01/06/2018

Bartolomeu no Vaticano: uma agenda comum contra o individualismo

Cerca de meia hora de conversa entre Bergoglio e o patriarca de Constantinopla que abre a sessão no Vaticano do congresso da Fundação Centesimus Annus: «Hoje uma imensa crise de solidariedade atinge o mundo, a tecnologia é o nosso deus».

«Bom dia, Santidade». «Bom dia, acho-o melhor». Entre Francisco e Bartolomeu há confiança, os gestos são os de dois irmãos que se reúnem passado algum tempo: os sorrisos, abraços, graças sobre a saúde do patriarca hospitalizado no dia 6 de maio do ano passado, no Hospital Americano de Constantinopla devido a tonturas, provavelmente causadas por vertigens.
O "feeling" entre o Papa e o primaz ortodoxo, sucessores dos apóstolos Pedro e André, estabeleceu-se muito antes do encontro privado desta manhã [26 de maio de 2018], no Vaticano, onde o patriarca participa na conferência internacional «Novas políticas e estilos de vida na era digital», Promovido pela Fundação Centesimus Annus pro Pontifice, no seu 25º aniversário. Desde a missa do início do seu pontificado a 19 de março de 2013 - pela primeira um patriarca ortodoxo esteve na Praça de São Pedro - passando pelas reuniões históricas de Jerusalém, Istambul, Assis, Roma, até a viagem a Lesbos entre os refugiados do campo de Moira, Francisco e Bartolomeu compartilharam etapas inesquecíveis do seu ministério, assinando também, a 1 de setembro de 2017, uma mensagem conjunta para o Dia Mundial da Criação, uma preocupação comum de ambos os líderes religiosos.
O encontro desta manhã aconteceu na Sala da Biblioteca do Palácio Apostólico Vaticano, onde os dois dialogaram durante cerca de 25 minutos. O tempo é pouco e o patriarca - que na quarta-feira viveu um momento ecuménico indo à Basílica dos Doze Apóstolos para venerar as relíquias dos Santos Filipe e Tiago - às 10.30 h. tem de abrir a sessão da conferência da «Centesimus Annus», que, após dois dias de trabalhos no Palácio da Chancelaria, em Roma, tem lugar no Vaticano, na presença do cardeal secretário de Estado Pietro Parolin.
O papa e o patriarca saúdam-se em frente dos jornalistas e fotógrafos na Sala do "Tronetto"; os primeiros minutos são dedicados a perguntas sobre as condições de saúde do líder ortodoxo, que também fala ao Papa sobre seus colaboradores mais próximos. No final da conversa, acontece a habitual troca de presentes. Bartolomeu traz ao Pontífice uma pequena imagem de Nossa Senhora e o Menino, um ícone de São Francisco, patrono do papa argentino, e um livro sobre o Patriarcado de Constantinopla. Depois outro pequeno presente, um sinal de carinho que vai além do formalismo: uma caixa de chocolates. Francisco sorri e brinca ao recebê-la, e responde com um presente especial, nunca antes feito a um hóspede: a recente Exortação Apostólica «Gaudete et Exsultate» sobre o tema da santidade na vida quotidiana. Bergoglio assina a cópia diante do amigo patriarca e deixa, junto com a exortação, uma reprodução em bronze da Porta Santa.
Após o encontro com o papa - que voltará a ver às 12.30 h. durante uma audiência com os membros da «Centesimus Annus» - Bartolomeo desloca-se à próxima Sala Regia para proferir o seu longo discurso (todos em Inglês) sobre o tema «Uma agenda cristã comum para o bem comum». Perto, conta ter visitado Bento XVI no mosteiro Mater Ecclesiae ontem à tarde: «Uma grande alegria»; em seguida, desenvolve a sua reflexão a partir da encíclica de João Paulo II que dá nome à Fundação, a «Centesimus Annus», assinada pelo papa polaco a 1 de maio de 1991, no centenário da «Rerum Novarum».
«O que é verdadeiramente cristã é essencialmente social», começa Bartolomeu, «a fé não se limita apenas a "alma", sem qualquer interesse pela dimensão social, mas também desempenha um papel vital no nível da sociedade. As nossas Igrejas preservaram valores elevados, um precioso património espiritual e moral e um profundo conhecimento antropológico. A Igreja de Roma tem um ensinamento social sistemático, que contém soluções para problemas difíceis no espírito do respeito pelos princípios individuais de solidariedade, subsidiariedade e bem comum ", diz ele.
