélica Alemã do Porto, o Cónego Philip Bourne representou a Igreja Anglicana de St James, a Revª Diácona Isabel Silva em representação do Dia Mundial de Oração, o Padre Paulo Teixeira, Capelão do Hospital de S. João, e as jovens Catarina e Carla do Grupo Ecuménico Jovem do Porto.
O evento teve início com um momento devocional, sustentado na oração da tarde da liturgia da Igreja Lusitana, dirigido pelo Pároco da comunidade local, Revº Sérgio Alves.
Seguiu-se um tempo aberto de partilha de visões e reflexões, sobre o atual momento do movimento ecuménico na cidade que proporcionou o renovar da motivação no exigente trabalho a realizar.
A volta da mesa do jantar, numa ambiência fraterna e alegre, estreitaram-se relações e planearam-se atividades para a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos do ano 2019, a realizar entre os dias 18 e 25 de janeiro, que terá como tema: “Procurarás a justiça e nada além da justiça” Deuteronómio 16, 18-20.
Orar juntos, confraternizar, estar à volta de uma mesa comum, durante o jantar, constituiu um sinal animador, fortalecedor e promissor da unidade na diversidade, que se procura alcançar no movimento ecuménico, que é caminho que se faz caminhando, em processo de (re)construção permanente que em cada tempo requer energia e empenho renovado, das bases até às hierarquias e das hierarquias até às bases.

Pela Comissão Ecuménica do Porto

Revº Sérgio Alves
Membro da Comissão Ecuménico do Porto

30/08/2018

Tempo da Criação 2018


De 1 de setembro a 4 de outubro, os cristãos em todo o mundo unem-se na ação e na oração pela criação. É o “Tempo da Criação”, celebrado em todas as partes do globo.
Remetemos para a página web da iniciativa e deixámos a declaração conjunta dos líderes das várias confissões cristãs.



Caros irmãos e irmãs em Cristo,

“Pergunta, pois, aos animais e eles te ensinarão; às aves do céu e elas te instruirão. Fala (aos répteis) da terra, e eles te responderão, e aos peixes do mar, e eles te darão lições. Entre todos esses seres quem não sabe que a mão de Deus fez tudo isso?” (Jó 12,7-9).
Um vez por ano, de 1 de setembro a 4 de outubro, os membros da família de Cristo reservam um tempo para aprofundar seu relacionamento com o Criador, com o próximo e toda a criação. Estamos a falar do Tempo da Criação, que teve início em 1989 com o primeiro reconhecimento do dia de oração pela criação por parte do Patriarcado Ecuménico de Constantinopla, mas que agora é celebrado por toda a família ecuménica.
Durante o Tempo da Criação, unimo-nos para celebrar a boa dádiva da criação e refletir sobre o cuidado que lhe dispensamos. Essa é uma oportunidade preciosa que temos para interromper as nossas rotinas diárias a fim de contemplar a teia de vida que nos une.
À medida que a crise ambiental se aprofunda, nós cristão somos chamados a dar testemunho de nossa fé, tomando medidas ousadas para preservar a dádiva que partilhamos. Como canta o salmista: “Do Senhor é a terra e tudo o que ela contém, a órbita terrestre e todos os que nela habitam” (Salmo 24,1). Durante o Tempo da Criação, devemos perguntar-nos: Será que nossas ações honram o Senhor como Criador? Existe alguma forma de aprofundar a nossa fé, protegendo os nossos irmãos e irmãs mais vulneráveis, que sofrem as consequências diretas da degradação ambiental?
Nós convidamo-lo a juntar-se a nós numa jornada de fé que nos desafia e recompensa com novas perspetivas e laços mais profundos de amor. Unidos por um desejo sincero de proteger a criação e todos os que a partilham, damos as nossas mãos como irmãos e irmãs em Cristo, independentemente das nossas denominações. Neste Tempo da Criação, caminharemos juntos para desempenhar melhor o nosso papel como guardiões da criação.
“Bendize, ó minha alma, o Senhor! Senhor, meu Deus, vós sois imensamente grande! De majestade e esplendor vos revestis, envolvido de luz como de um manto. Vós estendestes o céu qual pavilhão” (Salmo 104,1-2).
Consigo, damos graças pela comunidade de cristãos em todo o mundo que tem levado o amor para o Tempo da Criação, e louvamos ao Criador pelas dádivas que recebemos.

Na graça de Deus,

Arcebispo Job de Telmessos, Representante Permanente do Patriarcado Ecuménico ao Conselho Mundial de Igrejas, em nome de Sua Santidade, o Patriarca Ecuménico Bartolomeu I
V. Em.ª Justin Welby, Arcebispo de Cantuária
Cardeal Peter K. A. Turkson, Presidente do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral
Dr. Olav Fykse Tveit, Secretário Geral do Conselho Mundial de Igrejas
Bispo Efraim Tendero, Secretário Geral da Aliança Mundial Evangélica
Dr. Martin Junge, Secretário Geral da Federação Luterana Mundial
Rudelmar Bueno de Faria, Secretário Geral da ACT Alliance

29/06/2018

O papa Francisco peregrino no Conselho Ecuménico das Igrejas

«Desejei vir aqui, peregrino à procura de unidade e de paz», assim resumiu o papa Francisco o estilo e as intenções da sua visita a Genebra no passado 21 de junho, por ocasião do 70º aniversário do Conselho Ecuménico das Igrejas (CEC). Desejo, peregrinação, procura, unidade e paz: estes foram os eixos de um acontecimento que o Secretário geral do CEC, o pastor luterano norueguês Olav Fykse Tveit non hesitou em definir como «pedra miliar» no caminho ecuménico. Um acontecimento em que um irmão nosso teve o dom de poder participar, como sinal da colaboração fraterna instaurada há diversos decénios entre o nosso Mosteiro [de Bose] e a CEC.
Este caminho - sublinhou o papa Francisco no discurso durante a oração ecuménica, na abertura da intensa jornada fraterna - é um «caminho que tem um meta precisa: a unidade». Por isso, o mote escolhido para a jornada - «Caminhar juntos, rezar juntos, trabalhar juntos» - foi declinado pelo papa Francisco como um «rezar, evangelizar e servir juntos». E se ao «rezar juntos» falta ainda a possibilidade de partilhar a mesa eucarística e se o «servir juntos» assumiu a caraterística operosa de uma peregrinação de justiça e de paz para os povos e as igrejas mais provadas, o convite a «evangelizar juntos» é um forte apelo às próprias raízes do movimento ecuménico e um desafio para o futuro, uma resposta à «preocupação» que habita o coração do papa Francisco e de muitos homens e mulheres empenhados na procura da unidade dos cristãos.
De facto, é a partir da consciência do escândalo de uma prática confessional e, por vezes, competitiva, concorrencial da missão que despontou o movimento ecuménico no início do século XX. Como podem os cristãos divididos pensar que é possível anunciar de modo credível o Evangelho do seu único Senhor? Assim «evangelizar juntos» não só afasta todas as tentações de proselitismo, como também e sobretudo reporta os discípulos de Cristo às palavras do seu Senhor: «todos sejam um só para que o mundo creia» (Jo 17, 21), «pelo amor que tiverdes uns para com os outros reconhecerão que sois meus discípulos» (Jo 13, 25). Evangelizar juntos, então, «é possível e agradável a Deus», como assegurou com força o papa Francisco, porque «agora já é possível caminhar segundo o Espírito».
Nenhuma cedência à mundanidade, nenhuma procura de unir as forças entre cristãos para contarmos mais, talvez «com a intenção de satisfazer algum interesse particular». Pelo contrário, a aceitação de que o ecumenismo é «trabalhar em perda... uma grande tarefa em perda», mas uma «perda evangélica, segundo o caminho traçado por Jesus».
Palpável era a sintonia dos participantes no encontro de Genebra - em representação de cerca de 350 Igrejas que são membros do CEC - com as palavras do bispo de Roma que os veio encontrar (e que, também para sublinhar este seu ministério, quis pronunciar os seus discursos em italiano): quer nos momentos fortes da oração ecuménica da manhã e do encontro de reflexão da tarde, quer nos encontros informais de permeio constatava-se um contínuo percorrer de novo com alegria e gratidão o caminho já percorrido juntos e as novas etapas de um percurso que não quer ser outro que a «vinda da Palavra» (cf. 2 Tes 2, 1) à história: uma palavra de vida plena para os homens e as mulheres do nosso tempo, a começar pelos últimos, os prediletos do Senhor.

21/06/2018

Discurso do papa Francisco por ocasião Peregrinação Ecuménica a Genebra no 70º aniversário do Conselho Mundial das Igrejas

Amados irmãos e irmãs!