Com base nestes princípios e nos vários modelos desenvolvidos, o primaz ortodoxo reitera a urgência por parte das Igrejas Católica e Ortodoxa de «enfrentar os desafios sociais e proteger a dignidade humana». Também porque, sublinha, não se pode ignorar a «imensa crise de solidariedade» entendida como «o processo em curso de "dessolidarização" que ameaça o futuro da própria humanidade» e que segue em conjunto com os inúmeros problemas económicos e sociais que afetam diretamente a «existência» do homem.
Nasce daqui a necessidade de «uma agenda cristã comum para o bem comum», cujo princípio basilar é que cada um precisa do outro. Como homens, como igreja. «Ninguém pode enfrentar sozinho», diz Bartolomeu, os desafios que marcam a contemporaneidade, sobretudo a nível económico e social, mas também no campo da política, da ecologia, da ciência e da tecnologia. Especialmente neste último ponto, o patriarca de Constantinopla não esconde sua «preocupação» diante de uma certa «autonomia» em relação às «necessidades vitais do ser humano» e ao facto de que, apesar dos numerosos apelos, continuamos a produzir «armas terríveis de destruição maciça» que trazem consigo «o risco da guerra nuclear».
«O rápido progresso da ciência e tecnologia, juntamente com suas consequências benéficas, também conduz a resultados que não promovem uma cultura de solidariedade», diz o patriarca. «A tecnologia já não está ao serviço do homem, mas é sua principal força motriz, que requer completa obediência, além de impor os seus princípios em todos os aspectos da vida. Os omnipresentes meios eletrónicos de comunicação não difundem simplesmente informações, mas também transmitem valores - os seus valores - e reformulam as nossas opiniões sobre o significado da vida, dirigem as nossas necessidades, criando assim necessidades artificiais, e abrem caminho a um futuro que é dominado por eles».
Tais conquistas tecnológicas têm o seu próprio «fascínio», de tal modo que que, na opinião comum, o progresso da tecnologia é identificado com o progresso tecnológico. «Adoramos a tecnologia e seu símbolo mais alto, o computador, como nosso deus, e ao mesmo tempo esperamos receber todos os nossos benefícios: alegria, comunicação, progresso, informação, trabalho, etc. O «homo faber» torna-se «homo fabricatus» - sublinha Bartolomeu. De facto, enfrentamos uma infinidade de problemas que não são de natureza tecnológica e não podem ser resolvidos através da acumulação de informações adicionais. A injustiça social, os divórcios, a violência, os crimes, a solidão, o fanatismo e o choque de civilizações não são causados ​​pela falta de informação e tecnologia. Vemos que alguns desses problemas estão efetivamente a crescer juntamente com o progresso tecnológico da sociedade».
Diante desse complexo panorama, «precisamos uns dos outros», reafirma Bartolomeu; precisamos «de uma mobilização comum, de esforços comuns e objetivos comuns». É crucial, neste sentido, «a contribuição das nossas Igrejas" que, promovendo «o conteúdo social do Evangelho», constroem muros contra as injustiças e os poderes «que minam a coesão social». Este é precisamente o ponto, «a coesão social», afirma o patriarca; a que foi defendida pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, assinada em 1948, definida como «o fio de Ariadne» no interior do «labirinto do pluralismo contemporâneo».
Setenta anos depois desse importante documento, parece que domina tanto um «individualismo desenfreado», feito de palavras-chave como «eu», «eu mesmo», «meu», «autonomia», «auto-realização», «auto-admiração». «Uma das tendências contemporâneas mais perigosas para uma cultura de solidariedade é o individualismo, a auto-idolatria e o auto-encerrar-se na auto-suficiência egoísta, que cria abismos entre as pessoas», observa o primaz ecuménico. «No Ocidente, a explosão de conhecimento e informação estimula o desinteresse para com as outras pessoas, bem como um espírito de individualismo e deificação da propriedade; enquanto, em outras regiões do mundo, a tecnologia coexiste facilmente com a injustiça social e o fundamentalismo religioso», acrescenta.
E conclui, exortando a olhar para cima e apostando na realização de uma «comunidade de pessoas», na qual «mente e coração, fé e conhecimento, liberdade e amor, indivíduo e sociedade, ser humano e toda a criação são reconciliados».