Estou feliz por vos encontrar e grato pela vossa calorosa receção. Agradeço de modo particular ao Secretário-Geral, Reverendo Dr. Olav Fykse Tveit, e à Moderadora, Dra. Agnes Abuom, pelas suas palavras e por me terem convidado por ocasião do septuagésimo aniversário da criação do Conselho Mundial das Igrejas.
Biblicamente, o cômputo de setenta anos evoca a duração completa duma vida, sinal de bênção divina. Mas, setenta é também um número que traz à mente duas passagens famosas do Evangelho. Na primeira, o Senhor mandou perdoar-nos, não até sete vezes, mas «até setenta vezes sete» (Mt 18, 22). O número não pretende por certo indicar um limite quantitativo, mas abrir um horizonte qualitativo: não mede a justiça, mas alonga a medida para uma caridade desmesurada, capaz de perdoar sem limites. É esta caridade que nos permite, depois de séculos de contrastes, estar juntos como irmãos e irmãs reconciliados e agradecidos a Deus nosso Pai.
O facto de nos encontrarmos aqui deve-se também a quantos nos precederam no caminho, escolhendo a estrada do perdão e consumindo-se para responder à vontade do Senhor: que «todos sejam um só» (Jo 17, 21). Impelidos pelo desejo ardente de Jesus, não se deixaram manietar pelos nós complicados das controvérsias, mas encontraram a audácia de olhar mais além e acreditar na unidade, superando as barreiras das suspeitas e do medo. É verdade aquilo que afirmava um antigo pai na fé: «Se verdadeiramente o amor conseguir eliminar o medo e este se transformar em amor, então descobrir-se-á que o que salva é precisamente a unidade» (São Gregório de Nissa, Homilia 15 sobre o Cântico dos Cânticos). Somos os beneficiários da fé, da caridade e da esperança de muitos que tiveram, com a força desarmada do Evangelho, a coragem de inverter o sentido da história; aquela história que nos levara a desconfiar uns dos outros e a alhear-nos mutuamente, seguindo a espiral diabólica de incessantes fragmentações. Graças ao Espírito Santo, inspirador e guia do ecumenismo, o sentido mudou e ficou indelevelmente traçado um caminho novo e, ao mesmo tempo, antigo: o caminho da comunhão reconciliada, rumo à manifestação visível daquela fraternidade que já une os crentes.
Mas, o número setenta proporciona-nos um segundo motivo evangélico: lembra aqueles discípulos que Jesus, durante o ministério público, enviou em missão (cf. Lc 10, 1) e são objeto de celebração no Oriente cristão. O número destes discípulos alude ao número das nações conhecidas, elencadas nos primeiros capítulos da Sagrada Escritura (cf. Gn 10). Que sugestão nos deixa isto? Que a missão tem em vista todos os povos, e cada discípulo, para ser tal, deve tornar-se apóstolo, missionário. O Conselho Ecuménico das Igrejas nasceu como instrumento do movimento ecuménico que foi suscitado por um forte apelo à missão: como podem os cristãos evangelizar, se estão divididos entre si? Esta premente interpelação orienta ainda o nosso caminho e traduz o pedido do Senhor para permanecermos unidos a fim de que «o mundo creia» (Jo 17, 21).
Permiti-me, amados irmãos e irmãs, que, além de viva gratidão pelo empenho que dedicais à unidade, vos manifeste também uma preocupação. Esta deriva da impressão de que o ecumenismo e a missão já não aparecem tão intimamente interligados como no princípio. E todavia o mandato missionário, que é mais do que a diakonia e a promoção do desenvolvimento humano, não pode ser esquecido nem anulado. Em causa está a nossa identidade. O anúncio do Evangelho até aos últimos confins da terra é conatural ao nosso ser de cristãos. Com certeza, a maneira de exercer a missão varia segundo os tempos e lugares e, perante a tentação – infelizmente habitual – de se impor seguindo lógicas mundanas, é preciso lembrar-se de que a Igreja de Cristo cresce por atração.
Mas, em que consiste esta força de atração? Não está por certo nas nossas ideias, estratégias ou programas: não se crê em Jesus Cristo através duma recolha de consensos, nem o Povo de Deus se pode reduzir ao nível duma organização não-governamental. Não! A força de atração está toda naquele dom sublime que conquistou o apóstolo Paulo: «Conhecer a [Cristo], na força da sua ressurreição e na comunhão com os seus sofrimentos» (Flp 3, 10). Este é o nosso único motivo de glória: «o conhecimento da glória de Deus, que resplandece na face de Cristo» (2 Cor 4, 6) e que nos foi dado pelo Espírito vivificador. Este é o tesouro que nós, frágeis vasos de barro (cf. 2 Cor 4, 7), devemos oferecer a este nosso amado e atribulado mundo. Não seríamos fiéis à missão que nos foi confiada, se reduzíssemos este tesouro ao valor dum humanismo puramente imanente, ao sabor das modas do momento. E seríamos maus guardiões, se quiséssemos apenas preservá-lo, enterrando-o com medo de sermos provocados pelos desafios do mundo (cf. Mt 25, 25).
Aquilo de que temos verdadeiramente necessidade é dum novo ímpeto evangelizador. Somos chamados a ser um povo que vive e partilha a alegria do Evangelho, que louva ao Senhor e serve os irmãos, com o espírito que deseja ardentemente descerrar horizontes de bondade e beleza inauditos a quem ainda não teve a graça de conhecer verdadeiramente a Jesus. Estou convencido que, se aumentar o impulso missionário, crescerá também a unidade entre nós. Como nos primórdios o anúncio marcou a primavera da Igreja, assim a evangelização marcará o florescimento duma nova primavera ecuménica. Como nos primórdios, estreitemo-nos em comunhão ao redor do Mestre, envergonhando-nos das nossas contínuas hesitações e dizendo-Lhe com Pedro: «A quem iremos nós, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna» (Jo 6, 68).
Amados irmãos e irmãs, desejei participar pessoalmente nas comemorações deste aniversário do Conselho inclusive para reafirmar o empenhamento da Igreja Católica na causa ecuménica e encorajar a cooperação com as Igrejas-membros e com os parceiros ecuménicos. A propósito, quero deter-me um pouco, também eu, no lema escolhido para este dia: Caminhar - Rezar - Trabalhar juntos.
Caminhar sim, mas para onde? Na base do que ficou dito, sugeriria um movimento duplo: de entrada e de saída. De entrada, a fim de nos dirigirmos constantemente para o centro, reconhecendo-nos ramos enxertados na única videira que é Jesus (cf. Jo 15, 1-8). Não daremos fruto sem nos ajudarmos mutuamente a permanecer unidos a Ele. De saída, rumo às múltiplas periferias existenciais de hoje, para levarmos juntos a graça sanadora do Evangelho à humanidade atribulada. Poderíamos interrogar-nos se estamos a caminhar de verdade ou apenas em palavras, se apresentamos os irmãos ao Senhor e os temos verdadeiramente a peito, ou se estão longe dos nossos reais interesses. Poderíamos interrogar-nos também se o nosso caminho é um mero cirandar sobre os nossos passos, ou uma convicta saída pelo mundo levando-lhe o Senhor.
Rezar: como no caminho, também na oração não podemos avançar sozinhos, porque a graça de Deus, mais do que retalhar-se à medida do indivíduo, difunde-se harmoniosamente entre os crentes que se amam. Quando dizemos «Pai nosso», ressoa dentro de nós a nossa filiação, mas também o nosso ser de irmãos. A oração é o oxigénio do ecumenismo. Sem oração, a comunhão asfixia e não avança, porque impedimos que o vento do Espírito a empurre para diante. Interroguemo-nos: Quanto rezamos uns pelos outros? O Senhor rezou para sermos um só; imitamo-Lo nisto?
Trabalhar juntos: a propósito, quero reiterar que a Igreja Católica reconhece a importância particular do trabalho realizado pela Comissão Fé e Constituição e deseja continuar a contribuir para ele através da participação de teólogos altamente qualificados. A pesquisa de Fé e Constituição em ordem a uma visão comum da Igreja e o seu trabalho no discernimento das questões morais e éticas tocam pontos nevrálgicos do desafio ecuménico. De igual modo a presença ativa na Comissão para a Missão e a Evangelização, a colaboração com o Departamento para o Diálogo Inter-religioso e a Cooperação – ainda recentemente sobre o tema importante da educação para a paz –, a preparação conjunta dos textos para a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos e várias outras formas de sinergia são elementos constitutivos duma sólida e corroborada colaboração. Além disso, aprecio o papel imprescindível do Instituto Ecuménico de Bossey na formação ecuménica das jovens gerações de responsáveis pastorais e académicos de muitas Igrejas e Confissões Cristãs de todo o mundo. Há muitos anos que a Igreja Católica colabora nesta obra educativa com a presença dum professor católico na Faculdade; e cada ano tenho a alegria de saudar o grupo de alunos que realiza a sua visita de estudo a Roma. Quero também mencionar, como bom sinal de «harmonia ecuménica», a crescente adesão ao Dia de Oração pela Salvaguarda da Criação.
Além disso, o trabalho tipicamente eclesial tem um sinónimo bem definido: diakonia. É o caminho por onde podemos seguir o Mestre, que «não veio para ser servido, mas para servir» (Mc 10, 45). O serviço variado e intenso das Igrejas-membros do Conselho encontra uma expressão emblemática na Peregrinação de Justiça e de Paz. A credibilidade do Evangelho é testada pela maneira como os cristãos respondem ao clamor de quantos injustamente, nos diferentes cantos da terra, são vítimas do trágico aumento duma exclusão que, gerando pobreza, fomenta os conflitos. Os fracos são cada vez mais marginalizados, vendo-se sem pão, sem trabalho nem futuro, enquanto os ricos são sempre menos e sempre mais ricos. Sintamo-nos interpelados pelo pranto dos que sofrem e compadeçamo-nos, porque «o programa do cristão (…) é um coração que vê» (Bento XVI, Carta enc. Deus caritas est, 31). Vejamos o que é possível fazer concretamente, em vez de nos desencorajar pelo que não o é. Olhemos também para muitos dos nossos irmãos e irmãs que em várias partes do mundo, especialmente no Médio Oriente, sofrem porque são cristãos. Estejamos ao seu lado. E lembremo-nos de que o nosso caminho ecuménico é precedido e acompanhado por um ecumenismo já realizado, o ecumenismo do sangue, que nos exorta a avançar.
Encorajemo-nos a superar a tentação de absolutizar certos paradigmas culturais e de nos deixar absorver por interesses de parte. Ajudemos as pessoas de boa vontade a dar maior espaço a situações e vicissitudes que afetam grande parte da humanidade, mas ocupam um lugar demasiado marginal na grande informação. Não podemos desinteressar-nos, e devemos inquietar-nos quando alguns cristãos se mostram indiferentes face a quem passa necessidade. E mais triste ainda é a convicção de quantos consideram os seus benefícios como puros sinais de predileção divina, e não como apelo a servir responsavelmente a família humana e salvaguardar a criação. É sobre o amor ao próximo, a cada pessoa que nos está próxima, que nos interpelará o Senhor (cf. Mt 25, 31-46), o Bom Samaritano da humanidade (cf. Lc 10, 29-37). Perguntemo-nos então: que podemos fazer juntos? Se um serviço é possível, por que não projetá-lo e realizá-lo conjuntamente, começando a experimentar uma fraternidade mais intensa no exercício da caridade concreta?
Amados irmãos e irmãs, reitero-vos a minha cordial gratidão. Ajudemo-nos a caminhar, rezar e trabalhar juntos, para que, com a ajuda de Deus, progrida a unidade e o mundo acredite. Obrigado.