20/04/2018

Um Doutor da Igreja [Gregório de Narek] nos jardins do Vaticano

Saudaram-se diante do monte Ararat, no mosteiro de Khor Virap, libertando duas pombas num voo de amizade, fraternidade e paz. Voltaram a encontrar-se no Vaticano na manhã de 5 de abril, nos jardins diante da sede do Governatorato, para a inauguração da estátua de bronze de São Gregório de Narek, grande arauto da solidariedade universal. O Papa Francisco e Karekin II, catholicos de todos os arménios, renovaram assim o abraço e a oração conjunta partilhados há dois anos, em junho de 2016, por ocasião da visita do Pontífice à Arménia. Estavam presentes também o catholicos da Igreja arménia apostólica da Cilícia, Aram I; o patriarca católico Grégoire Pierre XX Ghabroyan, da Cilícia dos arménios; e o presidente da República da Arménia, Serzh Sargsyan.
O verdadeiro “mestre de cerimónias” deste encontro foi São Gregório de Narek, poeta, monge, místico e teólogo do século X, figura-chave da cultura e do universo espiritual da Arménia, autêntica ponte entre Oriente e Ocidente, voz de um ecumenismo que afunda as suas raízes nos séculos. Durante a visita de 2016, o Papa Francisco definiu o seu Livro das Lamentações como a "constituição espiritual" do povo e falou dele como de um "doutor da paz", citando trechos da sua obra, como a passagem em que escrevia: «Recordai-vos, Senhor, daqueles que, na estirpe humana, são nossos inimigos, mas para o bem deles: cumpri neles perdão e misericórdia. Não extermineis aqueles que me mordem: transformai-os! Extirpai a conduta terrena viciosa, e enraizai em mim e neles a boa». E na missa celebrada em Gyumri, definiu o santo poeta — que o próprio Francisco incluiu entre os doutores da Igreja universal no dia 12 de abril de 2015 — como «grande arauto da misericórdia divina». Naquela ocasião, a 25 de junho de 2016, o Papa passou no meio da multidão para saudar a comunidade católica local e, a bordo do jipe, quis que ao seu lado estivesse Karekin II para lançar uma concreta e visível mensagem de diálogo, paz e fraternidade.
Foi exatamente naquela viagem, durante a visita de cortesia ao palácio presidencial de Yerevan, que o presidente da República Sargsyan, oferecendo ao Pontífice uma pequena estátua de São Gregório de Narek, desejou que um dia a imagem do místico pudesse encontrar lugar também no Vaticano. A obra, de bronze, foi colocada nos jardins do Vaticano, atrás da basílica de São Pedro, entre a estação e o palácio do tribunal, ao longo da rua que dá para a praça da Casa Santa Marta. O autor é David Erevantsi, artista de Yerevan engajado na preservação das tradições arménias no mundo inteiro. Foi realizada totalmente em bronze numa fundição da República Checa. «Que esta imagem de São Gregório de Narek seja benzida e santificada pelo sinal da santa Cruz e do santo Evangelho, e pela graça deste dia», cadenciou solenemente o Papa Francisco, recitando a fórmula de bênção durante a cerimónia, que se tornou ocasião para um breve momento de oração comum.
O Pontífice chegou às 12h20, acompanhado pelo arcebispo Georg Gänswein, prefeito da Casa Pontifícia. Estavam com o Papa na plataforma posta diante da estátua ainda coberta, além de Karekin II, a Aram I e Grégoire Pierre XX Ghabroyan, os cardeais Leonardo Sandri, prefeito da Congregação para as Igrejas orientais, e Kurt Koch, presidente do pontifício Conselho para a promoção da unidade dos cristãos. Ao lado, o presidente arménio Sargsyan. Estavam presentes também diversas autoridades religiosas e civis.
Quem deu início ao rito — dirigido pelo mestre das celebrações litúrgicas pontifícias, monsenhor Guido Marini, coadjuvado pelo cerimoniário Ján Dubina — foi o Papa Francisco com o sinal da cruz. Depois, sete seminaristas do pontifício Colégio arménio entoaram um hino dedicado aos santos tradutores e doutores da Igreja. Após a leitura do trecho do Evangelho de João (15, 9-17) no qual Jesus, durante a última Ceia, confia aos Apóstolos o mandamento do amor: «O que vos mando é que vos ameis uns aos outros», foi recitada uma oração de São Gregório, tirada do Livro das Lamentações. Eis o texto, de grande profundidade teológica e beleza poética: «Senhor, o fogo é para Vós como orvalho que refresca; e a chuva, como chama que arde. Sois poderoso ao configurar a pedra como forma que inspira, e ao erigir o racional como estátua que não fala nem respira. Tornai digno de honra o devedor desanimado e julgais com justiça quem é considerado puro. Remeteis à delícia dos bens quem está próximo da morte, e resgatais o desavergonhado, depois de ter ungido de alegria o seu rosto. Endireitais quem está condenado ao precipício da imundície, e estabeleceis na solidez da rocha quantos vacilam».
No final, o embaixador Minasyan descerrou a estátua para que o Papa Francisco a benzesse.
Imediatamente depois, Aram I, Ghabroyan e Karekin II sucederam-se nas preces de intercessão pela paz. O rito concluiu-se com a recitação comum do Pai-Nosso e com um abraço fraterno.