Centro Ecuménico - Visser't Hooft Hall, Genebra, 21 de junho de 2018

Francisco

01/06/2018

Bartolomeu no Vaticano: uma agenda comum contra o individualismo

Cerca de meia hora de conversa entre Bergoglio e o patriarca de Constantinopla que abre a sessão no Vaticano do congresso da Fundação Centesimus Annus: «Hoje uma imensa crise de solidariedade atinge o mundo, a tecnologia é o nosso deus».

«Bom dia, Santidade». «Bom dia, acho-o melhor». Entre Francisco e Bartolomeu há confiança, os gestos são os de dois irmãos que se reúnem passado algum tempo: os sorrisos, abraços, graças sobre a saúde do patriarca hospitalizado no dia 6 de maio do ano passado, no Hospital Americano de Constantinopla devido a tonturas, provavelmente causadas por vertigens.
O "feeling" entre o Papa e o primaz ortodoxo, sucessores dos apóstolos Pedro e André, estabeleceu-se muito antes do encontro privado desta manhã [26 de maio de 2018], no Vaticano, onde o patriarca participa na conferência internacional «Novas políticas e estilos de vida na era digital», Promovido pela Fundação Centesimus Annus pro Pontifice, no seu 25º aniversário. Desde a missa do início do seu pontificado a 19 de março de 2013 - pela primeira um patriarca ortodoxo esteve na Praça de São Pedro - passando pelas reuniões históricas de Jerusalém, Istambul, Assis, Roma, até a viagem a Lesbos entre os refugiados do campo de Moira, Francisco e Bartolomeu compartilharam etapas inesquecíveis do seu ministério, assinando também, a 1 de setembro de 2017, uma mensagem conjunta para o Dia Mundial da Criação, uma preocupação comum de ambos os líderes religiosos.
O encontro desta manhã aconteceu na Sala da Biblioteca do Palácio Apostólico Vaticano, onde os dois dialogaram durante cerca de 25 minutos. O tempo é pouco e o patriarca - que na quarta-feira viveu um momento ecuménico indo à Basílica dos Doze Apóstolos para venerar as relíquias dos Santos Filipe e Tiago - às 10.30 h. tem de abrir a sessão da conferência da «Centesimus Annus», que, após dois dias de trabalhos no Palácio da Chancelaria, em Roma, tem lugar no Vaticano, na presença do cardeal secretário de Estado Pietro Parolin.
O papa e o patriarca saúdam-se em frente dos jornalistas e fotógrafos na Sala do "Tronetto"; os primeiros minutos são dedicados a perguntas sobre as condições de saúde do líder ortodoxo, que também fala ao Papa sobre seus colaboradores mais próximos. No final da conversa, acontece a habitual troca de presentes. Bartolomeu traz ao Pontífice uma pequena imagem de Nossa Senhora e o Menino, um ícone de São Francisco, patrono do papa argentino, e um livro sobre o Patriarcado de Constantinopla. Depois outro pequeno presente, um sinal de carinho que vai além do formalismo: uma caixa de chocolates. Francisco sorri e brinca ao recebê-la, e responde com um presente especial, nunca antes feito a um hóspede: a recente Exortação Apostólica «Gaudete et Exsultate» sobre o tema da santidade na vida quotidiana. Bergoglio assina a cópia diante do amigo patriarca e deixa, junto com a exortação, uma reprodução em bronze da Porta Santa.
Após o encontro com o papa - que voltará a ver às 12.30 h. durante uma audiência com os membros da «Centesimus Annus» - Bartolomeo desloca-se à próxima Sala Regia para proferir o seu longo discurso (todos em Inglês) sobre o tema «Uma agenda cristã comum para o bem comum». Perto, conta ter visitado Bento XVI no mosteiro Mater Ecclesiae ontem à tarde: «Uma grande alegria»; em seguida, desenvolve a sua reflexão a partir da encíclica de João Paulo II que dá nome à Fundação, a «Centesimus Annus», assinada pelo papa polaco a 1 de maio de 1991, no centenário da «Rerum Novarum».
«O que é verdadeiramente cristã é essencialmente social», começa Bartolomeu, «a fé não se limita apenas a "alma", sem qualquer interesse pela dimensão social, mas também desempenha um papel vital no nível da sociedade. As nossas Igrejas preservaram valores elevados, um precioso património espiritual e moral e um profundo conhecimento antropológico. A Igreja de Roma tem um ensinamento social sistemático, que contém soluções para problemas difíceis no espírito do respeito pelos princípios individuais de solidariedade, subsidiariedade e bem comum ", diz ele.