L'Osservatore Romano. Edição semanal em Português (12 de abril de 2018) 13

Gregório de Narek nosso contemporâneo

Na história arménia, o século X é geralmente considerado o início da “era da prata”. Este período distinguiu-se pela prosperidade da vida monástica, pela fundação de mosteiros e igrejas, pela criação de ricas obras literárias, por uma interação mais estreita com as escolas teológicas e filosóficas do tempo e pela promoção das artes. Todos os problemas pertinentes e as perguntas fundamentais da época ressoaram, de um modo ou de outro, na vida e no pensamento de Gregório de Narek (em arménio, Krikor Narekatsi), um dos grandes místicos do cristianismo mundial.
As informações sobre a sua vida são bastante escassas. Nasceu em 950. Ordenado monge em 977, cedo foi nomeado mestre de patrística, posição reservada aos monges que se tinham distinguido intelectualmente. Assimilou plenamente as ciências escolásticas conhecidas como trivium e quadrivium, e era perito em filosofia e espiritualidade oriental.
Considerado santo ainda em vida, Gregório produziu uma obra que é justamente definida o ápice da espiritualidade arménia, assim como uma das obras-primas do misticismo mundial. O livro é conhecido com diversos títulos e, popularmente, com o de Narek . A identificação do autor com a obra é tal que torna difícil distinguir entre ele e o Narek, expressão autêntica da luta contínua de Gregório para entrar em comunhão com Deus. A obra é uma recolha de 95 discursos, com 336 subdivisões. Não se trata de uma prece a Deus, mas de um «diálogo com Deus, do fundo do coração».
O colóquio entre Deus e o homem apresenta duas questões centrais: quem é o ser humano? Qual é a sua vocação no mundo? No Narek estas perguntas são enfrentadas sob diversas perspetivas e em diferentes contextos, mas sempre numa relação dialética com Deus. O autor está diante de Deus, representando a humanidade inteira. Buscando Deus, ele procura a própria identidade e destino. A compreensão que tem de si mesmo é determinada e condicionada por Deus. Sem Deus, considera-se «desprovido de significado e de finalidade». Compreende o seu ser, a sua existência e o seu destino unicamente em Deus e por meio de Deus.
Gregório é um grande místico, um teólogo extraordinário e um poeta humanista. Estas três dimensões da sua pessoa e do seu pensamento estão intimamente interligadas. O seu misticismo não é negação de si, mas sobretudo afirmação de si mesmo, destinada a recuperar e a redescobrir a imagem de Deus no ser humano. O misticismo do autor é também existencial; nasce de uma espiritualidade vivida. Não é uma fuga do mundo; ao contrário, é um compromisso no mundo de injustiça e de sofrimento, com a clara ideia de transformar a humanidade e a criação com a graça de Deus, através de Jesus Cristo e no poder do Espírito Santo.
A teologia de Gregório é mais espiritual que racional, mais existencial que metafísica, mais dialogal que prescritiva. O autor leva a teologia para fora dos seus confins doutrinais e da esfera transcendente, desenvolvendo-a no contexto de uma relação viva com Deus e com a sua criação. A composição deste pioneiro do renascimento arménio não é uma forma clássica de hinologia, mas poesia pura, tocada pela graça divina; nos seus versos estão presentes os mistérios e as belezas da natureza.
A teologia de Gregório é tanto dialogal como dialética. A visão do absoluto provém do alto e gera uma resposta humana. Para o autor, o ateísmo é uma impossibilidade ontológica. Deus é a fonte, o centro e o fim da vida humana. O pecado original do primeiro homem criou uma divisão entre os seres humanos e Deus. Não se trata de uma dicotomia ontológica; é provisória, por ser devida ao pecado humano. O fim do processo, sustentado pelo amor e pela graça de Deus, é reconciliação e unificação com Deus. Em Gregório, o conceito de unificação com Deus é o ortodoxo de theosis, realçado pelo misticismo oriental. A theosis é a incorporação na natureza divina, sem fusão nem mistura. Ela só é alcançada mediante a intervenção da graça divina e a resposta humana obediente. A theosis não é pessoal; o processo abrange a criação inteira. A meta do misticismo do autor não é a descoberta do infinito, mas a redescoberta de si mesmo no infinito e por meio do infinito. É também uma profunda consciência da presença salvífica de Deus, no poder do Espírito Santo, na humanidade e em toda a criação.
O pensamento de Gregório é dominado por criativa imaginação e rica alegoria. A sua imaginação é tão vasta e profunda que supera os confins do concreto e do visível, e procura penetrar até no mistério divino. O diálogo apaixonado com Deus transcende lógica e razão. É preciso lê-lo várias vezes para discernir as principais correntes do seu pensamento e entender o seu significado. Com efeito, cada frase, e até cada palavra do Narek , descerra ao leitor uma renovada dimensão ou um novo horizonte. O autor recorre abundantemente a metáforas e temas bíblicos, e a sua linguagem é parabólica e repleta de contrastes e paradoxos.
Para Gregório, a oração é o fulcro da relação entre Deus e a humanidade; é uma cura poderosa para corpo e alma. Ele dirige-se a Deus como a um verdadeiro curador: «Sara-me como um médico». Com efeito, o Narek é essencialmente um livro de oração.
A liturgia da Igreja arménia está cheia de preces tiradas do Narek. Muitas vezes os fiéis põem o Narek debaixo do travesseiro dos doentes, julgando que tem o poder de curar. O Narek é uma tentativa audaz de se colocar diante de Deus em nome de toda a humanidade, para conversar com Ele, protestar contra a injustiça e o sofrimento, deplorar a crueldade dos seres humanos e enfrentar a realidade do pecado. É também a vigorosa busca de uma nova visão da humanidade e de uma autêntica existência humana, transformada pela graça divina. O autor recorda a todos os teólogos que a teologia não é um discurso teológico a respeito de Deus mas, fundamentalmente, um esforço de fé, amparado pela razão, para falar com Deus, e que fazer teologia implica engajar-se numa relação viva com Deus e a sua criação. Não é ocasional que o Narek tenha sido companheiro de muitos arménios e que o povo arménio o tenha considerado uma “segunda Bíblia”.
Segundo a tradição, Gregório faleceu em 1003 e foi sepultado no mosteiro de Narek. Em 1021, quando os arménios daquela região foram obrigados a abandonar a terra natal juntamente com o seu rei Senequerim, levaram consigo algumas relíquias do santo e colocaram-nas no mosteiro de Arak. Hoje os dois mosteiros já não existem, mas São Gregório de Narek continua a viver no coração de cada arménio, com o seu “monumento eterno”. Este santo monge, mediante o seu diálogo com Deus, o seu pedido de sentido e de salvação, e a sua luta pela libertação e a transformação permanece nosso eterno contemporâneo.
Aram
Catholicos da Igreja arménia apostólica da Cilícia

L'Osservatore Romano. Edição semanal em Português (12 de abril de 2018) 12

03/03/2018

«Avançar no Espírito: chamados a um discipulado de transformação»: A Conferência Missionária Mundial ecuménica em Arusha (Tanzânia)

De 8 a 13 de março deste ano reunir-se-á em Arusha, na Tanzânia, a Conferência Missionária Mundial, organizada e preparada pela Comissão para a Missão e a Evangelização (CME) do Conselho Ecuménico das Igrejas (CEC). Cerca de 900 participantes vão celebrar os dons de Deus, partilhar histórias pessoais, estudar a Bíblia e procurar a orientação do Espírito, reunidos em volta do toma: «Avançar no Espírito: chamados a um discipulado em transformação».
Esta Conferência será a 12ª de uma longa série, iniciada aproximadamente 20 anos depois da famosa conferência de Edimburgo de 1910, considerada o ponto de partida do movimento ecuménico contemporâneo. É certo que Edimburgo não era uma conferência de natureza "ecuménica" como a entendemos hoje: ela estava em grande parte dominada por pessoas das missões "tradicionais" e evangélicas, provenientes do hemisfério setentrional do globo. Foi peculiar, devido à participação dos anglicanos da "Igreja alta" e à qualidade das intervenções sobre a missão, mas também à reflexão sobre as condições para uma maior unidade entre as igrejas. Indiretamente, Edimburgo deu vida ao Conselho Missionário Internacional (CMI), que organizou a primeira Conferência Missionária Mundial, em Jerusalém, em 1928. A partir de então, tais conferências reuniram-se a cada 8-10 anos. Na sequência da fusão do CMI com o CEC em 1961, estas conferências desenvolveram-se sob a égide do CEC e compreendem não só os representantes dos Conselhos Missionários Nacionais, mas também representantes das igrejas que integram o CEC, também os ortodoxos. A representatividade das Conferências Missionárias Mundiais foi ulteriormente ampliada após o Concílio Vaticano II, quando a adesão à CME foi aberta também aos delegados católicos e, mais recentemente, aos pentecostais e aos evangélicos.

As Conferências Missionárias Mundiais

Qual é o significado de um tal encontro? Ele oferece uma oportunidade aos delegados de todo o mundo e a multas igrejas para repensarem o seu compromisso e as suas prioridades missionárias, assim como o papel das igrejas em ordem aos desafios que, no seu conjunto, podem ser concretizados no estudo e na oração. Os documentos dessas Conferências Missionárias mostram que a ênfase temática recaiu sobre a prática da missão num determinado momento da história. Alguns destes documentos tornaram-se marcos miliários no desenvolvimento do testemunho cristão: a Conferência de Willingen (1952) introduziu o conceito de missio Dei; a da Cidade do México (1963) foi caraterizada pela "missão em seis continentes"; a de Banguecoque (1973) alargou a perspetiva da salvação e desafiou as estruturas missionárias tradicionais, pedindo uma moratória. Em 1980, em Melbourne, a atenção concentrou-se no papel dos pobres na missão libertadora de Deus. A Conferência de Santo António (1989) elaborou uma fórmula de consenso sobre o testemunho cristão perante pessoas de outras religiões. Organizado em Salvador, no Brasil, o encontro de 1996 tomou como tema a relação entre evangelho e culturas. A última conferência da CME ocorreu em Atenas, na Grécia, em 2005, com uma oração como tema: «Vem, Espírito Santo, cura e reconcilia»; deste modo a pneumatologia, algo descurada na missiologia ecuménica, foi levada para o centro da teoria e da prática do testemunho cristão.
A ênfase pneumatológica está agora plenamente presente na nova declaração sobre a missão do CEC, promulgada em 2012, depois de muitos anos de reflexão e de consultas comuns, nomeadamente uma Conferência importante dedicada àquela declaração, em Manila, em 2011. No documento Juntos pela vida, a missão é considerada como inspirada e guiada pelo Espírito Santo. Nele são desenvolvidos quatro aspetos principais: O Espírito como "sopro de vida" ativo na criação e na história humana; o Espírito de libertação que confere poder àqueles que vivem nas margens da sociedade; o Espírito de comunhão que permite às igrejas testemunharem e lutarem pela unidade; e, por fim, o Espírito de Pentecostes que fornece as razões e a capacidade de partilhar a boa notícia com todos. O documento entende todas estas dimensões como referidas ao banquete da vida oferecido por Deus em Cristo, uma vida plena que se realizará no reino que virá, mas que já é real e é celebrada quando vivemos uma espiritualidade transformadora na missão.
O documento Juntos pela vida fornece as bases teológicas principais para a Conferência de Arusha. Podem também referir-se as deliberações da última assembleia do CEC, em Busan, na Coreia, com o seu apelo a uma peregrinação comum pela justiça e a paz: uma espiritualidade transformadora na missão tem de ser vivida como indivíduos, mas também como comunidade e em comunhão e solidariedade com as outras igrejas e os outros povos. Temos, portanto, um claro desenvolvimento temático de Atenas a Arusha.