Com base nestes princípios e nos vários modelos desenvolvidos, o primaz ortodoxo reitera a urgência por parte das Igrejas Católica e Ortodoxa de «enfrentar os desafios sociais e proteger a dignidade humana». Também porque, sublinha, não se pode ignorar a «imensa crise de solidariedade» entendida como «o processo em curso de "dessolidarização" que ameaça o futuro da própria humanidade» e que segue em conjunto com os inúmeros problemas económicos e sociais que afetam diretamente a «existência» do homem.
Nasce daqui a necessidade de «uma agenda cristã comum para o bem comum», cujo princípio basilar é que cada um precisa do outro. Como homens, como igreja. «Ninguém pode enfrentar sozinho», diz Bartolomeu, os desafios que marcam a contemporaneidade, sobretudo a nível económico e social, mas também no campo da política, da ecologia, da ciência e da tecnologia. Especialmente neste último ponto, o patriarca de Constantinopla não esconde sua «preocupação» diante de uma certa «autonomia» em relação às «necessidades vitais do ser humano» e ao facto de que, apesar dos numerosos apelos, continuamos a produzir «armas terríveis de destruição maciça» que trazem consigo «o risco da guerra nuclear».
«O rápido progresso da ciência e tecnologia, juntamente com suas consequências benéficas, também conduz a resultados que não promovem uma cultura de solidariedade», diz o patriarca. «A tecnologia já não está ao serviço do homem, mas é sua principal força motriz, que requer completa obediência, além de impor os seus princípios em todos os aspectos da vida. Os omnipresentes meios eletrónicos de comunicação não difundem simplesmente informações, mas também transmitem valores - os seus valores - e reformulam as nossas opiniões sobre o significado da vida, dirigem as nossas necessidades, criando assim necessidades artificiais, e abrem caminho a um futuro que é dominado por eles».
Tais conquistas tecnológicas têm o seu próprio «fascínio», de tal modo que que, na opinião comum, o progresso da tecnologia é identificado com o progresso tecnológico. «Adoramos a tecnologia e seu símbolo mais alto, o computador, como nosso deus, e ao mesmo tempo esperamos receber todos os nossos benefícios: alegria, comunicação, progresso, informação, trabalho, etc. O «homo faber» torna-se «homo fabricatus» - sublinha Bartolomeu. De facto, enfrentamos uma infinidade de problemas que não são de natureza tecnológica e não podem ser resolvidos através da acumulação de informações adicionais. A injustiça social, os divórcios, a violência, os crimes, a solidão, o fanatismo e o choque de civilizações não são causados ​​pela falta de informação e tecnologia. Vemos que alguns desses problemas estão efetivamente a crescer juntamente com o progresso tecnológico da sociedade».
Diante desse complexo panorama, «precisamos uns dos outros», reafirma Bartolomeu; precisamos «de uma mobilização comum, de esforços comuns e objetivos comuns». É crucial, neste sentido, «a contribuição das nossas Igrejas" que, promovendo «o conteúdo social do Evangelho», constroem muros contra as injustiças e os poderes «que minam a coesão social». Este é precisamente o ponto, «a coesão social», afirma o patriarca; a que foi defendida pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, assinada em 1948, definida como «o fio de Ariadne» no interior do «labirinto do pluralismo contemporâneo».
Setenta anos depois desse importante documento, parece que domina tanto um «individualismo desenfreado», feito de palavras-chave como «eu», «eu mesmo», «meu», «autonomia», «auto-realização», «auto-admiração». «Uma das tendências contemporâneas mais perigosas para uma cultura de solidariedade é o individualismo, a auto-idolatria e o auto-encerrar-se na auto-suficiência egoísta, que cria abismos entre as pessoas», observa o primaz ecuménico. «No Ocidente, a explosão de conhecimento e informação estimula o desinteresse para com as outras pessoas, bem como um espírito de individualismo e deificação da propriedade; enquanto, em outras regiões do mundo, a tecnologia coexiste facilmente com a injustiça social e o fundamentalismo religioso», acrescenta.
E conclui, exortando a olhar para cima e apostando na realização de uma «comunidade de pessoas», na qual «mente e coração, fé e conhecimento, liberdade e amor, indivíduo e sociedade, ser humano e toda a criação são reconciliados».