Um ecumenismo amplo

As dinâmicas de Arusha podem, todavia, ser influenciadas também por um outro desenvolvimento. A partir dos anos 90, o CEC iniciou um processo de reflexão sobre a própria identidade e sobre o próprio papel no interior do movimento ecuménico mais amplo. A deslocação do centro de gravidade do cristianismo do norte para o sul do mundo, mas também o crescimento das igrejas pentecostais e carismáticas exigiram um alargamento dos horizontes. As reflexões sobre a missão e sobre a evangelização têm de ser empreendidas pelo maior número possível de atores, no quadro da grande missão de Deus. Esta cooperação no interior do "movimento ecuménico alargado" tornou-se cada vez mais evidente de 2000 em diante. A Conferência de Atenas foi preparada com uma boa cooperação não só dos católicos, mas também dos pentecostais e dos evangélicos. A celebração do centenário da Conferência de Edimburgo de 1910 teve lugar sob orientação de um Conselho em que participaram os órgãos mais representativos do vasto movimento ecuménico, desde ortodoxos e católicos a evangélicos e pentecostais. A publicação em 2011 de linhas orientadoras comuns sobre o testemunho cristão, com a assinatura do CEC, do Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-religioso e da Aliança Evangélica Mundial, representou um passo importante em tal cooperação. Em Arusha, pelo menos 25% dos participantes deveria representar um espectro mais amplo relativamente ao grupo dos membros do CEC.

Quatro caraterísticas

Os organizadores do encontro de Arusha consideram-no como tendo quatro caraterísticas: será um acontecimento ecuménico, um acontecimento missionário, uma conferência africana e um encontro influenciado pelos jovens. Um olhar histórico retrospetivo mostra como estes encontros influenciaram sempre quer questões relativas à missão, quer o desejo da unidade da Igreja. Acolhido pela Igreja Evangélica Luterana na Tanzânia, o encontro será modelado de modo significativo pelos africanos, que estarão presentes em grande número: a sua vida e as suas dinâmicas espirituais, assim como a sua abordagem dos sinais dos tempos e das questões teológicas deveriam dar a esta Conferência uma ênfase particular. A última Conferência Missionária Mundial do CMI ou CME organizada em solo africano ocorreu em 1958, em Accra, no Gana, e foi durante este encontro no Gana que o CMI tomou a decisão histórica de se fundir com o CEC, para mostrar que missão e Igreja andam juntas.
Os organizadores esperam dos participantes jovens um contributo importante sobre o modo de pensar e de praticar a missão. Seguindo a tradição dos outros acontecimento ecuménicos recentes, paralelamente à Conferência, está prevista a organização de um Instituto Teológico Ecuménico Mundial, em que 100 jovens estudantes, estudiosos e responsáveis das igrejas vão refletir juntos sobre os desafios missionários contemporâneos. As suas deliberações terão impacto sobre toda a Conferência.
«Avançar no Espírito: chamados a um discipulado em transformação»: baseando-se na ênfase pneumatológica colocada pelas recentes reflexões missiológicas na oikumene, a atenção concentra-se no discipulado. A ideia de discipulado tem de ser transformada, para se entender como um apelo a um compromisso ativo na missão de Deus, a um anúncio à maneira de Cristo. Como discípulos temos necessidade de ser constantemente transformados pela força do Espírito, embarcados numa difícil viagem espiritual guiada pelos valores do reino de Deus, em solidariedade com as pessoas que vivem nas margens da sociedade. O convite é para um discipulado com um alto preço que vise transformar este mundo, tão radicalmente marcado pela injustiça, o ódio, o racismo e a exclusão de todo o género. Num texto em anexo ao convite aos participantes, os organizadores formulam este desafio como se segue:
«O que significará para nós, como indivíduos e como igrejas, ser transformados pelo poder do Espírito Santo? O que significará unirmo-nos ao Espírito na sua ação de transformação e de cura de um mundo dilacerado? Estas são as questão que a nossa Conferência afrontará».

Jacques Matthey
Pastor da Igreja Reformada de Genebra e
ex-diretor da Comissão para a Missão e a Evangelização do CEC