20/04/2018

Um Doutor da Igreja [Gregório de Narek] nos jardins do Vaticano

Saudaram-se diante do monte Ararat, no mosteiro de Khor Virap, libertando duas pombas num voo de amizade, fraternidade e paz. Voltaram a encontrar-se no Vaticano na manhã de 5 de abril, nos jardins diante da sede do Governatorato, para a inauguração da estátua de bronze de São Gregório de Narek, grande arauto da solidariedade universal. O Papa Francisco e Karekin II, catholicos de todos os arménios, renovaram assim o abraço e a oração conjunta partilhados há dois anos, em junho de 2016, por ocasião da visita do Pontífice à Arménia. Estavam presentes também o catholicos da Igreja arménia apostólica da Cilícia, Aram I; o patriarca católico Grégoire Pierre XX Ghabroyan, da Cilícia dos arménios; e o presidente da República da Arménia, Serzh Sargsyan.
O verdadeiro “mestre de cerimónias” deste encontro foi São Gregório de Narek, poeta, monge, místico e teólogo do século X, figura-chave da cultura e do universo espiritual da Arménia, autêntica ponte entre Oriente e Ocidente, voz de um ecumenismo que afunda as suas raízes nos séculos. Durante a visita de 2016, o Papa Francisco definiu o seu Livro das Lamentações como a "constituição espiritual" do povo e falou dele como de um "doutor da paz", citando trechos da sua obra, como a passagem em que escrevia: «Recordai-vos, Senhor, daqueles que, na estirpe humana, são nossos inimigos, mas para o bem deles: cumpri neles perdão e misericórdia. Não extermineis aqueles que me mordem: transformai-os! Extirpai a conduta terrena viciosa, e enraizai em mim e neles a boa». E na missa celebrada em Gyumri, definiu o santo poeta — que o próprio Francisco incluiu entre os doutores da Igreja universal no dia 12 de abril de 2015 — como «grande arauto da misericórdia divina». Naquela ocasião, a 25 de junho de 2016, o Papa passou no meio da multidão para saudar a comunidade católica local e, a bordo do jipe, quis que ao seu lado estivesse Karekin II para lançar uma concreta e visível mensagem de diálogo, paz e fraternidade.
Foi exatamente naquela viagem, durante a visita de cortesia ao palácio presidencial de Yerevan, que o presidente da República Sargsyan, oferecendo ao Pontífice uma pequena estátua de São Gregório de Narek, desejou que um dia a imagem do místico pudesse encontrar lugar também no Vaticano. A obra, de bronze, foi colocada nos jardins do Vaticano, atrás da basílica de São Pedro, entre a estação e o palácio do tribunal, ao longo da rua que dá para a praça da Casa Santa Marta. O autor é David Erevantsi, artista de Yerevan engajado na preservação das tradições arménias no mundo inteiro. Foi realizada totalmente em bronze numa fundição da República Checa. «Que esta imagem de São Gregório de Narek seja benzida e santificada pelo sinal da santa Cruz e do santo Evangelho, e pela graça deste dia», cadenciou solenemente o Papa Francisco, recitando a fórmula de bênção durante a cerimónia, que se tornou ocasião para um breve momento de oração comum.
O Pontífice chegou às 12h20, acompanhado pelo arcebispo Georg Gänswein, prefeito da Casa Pontifícia. Estavam com o Papa na plataforma posta diante da estátua ainda coberta, além de Karekin II, a Aram I e Grégoire Pierre XX Ghabroyan, os cardeais Leonardo Sandri, prefeito da Congregação para as Igrejas orientais, e Kurt Koch, presidente do pontifício Conselho para a promoção da unidade dos cristãos. Ao lado, o presidente arménio Sargsyan. Estavam presentes também diversas autoridades religiosas e civis.
Quem deu início ao rito — dirigido pelo mestre das celebrações litúrgicas pontifícias, monsenhor Guido Marini, coadjuvado pelo cerimoniário Ján Dubina — foi o Papa Francisco com o sinal da cruz. Depois, sete seminaristas do pontifício Colégio arménio entoaram um hino dedicado aos santos tradutores e doutores da Igreja. Após a leitura do trecho do Evangelho de João (15, 9-17) no qual Jesus, durante a última Ceia, confia aos Apóstolos o mandamento do amor: «O que vos mando é que vos ameis uns aos outros», foi recitada uma oração de São Gregório, tirada do Livro das Lamentações. Eis o texto, de grande profundidade teológica e beleza poética: «Senhor, o fogo é para Vós como orvalho que refresca; e a chuva, como chama que arde. Sois poderoso ao configurar a pedra como forma que inspira, e ao erigir o racional como estátua que não fala nem respira. Tornai digno de honra o devedor desanimado e julgais com justiça quem é considerado puro. Remeteis à delícia dos bens quem está próximo da morte, e resgatais o desavergonhado, depois de ter ungido de alegria o seu rosto. Endireitais quem está condenado ao precipício da imundície, e estabeleceis na solidez da rocha quantos vacilam».
No final, o embaixador Minasyan descerrou a estátua para que o Papa Francisco a benzesse.
Imediatamente depois, Aram I, Ghabroyan e Karekin II sucederam-se nas preces de intercessão pela paz. O rito concluiu-se com a recitação comum do Pai-Nosso e com um abraço fraterno.