03/02/2018

Um diaconado renovado completa a Igreja

Nos últimos séculos, o diaconado gozou apenas de um papel simbólico ou de transição na Igreja. O clero paroquial é ordenado ao presbiterado só depois de servir brevemente no diaconado. É como se os diáconos esperassem «seguir em frente!» ou «moverem-se para cima!». O diaconado foi reduzido a pouco mais do que uma preparação ou premissa para o presbiterado ou para o episcopado. Os dois últimos degraus são muitas vezes considerados mais significativos no ministério ordenado, enquanto o diaconado se assemelha a um tipo de sub-presbiterado, raramente percebido como uma função permanente.
Mas não foi sempre esse o caso. Juntamente com o bispo e os presbíteros, os diáconos foram considerados por Inácio de Antioquia, no final do século I, parte essencial da estrutura da igreja, que realiza sua unidade  de forma mais completa e abrangente  quando a comunidade está «com o bispo e os presbíteros e os diáconos que estão com o bispo... Sem eles», acrescenta Santo Inácio, «[a comunidade] não pode ser chamada de igreja» (Carta aos Tralianos).
São João Crisóstomo lembra-nos o modo como a Igreja primitiva enetndeu os diáconos quando observa: «até os bispos são chamados de diáconos» (Homilia sobre a Carta aos Filipenses, 1). Na verdade, no tempo dos apóstolos, não há indicações de que o diaconado fosse uma condição ou requisito para a elevação ao presbiterado. É por isso que estou convencido de que não pode haver uma compreensão clara do presbiterado  ou mesmo do episcopado  se não apreendermos e apreciarmos primeiro o diaconado em si mesmo. Assim, no início do século VII, Isidoro de Sevilha afirmou corajosamente que, sem o ministério dos diáconos, o presbítero tem o nome, mas não o oficio; o presbítero consagra, reza e santifica; mas o diácono dispensa, recita e partilha (De Ecclesciasticis Officiis).
Uma visão mais completa do ministério ordenado tem de reconhecer o papel do bispo como o vínculo da unidade e o porta-voz para a doutrina. Da mesma forma, tem respeitar o papel do presbítero na celebração da presença de Cristo na comunidade local. No entanto, também tem de perceber o papel do diácono como servidor que completa e complementa esse círculo de unidade e comunidade na Igreja local. O serviço dos diáconos vai além da liturgia e chega à comunidade como um dom na administração, na educação, na orientação pastoral e espiritual e no trabalho juvenil. E, na minha opinião, esses papeis podem ser facilmente realizados tanto por homens como por mulheres.
A nossa teologia do ministério ordenado  atualmente vista como uma pirâmide com o episcopado no topo  tem de ser invertida, começando não de cima para baixo, mas brotando da noção elementar e essencial da diaconia; refletindo aquele que «não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida» (Mc 10, 45); serviço e sacrifício sem os quais nenhuma das ordens sacerdotais faz qualquer sentido. Qualquer revolução na nossa apreciação e realização do ministérios ordenado, em toda a sua amplitude e diversidade, em última análise, virá de baixo para cima, a partir das bases. É aí que os nossos fiéis sabem o que importa e o que funciona na igreja. É também aí que os nossos fiéis percebem as dimensões e as implicações mais amplas do ministério pastoral. É por isso que é crucial que ocorra uma revitalização do diaconado, tanto para uma reorientação do nosso ministério ordenado como para uma revitalização do nosso ministério pastoral.
Agora, ao mesmo tempo que mantém um sentido de simetria dentro do ministério ordenado, o diaconado também mantém um equilíbrio de poder na Igreja. Creio que está aqui o coração do problema: a resistência feroz da Igreja a qualquer desafio à sua atual autoridade institucional. Temos de aprender a procurar uma atitude de humildade e não de poder, a praticar formas eclesiais impregnadas pela simplicidade e não pela cerimónia, a manter uma visão de transformação da Igreja de uma organização hierárquica numa comunidade de serviço, sem nostalgia do passado, mas com abertura em relação ao Reino.
Sem diáconos, uma paróquia torna-se progressivamente insular em vez de católica, mais paroquial do que global. Os diáconos asseguram a dimensão universal da igreja. Os diáconos são, de muitas maneiras, o elo que falta na preservação da plenitude da doutrina da Igreja ou, no mínimo, na prevenção de um certo «monofisismo» na igreja institucional. Bem sabemos que a Igreja prega um Deus  entendido como Trindade e uma Igreja concebida como comunidade.
Se entendermos adequadamente o diaconado, também entenderemos melhor as outras ordens do ministério ordenado. Compreendemos porque é que e as mulheres podem naturalmente  com isto quero dizer, segundo a tradição e não como exceção — participar do diaconado sem que tal provoque receio da sua ordenação para o presbiterado ou da discussão teológica anterior sobre o ministério ordenado masculino. O diálogo sincero sobre o ministério ordenado só pode enriquecer o nosso apreço tanto por ele como pelo sacerdócio real. E «se essa ideia ou obra é de origem humana, falhará; mas se for de Deus, ninguém poderá derrubá-la" (At 5, 38-39).
Desta forma, o diaconado será expandido e potenciado de modo a refletir uma expressão ministerial moderna, se bem que enraizada na experiência apostólica histórica. Afinal, para além da administração e da autoridade na Igreja, há o serviço e... o servir. Para além da observância da liturgia e dos sacramentos, está a atenção às pessoas, qual altar vivo do Corpo de Cristo. Talvez os diáconos despertem gradualmente outros ministérios novos, não restritos às funções e expectativas tradicionais. Um renascimento criativo do diaconado para homens e mulheres no nosso tempo pode converter-se em fonte de ressurreição para o ministério ordenado como um todo, desempenhando assim um papel crucial na mais ampla missão da Igreja. A este respeito, a restauração do diaconado pode bem revelar-se tão oportuna quanto vital.

John Chryssavgis
Diácono da Diocese Ortodoxa Grega da América
Public Orthodoxy (1 dez 2017)