L'Osservatore Romano. Edição semanal em Português (12 de abril de 2018) 13

Gregório de Narek nosso contemporâneo

Na história arménia, o século X é geralmente considerado o início da “era da prata”. Este período distinguiu-se pela prosperidade da vida monástica, pela fundação de mosteiros e igrejas, pela criação de ricas obras literárias, por uma interação mais estreita com as escolas teológicas e filosóficas do tempo e pela promoção das artes. Todos os problemas pertinentes e as perguntas fundamentais da época ressoaram, de um modo ou de outro, na vida e no pensamento de Gregório de Narek (em arménio, Krikor Narekatsi), um dos grandes místicos do cristianismo mundial.
As informações sobre a sua vida são bastante escassas. Nasceu em 950. Ordenado monge em 977, cedo foi nomeado mestre de patrística, posição reservada aos monges que se tinham distinguido intelectualmente. Assimilou plenamente as ciências escolásticas conhecidas como trivium e quadrivium, e era perito em filosofia e espiritualidade oriental.
Considerado santo ainda em vida, Gregório produziu uma obra que é justamente definida o ápice da espiritualidade arménia, assim como uma das obras-primas do misticismo mundial. O livro é conhecido com diversos títulos e, popularmente, com o de Narek . A identificação do autor com a obra é tal que torna difícil distinguir entre ele e o Narek, expressão autêntica da luta contínua de Gregório para entrar em comunhão com Deus. A obra é uma recolha de 95 discursos, com 336 subdivisões. Não se trata de uma prece a Deus, mas de um «diálogo com Deus, do fundo do coração».
O colóquio entre Deus e o homem apresenta duas questões centrais: quem é o ser humano? Qual é a sua vocação no mundo? No Narek estas perguntas são enfrentadas sob diversas perspetivas e em diferentes contextos, mas sempre numa relação dialética com Deus. O autor está diante de Deus, representando a humanidade inteira. Buscando Deus, ele procura a própria identidade e destino. A compreensão que tem de si mesmo é determinada e condicionada por Deus. Sem Deus, considera-se «desprovido de significado e de finalidade». Compreende o seu ser, a sua existência e o seu destino unicamente em Deus e por meio de Deus.
Gregório é um grande místico, um teólogo extraordinário e um poeta humanista. Estas três dimensões da sua pessoa e do seu pensamento estão intimamente interligadas. O seu misticismo não é negação de si, mas sobretudo afirmação de si mesmo, destinada a recuperar e a redescobrir a imagem de Deus no ser humano. O misticismo do autor é também existencial; nasce de uma espiritualidade vivida. Não é uma fuga do mundo; ao contrário, é um compromisso no mundo de injustiça e de sofrimento, com a clara ideia de transformar a humanidade e a criação com a graça de Deus, através de Jesus Cristo e no poder do Espírito Santo.
A teologia de Gregório é mais espiritual que racional, mais existencial que metafísica, mais dialogal que prescritiva. O autor leva a teologia para fora dos seus confins doutrinais e da esfera transcendente, desenvolvendo-a no contexto de uma relação viva com Deus e com a sua criação. A composição deste pioneiro do renascimento arménio não é uma forma clássica de hinologia, mas poesia pura, tocada pela graça divina; nos seus versos estão presentes os mistérios e as belezas da natureza.
A teologia de Gregório é tanto dialogal como dialética. A visão do absoluto provém do alto e gera uma resposta humana. Para o autor, o ateísmo é uma impossibilidade ontológica. Deus é a fonte, o centro e o fim da vida humana. O pecado original do primeiro homem criou uma divisão entre os seres humanos e Deus. Não se trata de uma dicotomia ontológica; é provisória, por ser devida ao pecado humano. O fim do processo, sustentado pelo amor e pela graça de Deus, é reconciliação e unificação com Deus. Em Gregório, o conceito de unificação com Deus é o ortodoxo de theosis, realçado pelo misticismo oriental. A theosis é a incorporação na natureza divina, sem fusão nem mistura. Ela só é alcançada mediante a intervenção da graça divina e a resposta humana obediente. A theosis não é pessoal; o processo abrange a criação inteira. A meta do misticismo do autor não é a descoberta do infinito, mas a redescoberta de si mesmo no infinito e por meio do infinito. É também uma profunda consciência da presença salvífica de Deus, no poder do Espírito Santo, na humanidade e em toda a criação.
O pensamento de Gregório é dominado por criativa imaginação e rica alegoria. A sua imaginação é tão vasta e profunda que supera os confins do concreto e do visível, e procura penetrar até no mistério divino. O diálogo apaixonado com Deus transcende lógica e razão. É preciso lê-lo várias vezes para discernir as principais correntes do seu pensamento e entender o seu significado. Com efeito, cada frase, e até cada palavra do Narek , descerra ao leitor uma renovada dimensão ou um novo horizonte. O autor recorre abundantemente a metáforas e temas bíblicos, e a sua linguagem é parabólica e repleta de contrastes e paradoxos.
Para Gregório, a oração é o fulcro da relação entre Deus e a humanidade; é uma cura poderosa para corpo e alma. Ele dirige-se a Deus como a um verdadeiro curador: «Sara-me como um médico». Com efeito, o Narek é essencialmente um livro de oração.
A liturgia da Igreja arménia está cheia de preces tiradas do Narek. Muitas vezes os fiéis põem o Narek debaixo do travesseiro dos doentes, julgando que tem o poder de curar. O Narek é uma tentativa audaz de se colocar diante de Deus em nome de toda a humanidade, para conversar com Ele, protestar contra a injustiça e o sofrimento, deplorar a crueldade dos seres humanos e enfrentar a realidade do pecado. É também a vigorosa busca de uma nova visão da humanidade e de uma autêntica existência humana, transformada pela graça divina. O autor recorda a todos os teólogos que a teologia não é um discurso teológico a respeito de Deus mas, fundamentalmente, um esforço de fé, amparado pela razão, para falar com Deus, e que fazer teologia implica engajar-se numa relação viva com Deus e a sua criação. Não é ocasional que o Narek tenha sido companheiro de muitos arménios e que o povo arménio o tenha considerado uma “segunda Bíblia”.
Segundo a tradição, Gregório faleceu em 1003 e foi sepultado no mosteiro de Narek. Em 1021, quando os arménios daquela região foram obrigados a abandonar a terra natal juntamente com o seu rei Senequerim, levaram consigo algumas relíquias do santo e colocaram-nas no mosteiro de Arak. Hoje os dois mosteiros já não existem, mas São Gregório de Narek continua a viver no coração de cada arménio, com o seu “monumento eterno”. Este santo monge, mediante o seu diálogo com Deus, o seu pedido de sentido e de salvação, e a sua luta pela libertação e a transformação permanece nosso eterno contemporâneo.
Aram
Catholicos da Igreja arménia apostólica da Cilícia

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