01/02/2018

Roteiro Ecuménico de Oração 2018


No seguimento de edições anteriores, a Comissão Ecuménica do Porto apresentou no contexto da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, o Roteiro Ecuménico de Oração para o ano 2018 para a cidade do Porto.
Em janeiro de 2018, numa declaração conjunta assinada pelo presidente do Conselho das Conferências Episcopais da Europa, Cardeal Angelo Bagnasco, e pelo presidente da Conferência das Igrejas Europeias, o Bispo Anglicano Christopher Hill, exortaram as comunidades dos vários países europeus a “perseverarem no caminho ecuménico” e a fazerem da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, uma ocasião para “gerar esperança nova”.
O novo roteiro é em si uma proposta para que as diversas Igrejas e cristãos do grande Porto partilhem entre si e ao longo de todo o ano os dons espirituais e materiais dados por Cristo. Neste sentido e através de celebrações e encontros em conjunto, haverá uma partilha da riqueza espiritual de cada tradição eclesial na vivência especifica de cada proposta. 
O Roteiro Ecuménico 2018 proporciona aos cristãos das diferentes confissões, interessados na busca da unidade entre os cristãos, um caminho de conhecimento da diversidade eclesial e relação fraterna.
Na Carta Ecuménica para a Europa de 2001, foi assumido o compromisso de celebrar juntos a mesma Fé na vivência das diferentes tradições eclesiais, rezar uns pelos outros e pela unidade dos cristãos, em aprender a conhecer e a apreciar as celebrações e as outras formas de vida espiritual das outras Igrejas.
Neste sentido, a Comissão Ecuménica do Porto a todos lança o desafio de participarem com alegria neste roteiro.

11/01/2018

Subsídios para a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos 2018


A tua direita, Senhor,
resplandeceu de poder
(Ex 15,6)

Subsídios preparados e publicados em conjunto pelo Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos e a Comissão Fé e Constituição do Conselho Mundial de Igrejas.

As Igrejas do Caribe foram escolhidas para preparar o material para a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos de 2018. O Caribe atual está profundamente marcado pelo projeto pouco respeitoso da exploração colonial. Muito lamentavelmente, durante quinhentos anos de colonialismo e escravidão, a atividade missionária cristã na região, com exceção de uns poucos destacados exemplos, esteve muito ligada a esse sistema de cunho desumano e justificava-o e reforçava-o de muitas maneiras. Enquanto aqueles que levaram a Bíblia para essa região usavam as Escrituras para justificar a subjugação do povo dominado, nas mãos dos escravizados ela tornou-se uma inspiração, uma garantia de que Deus estava do lado deles e de que Deus os conduziria à liberdade.
Hoje os cristãos caribenhos de diferentes tradições veem a mão de Deus a agir para pôr fim à escravidão. É uma experiência de união em torno da ação salvadora de Deus que leva à liberdade. Por essa razão, foi considerada muito adequada a escolha do canto de Moisés e Miriam (Ex 15, 1-21) como motivação para a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos de 2018.

Subsídios (versão em português do Brasil):
                 Em texto corrido
                 Em ficheiro pdf
               

Ecumenismo: Um caminho sempre retomado

O início de um novo ano é sempre um tempo de esperança. É o tempo dos projectos, dos propósitos mais ou menos voluntariosos, das decisões que queremos honrar.
É neste início de ano que, há mais de um século, os cristãos das diversas tradições eclesiais – católicos, protestantes, ortodoxos, anglicanos… – são convidados a uma semana mais intensa de oração pela unidade. Como se, também aqui, fôssemos convidados a reacender a esperança, a procurar na oração comum, na escuta e partilha da palavra, nos gestos fraternos, a força para prosseguir a nossa missão comum de testemunharmos a novidade de Jesus, vivo e ressuscitado, como irmãos e irmãs, e de semearmos no nosso dia-a-dia a reconciliação e a confiança.
Este ano, a proposta internacional chega-nos dos cristãos das Caraíbas. Com eles, vem a memória dorida de um passado associado ao colonialismo, à escravatura, ao tratamento desumano do outro.
A novidade cristã foi aqui simultaneamente instrumento de opressão, trazida pelos colonizadores, e instrumento de libertação, quando encarnada na vida dos povos indígenas.
O canto de Moisés, erguido após a passagem do mar Vermelho, é relembrado como expressão dessa liberdade que Deus quer trazer à vida dos homens e mulheres em todos e cada um dos tempos.
A interpelação que aqui nos é lançada obriga-nos a não fazer do ecumenismo apenas algo de espiritual, íntimo, desencarnado da vida. A novidade cristã rompe a aparente vitória do mal e da morte, destrói tudo o que esmaga ou aprisiona cada ser humano. Ser de Cristo faz de cada um dos seus discípulos profetas, construtores de um mundo mais solidário e fraterno, denunciando e lutando contra todas as situações que diminuem ou esmagam a dignidade humana. E isto pode e deve fazer-se também em clave ecuménica.
Este pode ser também um desafio para este ano de 2018, em que comemoraremos vinte anos sobre o início do trabalho ecuménico com os jovens em Portugal e a celebração do primeiro Fórum Ecuménico Jovem. Desde Leiria, em 1999, até hoje, os Fóruns Ecuménicos, esses encontros nacionais de jovens oriundos de diferentes Igrejas, foram um desafio a descobrir a beleza e a urgência do caminho ecuménico. Percorrida a grande maioria das dioceses portuguesas, os fóruns foram-se prolongando em iniciativas mais locais, de oração, de reflexão, de compromisso social, de encontro. Se este é um tempo de dar graças a Deus pelo caminho percorrido, é também um tempo para recomeçar sempre de novo. Porque é preciso dizer, uma vez mais, que é muito mais o que nos une que o que nos separa. Que Cristo já nos reconciliou e chama-nos a ser instrumentos da sua reconciliação. Que é Ele quem quer que sejamos um, para que o mundo creia.

João Luís Fontes
Grupo Ecuménico Jovem
Além-mar n. 676 (Janeiro de 2018) 13